Arquivo mensal para Fevereiro, 2011

A Grande Jaca

Jacarta, Indonésia. — Não é por falsa modéstia que os indonésios não gostam de ser apresentados como a “história muçulmana democrática de sucesso”. É pela insistência na parte “muçulmana” mesmo.

E não é que eles não sejam muçulmanos — são-no, na sua grande maioria, embora sejam também hindus, budistas, cristãos, ahmadianos (uma seita islâmica com cada vez mais adeptos que considera que Maomé não foi o último profeta) e também muito seculares. Mas foi enquanto indonésios que conquistaram a democracia, e chateia-os que lhes queiram tirar isso.

“Você gostaria que apresentassem Portugal apenas como um exemplo da compatibilidade entre democracia e catolicismo?”, pergunta-me um diplomata que aqui serviu duas vezes e muitos anos. Por ridículo que pareça, não é que isso não tenha sido sugerido no nosso tempo — houve uma altura, e foi há uma geração apenas, em que só exceções entre os países católicos se podiam contar como democráticas. Foi Portugal a Tunísia do mundo católico? Poderia, sei lá, explicar-se as católicas Filipinas através de Portugal, só por causa da religião?

Para a maioria dos indonésios, a questão “muçulmana” não faz sentido. Continuar a ler ‘A Grande Jaca’

Três maneiras de falhar

O ocidente, incluindo nesta designação a União Europeia e os Estados Unidos da América, gasta cada vez mais dinheiro em serviços secretos, de informação e espionagem. Quanto, muitas vezes não se sabe; nos EUA, o montante dedicado a tais atividades é secreto por lei. Mas numa investigação feita pelo Washington Post, chegou-se à conclusão de que quase um milhão de pessoas trabalha na área. Na Europa, a acrescentar aos serviços nacionais, Bruxelas lá vai conquistando mais uma base de dados, mais competências para a Europol, mais uma “situation room” desde que seja “state of the art”. Nada se nega aos “secretos”: mais pessoal, mais meios, mais segredo.

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‘Com que critério?’

A política trata de tantas coisas diferentes que não é possível fazê-la sem um critério. Cada vez mais dou por mim a usar o seguinte: o que estou a fazer serve para mudar alguma coisa? Não é um critério universal — um político conservador não o subscreveria. Não é um dogma, antes algo que a experiência recente consolidou em mim. Não vale sozinho: não basta “mudar coisas”, mas fazê-lo na direção certa. É pessoal: para gerir o sistema, haverá certamente outros bem melhores, e também eu preferiria fazer outras coisas. E tem uma dimensão quase quotidiana: é aquilo que fica ao fim do dia.

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Egito: é difícil fazer melhor

Se eu fosse egípcio, teria acordado no sábado pensando: será que é verdade? aconteceu mesmo? o Mubarak já não é presidente? E depois, teria perguntado: e agora? o que vai acontecer? Não me teria lembrado disto: pegar numa vassoura e ir varrer as ruas. E foi isso que muitos egípcios fizeram.

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Quando não é bom ter razão

Não é bom ser desmentido por três ministérios ao mesmo tempo. Pior ainda? Ter razão.
No início deste ano fui contactado para comentar uma notícia saída no DN que dava conta de um acordo assinado entre Portugal e os EUA para transferência de dados biográficos, biométricos e de ADN de cidadãos portugueses.

Infinita Plasticidade

Jacob Burckhardt — um historiador da arte, de nacionalidade suiça, que viveu durante o século XIX — lamentou-se uma vez escrevendo que “o mundo está submerso em falso ceticismo”, acrescentando logo depois “já que do verdadeiro ceticismo nunca pode haver demasiado”.

Não é fácil interpretar isto, mas vale a pena tentar.

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A geração parva

Há mais ou menos dezoito anos, um editorial deste jornal teve a ideia de chamar “geração rasca” aos jovens que na altura tinham mais ou menos dezoito anos. A geração — essa geração, a minha — nunca mais conseguiu esquecer. Com toda a ambiguidade, levámos o nome a peito: ficámos ofendidos com ele, um pouco envergonhados sim, muito irritados também, mas fizémo-lo nosso sobretudo, tentando dar-lhe a volta (a “geração à rasca”) às vezes. Recusámo-nos sempre, sabe-se lá porquê — porque era injusto, digo eu —, a largá-lo.

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Jogo Alto

A história acelera; as respostas chegam quase antes de termos imaginação para fazer as perguntas. Qual é a próxima Tunísia? O Egito. Quanto tempo demorou? Menos de duas semanas.

Ainda estávamos a considerar a hipótese de uma revolta civil num país árabe e já Ben Ali tinha apanhado o avião. Ainda os comentadores ocidentais se entretinham com a eventualidade de o exemplo tunisino ser seguido e já havia levantamentos na Jordânia, no Iémen, e no Egito. E agora eis-nos seguindo pela Al-Jazira um vasto movimento de desobediência civil neste último país. E já o líder da oposição, Mohamed el Baradei, fala aos cairotas: não vamos voltar para trás.

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