Arquivo mensal para Novembro, 2010

Ponham os olhos na Islândia — agora

Como se está a sair a Islândia? Num critério central o governo de esquerda está a fazer um trabalho notável: o desemprego caiu para quase metade.

Numa semana de 2008, entre o fim de Setembro e o início de Outubro, foram à falência os três maiores bancos da Islândia. Juntos valiam dez vezes mais do que a economia do país.

Ora, nos anos anteriores este país insular de trezentos mil habitantes não tinha só aplicado a receita do costume — desregulação, desregulação, desregulação —; como tinha feito dela uma experiência. Os bancos tiveram rédea larga para criar e investir nos mais sofisticados produtos financeiros. Quando a bolha rebentou deixaram milhares de clientes — principalmente no Reino Unido e na Holanda — na mão; e os islandeses com uma dívida que não tinham feito nada para contrair.

O país estava na falência; a coroa islandesa caiu sessenta por cento; ainda mais rapidamente caiu o governo de direita que tinha governado durante os dezoito anos anteriores.

Quando foram a eleições, os islandeses viraram energicamente à esquerda, dando a vitória aos sociais-democratas, de centro-esquerda, e à aliança verde-vermelha, de esquerda radical. O novo governo tem cinco ministros de cada um desses partidos.

Em suma: crise chegou lá primeiro e com mais força; Continuar a ler ‘Ponham os olhos na Islândia — agora’

Em greve

Esta é provavelmente a primeira Greve Geral para essa geração de há dezassete anos, e para os jovens que vieram depois dela. Estes já não são o trabalhador clássico, mas uma nova mão-de-obra precarizada e subaproveitada — as vítimas do neoliberalismo, e da crise do neoliberalismo.

Em greve - novamente no tempo de Cavaco Silva

Há 17 anos, salvo erro, passei este dia em frente à Assembleia da República, numa manifestação de estudantes contra o aumento das propinas.

Não éramos muitos; mas estávamos determinados a ficar ali o tempo que fosse preciso. Tinha havido um jogo de avanços e recuos com a polícia nas escadarias do parlamento. Eles ganharam. Ao fim da tarde, estávamos arrinconados no pequeno largo cá em baixo das escadarias de São Bento.

De repente, sem dar aviso, avançou sobre nós a polícia de choque. A intenção era limpar o largo, e conseguiram-no. Alguns de nós fugiram pela rua de São Bento. Outros — entre os quais eu — pela Rua do Quelhas. A violência foi inesperada e, mais do que desproporcional, injustificada. Num recanto ajardinado da Rua do Quelhas lembro-me de ter visto em espasmos e com dificuldade de respiração uma miúda frágil e perfeitamente inofensiva.

Portugal não tinha então — e não voltou a ter, valha a verdade — hábitos de repressão policial sistemática e agressiva. Ficámos surpreendidos, embora pouco tempo antes de nós tivesse acontecido com os trabalhadors da TAP. Pouco depois viria a acontecer, de forma mais séria, com os trabalhadores da Pereira Roldão na Marinha Grande. E depois, de forma grave e mesmo criminosa, na repressão aos acontecimentos da Ponte 25 de Abril.

Desde então, muitos governos nossos têm caído, cada um à sua maneira: em fuga ou em farsa. Mas nenhum como esse governo terminou com aquela mistura de agressividade, repressão e teimosia, com um bocadinho de burla e faturas falsas à mistura.

O primeiro-ministro era Cavaco Silva. O ministro do interior era Dias Loureiro. Continuar a ler ‘Em greve’

Dois anarquistas conversando

Proudhon estava a terminar um tratado de política chamado Guerra e Paz. Tolstói gostou do título, e roubou-lho para um romance. Proudhon, que tinha proclamado “a propriedade é o roubo”, não se queixaria. A Tolstói — que viria a recusar os lucros dos seus livros — não passaria outra coisa pela cabeça.

