Arquivo mensal para Setembro, 2010

O diabo está, nos detalhes

Que preferiríamos nós? Que o português fosse falado impecavelmente por 50 mil estrangeiros ou apenas compreensivelmente por 50 milhões?

Não se pode deixar escapar isto. Há muito tempo que não tinha oportunidade de defender o primeiro-ministro. Agora tenho. Infelizmente, não é por nada que ele tenha feito. Também não é por nada que ele tenha dito. É antes pela maneira como o disse. E disse-o mal.

José Sócrates foi, já se sabe, dar uma palestra sobre energias renováveis à Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Exprimiu-se lá num inglês alquebrado, que ele próprio descreveu no começo da sua fala, como “mau inglês”. O vídeo da palestra, que está disponível na internet e foi difundido pelas televisões, expôs Sócrates à impiedade dos seus críticos. Pacheco Pereira opinou neste jornal sobre o assunto; no seu blogue iniciou um post da seguinte maneira: “A mediocridade de Sócrates quando tem que defrontar o exterior sem guião, é visível com todo o seu esplendor na conferência universitária em Columbia”. O blogue 31 da sarrafada, da direita por uma vez voluntariamente humorística, fez uma compilação em vídeo das “calinadas” de Sócrates, legendando-as com cuidados extremosos de professora do Instituto Britânico. O clip revoou imediatamente pela internet e, na opinião de muita gente, expôs Sócrates ao ridículo.

Não percebo porquê. Continuar a ler ‘O diabo está, nos detalhes’

Estado dentro do estado

Pode haver, isso sim, sociedades com graus de segurança razoáveis — desde que alicerçadas precisamente no respeito dos direitos fundamentais.

Quando uma ideia nasce torta, dificilmente se endireita. Mas enquanto ninguém dá por isso, podemos construir um edifício em cima dela.

A ideia de que vos quero falar parece sensata; já a ouvi pronunciada dezenas ou centenas de vezes por ministros, comissários europeus, altos-funcionários da administração dos EUA e académicos vários: “temos de achar um meio termo entre os direitos fundamentais e a segurança dos cidadãos”. Eles parecem sempre todos muito responsáveis quando dizem isto; mas isso não os livra de estar errados.

A imagem por detrás desta frase é a de que há um sistema de vasos comunicantes entre A (os direitos, liberdades e garantias) e B (a segurança). Se tirarmos um bocadinho de um lado, — assim vai implícito —, ganharemos um bocadinho do outro. Como todos queremos segurança em concreto e em imediato, aceitamos conceder liberdade que naquele momento é apenas abstrata e adiada.

Em primeiro lugar, isto não é verdade. Continuar a ler ‘Estado dentro do estado’

Princípios/valores

Entende-se que “princípios” é mais libertário e “valores” mais autoritário; esta palavra mais conservadora e aquela mais progressista. Vá lá, abrindo o jogo, sou mais parcial pela palavra “princípios” do que pela palavra “valores”.

...

Na linguagem de todos os dias, escolhemos as palavras apenas pela casca. Queremos só chegar à palavra seguinte, e que elas juntas façam por nós qualquer coisa: pedir o café, aceitar um favor, manifestar uma emoção. Aquela palavra ou outra faria o mesmo serviço; nada mais lhes pedimos.

Se desejamos que nos entreguem um documento ou encham o tanque de gasolina, tanto se nos dá que seja a Ana ou o Sérgio a fazê-lo. Mas sabemos que, atrás daquele balcão, a Ana ou o Sérgio têm uma vida interior para lá da tarefa que desempenham, e porventura tão ou mais rica do que a nossa.

Da mesma forma, as palavras existem para lá da crosta. Têm densidade, peso, temperamento. Fizeram outras coisas na vida antes de chegarem àquela frase. Às vezes mudaram de ideias: queriam dizer uma coisa antes e outra agora. E a maior parte das ideias são metafóricas; ao escavar um pouco (lá está) e ir mais fundo nelas (veem?) tentamos alcançar-lhes o cerne (outra metáfora, embora esquecida: significa resina, seiva ou, em algumas línguas, caroço).

