Arquivo mensal para Maio, 2011

Fora do tempo e do espaço

Há ainda formas de, no jornalismo, descrever, resumir, interpretar. Creio que a isso até se chama, salvo erro, fazer jornalismo.

Liguei o aparelho na RTP1. Segunda parte do Manchester-Barcelona, uma boa surpresa, tinha-me esquecido do jogo. Esperei pelo Telejornal. O país a uma semana de uma eleição, num momento crítico, etc. — vocês sabem a história.
A primeira notícia do Telejornal foi sobre o jogo de futebol que eu tinha acabado de ver. Era uma final europeia, tudo bem, mas a notícia era redundante: o jogo tinha acabado 30 segundos antes, que diabo, naquele mesmo canal.
Não me lembro de quais eram as notícias seguintes. As chuvadas, um acidente, essas coisas. Sobre a campanha havia primeiro uma peça sobre o lado íntimo, ou lá o que era, de Pedro Passos Coelho: o candidato explicava que nunca foi gordo, que não gostava de se sentar na relva porque lhe doía o rabo, etc. Tive pena dele; é preciso paciência para fazer aquele papel e ouvir aquelas perguntas, sempre com o mesmo sorriso na cara.
Depois veio uma peça sobre Julio Iglesias Continuar a ler ‘Fora do tempo e do espaço’

Duas catástrofes

Preferes uma catástrofe económica e social? Ou antes uma catástrofe política?
Não sei que mal fizémos à deusa da democracia, mas ela está a sujeitar-nos a uma duríssima prova.
Diz ela: Portugal, escolhe entre duas catástrofes. Preferes uma catástrofe económica e social? Ou antes uma catástrofe política?
A catástrofe económica e social é Pedro Passos Coelho, que é um líder do PSD muito mais banal do que parece. O que sabe de política aprendeu como líder de uma juventude partidária; em vez de ter maturado, a sua temporária ausência da política fê-lo regressar como personagem plastificada. A imagem de extremista ideológico que a esquerda compôs dele pode até, de certa forma arrevesada, creditá-lo de uma consistência de pensamento que eu — salvo melhor intuição — não lhe encontro.
Temo-lhe a ligeireza mais do que o extremismo. A privatização das águas, a extinção do ministério da Cultura, tudo parece emergir no seu discurso com a mesma falta de questionamento.
Certas pessoas parecem não ter dúvidas por dogmatismo. Outras não têm dúvidas por inconsciência — e Passos Coelho é uma delas. Uma pessoa assim é perigosa, sobretudo quando rodeada por uma clique de taticistas disposta a bajular o líder para alcançar os seus próprios objetivos. Pedro Passos Coelho está rodeado destes bajuladores por todo o lado, e eles parecem mais movidos pelo lucro do que pela glória.
Com um país em crise, vai ser difícil distinguir entre a privatização e a pilhagem.
A catástrofe política é José Sócrates. Continuar a ler ‘Duas catástrofes’

Em quem voto e porquê

Era há uns tempos lugar-comum entre os anti-bloquistas dizer que o BE era um partido com imagem de moderno e um programa extremista, que pouca gente lia. Parece-me que é o contrário que se passa: o BE tem uma imagem de extremista e um programa moderno, que vale a pena ler.

Não deverá surpreender ninguém que eu vote no Bloco de Esquerda nas próximas eleições; as razões por que o faço, porém, talvez interessem aos leitores. Tendo em conta que os problemas da esquerda portuguesa foram sempre principalmente de atitude — e permanecem extensivos a todos os partidos em causa — deixem-me arrumar os meus argumentos em dois campos: diagnóstico e programa.

O irresponsável contexto que provocou a crise global em que vivemos é hoje bem conhecido e o seu diagnóstico é hoje partilhado por muita gente, à esquerda e até fora dela. Mas é mais fácil fazê-lo agora do que ter resistido às seduções do neoliberalismo durante os últimos vinte anos, período em que o centro-esquerda soçobrou e de que ainda não recuperou, desde logo porque recusa qualquer reconhecimento e arrependimento dessa deriva.

