Arquivo mensal para Setembro, 2008

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Negação dogmática

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Gráfico da Harper’s, há dois anos e meio. Clique para aumentar.

Vamos supôr que você é um decisor político (e é, pelo menos enquanto eleitor) e que está perante uma crise. Pode ser uma epidemia, uma vaga de incêndios, etc — não é um acidente mas uma crise, ou seja, tem uma duração no tempo e é preciso responder aos acontecimentos antes e durante a crise; é legítimo supor também que depois da crise possa ser importante tomar medidas preventivas em relação a crises semelhantes — isto no interesse do bem público, que você é obrigado a defender.

Você tem dois assessores. O assessor A disse-lhe, antes da crise: temos uma situação preocupante aqui (ex: deixámos construir um palheiro debaixo do teatro) que não está sob vigilância (ex: abolimos as leis que obrigavam os gerentes de teatros a abrir as portas às inspecções dos bombeiros) e na qual os actores têm os incentivos errados (ex: os gerentes de teatros são beneficiados ou não são punidos por comportamentos irresponsáveis). Poderíamos corrigir a situação agora, diz o assessor A, corrigindo certos mecanismos (ex: obrigando os teatros a fazer inspecções periódicas, obrigando-os a realizar seguros, impedindo-os de ter mais do uma proporção de palha no porão, etc.). Se não o fizermos, a crise pode extravasar as fronteiras do sector em causa (ex: passar para o cinema do lado, a clínica da rua do lado, etc.).

Passado algum tempo, a crise inicia-se, no sector de que tinha falado o assessor A e da forma que ele tinha prevenido. Você tenta remendar a situação. O assessor A diz-lhe: esse remendo é capaz de não ser suficiente (ex: baixar a taxa de juros) porque já não vai a tempo de evitar certos colapsos. Passado uns tempos, há um colapso, que você tenta remendar (ex: nacionalizar o Bear Sterns). O assessor A diz-lhe: tudo bem, precisávamos de remendar esse colapso, mas pode não ser suficiente: precisaríamos de uma solução geral. Passado uns tempos há um segundo, um terceiro e um quarto colapso. A certa altura, há colapsos que são os maiores de sempre mas já ninguém liga, de tão normais se tornaram (ex: nacionalização e revenda do Washington Mutual, ontem). A cada passo, você remenda, o que parece aliviar as coisas, mas não estancá-las.

Durante todo este tempo, você teve também o assessor B, que lhe dizia: vai sempre haver uma crise e é impossível saber qual. Quando começou a crise no sector de que tinha falado o outro assessor, ele dizia: eu tinha dito que há sempre crises, mas nada garante que esta seja como diz o assessor A, apesar de ter começado como ele previa. Depois dizia: o assessor A adivinhou mas antes nada garantia que ele tivesse adivinhado, portanto estivemos bem em não ter feito nada do que ele dizia que poderia “evitar” a crise. Depois dizia: não precisamos de fazer nada agora, porque a crise pode parar sozinha. Depois dizia: ainda não parou mas vai parar. Depois dizia: errei em todas vezes anteriores mas isso não garante que esteja errado agora. Depois dizia: o assessor A acertou em todas as etapas anteriores e propôs corrigir os mecanismos que — confirmou-se depois — desempenharam um papel importante na crise, mas isso não garante que ele soubesse como evitar a crise. Talvez eu, que errei em todas as etapas e não propus corrigir nenhum mecanismo esteja certo.

Talvez, diz você. Mas vocês dizem coisas diferentes, e eu tenho de me inclinar mais para um para outro. Caramba, se houvesse alguma maneira de eu saber quem tem mais razão e agir em conformidade? Diz o assessor A: claro que existe essa maneira, basta olhar para o que sucedeu e corrigir agora os mecanismos que estavam defeituosos, e inventar mecanismos novos para prevenir os defeitos novos que indentificámos agora. Diz o assessor B: empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!

