Arquivo mensal para September, 2011

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Nota de imprensa: Acordo Portugal-EUA desprotege cidadãos portugueses e prejudica interesses europeus

Rui Tavares: “Foi aprovado pela calada o acordo de cedência de dados aos EUA”

 

O Governo fez a maioria parlamentar PSD/CDS aprovar ontem o Acordo de Transferência de Dados com os EUA. O eurodeputado Rui Tavares considera a aprovação do acordo – que, em absoluto rigor, cede dados e nada partilha –  “um grave erro que desprotege os cidadãos portugueses e prejudica os interesses europeus. O Governo não só entregou os dados biométricos em troca de nada como também fragilizou o mandato da Comissão Europeia em negociar em pé de igualdade com os EUA”.

 

“Este acordo, tal como a Comissão Nacional de Protecção de Dados verificou no seu arrasador parecer de Fevereiro 2011, desconsidera a lei portuguesa e europeia e é duvidoso que respeite a nossa Constituição, pois pode ser utilizado em casos que levem à pena de morte”. Ainda de acordo com a CNPD, o acordo tem uma finalidade demasiadamente ampla, um catálogo de crimes manifestamente excessivo, não garante um controlo transparente, desrespeita o princípio da proporcionalidade, possibilita o acesso a dados de cidadãos inocentes, a sua transmissão a países terceiros e utilização para fins não especificados. “O Governo não corrigiu estes graves defeitos do acordo e, pior ainda, aproveitou o período de férias para, sem um debate amplo e transparente, dar estes factos por consumados”.

 

“No plano europeu – e tal como alertei numa carta conjunta com os meus colegas Ana Gomes e Carlos Coelho – este acordo vem num mau momento e enfraquece a posição da União”. Lembre-se que o próprio estado português, através do Conselho Europeu mandatou a Comissão para negociar um acordo de protecção de dados UE-EUA. “Não creio que esta atitude respeite o princípio da leal cooperação, tal como vem consagrado pelos tratados”. As instituições europeias, e em particular o Parlamento, já se pronunciaram quanto à indesejabilidade de concluir acordos individuais com os Estados Unidos enquanto decorrem negociações entre os 27 e os EUA. “Eu e os meus colegas disponibilizámo-nos reiteradamente para informar a Assembleia da República sobre o decurso destas negociações europeias. Mas a maioria revelou uma pressa injustificada em aprovar o acordo sem querer conhecer o difícil contexto das negociações europeias”.

 

“Os dados pessoais pertencem a cada um de nós. É lamentável ver o Governo dispor deles com esta irresponsabilidade, fazê-lo pela calada e num momento inoportuno para a União”, acrescenta Tavares.

 

Mais informação:

Carta Gomes-Coelho-Tavares enviada à Assembleia da República – 4 de Janeiro de 2011

Parecer da CNPD – 7 de Fevereiro 2011

Crónica de Rui Tavares – 9 de Fevereiro 2011

Os indígenas

Temos um governo, aqui em Portugal, que não só aceitou o neocolonialismo intraeuropeu como fez dele o seu ideal. 

Acontece de vez em quando chegar um jornalista do centro da Europa, incumbido de ouvir uns quantos portugueses, que me pede a opinião sobre a crise da zona euro. E eu, ingénuo, dou-lhe a minha opinião sobre a crise da zona euro. E depois, mais ingénuo ainda, digo-lhe que o tema não acaba ali, e que é importante que falemos, enquanto europeus, sobre o futuro da União Europeia. E, tonto que sou, dou-lhe também as minhas opiniões sobre isso.

Grave erro! O jornalista centro-europeu quer saber duas coisas, e duas coisas apenas. A primeira interessa-lhe enquanto centro-europeu: saber se os portugueses aguentam as reformas da troica, as implementam todinhas, e não chateiam mais. Caso contrário, quer saber se há possibilidade de os portugueses saírem da toca, revoltarem-se, quebrarem umas montras e incendiarem uns carros — e isto interessa-lhe já por motivos profissionais. Continuar a ler ‘Os indígenas’