O exemplo desta diferença faz-se no diagnóstico “micro”. É justo lembrar que o BE sempre criticou, com vigor, o puro despesismo e irresponsabilidade das parcerias público-privadas e, para dar outro exemplo, recusou a selva de isenções na nossa fiscalidade, mesmo quando perdeu votos com isso Continuar a ler ‘Em quem voto e porquê’

Os últimos 400 anos e os próximos 4

Agora que um novo dia começa é preciso que se entenda que a nossa retração às fronteiras “originais” implica um esforço de aprendizagem que os nossos governos nunca souberam fazer. Quanto mais pequeno é um país, menos paroquial pode ele dar-se ao luxo de ser.
Há quatrocentos Portugal estava na sua primeira experiência de integração política europeia. Hoje chamamos-lhe o “tempo dos Filipes” e ele evoca-nos só a Espanha, mas é por ignorância. Os Filipes pertenciam a uma família do centro da Europa — os Habsburgos — e politicamente uniam-nos a regiões europeias tão distintas como os Países Baixos, a Lombardia, o Franco-condado e a Sicília.
Essa experiência europeia foi para nós muito mais exceção do que regra. Aconteceu há quatrocentos anos, e só se repetiu agora. No resto da sua vida, a inserção de Portugal foi mais intercontinental do que europeia.
Se o milénio passado fosse condensado num dia Continuar a ler ‘Os últimos 400 anos e os próximos 4’

Os despojos de Deauville

Um dia olharemos com espanto para esta época como aquela em que Europa, estreitada entre os curtos interesses e os míopes preconceitos de dois dos seus líderes, resolveu brincar com o desastre em vez optar pela reconstrução contra a crise.

Habituámo-nos a escolher entre o mau e o péssimo. Não foi sempre assim.

Em outubro do ano passado encontraram-se Merkel e Sarkozy na estância balnear francesa de Deauville — e enterraram a ideia que poderia ter estancado a crise da dívida, salvado o euro e dado a volta por cima à economia europeia. Uma ideia simples, mas poderosa: tomar a economia da zona euro como um todo e dotá-lo da capacidade de emitir dívida para este apetecível mercado de 400 milhões de pessoas com invejáveis indicadores — quando tomados no seu conjunto. Isto seria feito através dos chamados eurobonds — títulos da dívida europeia.

No encontro de Deauville, Merkel e Sarkozy prometeram fazer tudo para salvar o euro — menos, precisamente, aquilo que poderia salvar o euro. Os eurobonds, que eram então discutidos seriamente, foram liminarmente recusados.

Dois indivíduos decidiram por todos os outros.

Meses depois, ninguém lhes pede explicações. Não temos tempo para isso: Continuar a ler ‘Os despojos de Deauville’

Será a democracia importante?

O que eu gostaria de provar — não nesta crónica, mas praticamente em todas, e na minha ação política europeia — é que a democracia é mais do que o princípio de base.

Será a democracia importante?

Na última crónica escrevi que seria necessário refazer o projeto europeu sobre sólidos alicerces democráticos. Esta é daquelas opiniões com que toda a gente concorda e ninguém concorda. Perfeitamente segura de escrever numa crónica, é muito mais difícil de provar que ela seja verdadeiramente importante. A democracia é importante, diz o leitor, e ninguém o negará em abstrato. Parabéns ao cronista pelos bons sentimentos.

E no entanto, no entanto, ninguém dá um tostão pela democracia europeia. Temos problemas maiores para resolver — ou não? O Euro está nos paroxismos de uma crise. As pessoas estão a perder o emprego. Países estão à bancarrota. Quem se vai preocupar com a democracia nesta altura do campeonato? Continuar a ler ‘Será a democracia importante?’

