Arquivo mensal para June, 2011

Simulacros pintados

Cada passo na zona euro se mede agora em dias.

Líderes europeus em “Simulacra depicta” - Conselho Europeu 23 e 24 de Junho de 2011.

No fim da Idade Média um teólogo chamado Jean Gerson, então famoso, e agora obscuro, insurgiu-se contra a decadência do poder dos bispos no seu tempo. Esses bispos, que ele via como descendentes diretos dos apóstolos, tinham deixado ultrapassar-se por duas realidades distintas, cada uma com a sua fonte de poder: o Papa, por um lado, e por outro lado os reis.

Estes desenvolvimentos recentes (em termos teólogicos, ou seja, tinham demorado os mil anos anteriores para acontecer, que até Santo Agostinho estava tudo bem) eram para Jean Gerson deploráveis. Os bispos representavam para ele “a” Igreja, a comunidade entre o rebanho de Cristo e os seus pastores; eles tinham uma legitimidade no tempo, que lhes tinha sido dada por Cristo, e no espaço, por estarem próximos dos fiéis. E em apenas um milénio o Papa, que Gerson considerava apenas um bispo entre outros (Bispo de Roma) tinha-lhes retirado o poder espiritual, monopolizando-o para ele. E os reis em toda a Europa tinham tomado para si o poder político, tomando-o através da força das armas.

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O Mercedes-Deng

Daqui a umas décadas os chineses serão mil milhões, mais produtivos, e os alemães continuarão menos de um décimo dessa população.

Há uns anos fazia-se esta sugestão em palestras e debates: “imaginem quando todos os chineses quiserem ter um carro”. As ruas das cidades chinesas eram nessa altura uma paisagem de bicicletas, milhões de bicicletas pedalando para lá e para cá. No dia em que essas bicicletas se transformassem em carros, o que aconteceria?
A pergunta e a inquietação que ela trazia eram de longo prazo.
A resposta foi de curto prazo. O que acontece, afinal, quando os chineses começam a comprar carros? Cresce a economia alemã; e os alemães começam a preocupar-se menos com a Europa. Parece-lhes evidente que a Alemanha se conseguirá aguentar sozinha no mundo globalizado. Suspeitando que poucos ou nenhuns outros países europeus possam dizer o mesmo, os dirigentes alemães convencem-se de que os restantes europeus precisam mais da Alemanha do que vice-versa. E quanto à mão-cheia de países que se encontram em situação mais desesperada, a resposta da Alemanha — enquanto vai vendendo carros à China — é que se há-de pensar numa solução para nós, os desesperados, mas só se for nos termos deles, os ganhadores. Se essa solução nos desesperar mais ainda, azar. Continuar a ler ‘O Mercedes-Deng’

A um amigo que discorda

Escrevo este texto a pensar por exemplo no Zé Neves que publicou no Vias de Facto um post acerca da minha desvinculação da delegação do Bloco de Esquerda do Parlamento Europeu e ida para o grupo dos Verdes Europeus após uma quebra de lealdade política e pessoal de Francisco Louçã.
O Zé Neves não concorda com parte da minha decisão, outros amigos não concordam com outras partes da minha decisão. Outros amigos concordam e apoiam-me em todo este processo e outros ainda não concordam em nada.
Quero através deste texto conversar com todos, como se estivesse na mesa de café, exatamente como o Zé Neves imagina, a responder às perguntas dele. Claro que esta é uma conversa em público e eu ainda sei, ao contrário de outros, a diferença entre um esclarecimento pessoal que se pede e um escrito em público com consequências políticas. Aqui vai.

Mas afinal porque é que saíste?
Durante um ano fui sendo objecto de uma ostracização discreta mas eficaz, por parte de alguns elementos da direcção do Bloco de Esquerda. Antes da campanha houve quem, no Bloco, procurasse aproximar posições mas não houve, da parte de Louçã, disponibilidade para qualquer conversa. Após as eleições a ostracização já não precisava de ser tão discreta, mas apenas implícita e sibilina, como na nota de Francisco Louçã que eu entendi como dando o sinal de que já não era preciso exercer contenção em relação a mim. Mas a situação já vinha de antes.

