Arquivo mensal para October, 2010

Projecto Bolsas – ponto da situação

Em primeiro lugar quero agradecer terem enviado as candidaturas. A vossa participação dá sentido a esta experiência. Em segundo lugar quero dizer-vos como está neste momento o processo das bolsas, fazer um pequeno balanço e explicar-vos o que vai acontecer a seguir.

As candidaturas estão neste momento a ser analisadas caso a caso. Foram enviadas 71 candidaturas subscritas por 77 pessoas (três das candidaturas são de grupos). Esta resposta foi muito encorajadora. Estamos empenhados em ler atentamente os vossos projectos.

A nossa análise dos projectos é muito detalhada. Tentaremos também ver como eles se coadunam com os nossos recursos, que evidentemente são muito mais escassos do que gostaríamos.

Os resultados desta análise serão apresentados o mais tardar dia 15 de Novembro de 2010 no site www.ruitavares.net. Se possível – mas nada podemos garantir neste momento – anteciparemos a divulgação dos resultados.

E daqui para a frente? Eu gostaria que isto viesse a ser o embrião de qualquer coisa mais séria.

Dentro de um ano, provavelmente, reabrirei candidaturas, em particular com um projecto em mente: a criação de uma plataforma inter-bolsas que permita juntar os dois lados da equação, isto é, projectos que precisam de ser apoiados e pessoas com vontade de apoiar esses projectos.

A base desta plataforma estaria na Internet mas o seu enquadramento jurídico, o seu funcionamento logístico e a sua concretização financeira precisam ainda de ser definidos. A experiência agora acumulada pode ajudar-nos a isso.

Por enquanto é só uma ideia mas pode ser que venha a nascer e a ser-vos útil.

Muito obrigado a todas e a todos.

Abrir a caixa de Pandora

Errei. A minha atual previsão é de que o tratado vai ser alterado mais cedo do que eu pensava.

Primeiro, um pouco de gabarolice. Há menos de um ano o Tratado de Lisboa entrou em vigor e toda a gente — com Barroso e Sócrates à cabeça — afirmou que este era “o tratado para uma geração”, não só por considerarem que ele era adequado como por ser quase impossível reformá-lo. Profetizei que o tratado iria ser alterado mais cedo do que eles pensavam.

Errei. A minha atual previsão é de que o tratado vai ser alterado mais cedo do que eu pensava.

Porque acontece isto? Em primeiro lugar: se os leitores desejarem ter uma visão do que será a União Europeia dentro de uma geração, não perguntem a Sócrates, Sarkozy ou Merkel — não perguntem a nenhum chefe de governo e se puderem fujam da opinião deles como da peste. O poder deles em cada uma das suas unidades territoriais depende de não entenderem a União e, até, de a entravarem. Por isso o Conselho — que reúne os governos — é neste momento a mais regressiva das instituições da União, atrás da Comissão e a anos-luz do Parlamento.

Mas também não peçam a resposta a Barroso, não porque ele não saiba, mas porque não vo-la dará. O poder dele depende dos outros 27.

E assim o Presidente da Comissão se viu ultrapassado na semana passada por uma conversa entre Sarkozy e Merkel, que querem rever um tratado com menos de um ano de vida para acomodar um capricho da Alemanha, ainda por cima perigoso — tirar direitos de voto aos países que tenham défices excessivos. Esta gente não entende nada de democracia e parece apostada em retirar qualquer sentido à palavra. Já imaginaram se fosse possível retirar o direito de voto a uma pessoa com dívidas? Se imaginam como se sentiria essa pessoa, querem pensar por um momento como seria isso se acontecesse com um país? Pois.

Na verdade, — e admitindo que a atual crise só se resolve à escala europeia, o que aliás torna grande parte do nosso debate caseiro irrelevante e pueril — vejo duas saídas decentes para a União Europeia. Ambas são institucionais, porque é aí que os nossos outros problemas — a começar pelo económico — não se resolvem primeiro e, atrofiando, acabam por se agravar. E ambas exigem, sim, de uma alteração dos tratados.

A primeira solução: Continuar a ler ‘Abrir a caixa de Pandora’

Pisou na bola

Explicar a política brasileira é mais complicado do que descrever-lhe a geografia. O número de partidos é incontável; a definição ideológica é umas vezes vagas e outras volátil.

O Brasil é composto por 27 “unidades federais”, 26 das quais são estados; a 27ª é o Distrito Federal, um retângulo que foi criado no estado de Goiás, não muito longe da fronteira com Minas Gerais: Brasília.

