Arquivo mensal para Março, 2009

“Não vão longe”

Estão por isso errados todos aqueles que pensam que a solução passa apenas por dar um toque, aqui ou acolá, no desenho institucional da Europa. O grande problema da Europa é de democracia — de fundar ou refundar a futura democracia europeia — e, enquanto não resolvermos esse problema, dificilmente resolveremos qualquer dos muitos outros.

Vamos imaginar que Durão Barroso era um líder político de visão, capaz de apresentar uma estratégia para dar a volta a esta crise e com ela conquistar a confiança dos cidadãos europeus.

Sim, eu sei. É um esforço desumano para uma segunda-feira.

Mas vamos ao menos imaginar que ele seria capaz de convencer os líderes europeus a assentarem numa estratégia coordenada e coerente, mesmo que não fosse a dele. Por outras palavras: que Durão Barroso não chegasse a ser um Barack Obama mas que ao menos conseguisse ser um Jacques Delors. Que tal?

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Homogéneo e desigual

O erro está em pensar que igualdade é homogeneidade, quando são coisas muito diferentes. Não por acaso, a obsessão com a homogeneidade é de direita (se pensarmos bem, é herdeira da obsessão religiosa com a pureza) e a obsessão com a igualdade é de esquerda.

Consideremos os (mais ou menos) dez milhões de portugueses que vivem em Portugal. Agora vamos escolher os dois milhões mais pobres e mais ricos, cerca de um quinto da população para cada lado. Agora, adivinhem qual é a diferença de rendimentos entre uns e outros: os mais ricos são oito vezes mais ricos do que os mais pobres.

O mesmo exercício repetido para a Espanha dá resultados diferentes: os mais ricos são apenas 5,6 vezes mais ricos que os mais pobres. Continuar a ler ‘Homogéneo e desigual’

A desigualdade

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Desigualdade, segundo The Spirit Level

Para ver os gráficos completos sobre desigualdade a que me refiro na crónica de hoje (fonte: Guardian) basta clicar na imagem acima. É um pdf largo que não cabe completamente aqui. Mas aproveito para deixar mais uma ou duas seleções da imagem. Clique nelas para aumentar.

Yep
Japão e Suécia, Portugal e Espanha.
Yep
Literacia mais alta para todos nos países mais iguais.

A ironia do projeto europeu

Em plena Guerra Fria, o pensador e teólogo americano Reinhold Niebuhr escreveu um livrinho intitulado A Ironia da História Americana. Apesar de ser um texto curto em extensão e claro em estilo é quase impossível de resumir: em cada uma das suas páginas há muitas ideias e em cada uma dessas ideias muitos sentidos. Mas podemos dizer, sem receio de errar muito, que um dos seus principais objectivos é alertar contra o excesso de crença americana na sua própria virtude, que (ironicamente) poderia destruir o idealismo da própria herança americana.

Ao lê-lo na era da globalização, e do lado de cá do Atlântico, é impossível não pensar no que seria um livro destes sobre a Europa, hoje. Continuar a ler ‘A ironia do projeto europeu’

Uma recessão em SOS

A fechar: esta é possivelmente uma recessão em S. Sim, em S. De SOS.

Primeiro disseram-nos que ia ser uma recessão em V, depois em U, depois em L. Uma recessão em V é daquelas em que a recuperação começa logo após o momento em que se bate no fundo. Uma recessão em U seria daquelas em se fica algum tempo estagnado no fundo antes de se recuperar. Agora dizem-nos que será uma recessão em L, sem prazo de recuperação previsto. Pior ainda, dizem-nos que ainda estamos na parte descendente do L — ainda não caímos tudo o que há para cair antes de começar a nossa travessia no deserto. Desconfio que não há de faltar muito tempo até que nos digam que esta é uma recessão (ou uma depressão) em L deitado, o que significaria que estaríamos bastante mais tempo no fundo do que aquele que demorámos a descer. E depois, e depois? Acabaram-se as metáforas. O que será de nós sem metáforas destas? — pergunto.

O economista de formação — e cronista no Jornal de Negócios — João Pinto e Castro responde: “Esta recessão é em escorrega. As crianças perceberão a metáfora”. Continuar a ler ‘Uma recessão em SOS’

A grande pequena escala

Passámos os últimos anos a discutir O Grande Tema — que foi o controle do deficit — e a escolher criteriosamente se um aeroporto deveria ir para a Ota ou para o Seixal. E quem nos dá os últimos dez anos de volta?

