Arquivo diario para January 1st, 2009

Em que vos posso ser útil?

 

Vocês irão para 2009; eu irei para 1768.

 

Um dia, no intervalo de uma aula com o historiador italiano Giovanni Levi, ouvi-o expor a sua “Lei da Inteligência dos Historiadores”: quanto menos documentos disponíveis tem, mais inteligente se torna o historiador. Os contemporaneístas têm nos arquivos milhões de fontes e acabam por ficar embotados por elas. Já os arqueólogos são verdadeiros génios: observando meia-dúzia de ossos e artefactos são peremptórios em afirmar “sociedade matriarcal, estrutura em clã, deuses ctónicos”. Embora esta fosse uma brincadeira destinada a divertir alguns colegas e irritar outros, o que Giovanni Levi pretendia dizer era isto: que os documentos têm sempre mais do que um nível de interpretação. O bom historiador nunca os declara esgotados.

 

Sou um historiador que, quando não escreve crónicas para jornais, anda pelas bandas do século XVIII menos do que gostaria (mas já lá vamos). Continuar a ler ‘Em que vos posso ser útil?’

Não é prever, mas fazer.

 

 

Tenho à minha frente um exemplar do “Novo Almanach de Lembranças Luso Brasileiro” para o ano de 1903. Entre poemas, divertimentos e textos de divulgação — enviados de Belém do Pará, de Portimão ou da Ilha Brava, Cabo Verde — encontro um curioso artigo sobre “O século que findou e o novo século”. Listam-se nele as conquistas do século XIX: a locomotiva, o telegrafo, a fotografia, o fonógrafo — e, com grande ênfase, a abolição da escravatura. Depois vêm as previsões para o século XX, de que se destacam duas. A primeira: “ é de esperar que todos os povos que gozam os benefícios da civilização tenham completamente abolido a pena de morte”. A segunda: “os litígios das nações cultas serão resolvidos somente pela diplomacia, sendo, portanto, banidas das mesmas para sempre as guerras, essas calamidades em que os povos civilizados se assemelham aos mais bárbaros povos…”. Um século depois, não só a pena de morte não foi abolida como as nações cultas se entregaram a duas guerras mundiais, a primeira delas poucos anos depois destas previsões terem sido escritas.

 

Quais são as possibilidades? Essa é a questão fundamental. Continuar a ler ‘Não é prever, mas fazer.’