Arquivo diario para September 23rd, 2008

Ainda há pluralismo de graça

Eu sou forçado a pedir desculpas ao Rodrigo Adão da Fonseca. Ele afinal é um pluralista e não pediu à SONAE que me despedisse para não estar “com o seu dinheiro” a “patrocinar” uma “voz radical”. Ele afinal até nem se importa que eu possa «escrever no P2 sobre literatura, música, servir cafés à Direcção, tirar fotocópias, cobrir os jogos “paralímpicos”», ou seja, qualquer coisa que não choque a sua sensibilidade ideológica. E também daria um excelente consultor de média, quando revela que perante o «desabafo daí de umas esferas da SONAE» lhes sugeriu que seria no interesse de uma empresa de comunicação social afunilar, na prática, o panorama de opinião que oferece aos seus leitores.

Eu estou convencido que o Rodrigo Adão da Fonseca é um pluralista pelo menos nisto: já explicou de meia dúzia de formas aquilo que disse no início, depois de passar quatro parágrafos a comentar uma crónica minha:

Espanta-me, mais uma vez, ler tudo isto num jornal supostamente moderado, no Público. Depois, senhores da SONAE, que deixam que o seu dinheiro dê voz a radicais, não se queixem, nos momentos da verdade, que o país está enviesado, entregue à extrema esquerda, e que encontram resistência na mentalidade dos portugueses para promover a mudança.

Não há vinte maneiras de interpretar isto. RAF sugere que não é no interesse dos proprietários do jornal usar o seu dinheiro para dar voz a radicais. A sugestão é para os proprietários e não para os directores e não tem por base qualquer critério editorial, mas daquilo que RAF interpreta como sendo os interesses da SONAE. A citação tem até a beleza da transparência. Tudo o resto é matéria de opinião: por acaso acho que na questão da crise financeira eu sou o moderado e RAF o extremista, por acaso imagino que os interesses dos proprietários do Público não sejam aquilo que o RAF supõe que são, mas isso são divagações. A posição do RAF é legítima. Não sei se é de bom gosto; mas gostos não se discutem. Não lhe fica bem mas é como o outro.

O que já não é matéria de opinião é que RAF tentou disfarçar, quando não distorcer, as suas próprias palavras de várias maneiras diferentes e sucessivas. Que “nada contra que o Rui Tavare escreva no 24horas, ou noutro sítio qualquer, dos que eu não leio”. Que afinal a referência sobre mim não era sobre mim e eu até tinha um “grande umbigo” a achar que era sobre mim. As mudanças de justificação são muitas e estonteantes e vale a pena dar uma olhada ao Insurgente para as ir seguindo (o RAF diz, às vezes, que não quer ver-me despedido, mas não é isso que os seus colegas de blogue acham que ele acha: “O RAF tem todo o direito, naturalmente extensível a todos os leitores do Público, de pedir o despedimento do comentador ou jornalista A, B ou C.” — atenção, o direito de pedir, ou mesmo de pedinchar, nunca esteve em causa). Passo directamente à mais divertida: o RAF achar ofensiva a passagem do meu texto em que digo

“Esta gente era capaz de viver na Idade Média e não só dizer que a Peste Negra era uma coisa óptima como defender que a cura era esfregar os abcessos bubónicos uns nos outros.”

Só há uma coisa mais triste do que uma pessoa incapaz de perceber uma figura de estilo (ou até duas: uma metáfora + uma hipérbole): é uma pessoa cujo último recurso é ter de fingir que não percebeu uma figura de estilo, ou duas.

A questão não é evidentemente, o RAF não querer ler o que eu escrevo: naturalmente, não é obrigado. Pode até usar a última página do Público para embrulhar peixe. A questão é ele não querer que os outros leitores do Público leiam essa última página. E aqui, diria eu (mas é matéria de opinião), é porque está em negação sobre as causas da crise financeira e prefere que as outras pessoas não leiam coisas que contrariam essa negação.

Para finalizar. Um outro autor do Insurgente vê um grande significado em “a esquerda” (na verdade, um grupo de direito dos homossexuais) ter metido uma vez João César das Neves em tribunal. Estou à vontade: não só nunca pedi que calassem João César das Neves como fui eu que tive a ideia de o convidar para falar sobre a crise financeira comigo, o Pedro Mexia e a Fernanda Câncio, hoje na Pó dos Livros a partir das 21h30. É para lá que vou agora e estão todos convidados. Até os insurgentes podem aparecer, se não lhes der azia tanto pluralismo, e ainda por cima de graça.

A nova pobreza


[Oliphant, para o International Herald Tribune, 20-21 Setembro 2008]

Gestor Pangloss

Enganados de novo. Andámos durante estes anos a aturar os consultores da Merril Lynch, os gestores da Lehman Brothers, os génios financeiros da Goldman Sachs — para vermos, numa só semana, que nem da casa deles sabem cuidar. Quantas vezes os ouvimos dizer que tínhamos de “desregular”, ou que havia controles demasiado “rígidos” sobre o mercado, ou que não tínhamos dinheiro para pagar saúde aos cidadãos, ou a universidade aos estudantes, ou que os privados fariam melhor com as nossas pensões de reforma? Pois bem, o contribuinte americano deve estar bem lixado, neste momento, ao ver que o dinheiro que não havia para reparar pontes e diques já terá que aparecer para safar todo o sistema financeiro desregulado.

E no entanto há sempre crentes. Continuar a ler ‘Gestor Pangloss’