Arquivo mensal para April, 2010

Como acabar com a crise da crise grega

Os especuladores fazem aquilo que se lhes deixa fazer. E não foram eles que apontaram uma arma à Europa e nos obrigaram a fazer uma moeda única sem solidariedade.

Considere um artigo de quando o euro estava em alta. Dizia ele que a moeda europeia corria um risco apreciável de desaparecer nos anos seguintes: bastaria que uma das suas economias mais frágeis e ameaçadas tivesse de abandonar a moeda.

Na altura, seria fácil menosprezar esse artigo – se bem me lembro no Wall Street Journal – como agoirento e implicativo. Hoje seria menos fácil negar-lhe um certo sentido.

Ora vejamos a Califórnia, estado americano muito populoso e produtivo, por si só uma das grandes economias do mundo. A propósito: também está falido. Mas isso não tem um efeito enorme no dólar. Já a hipotética falência da Grécia, que representa meros três por cento do PIB europeu, pode chegar para: 1) transformar a hipotética falência da Grécia em real falência; 2) espalhar o contágio a outros países da zona euro, entre os quais Portugal, que também não é a Califórnia; 3) causar a amputação ou o fim do euro; 4) obrigar ao maior recuo de sempre do projeto europeu.

Mas há uma maneira de sair desta crise em dois passos. É ela os líderes europeus dizerem, com a solenidade suficiente, o seguinte: “Não há economias periféricas nem centrais na zona euro; um ataque a um país da zona euro é um ataque ao euro enquanto todo; e não haverá nenhuma falência na eurolândia porque nós não o permitiremos; teria de falir a zona euro inteira, e isto só aconteceria a dois passos do apocalipse financeiro global, ou seja, não vai acontecer. Muito obrigado por terem ouvido.”

E o segundo passo? Continuar a ler ‘Como acabar com a crise da crise grega’

Carta aos carteiros

Se a ideia de privatizar é poupar uns euros no défice, trata-se de uma péssima ideia. E em troca desse disparate teremos um mau serviço quando tínhamos bons correios.

Se eu pudesse dar um conselho aos nossos governantes, presentes e futuros, sobre os correios portugueses, esse conselho seria: se é para estragar, nem sequer pensem em mexer-lhes. Não é por acaso que, em estudos feitos há alguns anos, os correios apareciam como uma das instituições em que os portugueses mais confiavam. A razão era simples: funcionavam.

A prova pude fazê-la mudando de país. Na Bélgica, onde passo uma grande parte do meu tempo, o serviço prestado pelos correios é manifestamente inferior ao serviço equivalente em Portugal. E isso é também manifestamente irritante: num tempo dominado pela Internet, a importância de ter correios fiáveis aumentou, não diminuiu – desde logo, por causa do comércio postal, mas também do envio de senhas de utilizador por carta. Aqui na Bélgica as encomendas às vezes chegam, outras vezes chegam tarde, outras vezes não chegam.

Será isto porque os correios belgas foram privatizados a 49,9%? Se a honestidade intelectual nos manda admitir que algumas privatizações possam fazer sentido, isso significa também reconhecer que outras não fazem sentido nenhum. E, sobretudo, deve levar-nos a olhar para os dados empíricos: afinal, que diabo, há outros países que tentaram o mesmo antes de nós. Que tal perguntar? Tanto quanto consigo saber, a resposta é Continuar a ler ‘Carta aos carteiros’

Na ementa da lula-vampiro

Tenho más notícias: a próxima refeição da lula-vampiro gigante é um pequeno país chamado Portugal.

“A primeira coisa que precisam de saber sobre o banco Goldman Sachs é que ele está em todo o lado. É uma gigantesca lula-vampiro enrolada na cara da humanidade, com o seu tubo de sucção alimentar incansavelmente fossando em busca de tudo o que lhe cheire a dinheiro.”

Um dos meus pequenos orgulhos enquanto leitor é ter descoberto o autor (e ex-basquetebolista) Matt Taibbi há cinco anos, bem antes de ele ser famoso por algumas das metáforas mais invulgares e memoráveis que a imprensa escrita já viu.

Nos últimos dias vi ser utilizada várias vezes a sua descrição do banco Goldman Sachs, que reproduzo acima, para descrever as últimas descobertas sobre as práticas predatórias (e possivelmente fraudulentas) deste banco. Segundo agora se sabe, o banco escondia o risco de investimento em alguns dos seus produtos financeiros (os CDO) por detrás de uma estrutura propositadamente confusa. Este obscurecimento é aquilo a que o economista Erik Gerding chamou de “complexidade intratável”, e é comum a vários dos produtos financeiros da crise. A hipótese de fraude é que o Goldman Sachs talvez utilizasse o mesmo esquema para esconder o favorecimento de certos clientes.

O banco tem dado duas respostas a estas acusações. A primeira: toda a gente fazia o mesmo! A segunda: mas nós éramos transparentes!