O assessor A poderia ficar tentado a responder: como estamos a falar da realidade, talvez seja menos ingénuo ser um empirista do que um dogmático em estado de negação, e ainda por cima repetitivo. Mas vamos imaginar que o assessor A era um tipo paciente, assim como o João Galamba. Nesse caso, responderia assim: olhando para a evolução da crise ao longo do tempo, e pensando que ainda estamos a meio dela, concluo que há uma diferença entre ter sorte e ter razão. Eu não tive apenas sorte: tive razão. Tu não tiveste apenas azar: estavas errado.

Orgulho ignorante

Capa da Economist, há um ano e meio. Capa da Harper’s, há dois anos e meio.

Tentando fazer de conta que cumpre a promessa de não ler as crónicas de quem não concorda com ele, Rodrigo Adão da Fonseca descreve aqui a conversa que teve com um amigo imaginário sobre mim. Diz que eu “acertei no totobola à segunda-feira” sobre a crise do imobiliário, e resmunga contra o facto de eu citar as pessoas que previram e descreveram detalhadamente o que se ia passar, e sugeriram medidas para o evitar.

Um cronista que escreve sobre actualidade tem duas opções numa situação destas. Pode informar-se e passar aos leitores essa informação enquanto as coisas sucedem. Não estamos no fim da crise; ainda nem sequer estamos no meio. A última crónica termina até citando os avisos de três economistas (Roubini, Gros e Micossi) que têm acertado em cada momento da crise e que propõem medidas preventivas para o futuro próximo. Mas desde há meses tenho citado outros autores (Martin Wolf, Paul Krugman, Dean Baker) que propuseram correcções aos mecanismos defeituosos nas fases iniciais da crise, ou que explicaram por que as medidas então tomadas eram insuficientes.

Essa é uma opção: dar ao leitor a informação que me parece mais correcta e interessante. A outra opção é permanecer orgulhosamente ignorante como Rodrigo Adão da Fonseca que, mesmo à segunda-feira, continua a dizer que os resultados do totobola estão errados.

Ruiogramas

Claro que entretanto, numa decisão potencialmente suicida, John McCain decidiu aproveitar o pretexto mais à mão para tentar adiar os debates (e talvez passar o primeiro debate presidencial para a data do debate vice-presidencial, ficando este sine die e protegendo ainda mais a flor de estufa pitbull com baton Sarah Palin).

 

E entretanto, George W. Bush falou ao mundo, proclamando em traços largos a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas de Wall Street.

 

Fui comentando estes acontecimentos momentosos através do meu feed de twitter telégrafo, que vocelências poderão acompanhar aqui. Amanhã: a Goldman Sachs foi tomada por alienígenas.

Eu vou procurar e depois do exame digo-lhe, professor

Vejam este vídeo até ao fim. Vejam. Depois a gente conversa.

Vai fazer um mês que Sarah Palin foi seleccionada para vice de McCain e nesse período deu três entrevistas, das quais a primeira e a última foram um desastre (à segunda, da FOXnews, só faltaram as perguntas “posso lamber-lhe os pés?” e “aquele Obama não é assustador?”). Em todas elas eu só me conseguia lembrar de uma experiência: estar perante um aluno que não sabia nada de nada. Toda a gente que deu aulas, mesmo que por pouco tempo, conhece as entoações, as inflexões, as viragens e as fugas para a frente do aluno que se tenta safar da sua ignorância. Há as desculpas deliciosas: “não tenho o trabalho porque fui ao terceiro velório de uma tia no último mês”. Com o tempo, passamos até a admirar esses alunos pela sua coragem, ou pela sua loucura, pela sua audácia, ou lá o que é. Muitos são muito espertos; muitos sabem que a gente sabe que eles não sabem. Às vezes deixamo-los falar para ver até onde a coisa vai. E, muitas vezes, a coisa acaba como acabou este vídeo.