No final de fevereiro de 1861, Pierre-Joseph Proudhon — que era uma das maiores celebridades filosóficas e políticas da Europa — recebeu a visita de um jovem conde russo. Este russo já tinha passado por algumas mudanças. Fora militar e participara na repressão a revoltas no Cáucaso, mas agora tinha pretensões literárias. Tivera um filho bastardo com uma camponesa, de entre os servos “propriedade” da sua família. Mas estava agora noivo de uma jovem da corte, dezasseis anos mais nova do que ele. As coisas pareciam mais encaminhadas. Nasceriam filhos, muitos; quando em Moscovo, a família daria festas no palacete; passariam grandes temporadas em Iasnaia Poliana, no campo.

Ainda assim, Lev Nicolaievitch Tolstói, o jovem conde russo, trinta e três anos, não sabia que fazer da vida. Continuar a ler ‘Dois anarquistas conversando’

Há palavras a menos na política portuguesa

Sejamos honestos, Cavaco Silva se pudesse sufocaria estas eleições no berço porque, simplesmente, é o que lhe dá mais jeito.

Faltam palavras na política portuguesa. Por exemplo, palavras como “sonso”. E falta utilizar essas palavras quando Cavaco Silva, atual presidente da República e candidato à sua própria sucessão, diz que “há palavras a mais na nossa vida pública”.

Cavaco Silva está a matar, devagarinho, qualquer hipótese de termos uma campanha presidencial esclarecedora.

Fá-lo porque nunca entendeu o valor do confronto de ideias; Cavaco Silva não é, essencialmente, um pluralista. Sempre insistiu que duas pessoas confrontadas com os mesmos dados têm a mesma opinião. Isto significa que não entende porque têm os outros outra uma opinião diferente da dele; essa é uma realidade que ele aceita (se aceitar) a custo, e que portanto não se percebe como pode prezar. Adicionalmente, sempre atacou a retórica, ou seja, o lado público e discursivo da política, que é o alicerce da democracia. Continuar a ler ‘Há palavras a menos na política portuguesa’

Já valeu a pena

Quero falar-vos das bolsas que anunciei pela primeira vez numa crónica destas, e tenho uma boa e uma má notícia. E uma ideia nova.

A boa notícia é que o valor das bolsas duplicou, graças a três amigos cujos nomes são Ricardo, Miguel e Zé Diogo — e aos quais agradeço terem aceitado descredibilizar-se com um gajo que agora é “político”. Graças a esse pequeno sacrifício, durante o próximo ano teremos 3000 euros para bolsas todos os meses (em vez dos 1500 inicialmente previstos).

A má notícia é que, mesmo assim, não conseguimos apoiar todos as candidaturas que são interessantes e/ou necessárias. Nem sequer metade delas.

É aqui que entra a ideia nova, que por sua vez nasce desta pergunta: o que fazer para juntar os dois lados desta equação, ou seja, projetos que merecem ser apoiados e pessoas dispostas a apoiar esses projetos? Continuar a ler ‘Já valeu a pena’

Bolsas -– os resultados

O processo de selecção das bolsas para o período 2010/2011 chegou ao fim. Aqui estão os nomes dos seleccionados (por ordem alfabética):

– Diana Cassandra Guedes Ferreira

– Guilhermina Isabel dos Santos Duarte

– Johannes Gabriel Schubert

– Luís Miguel da Silva Moreira

– Marcos André Ferrreira Santos

– Raquel Sofia Zé Senhor Mesquita

– Tânia Isabel Guimarães Madureira

(Vejam a descrição pormenorizada dos projectos apoiados no fim deste post.)


Vários outros projectos mereceram séria ponderação e certamente teriam recebido apoio se não houvesse limitação orçamental. Com os sete seleccionados procurou-se abranger uma diversidade de áreas essenciais. Estes são projectos que se destacaram de acordo com os critérios anunciados aquando do lançamento das bolsas: ideias nos campos da ciência, humanidades, política e arte. Adicionalmente este projectos tinham cabimento orçamental que permitiam maximizar a distribuição das bolsas.

Um novo concurso regressará daqui a um ano e com isto queremos dizer algo muito importante: encorajamos todos a voltar a concorrer. Todas as candidaturas – sem excepção – serviram-nos de valiosa experiência para reflectir e melhorar este projecto de bolsas e lançar as bases de uma “plataforma inter-bolsas” que, assim o desejamos no futuro, associe este a outros apoios, expandindo a capacidade financeira.

