Arquivo mensal para Setembro, 2009

Tomem e desembrulhem

A bola está do lado de Sócrates, mas as consequências não são as mesmas em qualquer das soluções.

O panorama político em que acordámos hoje é o mais interessante dos últimos anos. Depois deste ano frenético com três eleições, a política não sai de cena. Nunca uma legislatura prometeu ser tão diferente da anterior.

E isto tudo apesar do que não mudou. Comecemos por aí, que é mais fácil.

Em primeiro lugar, o eleitorado português continua firmemente de esquerda. A esquerda nos seu conjunto tem sempre mais de cinquenta por cento dos votos, ao passo que a direita não descola dos quarenta por cento. O eleitorado não tem confiança na maioria absoluta; mas quer ser governado à esquerda. Qualquer acordo à direita será feito contra uma maioria do eleitorado.

Continuar a ler ‘Tomem e desembrulhem’

O pentapartidarismo num país perto de si

Mas como em qualquer desenho, é preciso haver quem o saiba interpretar. E são os partidos menores, que mais beneficiam desta dispersão de votos, que mais interesse têm em demonstrar que ela não é danosa para o país.

Nas eleições de domingo, só uma grande surpresa não nos dará cinco partidos com lugares no parlamento, todos eles fruto de votações. Dois partidos entre os 25 a 30%, três partidos em redor dos 10%. Poderíamos dizer “dois grandes partidos” e “três pequenos partidos”, mas talvez não seja desajustado pensá-los como partidos na casa média-maior, dois deles, e média-menor, os três restantes.

Que país é este? A Alemanha.

Embora sejam mais conhecidos os sistemas bipartidários, como o dos EUA; — ou tripartidários imperfeitos, como na Inglaterra; ou mesmo tetrapartidários, como foi Portugal desde o 25 de Abril até ao aparecimento do Bloco de Esquerda — não é tão incomum aquilo que teremos em Portugal a partir do próximo domingo. A prova é que partilhamos com a Alemanha, maior país da UE, um desenho político quase feito a papel vegetal.

Continuar a ler ‘O pentapartidarismo num país perto de si’

Senhores responsáveis

Quando a imagem de responsabilidade se desvanece, porém, não resta mais nada. Não há uma ideia, não há uma forma de ver o mundo que disfarce o vazio que sempre ali esteve.

Uma característica antiga da política em Portugal é considerar-se que o poder não deve ser exercido por quem testou as ideias mais estruturadas ou mais frescas, quem melhor sabe ler os seus tempos ou quem consegue casar as duas coisas (uma leitura dos problemas do seu tempo com as ideias certas para eles). Não. Para o Portugal português, o poder deve ser exercido pelos senhores “responsáveis”. E como se sabe que esses senhores (e às vezes senhoras) são responsáveis? Sabe-se porque eles mesmos o repetem muito e porque têm muita gente à sua volta que também o repete muito. Os senhores responsáveis estariam portanto desobrigados de chegar ao poder pelas ideias; teriam assim uma espécie de direito pré-natural a ocupá-lo.

Continuar a ler ‘Senhores responsáveis’

Um ano e não tem pai

Um sistema bancário sombra carreava empréstimos (que depois revendia) baseado na ideia de que os preços do imbiliário nunca caíriam. Quantos exemplos históricos havia para justificar esta ideia? Zero.

A presente crise, como todos sabemos, não foi culpa de ninguém.

A crise começou há um ano (e um dia) quando a falência do banco Lehman Brothers lançou um tal pânico nos mercados financeiros que todo o sistema ficou à beira do colapso. “This sucker could go down” — esta brincadeira pode ir pelo cano, disse um George W. Bush em pânico, na Casa Branca, nos últimos dias do seu mandato. A culpa não foi de Bush.

Não. Na verdade, a crise começou um ano antes disso, em Agosto de 2007, quando os preços do imbiliário americano começaram a cair, arrastando com eles os créditos e as dívidas de milhões de americanos. Um sistema bancário sombra carreava empréstimos (que depois revendia) baseado na ideia de que os preços do imbiliário nunca caíriam. Quantos exemplos históricos havia para justificar esta ideia? Zero.

