Arquivo mensal para May, 2011
Era há uns tempos lugar-comum entre os anti-bloquistas dizer que o BE era um partido com imagem de moderno e um programa extremista, que pouca gente lia. Parece-me que é o contrário que se passa: o BE tem uma imagem de extremista e um programa moderno, que vale a pena ler.
Não deverá surpreender ninguém que eu vote no Bloco de Esquerda nas próximas eleições; as razões por que o faço, porém, talvez interessem aos leitores. Tendo em conta que os problemas da esquerda portuguesa foram sempre principalmente de atitude — e permanecem extensivos a todos os partidos em causa — deixem-me arrumar os meus argumentos em dois campos: diagnóstico e programa.
O irresponsável contexto que provocou a crise global em que vivemos é hoje bem conhecido e o seu diagnóstico é hoje partilhado por muita gente, à esquerda e até fora dela. Mas é mais fácil fazê-lo agora do que ter resistido às seduções do neoliberalismo durante os últimos vinte anos, período em que o centro-esquerda soçobrou e de que ainda não recuperou, desde logo porque recusa qualquer reconhecimento e arrependimento dessa deriva.
O exemplo desta diferença faz-se no diagnóstico “micro”. É justo lembrar que o BE sempre criticou, com vigor, o puro despesismo e irresponsabilidade das parcerias público-privadas e, para dar outro exemplo, recusou a selva de isenções na nossa fiscalidade, mesmo quando perdeu votos com isso Continuar a ler ‘Em quem voto e porquê’
Um dia olharemos com espanto para esta época como aquela em que Europa, estreitada entre os curtos interesses e os míopes preconceitos de dois dos seus líderes, resolveu brincar com o desastre em vez optar pela reconstrução contra a crise.
Habituámo-nos a escolher entre o mau e o péssimo. Não foi sempre assim.
Em outubro do ano passado encontraram-se Merkel e Sarkozy na estância balnear francesa de Deauville — e enterraram a ideia que poderia ter estancado a crise da dívida, salvado o euro e dado a volta por cima à economia europeia. Uma ideia simples, mas poderosa: tomar a economia da zona euro como um todo e dotá-lo da capacidade de emitir dívida para este apetecível mercado de 400 milhões de pessoas com invejáveis indicadores — quando tomados no seu conjunto. Isto seria feito através dos chamados eurobonds — títulos da dívida europeia.
No encontro de Deauville, Merkel e Sarkozy prometeram fazer tudo para salvar o euro — menos, precisamente, aquilo que poderia salvar o euro. Os eurobonds, que eram então discutidos seriamente, foram liminarmente recusados.
Dois indivíduos decidiram por todos os outros.
Meses depois, ninguém lhes pede explicações. Não temos tempo para isso: Continuar a ler ‘Os despojos de Deauville’
O que eu gostaria de provar — não nesta crónica, mas praticamente em todas, e na minha ação política europeia — é que a democracia é mais do que o princípio de base.
Será a democracia importante?
Na última crónica escrevi que seria necessário refazer o projeto europeu sobre sólidos alicerces democráticos. Esta é daquelas opiniões com que toda a gente concorda e ninguém concorda. Perfeitamente segura de escrever numa crónica, é muito mais difícil de provar que ela seja verdadeiramente importante. A democracia é importante, diz o leitor, e ninguém o negará em abstrato. Parabéns ao cronista pelos bons sentimentos.
E no entanto, no entanto, ninguém dá um tostão pela democracia europeia. Temos problemas maiores para resolver — ou não? O Euro está nos paroxismos de uma crise. As pessoas estão a perder o emprego. Países estão à bancarrota. Quem se vai preocupar com a democracia nesta altura do campeonato? Continuar a ler ‘Será a democracia importante?’
Espancar a economia significa, é bom lembrar, espancar indiretamente as pessoas.
A discussão sobre se o acordo com a troica é “bom” ou “mau” para nós, segue previsivelmente todos os passos dos nossos previsíveis debates domésticos. Antes de nos perguntarmos se os senhores estrangeiros nos trataram bem ou mal, como nós merecíamos ou não, será pedir muito que abandonemos por momentos a nossa subalternidade e que nos atribuamos o direito de analisar o trabalho da troica?
A primeira pergunta seria então: é este acordo realista ou irrealista? Valerá a pena espancar a nossa economia para a pôr na forma estipulada? Já o tentámos com os vários PEC, tal como a Grécia e Irlanda tentaram com os seus resgates, e o resultado foi pior do que o estado inicial. Se este acordo falhar, que se seguirá então? Mais espancamentos? Continuar a ler ‘Conteúdo e contexto’
A sua visão do mundo era cruel e sem compaixão. Os civis mereciam tanto morrer como os militares; dizia combater os infiéis, mas matava também muçulmanos. O dia de glória, para ele, chegou quando matou três mil pessoas ao destruir as duas torres em Nova Iorque que tanto haviam impressionado o seu pai e irmãos como obra de engenharia.
Disseram-me uma vez para nunca me esquecer que todas as vítimas têm família — mas também têm família os criminosos, os perpetradores, os cúmplices, os suicidas, os assassinos em série.
Com Osama bin Laden será fácil lembrá-lo. A sua família era invulgar. O homem mais importante era o pai, um imigrante vindo do Iémen, analfabeto e zarolho, chamado Mohammed bin Laden. Chegado à Arábia Saudita quando ainda não havia país com esse nome, Mohammed bin Laden fez todo o tipo de trabalhos menores na cidade de Jedá, até lhe caber uma empreitada no porto da cidade que, parece, chamou a atenção da Casa de Saud. O dinheiro do petróleo fez dos Saud uma dinastia rica e poderosa. Mohammed bin Laden passou a encarregar-se da construção de edifícios modernos, como aeroportos, e a sua empresa tornou-se num vasto empório — o Saudi Bin Laden Group — com escritórios no reino e fora dele.
Mohammed Bin Laden viria a morrer num desastre de avião. Continuar a ler ‘Na morte de Osama’





