Arquivo diario para October 27th, 2010

Abrir a caixa de Pandora

Errei. A minha atual previsão é de que o tratado vai ser alterado mais cedo do que eu pensava.

Primeiro, um pouco de gabarolice. Há menos de um ano o Tratado de Lisboa entrou em vigor e toda a gente — com Barroso e Sócrates à cabeça — afirmou que este era “o tratado para uma geração”, não só por considerarem que ele era adequado como por ser quase impossível reformá-lo. Profetizei que o tratado iria ser alterado mais cedo do que eles pensavam.

Errei. A minha atual previsão é de que o tratado vai ser alterado mais cedo do que eu pensava.

Porque acontece isto? Em primeiro lugar: se os leitores desejarem ter uma visão do que será a União Europeia dentro de uma geração, não perguntem a Sócrates, Sarkozy ou Merkel — não perguntem a nenhum chefe de governo e se puderem fujam da opinião deles como da peste. O poder deles em cada uma das suas unidades territoriais depende de não entenderem a União e, até, de a entravarem. Por isso o Conselho — que reúne os governos — é neste momento a mais regressiva das instituições da União, atrás da Comissão e a anos-luz do Parlamento.

Mas também não peçam a resposta a Barroso, não porque ele não saiba, mas porque não vo-la dará. O poder dele depende dos outros 27.

E assim o Presidente da Comissão se viu ultrapassado na semana passada por uma conversa entre Sarkozy e Merkel, que querem rever um tratado com menos de um ano de vida para acomodar um capricho da Alemanha, ainda por cima perigoso — tirar direitos de voto aos países que tenham défices excessivos. Esta gente não entende nada de democracia e parece apostada em retirar qualquer sentido à palavra. Já imaginaram se fosse possível retirar o direito de voto a uma pessoa com dívidas? Se imaginam como se sentiria essa pessoa, querem pensar por um momento como seria isso se acontecesse com um país? Pois.

Na verdade, — e admitindo que a atual crise só se resolve à escala europeia, o que aliás torna grande parte do nosso debate caseiro irrelevante e pueril — vejo duas saídas decentes para a União Europeia. Ambas são institucionais, porque é aí que os nossos outros problemas — a começar pelo económico — não se resolvem primeiro e, atrofiando, acabam por se agravar. E ambas exigem, sim, de uma alteração dos tratados.

A primeira solução: Continuar a ler ‘Abrir a caixa de Pandora’

Pisou na bola

Explicar a política brasileira é mais complicado do que descrever-lhe a geografia. O número de partidos é incontável; a definição ideológica é umas vezes vagas e outras volátil.

O Brasil é composto por 27 “unidades federais”, 26 das quais são estados; a 27ª é o Distrito Federal, um retângulo que foi criado no estado de Goiás, não muito longe da fronteira com Minas Gerais: Brasília.

Agora rápido: quem ganhou as eleições em Brasília, Dilma ou Serra? Nenhum deles. Ganhou Marina Silva, candidata do Partido Verde. Foi, aliás, a única unidade federal em que ela ganhou (os estados foram ganhos por José Serra ou, sobretudo, por Dilma Roussef).

Ora, Brasília destaca-se do resto do país por ser recente e “artificial”; mas também o resume, por ter recebido gente de todas as suas regiões. Juntando essas duas características, Brasília é um laboratório do Brasil. A vitória de Marina Silva em Brasília é a primeira expressão de desgaste com aquilo que — numa crónica do mês passado — eu descrevia como sendo a tendência inquietante do PT para a arrogância intelectual. Marina Silva era até há pouco tempo militante do mesmo partido de Lula, e representa para muitos dos seus correligionários um passado mais plural e menos burocrático do PT.

As pessoas que conheço que votaram na candidata do PV, ou que pensaram fazê-lo, são apoiantes de Lula — ou até funcionários no seu governo — que desejavam forçar uma segunda volta nas eleições. E conseguiram-no. Dilma Rousseff ficou a cerca de três por cento da vitória na primeira volta. Marina Silva, com quase vinte por cento a nível nacional, ficou com a chave das eleições na mão.

Explicar a política brasileira é mais complicado do que descrever-lhe a geografia. O número de partidos é incontável; a definição ideológica é umas vezes vagas e outras volátil.

Os partidos essenciais são quatro. Continuar a ler ‘Pisou na bola’