E não achas o teu pretexto muito pequeno?
Não o acho sequer um pretexto. Francisco Louçã, enquanto líder de um partido, tem obrigação de consultar um deputado do seu partido antes de lançar sobre ele suspeitas de desinformação, “falsificação” e de “refazer a história”. O facto em questão pode parecer ínfimo, mas é total: quebra do laço de lealdade política, institucional e pessoal. A partir daquele momento seria uma fantasia julgar que a minha independência não estava sob ameaça. E num deputado independente, a independência não é um detalhe nem um pretexto, é a razão de ser do mandato.

Então e porque não saíste do Parlamento?
Pessoalmente, seria mais fácil abandonar. Mas nesse caso seria também demasiado fácil a qualquer partido desfazer-se de um independente, não é? Bastaria dificultar-lhe a vida até que o independente não tivesse estômago para aguentar. No meu caso, eu sairia e poria o meu lugar à disposição daquele que foi desleal comigo. Chama-se a isso beneficiar o infrator.

E porque foste para os Verdes Europeus?
Nós fomos eleitos em 2009 com base num programa europeísta de esquerda. O GUE/NGL, grupo em que estava, tem menos europeístas de esquerda do que, por exemplo, comunistas ortodoxos; tem menos europeístas de esquerda do que eurocéticos; para cada federalista há dois ou três soberanistas. E, em última análise, tem menos europeístas de esquerda do que o grupo dos Verdes Europeus. Além disso – eu sei que não és muito dado a patriotismos – para Portugal é mais útil ter alguém no Grupo dos Verdes Europeus do que ficarem três delegações portuguesas no GUE/NGL (PCP, BE e eu).Aliás, o próprio BE, quando passou a ter representação no PE ponderou ir para um grupo ou outro. Não há nenhum anátema em estar nos Verdes europeus, pelo contrário: são o grupo que tem revelado maior convicção e consistência no actual momento europeu, unindo boas políticas na área da solidariedade, sustentabilidade e defesa das liberdades. Isso não significa que subscreva o que decidem os Verdes em cada país. Por exemplo quando, em regiões da Alemanha se coligam com a CDU. Do mesmo modo que a presença no GUE não impõe aos deputados do Bloco qualquer concordância com a Esquerda Unida que, na Estremadura, viabilizou um governo do PP.

Mas antes disto, aceitaste estar no GUE/NGL…
Fiquei no GUE/NGL porque estava na delegação do Bloco de Esquerda, embora com os bloqueios políticos neste grupo tenha ouvido suspirar muitas vezes — a mim e a outros deputados — “um dia acabamos por ir para os Verdes”. Na verdade, nenhum dos grupos é perfeito. No GUE/NGL, por exemplo, tive que ser o único a assinar a resolução contra a prisão de Ai Weiwei — os partidos pró-chineses dentro do grupo não queriam sequer que fosse discutida. Nos Verdes, discordarei de outras posições. O meu ideal, e tenho-o defendido, era que houvesse um grande grupo GREEN/LEFT, que seria o terceiro do Parlamento Europeu.

Mas já estavas a negociar com os Verdes há dois meses…
Não, não estava. Comuniquei aos Verdes Europeus que gostaria de juntar-me ao grupo deles no dia 20 de Junho, segunda-feira.

Mas não houve conversas?
Várias vezes me queixei do que se estava a passar com colegas dos Verdes e de outros grupos. Até com camaradas do Bloco, vê lá.