Continuar a ler ‘Um ano e não tem pai’

Quero lá saber das expectativas

No diário El Mundo: “Portugal no es una provincia de España — enfatizó Manuela Ferreira Leite, exaltada, en el debate”.

A diferença entre um debate e o governo é que no debate é preciso ganhar às expectativas. No governo é preciso ganhar à realidade. A diferença entre uma coisa e outra é que, no primeiro caso, basta ser menos mau do que esperavam de nós. No segundo caso é preciso ser o melhor possível.

(Na verdade, ninguém ganha à realidade. Mas é preciso tentar sempre.)

A realidade, para Portugal, não é favorável. Um país pequeno e periférico ou quase, com mais tempo de autoritarismo do que de liberdade, mais tempo de ignorância do que de conhecimento. Ganhar à realidade, no nosso caso, significa fazer das fraquezas forças; onde há pequenez criar cosmopolitismo, onde há prepotência exigir democracia, onde há desvantagens naturais inventar possibilidades alternativas. Ganhar à realidade significa, pelo menos, fazer por isso.

Continuar a ler ‘Quero lá saber das expectativas’

Mau karma

Mas como lembram os mesmos budistas, esse karma não é um azar nem uma fatalidade; é a consequência do caminho que escolhemos.

Uma pergunta útil nestas situações: se fossem outros a fazê-lo, como me sentiria? Nem sempre é possível responder com imparcialidade. Mas às vezes é só usar a memória.

Em 2005 os comentários de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI foram cancelados após protestos e reclamações do governo Santana Lopes. Eu lembro-me de como fiquei. Indignado. Não fui só eu: toda a esquerda ficou furibunda e uma boa parte da direita envergonhada.

Quando comentamos o caso do Jornal Nacional de 6ª feira [JN6], que foi cancelado pela mesma estação, convém ter isto em memória.

Continuar a ler ‘Mau karma’

De Ataúro

Quem esteve neste país em 1999 diz que já não se consegue imaginar o grau de destruição deixado pelas milícias e pelas tropas indonésias.

Belloi, Timor Leste. — A ilha de Ataúro, última porção de Timor Leste sob domínio português até poucos dias antes da invasão indonésia em 1975, tem os contornos de uma gota de água e talvez a área da ilha Graciosa, nos Açores. Vivem aqui cerca de nove mil pessoas, que falam tétum e uma outra língua local, nas montanhas, com vários dialectos.

Vivem aqui duas missionárias brasileiras protestantes, uma baptista que fala tétum com sotaque de Minas Gerais, a outra calvinista e oriunda da Paraíba. Faço a esta uma pergunta com rasteira: como decidiu vir para aqui? A missionária, que acredita na doutrina da predestinação, não se deixa enganar: não decidiu vir, diz-me, orou e Deus permitiu que ela viesse.

Continuar a ler ‘De Ataúro’

Num país mais do que viável

A questão é mesmo onde estão os portugueses; souberam angustiar-se e sofrer com Timor Leste. Mas parece que não sabem o que fazer agora.

Díli, Timor Leste. — Os pessimistas estão sempre em vantagem. Se as coisas correm mal, ganham porque tiveram razão. Se as coisas correm bem, ninguém se lembra que eles erraram; todos sentem que ganharam, e eles ganham também. Os optimistas estão sempre em desvantagem. Se as coisas correm mal, perdem mais ainda por terem tido a imprevidência de ser optimistas. Se as coisas correm bem, — bem, então nesse caso toda a gente se esquece que eles acertaram, ninguém pensa mais no assunto, toda a gente sente que ganhou, — e os optimistas, no máximo, empatam.

Aqui em Timor Leste, as pessoas dão-se ao luxo de estar optimistas, Dos yuppies engravatados das embaixadas aos hippies desgrenhados das ONG’s, todos me dizem que “Timor Leste não está nem sequer perto de ser um estado falhado”. Acima de tudo, são os próprios timorenses de todos os tipos, do governo à oposição e da universidade ao campo, que nos fazem pensar que Timor Leste está bastante melhor do que simplesmente não ser um estado falhado.

Continuar a ler ‘Num país mais do que viável’