Arquivo diario para October 9th, 2008

Aproximações: a incompreensibilidade

Além das crónicas para o Público, escrevo também uma crónica de duas páginas sobre um tema não-musical para a revista de música Blitz. Antes da mudança de sexo (não minha), quando a Blitz era Blitz, um jornal macho e hebdomadário, eu usava o dinheiro destinado ao almoço na cantina da escola secundária para comprar o exemplar daquela terça-feira. Resumo: tenho muito orgulho em escrever para a Blitz uma coluna chamada “Svengali”, sempre mais informe e incerta e incausada que a do Público. É o que estou a fazer neste preciso momento e eis os primeiros parágrafos que saíram:

Um dos aspectos mais intrigantes da crise actual é o da incompreensibilidade de certos produtos financeiros. Incompreensibilidade relativa, claro. Certas pessoas, entre as quais se incluem donos de bancos e maioria da população, simplesmente não entendiam o que estes produtos eram. Outras pessoas, entre as quais se incluem alguns Prémios Nobel da Economia, entendiam o que eles eram mas não como funcionava a mecânica interna desses produtos. Outras pessoas ainda, entre as quais se incluíam os gestores que trabalhavam com esses produtos (e alguns que eu conheço), entendiam a mecânica interna mas não entendiam aspectos essenciais da mecânica “externa”, — em particular a toxicidade dos produtos. Outras pessoas ainda poderiam entender tudo isto mas tinham incentivos para que o resto da população não entendesse.

 

Há mais categorias ainda (por exemplo: pessoas que entendiam os produtos, desejavam fazer alguma coisa, e tinham incentivos para disseminar conhecimento — puxar o alarme, em certo sentido — e que até o fizeram). Esta linha de raciocínio leva-nos a um panorama da incompreensibilidade que é em si já tem uma complexidade notável.

 

Parte desta complexidade é manufacturada. Outra parte é natural. Não oferece dúvidas que era do interesse de muitos actores manter a opacidade do sistema: em relação aos poderes políticos, em relação aos cidadãos, em relação aos próprios accionistas. Era do interesse desses actores que os produtos fossem complexos, intencionalmente complexos, e que parecessem mais complexos até do que eram. Isso justificava, entre outras coisas, altos salários. E mantinha a confiança no carrossel para mais uma voltinha, até ao dia em que o carrossel rebentasse.

Para ler o resto vai ser preciso esperar até ao fim do mês e comprar a Blitz.

À beira de um disparate

Ao votar contra, o PS não garante apenas que o casamento “homossexual” seja chumbado. Garante que este venha a ser um tema prolongado, tal como foi o aborto durante dez anos.

A minha última crónica poderia resumir-se assim: quando falamos da igualdade de acesso ao casamento civil não estamos perante os “direitos dos homossexuais”. Estamos perante uma coisa diferente: direitos dos cidadãos, que têm sido vergonhosamente negados aos homossexuais. A questão de princípio, para mim, está toda aqui.

Escrevi essa crónica sem mencionar a palavra “partidos”. Hoje falaremos de táctica partidária e, em particular, de como o PS se prepara para cometer um grande disparate ao obrigar os seus deputados à disciplina de voto contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Sim, eu sei: este assunto não estava no programa eleitoral do PS. Continuar a ler ‘À beira de um disparate’