Arquivo mensal para January, 2011

Solilóquio do perdedor

Afinal, as eleições presidenciais provam que é um disparate a esquerda tentar entender-se?
Para António Vitorino, sim. Como disse logo na noite eleitoral, “às vezes, há plataformas que subtraem”, disse ele, referindo-se ao duplo apoio partidário — BE e PS — que Manuel Alegre teve.
Esta opinião fez logo escola, mas António Vitorino não está tão certo assim. Continuar a ler ‘Solilóquio do perdedor’

‘Não resolvemos nada’

Terminou um ciclo. Estamos tão bloqueados quanto antes. É como se o país estivesse tomado de pânico. Vê o abismo mas não tem vigor para mudar de caminho nem imaginação para inventar um.

Sendo eu de esquerda, e agora político, e apoiante de Alegre, sou hoje triplamente derrotado. Entregaremos agora o país à recessão, ao FMI e (talvez em breve) a um prolongado governo de direita, com a esquerda dividida e deprimida. Espero que Alegre use a sua autoridade moral para continuar a acrescentar tolerância à esquerda.

Em 2006: que vai fazer Alegre com os seus votos? Em 2011: que vai fazer Nobre? Um palpite arriscado: deve estar neste momento a pensar fundar um partido.

Coelho teve 40% na Madeira! Merece exclamação, porque prova que os madeirenses estão fartos de Jardim e descrentes de uma oposição sem vigor contra Jardim.

Cavaco. O mito acabou. As notícias sobre a sua casa são graves e demonstram uma desonestidade estrutural que nem eu lhe imaginava. Passou a ser um Sócrates, mas em sonso. Como vai o país aguentar dois assim?

Publicado no Jornal Público no dia 24 de Janeiro de 2011

‘Pequenos milagres democráticos’

O meu pai nasceu em 1929, já em ditadura. Cresceu numa aldeia do Ribatejo, ditadura. Veio a Guerra Civil de Espanha, havia refugiados do país vizinho pelos campos, “comiam até o musgo das paredes, com a fome que tinham” dizia-me ele de vez em quando. Depois a IIª Guerra Mundial, o racionamento, e as irmãs dele — minhas tias — adoeceram gravemente — “entuberculisaram”, como se diz na Arrifana. O pai do meu pai morreu, e era ainda ditadura. O meu pai namorou e desfez-se o namoro, casou e teve filhos e enviuvou, e casou de novo com a primeira namorada e teve mais filhos e, em todo este tempo, era sempre, sempre, sempre a mesma ditadura.

(Talvez eu já tenha contado aqui esta história; honestamente não estou certo se o fiz ou não. Para mim é como uma oração familiar.)

Só quando o meu pai tinha já cinco filhos e quarenta e cinco anos que viu a democracia pela primeira vez. Poucos depois do 25 de abril viu em Lisboa, numa manifestação, um velhinho que chorava copiosamente num dos passeios da Almirante Reis, enquanto via a multidão subir a avenida. “Achei que já não chegava a ver este dia”, disse-lhe o homem. Um ano depois o meu pai, e espero que aquele homem também, votaram pela primeira vez numas eleições livres e justas.

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Esclarecedor para quem observar

As campanhas presidenciais portuguesas são sempre estranhas. Não se votando para um executivo, ou seja, para decisões, programas, medidas, a coisa toma um de dois caminhos: ou se fala do entendimento dos poderes presidenciais em termos vagos; ou se fala da história pessoal dos candidatos. Ou seja: ou é metafísica ou é não-gosto-deste-gajo.

Isto, curiosamente, faz sentido. Para presidente escolhemos quem saiba duas coisas: interpretar e representar. Escolhemos uma interpretação da separação dos poderes e da república, ou seja, uma interpretação da constituição. E escolhemos uma pessoa que nos represente a todos, e faz sentido avaliar o seu caráter e a sua história, coisas altamente subjetivas.

Foi a campanha esclarecedora? Sempre — para quem observar; para quem se informar.

Para mim foi esclarecedor rever Cavaco. Para mim, Cavaco é um mau interprete da democracia e da República com as suas desvalorizações da palavra e da diferença. E acho-o um símbolo da hipocrisia nacional, da sisudez travestida, do autoritarismo que eu não gostaria que nos representassem. Mas que se calhar representam, e eu democraticamente aceitarei.

Mas até lá é isto: não gosto da metafísica de Cavaco, se é que a tem. E não sou fã do homem. Direitos de um eleitor como qualquer outro.

Publicado no Jornal Público no dia 20 de Janeiro de 2011

O candidato Cavaco tem de nascer outra vez

Dizer que Cavaco é menos sério do que ele pensa parecer é falhar o alvo por baixo. Cavaco é, como revelado pelas últimas semanas, ainda menos sério do que aquilo que eu pensava que ele era — e Cavaco nunca me enganou.
Os casos do BPN e da casa na Urbanização da Coelha já são suficientemente graves. Em qualquer país do mundo estes casos seriam escrutinados até ao fim. O BPN, em particular, arrisca-se a custar ao país aquilo que cada cidadãos tem de sacrificar através de dolorosos cortes nos salários e aumentos de impostos. Não me parece que se possa dispensar de explicações qualquer pessoa que tenha tido com este banco, sem pestanejar, lucros que estão para lá dos mais deliciosos sonhos dos clientes de Madoff.

