Arquivo mensal para August, 2009

Lendo um jornal de Singapura

Na última década os salários dos singaporenses aumentaram mais do que o preço do imobiliário durante oito anos seguidos.

Em trânsito. Durante estes dias, em missão fora do país, não adianta sequer tentar acompanhar a campanha eleitoral em Portugal, que deve estar a ganhar pedalada.

O jornal que tenho à mão é, aliás, a coisa menos luso-lusitana de que me poderia lembrar: um exemplar do The Straits Times, de Singapura, datado de 22 de Agosto. Tem fama de ser um dos melhores jornais asiáticos em língua inglesa, e eu conhecia-o apenas da internet. Em papel, com a tinta desbotando-se nas mãos, é uma janela para outro mundo.

Primeiro exemplo: um artigo sobre como os singaporenses andam a comprar mais casas por causa do aumento de rendimentos entre a população. Na última década os salários dos singaporenses aumentaram mais do que o preço do imobiliário durante oito anos seguidos.

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O Brasil visto de outro ângulo

Pela sua história, língua, dimensões e pelo simples facto de a América portuguesa se ter mantido unida num só país, o Brasil é um caso à parte.

México. — Este é o país que mais sofreu com a crise. O número de pobres aumentou de seis para dez milhões, um Portugal inteiro. Metade dos novos pobres da América Latina estão agora aqui.

O México está a pagar o preço de ter apostado todo o seu futuro num só país, os Estados Unidos, que são o seu grande vizinho do norte. Quando a bolha do imobiliário rebentou na Califórnia, as ondas de choque atingiram em primeiro lugar os mexicanos; os jardineiros ou as empregadas domésticas que trabalhavam em San Diego ou Los Angeles voltaram cruzar a fronteira para Tijuana; as famílias para quem eles enviavam dinheiro tiveram de apertar o cinto; os sectores que exportavam do México para os EUA enfrentaram uma contracção da procura. Pôr os ovos todos no mesmo cesto nunca foi boa ideia — lembram-se de quando as três prioridades externas de Sócrates eram Espanha, Espanha e Espanha?

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Novo presidencialismo e novo parlamentarismo

Comecemos pelo que sabemos relativamente bem. É muito difícil sair uma maioria absoluta das próximas eleições, e igualmente difícil formar-se uma coligação maioritária após a contagem dos votos.

Há gente, em todos os partidos principais, que garante já saber exactamente o que fazer daqui a dois anos — quando o governo cair — ou o líder mudar — ou o partido fizer uma coligação — ou o presidente mandar — ou após as eleições antecipadas — e por aí fora.

Espanta-me o vigor destas profecias. Não porque seja impossível qualquer destas coisas acontecer, mas porque necessitaria, cada uma delas, da conjugação perfeita de três ou quatro variáveis com a não-ocorrência de três ou quatro imprevistos.

Ora uma boa profecia política não pode depender de muitas variáveis, mas de uma, ou no máximo duas, contra as quais aposte a maioria das pessoas. Com cinco partidos, vários actores secundários, uma dezena de combinações de resultados possíveis, possíveis alterações de liderança, mais conjuntura económica e alianças políticas, só será possível acertar se se apostar em tudo e mais alguma coisa.

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Bom! Bonito! Barato!

Eu também sonho às vezes com uma escrita que fosse só palavras, sem convenções gráficas. Mas a escrita é toda ela convenção; e logo vejo que há sinais gráficos a menos e não a mais.

Há uns anos, a revista The Economist decidiu publicar um texto só com palavras curtas, porque Winston Churchill tinha dito uma vez que as palavras curtas eram as melhores. O autor ou autores, anónimos como sempre naquela revista, pareciam orgulhosos pelo seu feito, e convencidos de que tinham produzido um escrito pragmático, sucinto, preto-no-branco, claro, concreto e totalmente isento de toda a conversa fiada.

Estavam errados. O texto era ilegível, o que até a mim surpreendeu. Aquela sucessão de palavras estreitas, na matraqueação das suas quase sempre duas sílabas, era o equivalente literário do ruído da electricidade estática e fazia da folha impressa uma paisagem de cagadelas de mosca. Sem palavras compridas, difíceis ou rebuscadas, não havia nada a que o cérebro se pudesse agarrar, nada que o intrigasse ou o forçasse a perder tempo, nada que segurasse a sua atenção. O texto declaradamente mais objectivo e anti-elitista era na verdade o mais arrogante e pseudo-intelectual dos manifestos. Assim é; e assim é também com a ideia equivocada, dominante no jornalismo literário, de que um bom texto deve ser feito de frases curtas.