Não é defeito, é feitio

Passar o risco para a sociedade não é um exemplo do mau funcionamento da coisa; é um exemplo de como a coisa tem funcionado.

 

Vamos fazer um exercício. O cidadão informado poderia estar a par da bolha do imobiliário há, pelo menos, dois anos. Bastaria ler a imprensa. Uma capa já antiga da The Economist trazia a imagem de uma casa em queda; lá dentro, a única questão era saber se o embate iria ser mais suave ou mais brutal.

Explorando um pouco mais, encontraria economistas como Dean Baker, que escreveu sobre isto há seis anos; Nouriel Roubini, que acertou em todas as etapas da crise; ou o já falecido Hyman Minsky, que descreveu teoricamente o que se está a passar.

Então e os gestores dos grandes bancos de investimentos — os cinco maiores dos quais faliram, foram vendidos ou mudaram de ramo nos últimos dias — não sabiam o que se estava a passar? Continuar a ler ‘Não é defeito, é feitio’

Fantasismo ingénuo

João Miranda critica a minha crónica de hoje (estará aqui mais tarde):


Rui Tavares diz que há 2 ou 3 especialistas que previram a crise e conclui daqui que a crise era previsível. Claro que há aqui um pequeno problema. Rui Tavares está a identificar os especialistas com capacidade preditiva a posteriori.

Em título, chama-lhe “empirismo ingénuo”. Em etiqueta, chama a isto “hindsight bias”. Há duas respostas diferentes: a primeira é que eu não disse que a crise era “previsível” (até porque a questão seguinte seria sempre de grau: saber se seria muito ou pouco previsível). Escrevi que houve gente que a previu e que, portanto, poupem-nos à treta do costume de que “ninguém poderia prever o que aconteceu”.

Quando ao “hindsight bias”, ou “previsão retrasada”, a questão é muito simples. Basta escolher quem levar a sério daqui para a frente: aqueles que previram correctamente a crise, ou o João Miranda e outros fantasistas. Na base da muita informação disponível, eu fiz a minha escolha já há muito tempo pelos primeiros, portanto o João Miranda não me pode acusar de hindsight bias. Pelo contrário, ele é que é um portento: nem a priori, nem a posteriori, não há maneira de ele acertar nesta crise, e ainda pensa que pode desvalorizar os que a previram porque, como sugere num comentário, poderiam não a ter previsto.

Mais comentários:
Continuar a ler ‘Fantasismo ingénuo’

Ainda há pluralismo de graça

Eu sou forçado a pedir desculpas ao Rodrigo Adão da Fonseca. Ele afinal é um pluralista e não pediu à SONAE que me despedisse para não estar “com o seu dinheiro” a “patrocinar” uma “voz radical”. Ele afinal até nem se importa que eu possa «escrever no P2 sobre literatura, música, servir cafés à Direcção, tirar fotocópias, cobrir os jogos “paralímpicos”», ou seja, qualquer coisa que não choque a sua sensibilidade ideológica. E também daria um excelente consultor de média, quando revela que perante o «desabafo daí de umas esferas da SONAE» lhes sugeriu que seria no interesse de uma empresa de comunicação social afunilar, na prática, o panorama de opinião que oferece aos seus leitores.

Eu estou convencido que o Rodrigo Adão da Fonseca é um pluralista pelo menos nisto: já explicou de meia dúzia de formas aquilo que disse no início, depois de passar quatro parágrafos a comentar uma crónica minha:


Espanta-me, mais uma vez, ler tudo isto num jornal supostamente moderado, no Público. Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais, não se queixem, nos momentos da verdade, que o país está enviesado, entregue à extrema esquerda, e que encontram resistência na mentalidade dos portugueses para promover a mudança.

