Vocês irão para 2009; eu irei para 1768. Um dia, no intervalo de uma aula com o historiador italiano Giovanni Levi, ouvi-o expor a sua “Lei da Inteligência dos Historiadores”: quanto menos documentos disponíveis tem, mais inteligente se torna o historiador. Os contemporaneístas têm nos arquivos milhões de fontes e acabam por ficar embotados por elas. Já os arqueólogos são verdadeiros génios: observando meia-dúzia de ossos e artefactos são peremptórios em afirmar “sociedade matriarcal, estrutura em clã, deuses ctónicos”. Embora esta fosse uma brincadeira destinada a divertir alguns colegas e irritar outros, o que Giovanni Levi pretendia dizer era isto: que os documentos têm sempre mais do que um nível de interpretação. O bom historiador nunca os declara esgotados. Sou um historiador que, quando não escreve crónicas para jornais, anda pelas bandas do século XVIII menos do que gostaria (mas já lá vamos).