‘Wikileaks 1 – NATO 0’

A “sabedoria convencional” — noção tão útil quanto saborosa concebida pelo economista John Kenneth Galbraith — necessita daquele adjetivo por esta razão: é principalmente convencional e não sabedoria. Se fosse sabedoria diríamos dela apenas que é sábia. Ao qualificá-la de convencional explicamos que ela parece sabedoria pelo seu aspecto formal, admitido e, em certa medida insincero ou até mesmo fajuto: pseudo-sabedoria.

O que interessa e não interessa em Estrasburgo

Estamos em semana de sessão plenária em Estrasburgo e comecei com uma intervenção pedindo a exclusão do debate referente a Cesare Battisti agendado para quinta-feira.
Estes debates de quinta-feira são chamados de “debates de urgência” e tratam de assuntos prementes de violação de Direitos Humanos. São debates cruciais que antecedem votações importantíssimas do Parlamento Europeu, que daqui emite declarações em nome de todos os cidadãos sobre diversos tipos de abusos e catástrofes humanas.
O problema é que o caso Battisti não é um caso de Direitos Humanos e rouba tempo que podia ser usado em assuntos verdadeiramente urgentes.
Battisti é um italiano acusado pelos tribunais do seu país de actos terroristas nos anos 70, quando fazia parte dos Proletari Armati per il Comunismo. A acusação refere-se a vários assassinatos. (E deixem-me deixar bem claro que eu repudio qualquer tipo de violência política, da esquerda ou da direita.)
Os outros problemas com o debate de quinta-feira sobre Battisti são maiores ainda porque ele está neste momento preso no Brasil, sem qualquer possibilidade de fuga; porque o Brasil está em férias judiciais; porque fazer uma resolução do PE sobre ele seria um insulto à recém-eleita Dilma Rousseff; porque este é um assunto bi-lateral entre o Brasil e a Itália e até o Conselho Europeu recusou uma proposta semelhante de Berlusconi.
E, volto a dizer, é uma enorme perda de tempo, quando temos coisas muito mais importantes para tratar.
Fiz hoje a intervenção, mas o Parlamento rejeitou em votação excluir o caso dos debates.
Aqui fica o que eu disse:
“Alguns colegas tomaram a iniciativa de colocar uma resolução urgente sobre a recusa do Brasil de extraditar Cesare Battisti para a Itália na agenda de debates desta semana.
Eu entendo as suas intenções, mas este não é um caso de Direitos Humanos, não é um caso urgente e não é sequer uma violação da regra da jurisprudência.
A sua oportunidade é também inapropriada, vinda num momento em que o Brasil enfrenta a pior catástrofe natural de sua história.
Battisti está preso à espera de uma decisão do Supremo Tribunal Federal e não há razão para acreditar que não haverá uma decisão judicial independente.
E devo dizer que me solidarizo com as famílias das vítimas deste caso e que não tenho nenhuma simpatia por violência política, venha da esquerda ou da direita, e que abomino o terrorismo.
O que devíamos estar a debater é a situação no Líbano, no sul do Sudão, o caso do prisioneiro de consciência indonésio Buchtar Tabuni ou o homem palestino assassinado em sua cama.
Será que este Parlamento vai oferecer à Presidente Dilma Rousseff, na primeira vez após sua eleição, e por nenhuma boa razão formal, um tipo de debate que normalmente se reserva para pessoas como Robert Mugabe?”

Alegre

Os cartazes de Manuel Alegre nas ruas, há cinco anos, tinham apenas as palavras “Livre, justo, fraterno” — a descrição idealizada do país, tal como aparece desejada no preâmbulo da Constituição — redigido pelo próprio Manuel Alegre.
Esta escolha era puro Manuel Alegre. Pelo gosto de palavras que eram belas, mas não apenas isso; concretas e mobilizadores. E sobretudo por que nenhum marqueteiro, nenhum diretor de campanha, o aconselharia jamais a fazer um cartaz assim, tão desformatado dos códigos publicitários. Manuel Alegre acreditava na palavra livre, na palavra justo, e na palavra fraterno — não um acreditar de fé, mas um acreditar de conhecer aquelas palavras por dentro e saber o que elas podem fazer.
Teimosamente, insistiu. Teve vinte por cento.

Cavaco

A principal — talvez única — proclamação política de Cavaco Silva para esta campanha foi considerar que Portugal deveria abster-se de comentários sobre a situação política na Europa e a crise do Euro. Segundo ele, tais comentários seriam entendidos como “insultos” pelos investidores internacionais e deixar-nos-iam à mercê da retaliações destes — com juros mais altos sobre a nossa dívida.
Silêncio contra segurança — eis o que nos propõe Cavaco.

O original pecado de Helena Matos

Helena Matos tem um historial de, em citações e interpretações de textos de outros, nunca conseguir ser fidedigna. Mesmo assim, como é que mesmo ela consegue ler a seguinte passagem de uma entrevista minha e nela descortinar “cumplicidade” com alguns dos piores facínoras da esquerda. A passagem, nesta entrevista à Pública, é esta:
«A família é a esquerda, o que quer dizer que quem é de esquerda é meu primo de uma maneira ou de outra. Isto foi muito mal entendido quando disse que é a mesma família do Sócrates. Eu sou de esquerda e ele é de centro-esquerda. Não tenho de gostar dos meus primos todos, há primos que fazem coisas muito erradas, há primos que defendem a Coreia do Norte. Não pago dívidas pelas dívidas dos meus primos, os erros dos meus primos são erros dos meus primos. Mas são pessoas que se reclamam da esquerda. Não posso dizer que só é da esquerda quem é como eu sou. As espécies: sociais-democratas, republicanos clássicos, mutualistas, libertários de esquerda, marxistas, não marxistas. E podem coexistir muitos bichos.»