Arquivo diario para October 12th, 2010

Drama e paradoxo

Na noite agora fria de Quito, caminhando devagarinho por causa do ar rarefeito, o paradoxo é não haver drama.

Meninas do Equador

Quito, Equador. — “Horribles volcanes”, concluiu Simón Bolívar quando aqui esteve pela primeira vez, e acrescentou: “auguro que este país será inundado de fuego”. Esta capital de um país em estado de emergência após um quase golpe de estado encontra-se a 2800 metros de altitude no meio da “avenida dos vulcões”. O Rucu Pichincha e o Guagua Pichincha — ou “Pichincha velho” e “Pichincha bebé”, o qual entrou em erupção há poucos anos — erguem-se em pleno município. O impressionante Cotopaxi, nitidíssimo, de neves perpétuas, nem parece que está a setenta quilómetros de distância.

Os habitantes de Quito são inexcedivelmente amáveis; exprimem-se num castelhano muito claro e distinto, articulando todas as consoantes — isto é, excepto os que falam quechua ou outra das dez línguas locais — ampliado com divertidos equatorianismos.

O país — que é amazónico, andino e oceânico — está entalado entre o Peru — “ladrones”, que pela guerra conquistaram uma parte da Amazónia ao Equador — e a Colômbia — “colomiches”, que de Bogotá chegaram a governar a Real Audiencia de Quito, antepassado do estado. Mais longe está a Venezuela — “venecos” que servem de contrapeso aos “colomiches” e agora Hugo Chávez de esteio ao presidente Rafael Correa. Mais longe ainda, o Brasil, neutral o bastante nas brigas entre hispanos para que o Equador tenha lá assinado no Rio — em 1942 — e em Brasília — em 1999 — os seus tratados de paz com o Peru.

No século XIX o Equador era provavelmente o mais conservador e católico destes países. No século XX sofreu o choque dos seus ciclos económicos — cacau, banana, petróleo — cada qual com as suas oligarquias, golpes e contragolpes. Mais de um terço da população é pobre.

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