Sugerimos que fiquem atentos a este site onde, daqui a poucos meses, uma área mais desenvolvida apresentará alternativas semelhantes a esta bolsa, de outras entidades e instituições.

Mais uma vez queremos agradecer a participação de todos – participação que deu e continuará a dar sentido a esta experiência.

Muito obrigado a todos.


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BOLSAS 2010/2011



Projectos seleccionados para apoio

Nome: Diana Cassandra Guedes Ferreira

Projecto: Estágio. Museologia. Galleria degli Uffizi, Florença, Itália. Estágio de quatro meses numa das mais importantes instituições museológicas do mundo. O período de trabalho corresponde a uma integração nas actividades globais do funcionamento do museu, em tarefas que vão da investigação em história da arte à organização de exposições.


Valor atribuído: €4600


Local de desenvolvimento do projecto: Florença, Itália

Situação profissional e/ou académica: Professora e formadora do Ensino Secundário, Novas Oportunidades e Ensino Sénior. Mestre em Museologia pela Faculdad de Filosofía y Letras de la Universidad de Valladolid, Espanha.

Instituições ligadas ao projecto: Galleria degli Uffizi, Florença, Itália



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Nome: Guilhermina Isabel dos Santos Duarte

Projecto: Doutoramento. Investigação em Biologia Computacional. “Mapping the Evolution of the Mitochondrial Proteome – from its alpha-proteobacterial ancestor to its current state in Man”. Pesquisa científica centrada num ponto particular de uma questão fundamental em biologia: “Como evoluíram os organelos eucariotas?” – estudo da forma como a Selecção Natural moldou a quantidade e qualidade das proteínas presentes em compartimentos intracelulares (organelos) existentes apenas em organismos ditos superiores (eucariotas).


Valor atribuído: €6708


Local de desenvolvimento do projecto: Nijmegen, Holanda


Situação profissional e/ou académica: Doutoranda em Biologia Computacional

Instituições ligadas ao projecto: Center for Molecular and Biomolecular Informatics – Radbout Universiteit




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Nome: Johannes Gabriel Schubert


Projecto: Doutoramento. Estudos Africanos. “Narrativas de memória e autoridade política em Angola”. O projecto pretende contribuir para o entendimento do funcionamento do Estado em África e ajudar a compreender os processos de reconciliação necessários depois de um conflito, como no caso de Angola. A relação com a memória dos acontecimentos de guerra, a do povo com “o poder”, assim como histórias sobre acontecimentos traumáticos (o 27 de Maio de 1977 ou as eleições de 1992, por exemplo) estão no âmbito da investigação deste projecto.

Valor atribuído: €7560


Local de desenvolvimento do projecto: Edimburgo (Reino Unido), Luanda (Angola)
Situação profissional e/ou académica: Doutorando em Estudos Africanos.

Instituições ligadas ao projecto: Social Anthropology & Centre of African Studies – School of Social and Political Sciences, University of Edinburgh, United Kingdom


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Nome: Luís Miguel da Silva Moreira


Projecto: Criação artística. Banda-desenhada. “As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal” – reflexão em banda-desenhada (no formato graphic novel) sobre a vida e obra de Fernando Pessoa, sustentada em pormenorizada leitura bio-bibliográfica e com forte componente literária. Mais de metade da obra já está concluída (consultável em www.lmigueldsm.blogspot.com). O autor, único receptor do apoio, é o argumentista e desenhista, em colaboração com a colorista Catarina Verdier. Planeada publicação em livro do projecto, com 300 páginas.
Valor atribuído: €6000


Local de desenvolvimento do projecto: Cacém


Situação profissional e/ou académica: Desempregado. Licenciado em Artes Plásticas, Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha.

Instituições ligadas ao projecto: Não aplicável




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Nome: Marcos André Ferrreira Santos

Projecto: Mestrado. Projecto de investigação em desenvolvimento de métodos de diagnósticos mais eficazes e baratos para a doença theileriose bovina, adequados para utilização em laboratórios e países com menores recursos económicos. A Theileriose Bovina é uma doença transmitida ao gado bovino por carraças e tem um impacto económico devastador na produção de gado, principalmente em países mediterrâneos.


