Arquivo diario para Setembro 25th, 2008

Orgulho ignorante

Capa da Economist, há um ano e meio. Capa da Harper’s, há dois anos e meio.

Tentando fazer de conta que cumpre a promessa de não ler as crónicas de quem não concorda com ele, Rodrigo Adão da Fonseca descreve aqui a conversa que teve com um amigo imaginário sobre mim. Diz que eu “acertei no totobola à segunda-feira” sobre a crise do imobiliário, e resmunga contra o facto de eu citar as pessoas que previram e descreveram detalhadamente o que se ia passar, e sugeriram medidas para o evitar.

Um cronista que escreve sobre actualidade tem duas opções numa situação destas. Pode informar-se e passar aos leitores essa informação enquanto as coisas sucedem. Não estamos no fim da crise; ainda nem sequer estamos no meio. A última crónica termina até citando os avisos de três economistas (Roubini, Gros e Micossi) que têm acertado em cada momento da crise e que propõem medidas preventivas para o futuro próximo. Mas desde há meses tenho citado outros autores (Martin Wolf, Paul Krugman, Dean Baker) que propuseram correcções aos mecanismos defeituosos nas fases iniciais da crise, ou que explicaram por que as medidas então tomadas eram insuficientes.

Essa é uma opção: dar ao leitor a informação que me parece mais correcta e interessante. A outra opção é permanecer orgulhosamente ignorante como Rodrigo Adão da Fonseca que, mesmo à segunda-feira, continua a dizer que os resultados do totobola estão errados.

Ruiogramas

Claro que entretanto, numa decisão potencialmente suicida, John McCain decidiu aproveitar o pretexto mais à mão para tentar adiar os debates (e talvez passar o primeiro debate presidencial para a data do debate vice-presidencial, ficando este sine die e protegendo ainda mais a flor de estufa pitbull com baton Sarah Palin).

 

E entretanto, George W. Bush falou ao mundo, proclamando em traços largos a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas de Wall Street.

 

Fui comentando estes acontecimentos momentosos através do meu feed de twitter telégrafo, que vocelências poderão acompanhar aqui. Amanhã: a Goldman Sachs foi tomada por alienígenas.

Eu vou procurar e depois do exame digo-lhe, professor

Vejam este vídeo até ao fim. Vejam. Depois a gente conversa.

Vai fazer um mês que Sarah Palin foi seleccionada para vice de McCain e nesse período deu três entrevistas, das quais a primeira e a última foram um desastre (à segunda, da FOXnews, só faltaram as perguntas “posso lamber-lhe os pés?” e “aquele Obama não é assustador?”). Em todas elas eu só me conseguia lembrar de uma experiência: estar perante um aluno que não sabia nada de nada. Toda a gente que deu aulas, mesmo que por pouco tempo, conhece as entoações, as inflexões, as viragens e as fugas para a frente do aluno que se tenta safar da sua ignorância. Há as desculpas deliciosas: “não tenho o trabalho porque fui ao terceiro velório de uma tia no último mês”. Com o tempo, passamos até a admirar esses alunos pela sua coragem, ou pela sua loucura, pela sua audácia, ou lá o que é. Muitos são muito espertos; muitos sabem que a gente sabe que eles não sabem. Às vezes deixamo-los falar para ver até onde a coisa vai. E, muitas vezes, a coisa acaba como acabou este vídeo.

Não é defeito, é feitio

Passar o risco para a sociedade não é um exemplo do mau funcionamento da coisa; é um exemplo de como a coisa tem funcionado.

 

Vamos fazer um exercício. O cidadão informado poderia estar a par da bolha do imobiliário há, pelo menos, dois anos. Bastaria ler a imprensa. Uma capa já antiga da The Economist trazia a imagem de uma casa em queda; lá dentro, a única questão era saber se o embate iria ser mais suave ou mais brutal.

Explorando um pouco mais, encontraria economistas como Dean Baker, que escreveu sobre isto há seis anos; Nouriel Roubini, que acertou em todas as etapas da crise; ou o já falecido Hyman Minsky, que descreveu teoricamente o que se está a passar.

Então e os gestores dos grandes bancos de investimentos — os cinco maiores dos quais faliram, foram vendidos ou mudaram de ramo nos últimos dias — não sabiam o que se estava a passar? Continuar a ler ‘Não é defeito, é feitio’