Agora rápido: quem ganhou as eleições em Brasília, Dilma ou Serra? Nenhum deles. Ganhou Marina Silva, candidata do Partido Verde. Foi, aliás, a única unidade federal em que ela ganhou (os estados foram ganhos por José Serra ou, sobretudo, por Dilma Roussef).

Ora, Brasília destaca-se do resto do país por ser recente e “artificial”; mas também o resume, por ter recebido gente de todas as suas regiões. Juntando essas duas características, Brasília é um laboratório do Brasil. A vitória de Marina Silva em Brasília é a primeira expressão de desgaste com aquilo que — numa crónica do mês passado — eu descrevia como sendo a tendência inquietante do PT para a arrogância intelectual. Marina Silva era até há pouco tempo militante do mesmo partido de Lula, e representa para muitos dos seus correligionários um passado mais plural e menos burocrático do PT.

As pessoas que conheço que votaram na candidata do PV, ou que pensaram fazê-lo, são apoiantes de Lula — ou até funcionários no seu governo — que desejavam forçar uma segunda volta nas eleições. E conseguiram-no. Dilma Rousseff ficou a cerca de três por cento da vitória na primeira volta. Marina Silva, com quase vinte por cento a nível nacional, ficou com a chave das eleições na mão.

Explicar a política brasileira é mais complicado do que descrever-lhe a geografia. O número de partidos é incontável; a definição ideológica é umas vezes vagas e outras volátil.

Os partidos essenciais são quatro. Continuar a ler ‘Pisou na bola’

A tragédia desejada

“É preciso insistir que este orçamento não é só errado; é trágico.”

É estranho dizê-lo, mas se o orçamento (previsto) fosse apenas injusto, nós já nem daríamos por isso. O nosso país é injusto há muito tempo; nos últimos anos só pontualmente e parcialmente contrariou essa tendência.

Mas é preciso dizer que este orçamento não é só injusto; é errado.

É perturbante pensá-lo, mas se este orçamento fosse apenas errado talvez nos limitássemos a encolher os ombros. Este país tem vivido com mais políticas erradas do que certas. E por vezes o errado é a única coisa que existe.

Mas é preciso insistir que este orçamento não é só errado; é trágico.

E por aí adiante. Essa tragédia vai ser feita de muitas micro-tragédias: quem tem um mínimo de noção de como vive em Portugal a maioria das pessoas só pode ficar arrepiado com o que aí vem. Isto não é só injusto, errado e trágico. Isto vai ficar muito pior.

E mesmo isso não é o pior. Continuar a ler ‘A tragédia desejada’

Outonal

Passos Coelho não quis fazer cair o governo num momento que era de responsabilização mínima e ganho máximo para ele, e agora arriscaria fazê-lo num momento que é de responsabilização máxima e resultados mínimos ou até negativos? Não faz sentido. E, como não faz sentido, eu diria que não vai acontecer.

Durante o Verão, Pedro Passos Coelho começou a parecer-se com o tipo que ganhou o euromilhões mas não teve tempo para levantar o prémio.

Semanas ou meses antes, com um empurrãozinho do caso PT/TVI, o poder ter-lhe-ia caído no colo. As sondagens eram boas, Pedro Passos Coelho teria chegado a primeiro-ministro se as eleições tivessem sido antecipadas naquela altura. Mas ele preferiu esperar que o governo “caísse de maduro”, no que aliás tinha o acordo da maioria dos comentadores da sua área política, ou preferiu “cozer o governo em lume brando”, como dizem os sabichões destas coisas, ou ainda, noutra frase também muito usada nestas ocasiões, “decidiu que não era o seu momento”.

Passos recuou quando era possível fazer cair o governo por causa de um caso político de interferência nos media, de grande ou plausível gravidade para a maioria do eleitorado, desligado da crise do euro, e que acima de tudo parecia ser responsabilidade exclusiva do primeiro-ministro. Pessoalmente, Passos Coelho tinha tudo a ganhar e pouco a perder, mas não teve aquele instinto matador que um político talentoso supostamente tem de ter. Só não precisaria de ter ficado em pânico depois.

Passado alguns meses, Continuar a ler ‘Outonal’

Drama e paradoxo

Na noite agora fria de Quito, caminhando devagarinho por causa do ar rarefeito, o paradoxo é não haver drama.

Meninas do Equador

Quito, Equador. — “Horribles volcanes”, concluiu Simón Bolívar quando aqui esteve pela primeira vez, e acrescentou: “auguro que este país será inundado de fuego”. Esta capital de um país em estado de emergência após um quase golpe de estado encontra-se a 2800 metros de altitude no meio da “avenida dos vulcões”. O Rucu Pichincha e o Guagua Pichincha — ou “Pichincha velho” e “Pichincha bebé”, o qual entrou em erupção há poucos anos — erguem-se em pleno município. O impressionante Cotopaxi, nitidíssimo, de neves perpétuas, nem parece que está a setenta quilómetros de distância.

