Arquivo mensal para May, 2010

Abram os olhinhos, pá

Uma notícia mal amanhada bastou para acordar os jornalistas nacionais para o populismo anti-político. Já agora, mantenham-se acordados para as coisas sérias também.


"Europa" - Carlos No

Declaração de interesses: toda a crónica de hoje é uma longa declaração de interesses, às vezes mais interesseira, e talvez sem interesse nenhum. Mas dê-se o devido desconto.

Anda um tipo a esfolar-se durante meses para preparar dois relatórios do Parlamento Europeu, no caso sobre refugiados (um relatório é o documento que pode, entre outras coisas, alterar a lei europeia). Este trabalho incluiu dezenas de reuniões e consultas, incluindo visitas a campos de refugiados. Se for bem feito, permite dar uma vida nova a milhares de pessoas das mais vulneráveis do mundo. Os dois relatórios foram aprovados com mais de 500 votos, dos comunistas aos conservadores.

Não só sou eu. A minha vizinha e amiga do BE, Marisa Matias, fez um relatório sobre medicamentos falsificados que, sem exagero, se pretende que salve vidas. Bons colegas de outros partidos têm feito relatórios importantes. Carlos Coelho (PSD) sobre política de fronteiras e vistos. João Ferreira (PCP) sobre catástrofes naturais. Luís Paulo Alves (PS) sobre agricultura nas regiões periféricas. E deve haver outros, mas eu não sei deles.

Não sei, porque Continuar a ler ‘Abram os olhinhos, pá’

Um mundo sem privacidade

O desrespeito pela privacidade pode ser pernicioso para a sociedade como um todo. Diretamente a privacidade protege a sua liberdade.

Em Portugal já foi possível ser preso por varrer a casa ao contrário. Não acredita? Então vou contar-lhe uma história.

É comum, nas casas judaicas, afixar um rolo de pergaminho na ombreira da porta da entrada. A este rolo, que contém dois versículos da Bíblia e que às vezes está guardado dentro de uma caixa, chama-se mezuzá — o que significa precisamente “umbral” em hebraico. Para os judeus observantes esta é uma obrigação prescrita pela escritura sagrada, e todo o máximo respeito é devido à mezuzá.

Agora imagine que vivia no Portugal do século XVII, por exemplo em Castelo de Vide, vila de casas térreas, muitas vezes de porta aberta para a rua. Se Continuar a ler ‘Um mundo sem privacidade’

Redundâncias

Se a soberania for como a virgindade, isso significa que podemos perdê-la sem que outrém a ganhe.

Tenho um peso na consciência. Na última crónica usei a certa altura a expressão “pessimistas jeremíadas” para me referir às crónicas de Pacheco Pereira, Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares. Peço desculpa. Trata-se de uma redundância: uma jeremíada é, por natureza, pessimista. Ainda tentei corrigir enviando uma emenda de última hora para “amargas jeremíadas”. Felizmente, não fui a tempo: uma jeremíada é sempre amarga; outra redundância. Quais eram as opções corretas? Repetitivas jeremíadas. Preguiçosas jeremíadas. Em última análise, redundantes jeremíadas.

Descobri no outro dia que há autores sérios de ciência política (Neil McCormick, num livro chamado Questioning Sovereignty) que se perguntam se a soberania é como a propriedade ou a virgindade. A pergunta vem de outros autores mais sérios ainda, em particular Hegel, e explica-se em duas frases. Continuar a ler ‘Redundâncias’

Tempos assustadores

Ter uma estratégia em Bruxelas, que fosse de agir e não de reagir. Se houve tal estratégia, ninguém no governo de Portugal se deu ao trabalho de informar.

Isto aconteceu em apenas uma semana.

Em Portugal temos um governo de bloco central. Na Europa temos um governo económico. Em ambos os casos são governos de facto e não de jure.

E agora, a ironia. Em Portugal, o governo de bloco central não manda, porque quem manda é Bruxelas. E em Bruxelas, o governo económico – aliás, antidemocrático e antifederal – também não manda, porque se limita a reagir “aos mercados”.

Estas duas notícias ainda há uns meses mudariam tudo. Agora são de uma absurda irrelevância. Tempos fascinantes.

Que crise é esta, em que todos ralham e todos parecem ter razão? É uma crise para os adversários da desregulação, e outra para os adversários do endividamento. Uma crise para os keynesianos e outra para os antikeynesianos. É uma crise feita de várias crises juntas. O seu nome é instabilidade.