Mas Cohn-Bendit (Presidente dos Verdes Europeus) não disse que tinhas negociado com eles dois meses antes?
Não, não disse. Que fique para registo, o Cohn-Bendit fez uma enorme trapalhada com as suas declarações embora, justiça seja feita, as tenha corrigido. Ele disse que a minha situação já vinha de trás, que era expectável, daí o francês “ça se préparait”, o que não quer dizer de todo dizer “nós preparávamos”, muito menos “nós negociávamos”, como o jornalista decidiu incorretamente traduzir a coisa. Instado pelo jornalista chutou uma data, aliás absurda, de “dois, três meses”. Não é verdade. Ele foi descuidado e pouco rigoroso. Ao menos, corrigiu o que disse. Também devo dizer que uma anónima “fonte da direcção do Bloco” diz que eu avisei a direcção política da minha ida para os Verdes há duas semanas, o que é simplesmente falso.

E agora?
Agora, estou a começar do zero. Devolver o voto, para mim, significa devolvê-lo com trabalho e em diálogo com os cidadãos explicando a razão por trás de cada decisão. Como sempre fiz e estou a fazer agora. E sei que as convergências de que as esquerdas precisam também passam por em alguns momentos afirmar divergências. Valorizo a experiência destes 2 anos com o Miguel e a Marisa e com tantos aderentes e dirigentes do Bloco. Há menos de vinte de dias votei no Bloco, e apelei ao voto no Bloco, com convicção convenci gente a votar no Bloco. Apesar das divergências políticas nacionais e internacionais que, aliás, o coordenador nacional evitou discutir diretamente. O Bloco continua a ser uma esperança para a esquerda portuguesa, e espero que esteja à altura dessa esperança. Mas a esquerda portuguesa, o seu povo e a sua história, são maiores do que isto — e é a essa história e esse povo que eu pertenço desde o tutano.

Revisitação

A vida de um independente não é fácil, quando aceita representar um partido — e eu nunca esperei que fosse.

Há pouco mais de dois anos escrevi neste jornal um texto com o título “Um apoio, uma aposta, uma aprendizagem”. Nele anunciava as razões da minha candidatura ao Parlamento Europeu, como independente nas listas do Bloco de Esquerda.

Circunstâncias muito recentes obrigaram-me a revisitar esse texto. Declarei ontem, por razões que foram públicas, não me ser possível manter confiança pessoal e política em Francisco Louçã e, em consequência, não poder permanecer na delegação do partido que ele lidera. Continuar a ler ‘Revisitação’

Um apoio, uma aposta, uma aprendizagem

[Texto no Público — de há dois anos — acerca de por que aceitei ser candidato independente nas listas do BE ao Parlamento Europeu. Deixo-o aqui de novo, em vista dos acontecimentos de hoje, sem mais comentários. Mas com os comentários abertos, para dizerem o que quiserem.]

Aqui há tempos o eurodeputado e dirigente do Bloco de Esquerda Miguel Portas perguntou-me se eu aceitaria ser candidato independente às eleições para o Parlamento Europeu, e solicitou-me permissão para apresentar o meu nome aos seus camaradas de partido. Depois de pensar sobre o assunto e aconselhar-me com as pessoas mais próximas, disse-lhe que sim. Ontem a Mesa Nacional do BE aceitou o meu nome como candidato independente, em terceiro lugar na futura lista eleitoral. Nas próximas linhas explicarei, nos termos mais concisos que puder, porque aceitei o convite.

Em primeiro lugar, trata-se de um apoio. Votei em Miguel Portas nas últimas europeias. Cinco anos depois, estou contente com o voto que lhe dei. O trabalho dele foi produtivo e acima de tudo construtivo, na proposta de soluções para ultrapassar o impasse constitucional, na oposição à Guerra do Iraque, no seu papel crucial na fundação do Partido da Esquerda Europeia. É menos conhecida a Rede de Reflexão Europeia que ele criou, com a participação de pessoas de diversos campos, da academia à imprensa, da sociedade civil à política. Aceitei participar nessas reuniões, como é meu hábito fazer, e verifiquei que decorriam num ambiente aberto, anti-dogmático e consequente que fica a milhas do que os partidos costumam fazer neste tipo de fóruns. (Foi também aí que conheci Marisa Matias, que será a segunda candidata da lista, e que é uma académica e política promissora com quem será um gosto trabalhar.)