Conteúdo e contexto

Espancar a economia significa, é bom lembrar, espancar indiretamente as pessoas.

A discussão sobre se o acordo com a troica é “bom” ou “mau” para nós, segue previsivelmente todos os passos dos nossos previsíveis debates domésticos. Antes de nos perguntarmos se os senhores estrangeiros nos trataram bem ou mal, como nós merecíamos ou não, será pedir muito que abandonemos por momentos a nossa subalternidade e que nos atribuamos o direito de analisar o trabalho da troica?

A primeira pergunta seria então: é este acordo realista ou irrealista? Valerá a pena espancar a nossa economia para a pôr na forma estipulada? Já o tentámos com os vários PEC, tal como a Grécia e Irlanda tentaram com os seus resgates, e o resultado foi pior do que o estado inicial. Se este acordo falhar, que se seguirá então? Mais espancamentos? Continuar a ler ‘Conteúdo e contexto’

Na morte de Osama

A sua visão do mundo era cruel e sem compaixão. Os civis mereciam tanto morrer como os militares; dizia combater os infiéis, mas matava também muçulmanos. O dia de glória, para ele, chegou quando matou três mil pessoas ao destruir as duas torres em Nova Iorque que tanto haviam impressionado o seu pai e irmãos como obra de engenharia.

Disseram-me uma vez para nunca me esquecer que todas as vítimas têm família — mas também têm família os criminosos, os perpetradores, os cúmplices, os suicidas, os assassinos em série.
Com Osama bin Laden será fácil lembrá-lo. A sua família era invulgar. O homem mais importante era o pai, um imigrante vindo do Iémen, analfabeto e zarolho, chamado Mohammed bin Laden. Chegado à Arábia Saudita quando ainda não havia país com esse nome, Mohammed bin Laden fez todo o tipo de trabalhos menores na cidade de Jedá, até lhe caber uma empreitada no porto da cidade que, parece, chamou a atenção da Casa de Saud. O dinheiro do petróleo fez dos Saud uma dinastia rica e poderosa. Mohammed bin Laden passou a encarregar-se da construção de edifícios modernos, como aeroportos, e a sua empresa tornou-se num vasto empório — o Saudi Bin Laden Group — com escritórios no reino e fora dele.
Mohammed Bin Laden viria a morrer num desastre de avião. Continuar a ler ‘Na morte de Osama’

Tempos sem tração

E agora tudo se desfaz. Três países do euro já lá vão sem que a União saiba o que fazer à sua moeda. O FMI um dia destes deveria abster-se de intervir fragmentos da União enquanto a União não decidir sobre o que quer ser.

A maior parte das pessoas procura termos de comparação em vida para o que vai acontecendo. Vidas longas, ou mesmo vidas de jovens adultos, viram suceder coisas suficientes para nos irmos guiando. Quando o que vivemos não chega, procuramos termos de comparação nas coisas que nos contaram, ou procuramos na história longa, registada nos livros.
Esta é a forma que temos para agarrar no presente contínuo. Sem termos de comparação, não conseguimos tração sobre os nossos próprios tempos.
Em situação normais, isto não é grave. Somos suavemente impelidos para o futuro e — embora as tecnologias, as personagens e as modas mudem — a linha de tendência parece fazer sentido. Em situações anormais, acontece o que acontece a um carro na lama. Experimentamos explicações, ideologias e líderes como quem mete tábuas debaixo das rodas, à procura de uma que resulte. Deslizamos, rodamos no vazio; e quanto mais nos esforçamos, mais nos afundamos.
Este não é um problema da economia nem da política; é um problema da cognição humana, sem a qual não se resolve a economia nem a política pela nossa agência. Nós precisamos de entender para resolver. Caso contrário, as crises, os conflitos e as guerras acabam por resolver por nós — e contra nós. Continuar a ler ‘Tempos sem tração’