Arquivo diario para January 6th, 2011

Um saco de mágoa

Se houver abuso de algum destes dados, não pensem que a lei americana nos protege, uma vez que o Privacy Act só protege cidadãos americanos e residentes nos EUA.

Já não me lembro de há quanto tempo não escrevo uma crónica minimamente otimista. E, acreditem, isso não é melhor para mim do que para vocês. Mas se o otimismo se funda em saber que a sociedade tem recursos suficientes para superar os seus problemas, afunda-se quando vemos que passámos os últimos tempos a agravá-los. Três casos.

1. Dizer “isto é o regresso da censura” é, muitas vezes, uma hipérbole. Porém, o governo húngaro pretende implementar uma lei que é — e eu, por causa das coisas, quase nunca uso a expressão — o regresso da censura.

Segundo esta lei a imprensa está sujeita a multas que vão até 700 mil euros — que terão de ser pagas antes de recurso aos tribunais, o suficiente para levar à falência a maioria dos títulos — por “falta de objetividade” ou “falta de equilíbrio” nos seus artigos.

E quem decide o que é falta de equilíbrio? Uma comissão, nomeada por nove anos, cujos membros pertencem ao partido do governo. Em certos casos, esta comissão pode proibir programas ou ver artigos antes de publicação.

É claro que um país com uma tal lei de imprensa não seria nunca admitido na União. Mas agora que está cá dentro, pode até presidir a ela, como é o caso da Hungria desde 1 de janeiro deste ano.

2. O ministro Rui Pereira negociou com os EUA um acordo para lhes ceder informações constantes dos nossos Bilhetes de Identidade, incluindo dados biométricos Continuar a ler ‘Um saco de mágoa’

Um ínfimo Portugal?

Aquilo que dei por mim a pensar é que se “um imenso Portugal” é o outro nome para o Brasil, qual é então o outro nome de Portugal? Uma nação já de si tão inventada que sabe as suas falas de cor?

Diz Evaldo Cabral de Mello que só os portugueses são mais piegas do que os brasileiros. A prova, assinala, encontra-se à vista em qualquer aeroporto: para cada brasileiro que viaja, há outros cinco que se despedem, chorando. Quem tiver visto a despedida de Lula da Silva e a tomada de posse de Dilma Rousseff sabe que é assim: Lula chorou, Dilma chorou, e o povo na esplanada dos ministérios chorou também.

Eu não vi, mas sei que foi assim.

Evaldo Cabral de Mello é um dos maiores historiadores de língua portuguesa, não só em profundidade como em abrangência. A erudição, nos seus livros, é uma filigrana resistente; por detrás está uma alma ágil de ensaísta. Brasileiro de Pernambuco, é o representante e herdeiro de uma geração de ouro de intelectuais a que está ligado até familiarmente — Gylberto Freire e Manuel Bandeira eram seus primos, e João Cabral de Mello Neto seu irmão. Em Portugal recebeu um prémio pelo livro A Fronda dos Mazombos, de 1995, mas nem por isso é muito conhecido. No Brasil a presença deste velho diplomata, que não andou pelos departamentos universitários, é também discreta.

O livro de Evaldo Cabral de Mello para que eu gostaria de chamar a atenção hoje é uma coleção de trinta e seis artigos e ensaios sobre história e historiografia publicado em 2002. A editora é a 34, de São Paulo, mas creio que se encontra nas livrarias portuguesas. Francamente, se pelo menos um de vós decidir comprar e ler esse livro, a primeira crónica do ano está ganha.

O título é Um Imenso Portugal, Continuar a ler ‘Um ínfimo Portugal?’