Um exemplo. Dizemos “princípios” e “valores” como se as duas palavras servissem para a mesma coisa. Fulana é uma mulher de princípios. Sicrano é um homem de valores. Por instinto, achamo-las equivalentes e até substituíveis. Continuar a ler ‘Princípios/valores’

A que fala e os que se vergam

O que se passou foi que o governo francês mentiu em Bruxelas, e ao mais alto nível.

Viviane Reding, vice-presidente da Comissão Europeia, com a pasta dos Direitos Fundamentais, é uma política conservadora luxemburguesa, bem ancorada há muitos anos na família democrata-cristã, e membro do Partido Popular Europeu, de que fazem parte Durão Barroso, o próprio Nicholas Sarkozy e, em Portugal, o PSD e o CDS.

Por dever de funções, encontro-me com ela quase todas as semanas. Mesmo os deputados que dela estão distantes politicamente — é o meu caso — ou que não gostam dela pessoalmente — não é o meu caso — apreciam a sua franqueza e fala direta. E no primeiro debate que tivemos com ela sobre o caso dos ciganos em França, vários lhe perguntámos porque não era mais clara na condenação do que se estava a passar. A resposta dela foi sempre que — ao contrário do que noticiava a imprensa e afirmavam as pessoas no terreno — ela tinha recebido de vários ministros franceses garantias explícitas de que as deportações em curso não tinham como alvo os ciganos.

O que se passou foi que o governo francês mentiu em Bruxelas, e ao mais alto nível. No fim de semana seguinte foi revelada uma circular interna do Ministério do Interior que declarava por três vezes que as deportações e desmantelamentos deveriam ser dirigidas “em prioridade aos roma (ciganos)”.

Há nisto um duplo escândalo, Continuar a ler ‘A que fala e os que se vergam’

Saudades do Brasil

Eu gosto do Brasil; mas adoro o Brasil em ano eleitoral — tem a exata mistura de idealismo, baixaria, cinismo, humor destravado e confusão utópica que não me deixa aborrecer.

No ano de 2000 peguei em duas mochilas e voei sozinho para o Brasil, pensando voltar dali a dois meses. Quase não consegui.

Comecei pelo Rio; ia aos jogos do Flamengo; não queria sair de lá. Em Ouro Preto, Minas Gerais, estive tentado a tornar-me dramaturgo residente de uma companhia de teatro — sem ter escrito até então uma só deixa ou indicação de cena, o que aliás era secundário. Em Brasília, fazendo fotos de Vila Planalto para a tese de uma jovem socióloga, prolonguei a minha solicitude desmesuradamente. Em Alcântara do Maranhão adormeci numa cadeira em plena praça, segurando na mão os meus óculos dependurados como se fossem o rosário de uma freira cansada; por pouco não perdi o último barco. Em Cairú, na Baía, rodando os botecos com um japonês paulista chamado Mário, ri às gargalhadas ao ver que não teria lugar no avião de regresso e, sobretudo, ao perceber que isso não me incomodava nada.

Tirando umas horas na Praia do Futuro em Fortaleza, Ceará — bem antes do célebre multiplo homicídio do “monstro lusitano” e, curiosamente, a única vez que me aproximei da horripilante indústria turística nordestina “de luxo” — nunca houve nada de que eu não gostasse no Brasil, incluindo os prédios feios de Goiânia, as favelas intermináveis de São Paulo e os buracos nas estradas do Mato Grosso.

Desloquei-me sempre de transportes terrestres, de ônibus. Se o país é grande a viagem tem de ser longa. Continuar a ler ‘Saudades do Brasil’

Bingo!