Quem se candidata em democracia tem sempre uma hipótese, mais ou menos realista, de ser eleito. Se isso acontecer, tenho intenção de levar muito a sério o mandato. O Parlamento é a instituição mais democrática da União Europeia e o seu papel nestes tempos terá de ser mais decisivo do que nunca. Diante de nós há uma bifurcação entre uma União burocrática e uma União democrática. Não é novidade para ninguém que, ao nível europeu, a burocracia está a ganhar à democracia. Ora, a qualidade da democracia europeia será aquela que nós estivermos dispostos a conquistar, e não a conquistaremos sem risco nem esforço. Nesse sentido, este apoio é também uma aposta.

Por último, quando alguém próximo me pergunta o que iria eu fazer para o Parlamento Europeu, a minha resposta é “aprender”. Talvez não seja a resposta mais “política” mas é certamente a mais sincera. Aprender é aquilo que sempre mais gostei de fazer. Aprender em público é o que eu tenho feito nos últimos anos. O que vou escrevendo nos jornais ou dizendo na televisão não são opiniões fechadas; são momentos dessa aprendizagem em público. O Parlamento Europeu é provavelmente um dos melhores lugares no mundo para continuar a fazê-lo e tudo o que eu aprender será devolvido ao debate público e, por essa via, aos cidadãos.

É portanto um apoio, uma aposta e uma aprendizagem. Esta crise não é igual às outras e não vai deixar tudo igual como antes. Por isso quero incluir aqui algumas palavras sobre a mudança.

Há quem ache — são os conservadores de direita, mas também de esquerda — que se deve resistir à mudança. Há também quem ache — na “terceira via” do centro-esquerda, como no centro-direita— que temos de nos limitar a “gerir” a mudança e adaptar-nos a ela. Há ainda a posição bizarra, mas partilhada à esquerda e à direita com resultados muito opostos, de quem acha que nós não temos parte nesta história: de um lado estão convencidos que o “mercado” é tão eficiente que devemos deixar tudo a seu cargo; do outro lado estão ainda à espera que as “contradições do capitalismo” e os “limites do sistema” nos resolvam os problemas por nós. Não concordo com nenhuma destas posições atrás descritas.

O nosso papel, do meu ponto de vista, deve ser o de compreender a mudança e nunca fugir a essa obrigação intelectual. Politicamente, porém, o nosso papel deve ser mais profundo ainda. Tentarei resumi-lo numa expressão um pouco arrevesada: é mudar a própria mudança. Que quero dizer com isto? Que não temos de aceitar a chantagem do inevitável nem contentar-nos com medidas meramente epidérmicas — para não dizer cosméticas. Pelo contrário, a própria ideia de democracia parte do pressuposto de que é possível tomar em conjunto decisões fundamentais e transformadoras. À esquerda, “mudar a mudança” quer também dizer que o discurso “alternativo” não pode ser sempre igual nem estar reduzido às mesmas fórmulas se, em vez de ficar à margem, quisermos aproveitar as energias da mudança para a redirigir no sentido da justiça social e dos nossos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade.

Uma última palavra sobre as consequências pessoais desta decisão. Espero que as linhas que acabei de escrever tenham dado uma boa indicação de que continuarei a ser o que já era e a fazer aquilo que gosto de fazer: ser um independente de esquerda, historiador de formação e vocação, que escreve para ser lido aqui neste jornal ou onde me derem liberdade. Depois de ter pensado sobre o assunto, entendi com alívio que as decisões sobre o que vai acontecer cabem agora a outros: aos eleitores nas próximas eleições, à direcção do Público nas páginas deste jornal, e à direcção da SIC-notícias na estação televisiva onde colaboro. A minha única decisão é esta: onde me derem liberdade, darei o meu melhor.