A réplica à primeira resposta poderia ser: Continuar a ler ‘Na ementa da lula-vampiro’

Momento epictetiano.

O que mais fascina todos aqueles que não estão bloqueados em aeroportos é a radical incerteza de tudo isto.

Epicteto era escravo, era aleijado, vivia no tempo do imperador Nero e gostava de escutar as lições do filósofo estóico Musónio. Quando um dia ganhou a liberdade decidiu abrir uma escola filosófica que funcionasse “como um lugar de cura para almas doentes”.

A primeira das suas lições, que foram fielmente transcritas por um discípulo chamado Arriano, era sempre sobre o tema: “as coisas que podemos controlar e as coisas que não podemos controlar”.

Epicteto sustentava que o sofrimento advinha de tentarmos controlar coisas que não podemos controlar. Para ele, as coisas que não podemos controlar são em geral as externas, ou seja, aquelas que nos acontecem a nós. As coisas que podemos controlar, a bem dizer, são apenas as que temos dentro da cabeça, ou seja, as nossas ideias e atitudes.

Claro que o mundo se alterou muito desde que Epicteto viveu, e a humanidade mudou também o seu bocado. A técnica permitiu-nos que controlássemos muitas mais das coisas “externas” que Epicteto achava que eram incontroláveis, e daí procedeu uma certa arrogância que ganhámos em relação à natureza.

Mas entra em cena um vulcão islandês de nome impossível de recordar e, de repente, eis-nos num momento epictetiano.Não há tecnologia, meus caros, que nos permita ir lá ao vulcão e pôr-lhe em cima uma tampa. A única coisa que nos resta controlar é a nossa ansiedade, enquanto não sabemos se os aviões podem ou não levantar voo.

(Enquanto escrevo, dezenas de eurodeputados enviam mensagens ao secretariado do parlamento para tentar saber se teremos ou não sessão mensal em Estrasburgo, que deveria começar amanhã. Se a tivermos, será certo que a assembleia estará fortemente distorcida pela arbitrariedade geográfica, e dominada por deputados da Alemanha, da França, e alguns daqueles que como eu decidiram ficar o fim-de-semana em Bruxelas. Alguém imagina o que sucederá se um parlamento cheio de alemães mas sem gregos votar o que quer que seja sobre a crise grega?)

O que mais fascina todos aqueles que não estão bloqueados em aeroportos é a radical incerteza de tudo isto. A erupção vulcânica e a sua nuvem de cinza podem durar mais um dia, ou uma semana. Ou um mês. Ou um ano. Não se sabe. Pode regressar mais tarde, ou não. O vento pode mudar, ou também não. A erupção pode desencadear outras erupções em vulcões vizinhos. E daí, talvez não.

Caso a situação se mantivesse, é certo que as consequências para a aviação comercial seriam enormes. Para as mentes mais imaginativas e nostálgicas, é uma boa ocasião para lembrar o tempo em que se ia da Europa para a América em transatlântico ou dirigível. Outros ainda recordam as propostas de diminuir o aquecimento global lançando para a atmosfera grandes quantidades de enxofre. E se a erupção continuasse? Nesse caso teríamos o equivalente ao famoso ano de 1816, conhecido por ter sido “o ano em não houve verão” (a nossa corte não deu por isso porque estava no Rio de Janeiro).

Quanto a este último pedaço de fantasia, os cientistas que falaram sobre o assunto já nos disseram que não é possível: 2010 não será o novo 1816.

Mas será sempre 2010. Com coisas que não podemos controlar e coisas que podemos controlar. Enquanto durar, apreciemos o nosso momento epictetiano.

Escreva o final

Nunca vi isto: o primeiro-ministro é refugiado, o presidente é um refugiado, todos os deputados o são.

Acampamento de refugiados sarauís - Smara

Smara. – Oficialmente, estou em território da Argélia, mas aqui não se vê uma única bandeira deste país, nem se fala com ninguém que se diga argelino. A cidade mais próxima, Tinduf, é sim uma cidade argelina; mas para lá irem as pessoas à minha volta precisam de mostrar um documento especial de trânsito (apenas elas: nós não estamos obrigados a isso).

Onde estou então? No deserto; longo e único como só nós o vemos.Quem aqui mora tem para ele vários nomes em árabe, ou então usam palavras herdadas das línguas berberes para designar e distinguir o deserto plano do deserto das colinas, o terreno compacto e ocre das dunas de areia.

A tarefa é mais complicada ainda pelo facto de que, a quinhentos quilómetros daqui, há outro lugar chamado Smara. Se fosse possível lá ir, que não é, pelo menos não em linha reta.

Eu explico. Continuar a ler ‘Escreva o final’

Como as nuvens.

Brasília

É como uma nuvem, a História: gigantesca e cheia de delicadeza. Uma coisa grande que parece mudar lentamente; mas distraímo-nos e já está inteiramente diferente.