O melhor economista da instabilidade que conhecemos era o americano Hyman Minsky, falecido em 1996, que se opunha em simultâneo à desregulação, à dívida, e à retração do governo. Na sua obra maior, publicada nos anos 70 e chamada Estabilizando uma economia instável, ele deixa algumas notas interessantes:

Primeira: Continuar a ler ‘Tempos assustadores’

Cerejeira em flor

O Papa veio a Portugal em pleno ano do centenário da República. À nossa democracia que o recebeu com tanta pompa atirou uma citação da ditadura como uma pedra de mão escondida.

Cardeal Cerejeira e Salazar (1º e 3º a contar da esquerda) Inauguração da exposição do Mundo Português (Lisboa 23.06.1940) Foto: Mário Novais

Ligo a SIC para ver a transmissão da visita do papa. Sou imediatamente distraído por uma música pseudo-sacra de órgão como som de fundo enquanto a pivot lê as notícias. Mudo para a RTP. A mesma estapafúrdia ideia, mas agora com uma música de coro entre o gregoriano e o new-age. Os repórteres em direto ora descrevem a mecânica do “papamóvel” ora tentam improvisações teológicas mal-amanhadas. Pedro Santana Lopes, em entrevista, perora sobre a “alta craveira intelectual” de Bento XVI. Santana Lopes! Os jogadores do Benfica (do Benfica!) foram entregar uma águia e uma camisola da equipa de futebol ao Papa. Foi pena faltar um fadinho. E alguém lembra que a “sacristia improvisada” da “santa missa” foi no Ministério das Finanças (na situação endividada em que estamos, ninguém pode levar-nos a mal por tentarmos um milagre).

Eu não posso ter sonhado isto tudo. Será que já não há nada sagrado? Continuar a ler ‘Cerejeira em flor’

Duas facadas na República

O que fez a “justiça” foi pegar numa coisa que parece corrupção, se comporta como corrupção, fede e tresanda como corrupção – e dizer que está tudo bem.

Se houvesse alguma coisa engraçada para dizer sobre dois episódios recentes da vida portuguesa, eu juro que tentaria lembrar-me dela. Eu tentei, aliás; seria agradável ter alguma espécie de alívio cómico no meio do que prometia ser uma crónica amarga. Mas quanto mais me forçava a pensar no que escrever, mais angustiado fiquei. Agora desejo apenas terminar e enviar o texto.

O primeiro episódio é a absolvição de Domingos Névoa no “caso Bragaparques”. Como se lembram os leitores, Domingos Névoa foi a primeira pessoa apanhada em flagrante a tentar comprar um político para que este mudasse a sua posição num negócio de imobiliário muito vultuoso. Os factos foram provados pela investigação e comprovados pelos tribunais.

Num primeiro passo, a “justiça” multou-o num montante ridículo, muito abaixo do que ele esteve disposto a pagar ao vereador em causa, José Sá Fernandes, e uma fração insignificante daquilo que Domingos Névoa teria a ganhar com o negócio. Num segundo passo, a “justiça” multou Ricardo Sá Fernandes, irmão do vereador e denunciante do caso, por ter chamado “corrupto” a Domingos Névoa, imagine-se: chamar-lhe aquilo que fora provado que ele era. Mas isso era antes do desfecho: num terceiro passo, a “justiça” ilibou Domingos Névoa por considerar que ele não tinha comprado o vereador certo.

Que dizer sobre isto? Que a “justiça” juntou a injúria ao insulto, e Continuar a ler ‘Duas facadas na República’

Vamos todos chorar?

Durão Barroso, em quem deveríamos todos votar por dever patriótico, não tem aparecido, isto enquanto o seu país vai pelo cano.

Washington. – Kissinger pediu uma vez que lhe encontrassem qual era o número de telefone que ele deveria usar se precisasse de ligar para a Europa. O antigo secretário de Estado americano era um homem famoso e esta foi provavelmente a sua frase mais famosa. Ficou na cabeça dos europeus durante décadas. Finalmente, saíram-se com uma resposta, contida no Tratado de Lisboa. É ela…

Quatro números de telefone. Pelo menos. Barroso, Van Rompuy, Ashton e a presidência espanhola. Daqui a uns meses será a presidência belga, se até lá este país tiver voltado a ter governo (agora não tem e a última vez que isto aconteceu ficou assim sete meses – a propósito: um país sem governo, deficit alto e uma dívida pública acima dos 100% do PIB, maior do que a nossa, não terá direito a ser despromovido nas agências de notação ou será que possui atestado de bom comportamento por razões geográficas?).

Os americanos podem também experimentar ligar a Angela Merkel, mas ela não atende o telefone. Até às eleições numa província alemã, a Europa e o Mundo que se lixem.

Que lindo serviço. Continuar a ler ‘Vamos todos chorar?’