A regra de Juncker

Quando o presidente do Eurogrupo não percebe o que a União anda a fazer, ou percebe bem demais e sabe que isso leva ao desastre, é porque rebentou a bolha.

Paul Volcker, antigo presidente do Banco Central americano, disse uma vez que a única coisa útil que os bancos inventaram nos últimos vinte foi a caixa automática. O humilde multibanco, acrescentou Volcker, “dá mesmo muito jeito, evita visitas desnecessárias ao banco e ajuda as pessoas — não consigo pensar em mais nenhuma inovação finaceira de que se possa dizer o mesmo”.

Noutra ocasião, Paul Volcker disse que não entendia como funcionavam os derivados financeiros como os “credit default swaps”. Alguém respondeu: se calhar devíamos ter uma “regra de Volcker” — “se o Volcker não entende, não podes vender”. Continuar a ler ‘A regra de Juncker’

Nota

Francisco Louçã publicou ontem, às 23:18, na sua página de facebook, uma nota intitulada “4 são mesmo 4”, na qual comenta artigos que terão aparecido na imprensa (jornais “i” e “Sol”) com a informação errónea de que os quatro fundadores do Bloco de Esquerda fossem Luís Fazenda, Miguel Portas, Francisco Louçã e Daniel Oliveira. Como escreve Louçã, “o Fernando Rosas desaparecia da história”, substituído pelo nome de Daniel Oliveira. Francisco Louçã escreve que o jornalista do primeiro artigo “tinha sido levado ao engano por uma informação de uma conversa com o Rui Tavares”, e notando que a mesma informação errónea terá saído noutro jornal, confessa-se “curioso acerca da coincidência de dois enganos tão estranhos”, concluindo que é “simplesmente uma falsificação a tentativa de retirar o Fernando [Rosas] desta história e de a refazer com novos protagonistas”.

O carácter público daquela nota obriga-me a responder também publicamente.

Como é evidente, nunca disse a qualquer jornalista, ou a qualquer pessoa, em privado ou em público, que Daniel Oliveira fosse um dos quatro fundadores do Bloco de Esquerda, e jamais omitiria o nome de Fernando Rosas para o substituir fosse por quem fosse. Conheço muito bem a história da fundação do Bloco de Esquerda e já conhecia na época vários dos seus protagonistas. Nunca mentiria nem levaria alguém “ao engano” sobre ela, porque simplesmente é coisa que nunca faço. Ponto final, parágrafo.

Adicionalmente, lamento a aparente leviandade com que Francisco Louçã extrapola em público sobre a sua curiosidade “acerca da coincidência de dois enganos tão estranhos”, ligando-a um deputado eleito em listas do seu partido, sem ter feito o mais fácil que seria telefonar a esse deputado para procurar satisfazer essa curiosidade.

Mas Francisco Louçã vai mais longe, utilizando num contexto em que citou o meu nome termos e expressões como “falsificação” e “tentativa de refazer a história” que para um historiador como eu têm implicações tão graves que não podem simplesmente passar em claro.

Eu não sou, caro Francisco Louçã, dos que refazem a história. E, politicamente, eu não sou daqueles que apagam um camarada da fotografia para lá pôr outro. Orgulho-me de ter sido aluno de Fernando Rosas e tenho por ele enorme respeito pessoal e profissional. Com ele e com outros aprendi a ser historiador e irrepreensível em matéria de facto histórico. Ninguém — nem sequer o líder do partido pelo qual fui eleito — põe em causa, em vão, a boa-fé e honestidade por que me pauto nestas questões.

