Arquivo diario para Setembro 26th, 2008

Da teoria à prática

Ontem um amigo levantava dinheiro num multibanco. Gotas de água pingavam do ar condicionado para a cabeça dele. Era a “trickle down economics” em funcionamento.

Dos comentários

O leitor Justiniano faz considerações interessantes aqui:

«O problema para mim resulta é o seguinte.
Há alguma esquerda que regozija com este problema por ser visto, por eles, como a consequencia lógica do liberalismo económico.
Há uma outra esquerda que, não querendo afundar o liberalismo económico, refere ser o evento o ocaso da desregulação do mercado e a derrota do “neo-liberalismo”.
Há a direita ortodoxa liberal que tem um sentimento misto, era quem maioritariamente lançava avisos de que “o desastre estava à espera de acontecer” e que os fundamentais da economia estavam a ser subvertidos. A democratização do crédito atiçava, em crescendo, a gula irresponsável dos trabalhadores e consumidores. A dierita ortodoxa é fiduciária o suficiente para saber os riscos que se estavam a correr e não aprecia minimamente estes riscos. Esta direita não vive atormentada pela exigencia do crescimento económico, nem vê necessário adequar os fundamentais da economia ao serviço de políticas expansionistas.
A direita “neo-liberal”, aquela que acha que consegue fazer a ponte entre a democracia económica e o mercado, a tal que é criativa o suficiente para criar estes mecanismos de oferta e que joga no limite da racionalidade económica, parece ser aquela que hoje sofre o constrangimento da derrota, pois foi também aquela a quem se atribui o crescimento económico das duas últimas décadas.
Ou seja o meu ponto é o seguinte, à consideração do R Tavares.
Sendo que nos propósitos finalisticos da economia a esquerda progressista, amiga do crescimento económico baseado no crescimento do mercado se identifica mais com a direita “neo-liberal” doque se identifica com a esquerda “contra economia de mercado” ou com a direita ortodoxa, como pode esta, de certo modo, regozijar com a falencia dos instrumentos financeiros que possibilitaram o momento da história da humanidade em que um maior número de pessoas teve acesso a bens que são instrumento de realização máxima de dignidade da pessoa humana e satisfazem necessidades de conforto sem igual na história da humanidade (habitação, consumo de conforto…automóvel, comunicaçoes…).
Parece-me corresponder mais à ideia de “cuspir no prato onde comeu”.
Eu compreendo que a inimizade, que desune socialistas democráticos e “neo-liberais”, é forte mas daí a abandonar a defesa do modelo aos “neo-liberais” acantonados, parece-me ser cruel com a história.
Lula da Silva regozija com a falencia dos mercados que nos últimos 20 anos levaram ao Brasil capital suficiente para transformá-lo no maior produtor alimentar mundial e consequentemente retirar da pobreza milhões de Brasileiros.
Lula não deixou de manter a liberdade dos mercados funcionarem e importar capital para financiar projectos produtivos que de outro modo estariam ainda por realizar (não obstante manter controlo sobre a exportação de capitais – o Brasil não é uma economia aberta).
Do mesmo modo o R Tavares advoga a política de expansão do crédito para o imobiliário vetuzto das nossas cidades, sabendo ou não, que somos um País deficitário em termos de capital (o nosso déficit comercial é de cerca de 10% do PIB), ou seja que teriamos de importar mais capital, como temos feito, para financiar o imobiliário e deste modo espor os Bancos Portugueses à dívida muito para além da capacidade da economia Nacional.
O que sobra!?
Sobram os ortodoxos que avisavam para “o acidente à espera de acontecer”, os conservadores proteccionistas, a Esquerda anti mercado e sobretudo sobram a esquerda progressista, isto pressupondo a derrota dos “neo-liberais”.
Qual a resposta dos democratas progressistas não querendo repetir as mesmas receitas!?»

Romanceado por romanceado…

Vejo que o João Galamba e o Daniel Oliveira ironizam com o Rodrigo Adão da Fonseca por este, auto-impedido de comprar o Público nos dias em que a minha crónica é publicada, acabar por na primeira viagem de comboio encontrar anónimos — que primeiro são anónimos faladores e possuidores de uma “gargalhada alarve” mas numa segunda recordação se transformam afinal em sábios com “uma vida inteira dedicada aos mercados financeiros, de prestígio intocável” — cujos argumentos de autoridade a serem desenvolvidos (não chegam a sê-lo) arrasariam os meus textos, poupando-lhe o trabalho de ler a crónica mas mesmo assim possibilitando a escrita de uma posta — “embora obviamente romanceada” — contra a crónica. Quando ando de comboio também me acontece imensas vezes encontrar alguém que praticamente me escreve as crónicas inteiras, arrasando brilhantemente os argumentos dos meus adversários em livros, revistas e jornais que assim nem tive de comprar ou sequer ler. Só não costumo divulgar essas conversas porque normalmente ocorrem com mulheres lindíssimas que, além de me apresentarem os seus prémios nobel como garantia de que sabem do que estão a falar, invariavelmente acabam por me convidar a subir aos seus apartamentos para beber martinis. Depois na manhã seguinte nunca me lembro de tudo o que me disseram e acabo por ter de escrever a crónica sozinho. Seria embaraçoso contar todas estas coisas.