A única preocupação que devemos ter com Manuel Alegre, como com qualquer candidato, é que as suas posições sejam apenas idênticas — não às do partido X ou Y — mas às de Manuel Alegre ele-próprio. É por isso que temos eleições presidenciais uninominais.

Lástima é que, quando num dia futuro se fizer a história das presidenciais de 2011, vá passar despercebido o vigoroso momento de viragem que foi a passada sexta-feira. Efetivamente, foi nesse 10 de Setembro de 2010 que ocorreu a publicação de uma crónica de Vasco Pulido Valente em que este profetizava que “Alegre vai a caminho do desastre e não percebeu”.

Deveria até ser alcandorado a tradição eleitoral, no mesmo patamar das straw polls das aldeias do Maine nos EUA ou das previsões do polvo Paul na Alemanha, o impreterível facto de que em Portugal nunca nenhuma vitória eleitoral, — em verdade, nunca nenhum facto político —, se pôde dar sem que o Vasco Pulido Valente que todos conhecemos e amamos não lhe prognosticado a sua evidente impossibilidade. Manuel Alegre tem ainda muito caminho para percorrer; mas pode já respirar de alívio por saber que este primeiro escolho lhe foi removido.

Com infalível falibilidade, note-se, a previsão de Vasco Pulido Valente não vale só pela forma, mas também pelo conteúdo, a saber, que “o dr. Manuel Alegre condenou anteontem a decisão dos ministros das Finanças da União Europeia de impor um “visto prévio” ao Orçamento dos países-membros”. O problema não é ser isto incorreto — “formalmente, Manuel Alegre tem toda a razão” — mas que a “atitude de Alegre” o “torne assim, indiscutivelmente, o candidato do Bloco”.

Vale a pena perder algum tempo descendo a estes pormenores. Continuar a ler ‘Bingo!’

Armar ao pingarelho

O Presidente da Comissão, “guardiã dos tratados”, se cala quando os direitos fundamentais dos europeus — liberdade de movimentos, direito à não-discriminação — estão a ser violados

Vídeo * Rui Tavares – Estado da União – PE Estrasburgo *

Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, fez ontem o primeiro discurso de sempre do Estado da União — uma cerimónia nova a cuja ideia talvez não seja alheio o discurso do mesmo nome que todos os anos o Presidente Obama faz, com audiências televisivas de mais 40 milhões de pessoas.

Tratando-se de Durão Barroso, porém, houve quem tivesse medo de que nem a casa se conseguisse encher. A Presidência do Parlamento Europeu inventou umas multas manhosas que seriam aplicadas aos deputados que, no momento da chamada, não premissem um botãozinho de verificação de presença. Não passou pela cabeça de ninguém que seria um pouco humilhante para Durão Barroso partir do princípio que apenas sob ameaça de extorsão alguém aceitasse ouvir o que ele tem para dizer. Mas isto não foi culpa dele.

Mais extraordinário ainda, não passou pela cabeça de ninguém — nem do próprio — que a melhor forma de garantir o interesse por este e por futuros discursos seria fazer, singelamente, um bom discurso. Um discurso em que se dissesse coisas importantes, por exemplo. Quem sabe, coisas relevantes. Com um pouco de sorte, coisas corajosas. Imaginemos, por exemplo, que fosse necessário criticar severamente o líder de um dos estados-membro mais poderosos da União. Um discurso importante, relevante e corajoso não se coibiria de o fazer — e as pessoas seriam capazes de o ouvir, e depois de o recordar.

Mas isto são noções demasiado rebuscadas para certos nichos da eurocracia. Para alguém que limitasse as suas expectativas ao mínimo, esperar-se-ia uma coisa de um discurso do Estado da União. Vá lá, não é difícil: que falasse do Estado da União.

Mas não! Juro-vos que não estou a inventar, Continuar a ler ‘Armar ao pingarelho’

Falhámos nós

Costuma-se dizer que o estado falhou na Casa Pia. Dizer isso é impessoalizar a coisa. Mais do que o estado, quem falhou foi a comunidade — falhámos nós.

