Além das crónicas para o Público, escrevo também uma crónica de duas páginas sobre um tema não-musical para a revista de música Blitz. Antes da mudança de sexo (não minha), quando a Blitz era o Blitz, um jornal macho e hebdomadário, eu usava o dinheiro destinado ao almoço na cantina da escola secundária para comprar o exemplar daquela terça-feira. Resumo: tenho muito orgulho em escrever para a Blitz uma coluna chamada “Svengali”, sempre mais informe e incerta e incausada que a do Público. É o que estou a fazer neste preciso momento e eis os primeiros parágrafos que saíram:
Um dos aspectos mais intrigantes da crise actual é o da incompreensibilidade de certos produtos financeiros. Incompreensibilidade relativa, claro. Certas pessoas, entre as quais se incluem donos de bancos e maioria da população, simplesmente não entendiam o que estes produtos eram. Outras pessoas, entre as quais se incluem alguns Prémios Nobel da Economia, entendiam o que eles eram mas não como funcionava a mecânica interna desses produtos. Outras pessoas ainda, entre as quais se incluíam os gestores que trabalhavam com esses produtos (e alguns que eu conheço), entendiam a mecânica interna mas não entendiam aspectos essenciais da mecânica “externa”, — em particular a toxicidade dos produtos. Outras pessoas ainda poderiam entender tudo isto mas tinham incentivos para que o resto da população não entendesse.
Há mais categorias ainda (por exemplo: pessoas que entendiam os produtos, desejavam fazer alguma coisa, e tinham incentivos para disseminar conhecimento — puxar o alarme, em certo sentido — e que até o fizeram). Esta linha de raciocínio leva-nos a um panorama da incompreensibilidade que é em si já tem uma complexidade notável.
Parte desta complexidade é manufacturada. Outra parte é natural. Não oferece dúvidas que era do interesse de muitos actores manter a opacidade do sistema: em relação aos poderes políticos, em relação aos cidadãos, em relação aos próprios accionistas. Era do interesse desses actores que os produtos fossem complexos, intencionalmente complexos, e que parecessem mais complexos até do que eram. Isso justificava, entre outras coisas, altos salários. E mantinha a confiança no carrossel para mais uma voltinha, até ao dia em que o carrossel rebentasse.
Para ler o resto vai ser preciso esperar até ao fim do mês e comprar a Blitz.





