Arquivo mensal para July, 2011

Um mandamento para o século

Não odeies. É simples. É para todos. É difícil. Não odeies.

A contragosto mergulhei na leitura das 1500 páginas Anders Breivik publicou antes de sair da sua quinta norueguesa para provocar explosões no centro de Oslo, dirigir-se ao acampamento de Utøya e matar a sangue-frio dezenas de jovens.

A leitura reforçou a minha primeira impressão de que estamos mais perante um fanático do que perante um louco. O que ele escreve é arrepiante, muitas vezes mentiroso, mas ele sabe o que escreve e por que escreve, quando lhe é útil mentir ou não mentir.

Sabe também que palavras usar. Nunca diz que o seu opus é um “manifesto” (palavra que erradamente tem sido usada) mas um “compêndio”, ou seja, um conjunto de textos que pretendem abranger um tema. O compêndio dele tem pelo menos uma meia-dúzia de partes. Numa das primeiras, tenta explicar como o “marxismo cultural” tomou conta do Ocidente a partir dos anos 60. Noutra, tenta provar que demograficamente os muçulmanos dominarão a Europa. Até aqui, nada que não tenhamos lido no conservadorismo mais rebarbativo, com o mesmo manipular de dados e excitar de fobias. Continuar a ler ‘Um mandamento para o século’

Do fanatismo

Anders Behring Breivik tencionava ser o contrário de Bin Laden. Na verdade, o mesmo fanatismo, organizado de maneira diferente.

Quando Bin Laden foi morto há uns meses atrás, muitos notaram que ele vivia praticamente como convidado do exército paquistanês. Alguns escreveram-no. Mas ninguém, ou quase, registou o significado por detrás desse facto, a saber: que a imagem do terrorismo com que tínhamos vivido durante uma década não batia certo com a realidade.

Essa imagem era a de que a Al Qaeda inaugurava um tipo de terrorismo novo, até então apenas visto nos filmes: o de uma organização não-estatal espalhada pelo mundo que usava o terror para atingir objetivos geopolíticos — o estalar de uma “guerra de civilizações” ao instaurar de um “novo califado”. Acreditámos nisso e, crucialmente, os seguidores da Al Qaeda acreditaram também. Continuar a ler ‘Do fanatismo’

Trabalho para Férias

Solidariedade europeia sem visão europeia é caridade, e isso já se viu que não funciona.

Trabalho para férias

Como resolver a crise do euro em poucas semanas:

Já nos próximos dias, os ministros reunidos no Conselho reconheceriam que entrámos num novo patamar da crise com as subidas dos juros em Itália e na Espanha. Esses juros aproximam-se do limiar (acima dos cinco por cento, dependendo dos prazos de dívidas) em que entram em espiral. A partir daí, a acreditar nos casos gregos, irlandês e português, os juros fogem correndo; só há subida, descida nem pensar. Mesmo que os casos italiano e espanhol sejam diferentes, ninguém vai esperar para saber. Ambos os países são demasiado grandes para deixar cair, e impossíveis de salvar com os atuais mecanismos.

Isto quer dizer que o tempo dos remendos acabou. Vamos supor que a direita tem razão, e que a dívida é o nosso grande problema de longo prazo. Ainda assim, o nosso problema de curto prazo não é a dívida — são os juros da dívida. É a curto prazo que estamos todos mortos. Continuar a ler ‘Trabalho para Férias’

As más notícias

Ninguém nega que um primeiro-ministro pode querer verificar o passado de um possível governante, em particular os seus conflitos de interesse. Mas tem de o fazer legalmente.
Sabemos que isto está mesmo mal quando o Presidente dos Estados Unidos da América diz que “a boa notícia” é que “não somos a Grécia, nem somos Portugal”. Há estantes e estantes de livros sobre a decadência do Ocidente, uns péssimos, outros bastante bons. Pois bem. Podem desconsiderá-los a toda e poupar espaço na biblioteca com apenas esta frase do chefe da única super-potência global. Menos mal, pensa Obama, que não somos Portugal.

A Grande Transformação

A crise está a minar a democracia na Europa. O desafio é criar uma democracia europeia que vença a crise.

