Arquivo mensal para January, 2010

Mais um pouco de Turquia

Jovens turcos no barco entre a Europa e a Ásia, em Istambul.

Hoje no Parlamento europeu relatei ao grupo da Esquerda os resultados da visita que com o meu colega dinamarquês Søren Søndergaard fiz à Turquia. A parte mais pessoal e “reflexiva” da visita meti nas crónicas ao Público que estão no blogue aqui e aqui. A parte política está relacionada com a extinção do partido pró-curdo DTP, a suspensão de direitos políticos do líder curdo Ahmet Türk e questões relacionadas com o famoso artigo 301 do Código Penal turco (que criminaliza #insultos à nação turca”). No futuro terei mais a dizer sobre isto, uma vez que continuarei a seguir o caso.

Saí da reunião a pensar no assunto.

O que se passa entre a UE e a Turquia é muito paradoxal. Por um lado, continuam as negociações para a entrada como se nada fosse. Por outro lado, Sarkozy e Merkel dizem que a Turquia nunca entrará. A sociedade turca já não acredita e está completamente desanimada, nomeadamente os jovens e os estudantes, as minorias étnicas, os intelectuais e escritores, e toda a comunidade mais civilista e secular — ou seja, todos os que eram euro-entusiastas no passado. Os burocratas e funcionários vão implementando o que têm a implementar e fazem paulatinamente o seu caminho. Sarkozy e Merkel dizem, direta ou indiretamente, que a Turquia não entrará por ser muçulmana, por ter a localização geográfica que tem, ou por ter mais população do que a Alemanha. Na prática, o mercado turco já está na UE, Istambul é a capital europeia da cultura, os estudantes turcos fazem erasmus. Para todos os efeitos, a Turquia é como se fosse o 28º membro da UE. Mas nunca será mais do que isto, parece. E isto é, para já, o pior de dois mundos. A UE não é exigente em termos de direitos humanos, liberdade de expressão, minorias e o caso de Chipre. E os militares e o governo turco sentem que têm carta branca para fazer resvalar o país para o autoritarismo, o caos institucional, ou as duas coisas. Porque mesmo que fizessem todas as reformas e aberturas continuariam a ser muçulmanos, a ter uma parte do país na Ásia menor, e mais população do que a Alemanha.