Os habitantes de Quito são inexcedivelmente amáveis; exprimem-se num castelhano muito claro e distinto, articulando todas as consoantes — isto é, excepto os que falam quechua ou outra das dez línguas locais — ampliado com divertidos equatorianismos.

O país — que é amazónico, andino e oceânico — está entalado entre o Peru — “ladrones”, que pela guerra conquistaram uma parte da Amazónia ao Equador — e a Colômbia — “colomiches”, que de Bogotá chegaram a governar a Real Audiencia de Quito, antepassado do estado. Mais longe está a Venezuela — “venecos” que servem de contrapeso aos “colomiches” e agora Hugo Chávez de esteio ao presidente Rafael Correa. Mais longe ainda, o Brasil, neutral o bastante nas brigas entre hispanos para que o Equador tenha lá assinado no Rio — em 1942 — e em Brasília — em 1999 — os seus tratados de paz com o Peru.

No século XIX o Equador era provavelmente o mais conservador e católico destes países. No século XX sofreu o choque dos seus ciclos económicos — cacau, banana, petróleo — cada qual com as suas oligarquias, golpes e contragolpes. Mais de um terço da população é pobre.

“Ni chicha ni limonada?”. Continuar a ler ‘Drama e paradoxo’

Bolsas RT

Caros leitores,

Informamos que o período de candidatura para as Bolsas RT encerrou no dia 01 de Outubro.

Gostaríamos de agradecer a todos pelo apoio e desejar desde já boa sorte aos candidatos. Os resultados serão divulgados na primeira quinzena de Novembro.

Com nossos melhores cumprimentos,

Equipa  RT.

100 anos e um dia

Sem querer ser preciosista, esse é exatamente o sentido da República: sermos governados por gente imperfeita.

5 de Outubro de 1910

Parece que a Iª República cometeu o grande pecado de ser uma balbúrdia, — mas por oposição a quê? Pelos vistos, deve haver quem ache que o resto do mundo era, naquele primeiro quartel do século XX, uma espécie de pacífico jardim.

Não era; desde ocupantes de cargos eleitos a cabeças coroadas, do primeiro-ministro de Espanha ao arquiduque da Áustria, houve homicídios para todos os gostos naquela época. Não excederam, contudo, a morte massificada da gente comum; entre os anos de 1914-1918 — não tinha a nossa República quatro anos — houve simplesmente uma Guerra Mundial, neste continente e nas suas colónias. Quando essa Grande Guerra e a sua estúpida e inútil mortandade acabou, tinham acabado também vastos impérios: o dos Czares, varrido por duas revoluções e desmembrado; o Austro-Húngaro, despedaçado; e pouco tempo depois o Império Otomano. No culminar desse processo, fez-se o ensaio geral aos genocídios que seriam levados às maiores consequências nos meados do século XX europeu. A República Portuguesa lá aguentou, mas entre a Iª e a IIª Guerra Mundial nasceram o fascismo na Itália, o nazismo na Alemanha, e regimes seus aparentados — como a ditadura nacional em Portugal — um pouco por toda a Europa. Desfez-se o sonho da Sociedade das Nações. Como eloquentemente diz a historiadora Zara Steiner, esta foi a época em que — por quase todo o mundo e sobretudo na Europa — “as luzes falharam”.

Perante isto, — ou melhor, esquecendo isto — há gente que faz da leitura da Iª República uma única lenga-lenga sobre como os líderes políticos portugueses da época eram defeituosos. Pois eram. Continuar a ler ‘100 anos e um dia’

Olá, depressão

Cada vez mais acho que a resposta correta à pergunta “o que é uma depressão?” é: esperem para ver.

O que é uma depressão? Várias respostas. Pode considerar-se que se trata de uma forma prolongada e particularmente intratável de recessão (que por sua vez costuma definir-se como “dois — ou mais —  trimestres de crescimento negativo”). Pode chamar-se depressão a um período prolongado de crescimento muito abaixo (talvez dez por cento ou mais?) das linhas de tendência. Uma descrição metafórica que me agrada (não chega bem a ser uma definição) diria que uma economia deprimida é como uma pessoa deprimida: não usa todas as forças que tem disponíveis (o desemprego alto e prolongado é uma das características principais da depressão) de forma a agravar a sua situação inicial.

Mas cada vez mais acho que a resposta correta à pergunta “o que é uma depressão?” é: esperem para ver.

Não tinha de ser assim. Aliás, nada disto tinha de ser assim. Continuar a ler ‘Olá, depressão’