Daqui a meses poderemos sofrer pressões para sair do euro. Nessa altura já a turbulência terá dominado a Espanha e a Itália. (E a Bélgica? Que acontecerá a um estado com uma dívida pública equivalente a cem por cento do PIB, que não tem governo há mais de um ano e cujos partidos namoram com o fim do país?)

Abandonar o euro pode ser menos intolerável do que permanecer nele. Mas os tratados não permitem abandoná-lo sem abandonar a União. E uma União Europeia que tenha falhado no euro será uma sombra dos sonhos passados. Que sucederá então?

Continuar a ler ‘A Grande Transformação’

Entrevista na SIC Notícias (08.07.11)

O milagre do lixo

Sim, o problema está na incapacidade europeia em resolver uma crise europeia. Mas essa incapacidade não se dá pela falta de boas soluções técnicas.

Será que se pode levar um murro no estômago e ver a luz? Pelos Atos dos Apóstolos sabemos que São Paulo, quando ainda se chamava Saulo e perseguia cristãos, foi cegado por uma luz fortíssima que o fez cair do cavalo quando viajava na estrada para Damasco. Depois deste momento, mudou de nome e tornou-se no mais importante apóstolo da fé cristã que antes perseguia.

Tudo pode acontecer. Sobretudo em Portugal. O que testemunhámos na última semana com o nosso Presidente da República foi um episódio de conversão digno de São Paulo na estrada de Damasco. Cavaco Silva dizia há poucos meses ainda que Portugal tinha de dar a outra face — “não vale a pena recriminar as agências de rating” foram as palavras usadas — agora, quando o governo é do seu partido e a Moody’s nos classifica como lixo, diz que elas “são uma ameaça”. Antes explicou-nos que “não podemos insultar os mercados, que são quem nos empresta o dinheiro”; agora anseia por expulsar os vendilhões do templo.

Mas há aqui diferenças fundamentais. Continuar a ler ‘O milagre do lixo’

O puxempurra

Um “evento de falência” da Grécia poderia lançar uma reação em cadeia de efeitos planetários. Depois dos últimos anos de crise, ninguém está interessado em descobrir quais são.

pushmi-pullyu : puxempurra da UE

O puxempurra é uma criatura bicéfala; cada metade tenta avançar na direção oposta da outra e o conjunto não sai do lugar. Pode viver assim anos a fio se estiver pastando num prado verdejante. Mas imaginem que os tempos mudaram e que o puxempurra dá por si numa poça de areia movediça: metade puxa, metade empurra, e o conjunto afunda-se.

O puxempurra é uma invenção de histórias para crianças (dos livros ingleses de Dr. Dolittle onde o nome original do bicho é pushmi-pullyu; “puxempurra” é da minha responsabilidade) mas encontrei-o num livro sério sobre a União Europeia que deveria ser traduzido para português (The end of the West — The once and future Europe, por David Marquand). Nesse livro o puxempurra é usado para descrever o processo negocial em Bruxelas — a França puxa, a Alemanha empurra; a Espanha empurra dinheiro para os agricultores, o Reino Unido puxa pelo “cheque britânico”; a Comissão puxa pelo método comunitário, o Conselho empurram para o método intergovernamental. Em tempos o puxempurra foi muito gabado pelo resultado dos seus compromissos.

Mas agora atolou na areia movediça e arrisca-se a levar-nos todos para o fundo. Continuar a ler ‘O puxempurra’

Agora em voz alta, por favor

Toda a gente fala deste corte como se já estivesse adotado, mas nenhum daqueles deputados é obrigado a votar este imposto extraordinário, sem ao menos impôr condições.

Para começar claro, eu acho que se tivesse havido na campanha eleitoral um partido X que dissesse “este ano o Estado vai arrecadar todo o vosso subsídio de Natal para resolver os seus problemas de tesouraria e podermos voltar ao crescimento económico” — esse partido teria ganho as eleições.

“Imaginem”, pensaria o eleitor, “resolver todos os problemas de uma só penada, sacrificando o subsídio de Natal, mas depois ficar mais tranquilo em relação à possibilidade de desemprego ou falência, se tal coisa fosse possível” — mas tal coisa não é possível. Sabemos todos que metade do subsídio de Natal (ou o equivalente a esse subsídio para quem o não ganha) se destina a reunir meros 800 milhões de euros para tapar um buraco.

Reparem: Continuar a ler ‘Agora em voz alta, por favor’