Valor atribuído: €4200


Local de desenvolvimento do projecto: Lisboa
Situação profissional e/ou académica: Mestrando em Genética Molecular e Biomedicina


Instituições ligadas ao projecto: Faculdade de Ciências e Tecnologia – Universidade Nova de Lisboa, Laboratório Nacional de Investigação Veterinária



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Nome: Raquel Sofia Zé Senhor Mesquita

Projecto: Doutoramento. Ciência Política. “Candidaturas independentes: do actual condicionamento dos sistema às novas formas de interacção”. Trata-se de uma análise da importância das candidaturas independentes no sistema político português (relativa, nomeadamente, às eleições autárquicas de 2001, 2005 e 2009), ou seja, o modo como o fenómeno pode influenciar ou determinar a participação política dos demais cidadãos. O projecto procura concluir até que ponto os partidos com assento na Assembleia da República estarão reticentes em actual lei eleitoral, de modo a possibilitar que candidaturas independentes possam concorrer ao órgão de soberania.

Valor atribuído: €4000


Local de desenvolvimento do projecto: Coimbra, Lisboa

Situação profissional e/ou académica: Doutoranda em Ciências Sociais, especialidade Ciência Política


Instituições ligadas ao projecto: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa



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Nome: Tânia Isabel Guimarães Madureira

Projecto: Investigação etnográfica. “Saberes di Barro: um estudo etnográfico da ‘olaria de mulheres’ de Trás di Munti, Cabo Verde”. Segunda fase do projecto – pesquisa de terreno na ilha de Santiago. O projecto corresponde à possibilidade de desenvolver investigação na área dos estudos africanos e, por conseguinte, contribuir para um melhor entendimento das realidades sociais, culturais e económicas de um contexto africano particular como o de Cabo Verde. O trabalho pretende contribuir para o desenho de programas de promoção de cidadania e de desenvolvimento sustentado.


Valor atribuído: €1000


Local de desenvolvimento do projecto: Santiago, Cabo Verde


Situação profissional e/ou académica: Bolseira de Investigação da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, programa Diamang Digital


Instituições ligadas ao projecto: Universidade de Coimbra



A morsa e o carpinteiro

Cai na real, Portugal. Nos próximos tempos tu só vais ser notícia quando fores má notícia. E vais ser notícia muitas vezes.

Quando vivi fora de Portugal pela primeira vez ficava magoado por muito raramente aparecer o meu país na imprensa internacional. Hoje passa-se o contrário: ficaria mais satisfeito se não encontrasse tantas notícias sobre Portugal e agradeceria que nos achassem mais irrelevantes. Eu gosto do meu país; também gosto de ler o Financial Times todos os dias. O que dá frio na barriga é ler sobre o meu país no Financial Times.

Cai na real, Portugal. Nos próximos tempos tu só vais ser notícia quando fores má notícia. E vais ser notícia muitas vezes. Não se vê nenhum milagre que consiga impedir esta sequência: medidas de austeridade insustentáveis, subida dos juros da dívida soberana, pedido de ajuda ao FMI e à União Europeia, reescalonamento da dívida (ou “bancarrota”, para os corações de pedra) e depois? Depois, resta-nos sair do euro. E não julguem que me agrada escrever isto: é tão deprimente que nunca devo ter demorado tanto para alinhavar dois parágrafos de crónica.

Mas e o orçamento? A austeridade? Os cortes? Mas-mas-mas nada. Tudo isso é insustentável e, portanto, irrealista. Continuar a ler ‘A morsa e o carpinteiro’

Em dívida

Os “mártires de Tiananmen”, como lhes chama o Nobel Liu Xiaobo, pediam apenas aquilo que a nenhum cidadão pode ser negado: liberdade de associação, de manifestação, de expressão e de informação. Isso faz deles património não só do povo chinês mas da humanidade inteira.

No tempo das manifestações na Praça Tiananmen, em junho de 1989, quase ninguém sabia o que era a internet. O email era também praticamente desconhecido; ainda não havia web, muito menos twitter ou facebook. Raras pessoas tinham visto um telemóvel, e ninguém adivinharia que enviar mensagens de texto viria a ser um dos seus usos mais populares. Mesmo a televisão de notícias, com o seu ciclo de 24 horas por dia, estava apenas a começar. Era muito mais fácil encerrar um país e fazer com que as notícias pingassem a intervalos cada vez mais reduzidos.