Não há vinte maneiras de interpretar isto. RAF sugere que não é no interesse dos proprietários do jornal usar o seu dinheiro para dar voz a radicais. A sugestão é para os proprietários e não para os directores e não tem por base qualquer critério editorial, mas daquilo que RAF interpreta como sendo os interesses da SONAE. A citação tem até a beleza da transparência. Tudo o resto é matéria de opinião: por acaso acho que na questão da crise financeira eu sou o moderado e RAF o extremista, por acaso imagino que os interesses dos proprietários do Público não sejam aquilo que o RAF supõe que são, mas isso são divagações. A posição do RAF é legítima. Não sei se é de bom gosto; mas gostos não se discutem. Não lhe fica bem mas é como o outro.

O que já não é matéria de opinião é que RAF tentou disfarçar, quando não distorcer, as suas próprias palavras de várias maneiras diferentes e sucessivas. Que “nada contra que o Rui Tavare escreva no 24horas, ou noutro sítio qualquer, dos que eu não leio”. Que afinal a referência sobre mim não era sobre mim e eu até tinha um “grande umbigo” a achar que era sobre mim. As mudanças de justificação são muitas e estonteantes e vale a pena dar uma olhada ao Insurgente para as ir seguindo (o RAF diz, às vezes, que não quer ver-me despedido, mas não é isso que os seus colegas de blogue acham que ele acha: “O RAF tem todo o direito, naturalmente extensível a todos os leitores do Público, de pedir o despedimento do comentador ou jornalista A, B ou C.” — atenção, o direito de pedir, ou mesmo de pedinchar, nunca esteve em causa). Passo directamente à mais divertida: o RAF achar ofensiva a passagem do meu texto em que digo


“Esta gente era capaz de viver na Idade Média e não só dizer que a Peste Negra era uma coisa óptima como defender que a cura era esfregar os abcessos bubónicos uns nos outros.”

Só há uma coisa mais triste do que uma pessoa incapaz de perceber uma figura de estilo (ou até duas: uma metáfora + uma hipérbole): é uma pessoa cujo último recurso é ter de fingir que não percebeu uma figura de estilo, ou duas.

A questão não é evidentemente, o RAF não querer ler o que eu escrevo: naturalmente, não é obrigado. Pode até usar a última página do Público para embrulhar peixe. A questão é ele não querer que os outros leitores do Público leiam essa última página. E aqui, diria eu (mas é matéria de opinião), é porque está em negação sobre as causas da crise financeira e prefere que as outras pessoas não leiam coisas que contrariam essa negação.

Para finalizar. Um outro autor do Insurgente vê um grande significado em “a esquerda” (na verdade, um grupo de direito dos homossexuais) ter metido uma vez João César das Neves em tribunal. Estou à vontade: não só nunca pedi que calassem João César das Neves como fui eu que tive a ideia de o convidar para falar sobre a crise financeira comigo, o Pedro Mexia e a Fernanda Câncio, hoje na Pó dos Livros a partir das 21h30. É para lá que vou agora e estão todos convidados. Até os insurgentes podem aparecer, se não lhes der azia tanto pluralismo, e ainda por cima de graça.

A nova pobreza


[Oliphant, para o International Herald Tribune, 20-21 Setembro 2008]

Gestor Pangloss

Enganados de novo. Andámos durante estes anos a aturar os consultores da Merril Lynch, os gestores da Lehman Brothers, os génios financeiros da Goldman Sachs — para vermos, numa só semana, que nem da casa deles sabem cuidar. Quantas vezes os ouvimos dizer que tínhamos de “desregular”, ou que havia controles demasiado “rígidos” sobre o mercado, ou que não tínhamos dinheiro para pagar saúde aos cidadãos, ou a universidade aos estudantes, ou que os privados fariam melhor com as nossas pensões de reforma? Pois bem, o contribuinte americano deve estar bem lixado, neste momento, ao ver que o dinheiro que não havia para reparar pontes e diques já terá que aparecer para safar todo o sistema financeiro desregulado.

E no entanto há sempre crentes. Continuar a ler ‘Gestor Pangloss’

Agenda para amanhã