Não faltam na história situações fortuitas, ou próximo disso, de consequências irreversíveis. Vistas de perto, não seriam incomparáveis com o acidente que, no passado sábado, decapitou a república polaca, começando pelo seu Presidente, chefias militares e alguns dos principais políticos.

Um estudante tenta matar o herdeiro do trono austríaco enquanto ele visita Sarajevo, a 28 de junho de 1914. Não consegue à primeira, desencontra-se da caravana, reencontra-a quase por acaso, dispara o seu revólver. O arquiduque Francisco Fernando morre, a sua mulher também. Pouco depois, começa uma guerra mundial.

Roma está a arder em Maio de 64 d.C., sabe-se lá porquê, terá sido um forno de pão aceso ou o próprio imperador ou um animal a provocar acidentalmente o fogo? Nero culpa os cristãos e persegue-os impiedosamente, contribuindo a prazo para aumentar a coesão, e a força, da então ainda pequena seita.

Estes são os exemplos clássicos. Poderíamos acrescentar: Continuar a ler ‘Como as nuvens.’

O escandalómetro

As actas das contrapartidas desapareceram da comissão das contrapartidas, presidida por um senhor que é hoje deputado do CDS. O deputado diz que as actas ainda lá estão. “Fonte conhecedora do processo” diz que elas “nunca apareceram”. Se pedirem a Paulo Portas, com jeitinho, talvez ele tenha a fotocópia.

A direita tem uma teoria nova: a “fadiga dos escândalos”. O que explica esta teoria? É simples. Internacionalmente, houve um escândalo com a Igreja. Nacionalmente, renasceu um escândalo com Paulo Portas. Logo, a direita acha que “as pessoas estão fartas de escândalos”.

Como é que eles sabem isto? É simples: a direita tem um aparelho, misto de detetor de metais e contador geiger, que se chama o escandalómetro. Quando utilizado em temperatura ambiente, dá sempre uma consequência clara e evidente. O escândalo vem do lado de lá: é um ultraje, o fim do regime! O escândalo vem do lado de cá: já cansa, pá, passemos a outro assunto. Continuar a ler ‘O escandalómetro’

César está a ganhar

Quanto a nós – não-católicos como católicos – pedimos exatamente o mesmo à igreja que pediríamos a qualquer outra instituição: que não branqueie os crimes e que entregue os criminosos.

A recente polémica sobre a pedofilia na igreja representa um estágio – porventura final – de algo que começou há duzentos e cinquenta anos: o processo de fazer da igreja uma instituição igual às outras, dentro do Estado. Identificar esse processo, bem claro no mundo católico quando Roma passou a ser a capital de um Estado italiano e o Vaticano uma cidade-estado ainda que com atribuições “espirituais”, não implica concordar ou discordar dele. Mas implica reconhecer que ele está para lá das fronteiras da “comunidade dos crentes” e que nos implica a todos enquanto comunidade politicamente organizada.

Enquanto pessoa irreligiosa, eu não tenho de ter opinião sobre quem pode ser bispo, tal como não tenho de ter opinião sobre quantos devem ser os sacramentos. Se tiver opinião, sei que será sempre uma opinião sobre um clube que não é o meu. Continuar a ler ‘César está a ganhar’

“Todos têm uma história para contar”


O ponto de vista do refugiado: a segunda foto foi feita pela menina da primeira foto. [Campo de Refugiados de Al Hol, Síria, Março 2010]

Um outro homem ligou ao irmão que vive na Suécia e ele disse-lhe: “Escuta, agora sou um ser humano, tenho um passaporte, posso trabalhar, não fico no campo o dia todo.”

Bairro de Jarraman, Damasco, Síria. – À minha frente estão várias iraquianas. Cada uma delas diz o seu nome, a sua cidade, a sua história. Isma é casada e tem cinco filhos; o marido, três filhos e uma filha regressaram ao Iraque; a filha entrou na Universidade; ela não volta enquanto o quinto filho continuar a receber ameaças de morte. Maya é licenciada em Gestão, vivia bem no Iraque antes da guerra, mas é de religião sabeia; os sabeus (e mandeus) não são cristãos nem muçulmanos; dizem acreditar em São João Batista, e nos anjos; praticam rituais de pureza com água e dão extrema importância ao batismo. Foram ferozmente perseguidos por fanáticos depois da invasão do Iraque.

Dahid era professora de Física. É muçulmana xiita, mas casada com um sunita: “Nos meus filhos corre sangue sunita e xiita.” Os fanáticos de um e do outro lado não gostaram dessa mistura e escorraçaram-nos da cidade. Hoje é voluntária do ACNUR entre outros refugiados como ela: “Tento pelos meus modestos meios encontrar soluções.” Continuar a ler ‘“Todos têm uma história para contar”’