Negação dogmática

http://www.harpers.org/media/pages/2006/05/pdf/HarpersMagazine-2006-05-0081029.pdf
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Gráfico da Harper’s, há dois anos e meio. Clique para aumentar.

Vamos supôr que você é um decisor político (e é, pelo menos enquanto eleitor) e que está perante uma crise. Pode ser uma epidemia, uma vaga de incêndios, etc — não é um acidente mas uma crise, ou seja, tem uma duração no tempo e é preciso responder aos acontecimentos antes e durante a crise; é legítimo supor também que depois da crise possa ser importante tomar medidas preventivas em relação a crises semelhantes — isto no interesse do bem público, que você é obrigado a defender.

Você tem dois assessores. O assessor A disse-lhe, antes da crise: temos uma situação preocupante aqui (ex: deixámos construir um palheiro debaixo do teatro) que não está sob vigilância (ex: abolimos as leis que obrigavam os gerentes de teatros a abrir as portas às inspecções dos bombeiros) e na qual os actores têm os incentivos errados (ex: os gerentes de teatros são beneficiados ou não são punidos por comportamentos irresponsáveis). Poderíamos corrigir a situação agora, diz o assessor A, corrigindo certos mecanismos (ex: obrigando os teatros a fazer inspecções periódicas, obrigando-os a realizar seguros, impedindo-os de ter mais do uma proporção de palha no porão, etc.). Se não o fizermos, a crise pode extravasar as fronteiras do sector em causa (ex: passar para o cinema do lado, a clínica da rua do lado, etc.).

Passado algum tempo, a crise inicia-se, no sector de que tinha falado o assessor A e da forma que ele tinha prevenido. Você tenta remendar a situação. O assessor A diz-lhe: esse remendo é capaz de não ser suficiente (ex: baixar a taxa de juros) porque já não vai a tempo de evitar certos colapsos. Passado uns tempos, há um colapso, que você tenta remendar (ex: nacionalizar o Bear Sterns). O assessor A diz-lhe: tudo bem, precisávamos de remendar esse colapso, mas pode não ser suficiente: precisaríamos de uma solução geral. Passado uns tempos há um segundo, um terceiro e um quarto colapso. A certa altura, há colapsos que são os maiores de sempre mas já ninguém liga, de tão normais se tornaram (ex: nacionalização e revenda do Washington Mutual, ontem). A cada passo, você remenda, o que parece aliviar as coisas, mas não estancá-las.

Durante todo este tempo, você teve também o assessor B, que lhe dizia: vai sempre haver uma crise e é impossível saber qual. Quando começou a crise no sector de que tinha falado o outro assessor, ele dizia: eu tinha dito que há sempre crises, mas nada garante que esta seja como diz o assessor A, apesar de ter começado como ele previa. Depois dizia: o assessor A adivinhou mas antes nada garantia que ele tivesse adivinhado, portanto estivemos bem em não ter feito nada do que ele dizia que poderia “evitar” a crise. Depois dizia: não precisamos de fazer nada agora, porque a crise pode parar sozinha. Depois dizia: ainda não parou mas vai parar. Depois dizia: errei em todas vezes anteriores mas isso não garante que esteja errado agora. Depois dizia: o assessor A acertou em todas as etapas anteriores e propôs corrigir os mecanismos que — confirmou-se depois — desempenharam um papel importante na crise, mas isso não garante que ele soubesse como evitar a crise. Talvez eu, que errei em todas as etapas e não propus corrigir nenhum mecanismo esteja certo.

Talvez, diz você. Mas vocês dizem coisas diferentes, e eu tenho de me inclinar mais para um para outro. Caramba, se houvesse alguma maneira de eu saber quem tem mais razão e agir em conformidade? Diz o assessor A: claro que existe essa maneira, basta olhar para o que sucedeu e corrigir agora os mecanismos que estavam defeituosos, e inventar mecanismos novos para prevenir os defeitos novos que indentificámos agora. Diz o assessor B: empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!, empirismo ingénuo!

O assessor A poderia ficar tentado a responder: como estamos a falar da realidade, talvez seja menos ingénuo ser um empirista do que um dogmático em estado de negação, e ainda por cima repetitivo. Mas vamos imaginar que o assessor A era um tipo paciente, assim como o João Galamba. Nesse caso, responderia assim: olhando para a evolução da crise ao longo do tempo, e pensando que ainda estamos a meio dela, concluo que há uma diferença entre ter sorte e ter razão. Eu não tive apenas sorte: tive razão. Tu não tiveste apenas azar: estavas errado.