À exceção eventual de “sórdido”, não me lembro de uma única palavra adequada para o caso Casa Pia. Qualquer coisa dita é sempre uma coisa desajustada, que não faz justiça, uma mancha verbal só justificada por uma razão: o silêncio seria ainda mais vergonhoso.

De resto, tristeza. Tristeza pelas então crianças e tristeza pela instituição fria que não as protegeu. Tristeza pelos aspectos predatórios que a natureza humana tem. Tristeza pela demora e pela incompetência e pela dúvida, e pela possibilidade de inocentes ficarem também eles manchados. Tristeza porque uma maldade não apaga outra. Tristeza pelas famílias e amigos dos culpados — todos os criminosos têm alguém que gosta deles. Tristeza pelos aproveitadores e oportunistas que estas coisas arrastam.

Nessa lamentável paisagem, distinguem-se aqueles que fizeram o que era sua responsabilidade. Quem tenha escrito ponderando — e não era fácil. Quem tenha investigado sem paixão — e não era fácil. Quem tenha julgado com justiça. Quem tenha defendido um réu acreditando na sua inocência, ou apenas  acreditando que toda a gente tem direito a uma defesa em tribunal. E acima de tudo, quem tenha prestado testemunho verdadeiro, lutando contra a vergonha e a memória e o trauma — e isso deve ter sido o mais difícil de tudo. Não sei quantas pessoas cabem em cada uma destas categorias. Só cada uma delas saberá se foi o seu caso.

O colégio Dona Maria Pia, na Madre Deus, pertencente à Casa Pia, ficava a duzentos metros da minha escola primária em Lisboa. Cruzávamo-nos com os miúdos da Casa Pia na rua e tínhamos em mente os avisos dos nossos professores, dos contínuos, dos nossos pais e irmãos mais velhos. Os miúdos da Casa Pia eram — se pesarmos bem as palavras Continuar a ler ‘Falhámos nós’

Esquecer caras, escolher palavras

Eu não dou opiniões: escolho palavras. Umas palavras desdobram as outras.

Tenho um caso moderado de prosopagnosia, diz uma amiga que estuda estas coisas. Chama-se prosopagnosia à dificuldade de reconhecer rostos.

Para compensar, uso pequenas manhas. Aviso toda a gente. Quando dei aulas, fazia questão de dizer aos meus alunos, na aula de apresentação: “se eu não vos cumprimentar no corredor…” (e aqui poderia ter acrescentado: “…é porque tenho um caso moderado de prosopagnosia”. Passado algum tempo, porém, esqueço-me se já avisei aquelas pessoas ou não, tenho receio de me tornar repetitivo. E então, de vez em quando, lá vão regressando as queixas: serei mal-educado, não cumprimentei fulano, já não conheço os velhos colegas, etc.

Quando isso acontece, passo à fase seguinte: cumprimento toda a gente que julgo conhecer. Atravesso a rua para os saudar. E quando chego perto deles, pronto a abraçá-los, passo pela vergonha de ter de admitir perante um estranho que o tinha confundido com alguém. Sucedem-se os episódios: uma vez acariciei o pescoço de uma jovem atriz (que nunca me fora apresentada) pensando que era uma amiga dos tempos da faculdade. Outra vez confundi duas mulheres que tinham, entre elas, uma diferença de quarenta anos de idade (a mais nova não achou graça — ou melhor, riu à gargalhada, mas não achou graça à mesma). E aí nascem novas histórias: que sou distraído, que faço figuras ridículas.

Envergonhado, deixo de cumprimentar toda a gente. Passo por arrogante. Envergonhado, volto a cumprimentar toda a gente. Passo por tontinho.

A prosopagnosia já me deu uma lição de humildade Continuar a ler ‘Esquecer caras, escolher palavras’