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Deixem os rapazes em paz

O Rodrigo Moita de Deus foi constituido arguido, e o Henrique Burnay levado para a Polícia Judiciária, por causa do caso da troca de bandeiras a que me refiro no post abaixo. Sim, eu sei, quebraram a lei ou as leis, duas ou três delas, e sabiam que pelo menos isto lhes poderia acontecer. Mas onde há lei deve haver inteligência para a aplicar, e isso inclui admitir uma acção política que não foi violenta, não deixou vítimas, e teve uma saudável dose de nonsense. Eu gostei de ouvir o Hino da Maria da Fonte, cantado pelo libertário Vitorino, no vídeo dos rapazes monárquicos. Where there’s law there’s leeway — onde há lei há folga, diz-se em inglês. Independentemente das considerações que faço sobre a acção deles no post abaixo, — como verá quem ler o que escrevi, não estou aqui a defender “camaradas” — espero que o sistema judicial saiba entender essa folga, sem a qual uma sociedade começa a perder a humanidade no meio do legalismo.

Monárquicos prestam vassalagem à República

Estamos, talvez pela primeira vez, perante uma geração de monárquicos já destituída de qualquer cultura monárquica. Aculturados que estão pela República, não têm já narrativa ou ritual próprios.

Uma coisa é certa: para haver um escândalo em Agosto tem de ser protagonizado por esquerdistas, pobres ou minorias étnicas. Se for uma acção de meninos-bem ninguém lhes teme as razões de queixa — que não têm — nem lhes pressente mais ameaça do que a de, na altura certa, os papás lhes arranjarem os melhores empregos. E por isso o país opinativo respira fundo e declara que uma palermice não passa de uma palermice.

Estamos assim livres para comentar com tranquilidade os “guerrilheiros simbólicos” que hastearam uma bandeira monárquica na Câmara de Lisboa. Por mim, dou-lhes nota alta no capítulo da “guerrilha” — subir por um escadote e filmar a cena toda — e nota medíocre no capítulo do “simbólico” — que supostamente deveria ser o ponto crucial da coisa.

Vejamos: temos desde logo um desrespeito pela regra da equivalência hierárquica. Continuar a ler ‘Monárquicos prestam vassalagem à República’

O oxigénio

Acredito que seja vedado ao jornalismo adoptar a pessoalização e a subjectividade nos seus géneros mais noticiosos. Mas o que está a acontecer é o contrário: no afã completamente ultrapassado de atingir uma informação neutral, o jornalismo corre o risco de neutralizar os seus géneros mais críticos e opinativos.

Mais do que uma coisa interessante ou simpática, entender a linguagem é uma coisa necessária. A comunicação assente na linguagem é o nosso oxigénio enquanto civilização humana. Mas lá porque todos respiramos — ou lá porque o oxigénio é invísivel — não há desculpa para não meditarmos sobre ele.

Sobre a comunicação, as opiniões taxativas e as tiradas de autoridade são tão frequentes quanto mais o objecto é fugidio. E contudo há um princípio da incerteza só para a comunicação. Como só podemos descrever a linguagem através do recurso à própria linguagem, não é possível delimitá-la nem circunscrevê-la.

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Distinção e distância

Alguém pode citar grandes realizações das nossas elites nacionais que facilmente aguentassem a comparação com aquilo que de melhor se faz no mundo? É difícil.

Elite quer dizer, essencialmente, distância. Uma elite distancia-se de duas formas diferentes: no primeiro caso, fá-lo pelas suas realizações; no segundo caso, fá-lo empurrando o resto da sociedade para trás. A distância entre elite e o resto da sociedade está lá; mas foi atingida de duas formas completamente diferentes.

Não é difícil imaginar qual das duas formas é mais benéfica para a sociedade como um todo. Feliz a sociedade na qual a elite precisa, para se manter elite, de lutar sempre por realizações novas e constantes, de estudar e trabalhar mais, em suma, de fazer tanto quanto se faz de melhor pelo mundo fora em cada área. Em muitas outras sociedades, contudo, a elite segura o seu lugar deixando o resto da sociedade na desigualdade de acesso à riqueza e ao conhecimento. A distância é a mesma; as sociedades são radicalmente diferentes e tendem a aumentar as suas diferenças.

Não é difícil, também, adivinhar em qual dos casos se encontrou Portugal em grande parte do século XX e, para dizer verdade, em grande parte da sua história. Continuar a ler ‘Distinção e distância’

Mau para a imprensa, mau para a democracia

Já existe em Portugal uma barreira demasiado grande à entrada dos cidadãos na causa pública. Ela foi erguida pela opacidade dos aparelhos dos partidos, mas também por preconceitos larvares

Aqui há uns anos dei-me pela primeira vez conta da existência de um professor universitário que comentava nas televisões a Guerra do Iraque. O seu nome era Azeredo Lopes. Eu habituei-me a ouvi-lo com atenção porque as suas opiniões me pareciam interessantes e ponderadas. Admito que outros espectadores fizessem o mesmo.

Mais tarde, o mesmo professor Azeredo Lopes foi nomeado presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). Poderia dizer-se que o foi por causa da sua notoriedade como comentador televisivo? Talvez, na medida em que se ele fosse um completo desconhecido ninguém se lembraria dele. Mas por outro lado, a notoriedade dele não nasceu do nada: veio das opiniões que ele emitia, da forma bem articulada como o fazia e dos anos de estudo em que elas se alicerçavam.

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