Sou também, nestas matérias, absolutamente impermeável às conveniências políticas de momento. Na véspera de uma Mesa Nacional do Bloco de Esquerda, teria sido fácil a Francisco Louçã esperar para perguntar, aos muitos amigos e camaradas que tenho entre os que estiveram hoje à sua volta, se eu seria capaz de enveredar por “falsificações” ou “tentativas de refazer a história”. A minha segurança é tal que sei que todos lhe diriam que tal é impossível.

No quadro dos difíceis debates que se avizinham para a esquerda portuguesa, é de lamentar que a nota de Francisco Louçã, e a resposta que me vejo forçado a dar-lhe, possam servir de manobra de diversão.

Mas a política, e tudo na vida, faz-se respeitando a dignidade das pessoas, agindo com boa-fé e não lançando sobre elas suspeitas em filigrana. O mínimo que espero de Francisco Louçã é que esclareça a confusão que levianamente criou, peça desculpas pelo facto, e retracte o seu texto.

Rui Tavares. Bruxelas, sábado 18 de Junho de 2011.

Bloco: duas ou três coisas que sei sobre ele

Porém o Bloco teve o seu pior resultado, as razões, contudo, não estão nas condições externas, mas num desencontro entre eleitorado e partido sobre aquilo que ele poderia ser.

1. O problema do Bloco nas sondagens não começou com o apoio a Manuel Alegre, nem com a moção de censura, nem com a falta à reunião da troika, nem com os possíveis ziguezagues entre uma coisa e outra.

Pedro Magalhães, politólogo e especialista em sondagens, publicou no seu blogue um gráfico no qual as intenções de voto no BE caem quando a campanha de Manuel Alegre começa a correr mal. Mas antes dessa descida o BE tinha também subido com Manuel Alegre, voltando a ser o terceiro maior partido em intenções de voto. O efeito, antes e depois, parece uma pequena montanha num vale não muito profundo. Cujo declive tinha começado no segundo de 2009. Foi aí que parou a imparável tendência de crescimento do BE.

Com efeito, o BE passou grande parte de 2009 numa cordilheira, Continuar a ler ‘Bloco: duas ou três coisas que sei sobre ele’

Muitos, todos, cada um

A visão que a esquerda tem de si mesma e a que a direita tem de si mesma não se justapõem, elas discordam até nas suas discordâncias.

Um blogue de direita, o 31 da Armada, leu a minha última crónica, na qual escrevi que “mais do que uma doutrina ou uma ideologia, a esquerda é a aliança daqueles que não são ricos nem poderosos” e acusa-me de enveredar por uma “caricatura de contornos novecentistas” num texto assinado por João Vacas e ilustrado por uma caricatura de contornos oitocentistas.

Vamos começar por uma coisa simples e encontrável em qualquer enciclopédia. A palavra “novecentista” refere-se ao século XX, isto é, aos anos após 1900. A palavra que se refere ao século XIX, cujos anos começam por 1800, é “oitocentista” — e dá-me a forte impressão de que era essa que o nosso bloguer conservador quereria ter usado para me chamar.

Agora vamos complicar um bocadinho. Continuar a ler ‘Muitos, todos, cada um’

Uma constatação

Ninguém é de esquerda só por dizer que é de esquerda, olha para o que eles fazem e não para o que eles dizem.

É, apesar de tudo, injusto dizer que a esquerda portuguesa não consiga estar de acordo. Para dar um exemplo, perguntemos por que não consegue a esquerda portuguesa convergir e a resposta vem pronta: a culpa é do outro partido.

O Partido Socialista dirá, como quem constata uma evidência, que PCP e Bloco estão arrinconados numa confortável posição de protesto e que evitam, ao mínimo pretexto, implicar-se numa governação do país que seja pragmática.

Bloco e PCP dirão que o PS deriva para o centro quando está no governo, quando não aplica medidas que parecem ter saído direitinhas do manual da direita. Apontam para o legado de Sócrates e perguntam se alguém no seu perfeito juízo poderia esperar que fossem eles a salvá-lo. Continuar a ler ‘Uma constatação’