O momento em que nos apercebermos de que tudo o que foi dito nos últimos anos foi tornado irrelevante (ou como se diz em português corrente: “que passámos os últimos anos a falar para nada”) será talvez o grande momento de viragem desta crise. Quanto mais adiarmos esse momento, pior será. Mas ninguém gosta de encarar o facto de que os últimos anos de debate público serviram para muito pouco ou quase nada e por isso nos vamos entretendo com distracções.

Isto é especialmente notório em Portugal. De que falámos durante os últimos anos? Continuar a ler ‘A grande pequena escala’

A Europa tem um problema de democracia

[Apresentação da candidatura ao Parlamento Europeu nas listas do Bloco de Esquerda. Mais informação: vídeo com o discurso de Miguel Portas aqui, texto sobre a apresentação aqui, e discurso de Marisa Matias aqui. O artigo com as minhas razões para participar na candidatura está aqui.]

Amigos, concidadãos — e camaradas de esquerda como eu:

Estou aqui pela mesma razão que todos estamos aqui, vocês e nós do mesmo lado. É uma única e simples e grande razão: construir a democracia europeia. Isso mesmo. A União Europeia ainda não é uma democracia, e essa é a raiz dos nossos problemas. A União Europeia tem a democracia inscrita nos seus textos fundadores. Esta Europa é um clube de democracias, e ainda bem, cada uma delas com as suas virtudes e defeitos. Esta Europa às vezes até é simplesmente um clube — um clube exclusivo, por sinal — para os líderes dessas democracias, cada um deles já com mais defeitos do que virtudes. Aquilo que a Europa ainda não é — é uma democracia. Ainda não é — mas vai ser.

Se há coisa que nós, na Esquerda, temos inscrita na nossa memória histórica, é esta: não há ninguém, nem o homem mais poderoso do mundo — e normalmente é um homem —, que nos venha dar a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Continuar a ler ‘A Europa tem um problema de democracia’

Otimista de bandeira

bandeira
Cartun de Bandeira.

Quando um tipo escreve uma crónica otimista (mais ou menos) sobre a Guiné-Bissau, sabe que está doente. O castigo é fazer um link e pôr na coluna do lado o blogue do meu cartunista português favorito, José Bandeira. Vão ler!

Um país pelo bueiro?

Se quisermos ser mesmo pessimistas, a Guiné-Bissau ainda não bateu no fundo do poço. E desengane-se quem pensar que um estado falhado é um problema só para os próprios.

Sou só eu, ou mais alguém está impressionado pela facilidade com que a imprensa portuguesa decretou que a Guiné-Bissau é um caso perdido? Demorou pouco tempo entre dizer-se que a Guiné-Bissau corria o risco de se tornar um estado falhado, depois que a Guiné-Bissau corria o risco de se tornar num narco-estado e, finalmente, que ambas as coisas já eram uma realidade mas que não deveríamos fazer nada para alterar a situação.

Os factos no terreno confirmam, sem dúvida, parte desta história. Um estado onde o Presidente da República e o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas se entreassassinam (é uma palavra nova, justificada pelo ineditismo da situação) com poucas horas de permeio já se tornou num simples palco para uma guerra de bandos. É por isso natural que muita gente olhe para o sucedido como o mais baixo a que se pode descer.

Se tivessem razão, até nem seria mau. Continuar a ler ‘Um país pelo bueiro?’

Um bicho raro e impiedoso

Esta crise é bicho mais raro e impiedoso. Esta é daquelas que vem para nos demonstrar que os fundamentos da nossa realidade estavam errados.

Algures no passado recente os húngaros que queriam comprar casa começaram a fazer os seus empréstimos em francos suíços. Hoje ninguém acha isto boa ideia e há até quem diga que a coisa só se explica por puro “analfabetismo financeiro” dos húngaros. Acontece que o dinheiro que eles poupavam por causa dos baixos juros suíços já mais do que o perderam com a queda da moeda húngara, que se chama forint. A crise estalou, o forint caiu desamparado, e os húngaros, com salários húngaros, continuam a pagar dolorosamente as suas hipotecas em francos suiços. Os que conseguem pagá-las.

Ora, os húngaros não se levantaram da cama um dia com a ideia fixa de contrair empréstimos em francos suíços. Continuar a ler ‘Um bicho raro e impiedoso’