Mesmo assim, seguimos os acontecimentos na China com invulgar intensidade, primeiro, e ansiedade depois. Muitos talvez — como eu — pela rádio, nos noticiários de hora a hora — ou já seriam de meia em meia-hora? — enquanto uma minoria talvez tivesse televisão por satélite e canais internacionais. A informação não era contínua; era aos soluços, intermitente, e escassa. Irão ser tolerados os manifestantes? Não estarão eles demasiado audaciosos? Conseguirão vergar o regime? O que explicará este compasso de espera? O que fará o exército? Está confirmado que já há tanques nas avenidas?

Foram chegando então as notícias, cada vez mais seguras, de que tinha havido um massacre na praça.

O movimento foi, porém, mais vasto do que os acontecimentos daqueles dias. Continuar a ler ‘Em dívida’

A lição de Lula e o teste de Obama

Como se desenrascaria Obama no teste do necessário-possível-impossível desenhado por Lula? É cedo para dizer.

Lula da Silva e Barack Obama

Há uns meses, no Rio de Janeiro, ouvi Lula explicar como entendia ele ser de esquerda, ou por outras palavras, como entendia ele a sua esquerda: “é fazer primeiro o necessário, começando pelo mais simples; depois é fazer o possível; logo, logo, o impossível vai estar acontecendo”.

Lula defendia que esse modus operandi o distinguia da esquerda de “à europeia”, que se caracteriza por aceitar as estruturas de poder como elas estão, mas também da esquerda “Chico Alencar”, do nome de um político brasileiro que saiu do PT para fundar o Partido Socialismo e Liberdade, que deseja chegar ao socialismo “de uma vez só” (na descrição de Lula, que talvez não fosse a dos sujeitos em causa).

Lula ia pontuando a sua explicação com exemplos adequados a qualquer pessoa e platéia. Fazer o necessário era começar pelos mais pobres; Continuar a ler ‘A lição de Lula e o teste de Obama’

Noturno

Escrever é agora para mim um exercício de ouvido. O cérebro procura lembrar-se de como a língua pronuncia aquela palavra, tenta ouvi-la dentro da cabeça, para depois a poder escrever. Eu digo aquele “c” em espectador e aquele “p” em conceptual?

Naquele tempo era sempre festa. Bastava sair de casa e atravessar a rua para ficar como louco, e era tudo tão belo, especialmente de noite, que regressando mortos de cansaço esperava-se ainda que qualquer coisa acontecesse, que começasse um incêndio, que nascesse uma criança em casa, ou então que o dia nascesse de repente e toda a gente viesse para a rua e se pudesse continuar a andar a andar até aos campos e depois por detrás das colinas. — Sois sãos, sois jovens, — diziam eles, — sois rapazes, não tendes consciência, bem se vê —. E uma deles, aquela Tina que tinha saído manca do hospital e que não tinha de comer em casa, ainda assim ria por tudo e por nada, e uma noite, caminhando atrás dos outros, tinha parado de repente e pôs-se a chorar porque dormir era uma estupidez que roubava tempo à alegria. [Cesare Pavese, La bella estate, 1940-49]

Num dia do verão de 1952, um pianista de concerto interpretou pela primeira vez a peça de John Cage que consiste em quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio. Ou seja, o pianista sentou-se em frente ao piano e não tocou nenhuma nota durante aquele tempo. A meio da peça começou a chover, e as gotas grossas batendo no telhado eram tudo o que se ouvia. No fim da peça houve gente que abandonou a sala e deixou claro o seu desagrado, vociferando contra o compositor, o intérprete, e o estado das coisas em geral. Achavam aqueles espectadores que aquilo a que tinham acabado de assistir era uma provocação, em mau (“uma merda”). Muitos críticos de arte acharam o mesmo, mas em bom (“conceptual”). Recentemente li outra explicação, mais simples: os quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio de John Cage ensinavam que não havia silêncio — havia as gotas de chuva, os protestos do público — e eram como uma janela para o que estava por detrás.

Escrever é agora para mim um exercício de ouvido. Continuar a ler ‘Noturno’