Arquivo mensal para March, 2010

Comentários

Passei a ter de exercer maior controle sobre os comentários deste blogue. Espero que compreendam.

A pergunta fatal

Não, não quero ser simpático. Estamos num momento em que estes líderes têm de ouvir coisas antipáticas. Acordem! Vocês já são os piores líderes da União.

Por que é a atual geração de líderes de uma mediocridade tão confrangedora?

Eis uma pergunta que eu não queria fazer. Porque me parece lugar-comum, porque desprezo o decadentismo, porque profissionalmente voto a esta atitude uma desconfiança fria, de historiador.

Mas não há como fugir. A razão é simples Continuar a ler ‘A pergunta fatal’

O país do futuro próximo

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Luso-tropicalismo: fusão entre bandeiras num ônibus da companhia Braso-Lisboa, Rio de Janeiro.

O lado positivo será apresentar ao Brasil uma nova geração de portugueses. Mas isto significará que Portugal não os conseguiu segurar. O que aliás já é verdade.

Rio de Janeiro. – Guardem esta idéia: nos próximos dez anos regressará a emigração portuguesa para o Brasil. Só espero que não ultrapasse a imigração brasileira para Portugal – nós precisamos de mais gente, e gente nova, do que eles. Mas a nova emigração portuguesa para aqui vai ser diferente da anterior: vai ter características de fuga de cérebros.

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E depois do fim

Quanto mais tempo o PS demorar a apoiar Manuel Alegre, mais perde este comboio.

O canto das sereias (Odisseia)

A ala esquerda do Partido Socialista soube manter-se disciplinada durante o caso PT-TVI. Mas agora, com o PEC, as suas vozes mais importantes souberam correr riscos e optar pela indisciplina. Tiro-lhes o chapéu.

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A aberração

Há muito tempo que o PSD não tem um líder de cultura não-autoritária. E, pelos vistos, ainda não é desta vez que o vai ter.

Auctoritas

Até um anarquista pode ser autoritário (acontece com pessoas que eu conheço). Ser autoritário, no sentido que eu uso aqui, é um traço de temperamento. Não é, porém, a mesma coisa que participar de uma cultura autoritária. Uma coisa é psicologia individual e a outra é psicologia coletiva ou, em última análise, ideologia.

A pessoa mais filosoficamente libertária, ou mesmo apenas convictamente liberal, nunca seria capaz de admitir uma aberração como a que o PSD votou no seu congresso e que prevê penas para quem criticar o partido nos dois meses que antecedem atos eleitorais. Essa mesma pessoa poderia dar dois berros em casa por causa de um livro mal colocado na estante. Mas votar uma aberração daquelas, deliberadamente, num congresso, ou deixar que ela passasse sem protestar? Nem pensar. Teria náuseas só de pensar nisso. Continuar a ler ‘A aberração’

Claro-escuro

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Turistas na Fontana di Trevi [março 2010]

Caravaggio deu dramatismo à sua Itália dramática; Hopper subtraiu triunfalismo aos seus EUA triunfalistas.

Roma. — Uma multidão espera às portas das Escuderias do Quirinal, duas horas de fila, para poder ver reunidas duas dezenas de quadros de Caravaggio, uma ocasião rara.

Caravaggio não pintou muito. A vida intervinha sempre e não era uma vida fácil num tempo fácil. Quando se tornou famoso, por volta de 1600, era tempo de fogueiras. Queimaram Giordano Bruno numa praça ali abaixo, o Campo dei Fiori. Caravaggio, enquanto durou 38 anos, jogou muito, fornicou muito, matou um homem, fugiu para cada vez mais longe — Nápoles, a Sicília, Malta.

Acho que ele era do género que se pergunta “e se?” Continuar a ler ‘Claro-escuro’

Boletim de Estrasburgo

À distância vejo que uma questão continua a pipocar de quando em vez na corrida sobre a liderança do PSD. Segundo o debate entre Pedro Passos Coelho e Paulo Rangel, continua em jogo saber se o discurso deste último no Parlamento Europeu sobre o caso PT/TVI, faz agora cerca de um mês. Afinal, de que se tratou? Foi uma corajosa defesa da liberdade de imprensa, como sugerem os apoiantes de Paulo Rangel, alertando a Europa para o que se estava a passar em Portugal? Ou foi uma irresponsabilidade, como insinua Pedro Passos Coelho e o PS, fazer tal discurso quando Portugal estava sob o olhar das agências de rating, colocando assim em risco a nossa economia? Pessoas que sabem que estou no Parlamento Europeu perguntam-me isto.

A minha resposta é: nem uma coisa nem outra. Continuar a ler ‘Boletim de Estrasburgo’

Corte uma perna

Pois é: os salários são um custo. Mas também são uma fonte de procura.

“Quer perder vinte quilos de uma vez?” — diz a velha anedota, e responde: “corte uma perna!”

Nesta altura do campeonato já não espanta que a opinião dominante no nosso país seja uma versão desta anedota em teoria económica. Vários economistas, tão vociferantes quanto insistentes, pretendem que Portugal precisa de medidas radicais para resolver os seus problemas do défice e da dívida. A solução proposta, com ar de quem não faz mais do que anunciar o inevitável, é cortar nos salários dos portugueses. Que tal dez por cento para começar?

À primeira vista, faz sentido. Continuar a ler ‘Corte uma perna’

Está lá tudo

O país tem cidadãos suficientes para que as coisas sejam bem feitas. Só que ninguém os quer ouvir.

Chamo a vossa atenção para uma reportagem de cinco minutos que passou em 2008 no programa “Biosfera” da RTP2. Pus uma reprodução dela no meu blogue (http://ruitavares.net) e há várias outras a correr pela internet. O tema dessa reportagem é o efeito das intempéries nas ribeiras da Ilha da Madeira, nomeadamente em caso de chuvadas concentradas e muito abundantes.

A razão por que gostaria que vissem esse vídeo é muito simples: está lá tudo.

Nas palavras claríssimas de uma porta-voz da organização ambientalista Quercus e de um professor de Geologia da Universidade da Madeira, está explicado que as chuvadas como as que ocorreram há uma semana na Madeira são pouco frequentes, sim, mas descritas e conhecidas e esperadas. A formação das enxurradas de lama que todos vimos em imagem real aparece pedagogicamente narrada através de uma animação. E indicam-se alguns princípios de planeamento defensivo: à volta das ribeiras, sugere o professor de Geologia, devem construir-se jardins e parques, “que também são precisos e são fáceis de evacuar”; manda o simples bom senso que se deva evitar a construção de infraestruturas, algumas das quais importantes (hospitais, quartéis de bombeiros) nas proximidades das ribeiras.

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