Arquivo mensal para August, 2008

Roosevelt contra Roosevelt

É justo anunciar à partida que sou um obamaníaco e não avalio as eleições americanas com equidistância. Mas ganhei também o direito de me gabar: até agora tenho acertado aqui nas minhas previsões para as eleições americanas. Em pleno escândalo do reverendo Wright, sob a impressão geral de que a candidatura de Barack Obama acabara de ser destruída pelo seu desbocado pastor protestante, uma decisão do Partido Democrata sobre as primárias da Florida e do Michigan acabara (do meu ponto de vista) de lhe possibilitar a vitória. Pouco depois, houve um sobressalto geral com a ponta final de Hillary Clinton, numa altura em que me parecia que na verdade Obama já tinha essa vitória na mão.

Isso foi nas primárias democratas; agora estamos na campanha para as eleições gerais e o candidato republicano, John McCain, acabou de ultrapassar Obama nas sondagens. A percepção geral é a de que Obama está em queda quando deveria estar muito à frente. É mais uma vez o momento indicado para relançar o meu palpite: salvo escândalo ou guerra, continuo a apostar numa vitória de Obama.
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Para Marco Fortes

Oh meu Zeus, meu Zeus, vejam como estou indignado. Estou indignado, indignadíssimo!, com Marco Fortes, atleta português do lançamento do peso. Ao comentar o seu fraco desempenho nos Jogos Olímpico, Marco Fortes reconheceu que o seu corpo não responde tão bem de manhã: “de manhã é para estar na caminha — eu queria esticar as pernas mas elas só queriam estar na caminha”. Que é isto?! Em toda a minha vida, só ouvi um português dizer que “de manhã não funciono”: Sousa Franco. E foi preciso ter sido ministro das finanças duas vezes, presidente do tribunal de contas — um homem sério, portanto — para poder afrontar esse tabu.

Mas Marco Fortes fez pior: ainda teve o descaramento de sugerir aos outros atletas que valia a pena trabalhar para ir a Pequim, aos Jogos Olímpicos, pela “experiência”. O ultraje, o ultraje! Quem se julga este badameco para sugerir que participar num belíssimo evento desportivo, com atletas de todo o mundo, é uma boa experiência? Algum apóstolo do espírito olímpico?

Não sabe ele que o importante é só ganhar, ganhar pela pátria e pelos contribuintes que lhe “deram” uma bolsa, honrar a pátria e os contribuintes, dizer banalidades pela pátria e pelos contribuintes, ter juizinho pela pátria e pelos contribuintes?
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Arcos dourados

A guerra entre a Geórgia e a Rússia não destruiu só vidas, edifícios e esperanças. Destruiu também uma teoria – uma teoria tola, mas com muitos seguidores.

Foi o colunista Thomas Friedman, do New York Times, que lhe deu o nome de “Teoria dos Arcos Dourados da Prevenção de Conflitos”. Na sua forma caracteristicamente simplista, resumiu-a assim: “Nunca dois países onde há lojas de hambúrgueres da McDonald’s entraram em guerra.” Os arcos dourados que são o logótipo da marca seriam assim um símbolo de paz e prosperidade. Um símbolo de paz por causa da prosperidade, e um símbolo de prosperidade por causa da paz – mas mais a primeira do que a segunda.

Ora acontece que tanto Moscovo como Tbilissi têm restaurantes McDonald’s. Os arcos dourados das hamburguerias na Geórgia e na Rússia não impediram que os dois países entrassem em guerra.
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Arbitrariedades de conveniência

No Verão passado, o grande escândalo era se podia ou não vender-se bolos com creme nas praias sem refrigeração dos produtos. Seis meses depois, era a Lei do Tabaco que nos trazia o totalitarismo higiénico. Uma menção, por parte do Presidente da República, aos salários dos gestores privados foi “populista e demagógica”.

A semana passada, um agente da GNR baleou e acabou por provocar a morte a um rapaz de treze anos. Qual é a resposta dos mesmos comentadores que vêem em tudo a intromissão inadmissível do estado? Perguntar o que estava a fazer o rapaz no caminho das balas.

Faz sentido: afinal não saiu prejudicada a propriedade privada de ninguém. Pelo contrário, o pai e o tio do rapaz é que o levaram para roubar uns ferros de uma vacaria. Ferreira Fernandes, no DN, escreveu que “o que me preocupa mais no meu país é que haja um pai e um tio que levam um garoto de 13 anos para um assalto”. O editorial do DN considerou que a atitude dos parentes da criança “é que deveria ser tema de indignações e discussão”. A primeira pergunta que Helena Matos — que tanto se escandalizou com a opressão às bolas-de-berlim com creme — se lembrou de fazer num blogue foi esta: “independentemente de tudo, ninguém é responsabilizado por levar uma criança para um assalto?”
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Brasileiro salva TAP?

Na edição de ontem do PÚBLICO, nesta secção aqui ao lado onde se regista o “sobe e desce” quotidiano, a primeira referência levava uma foto com Fernando Pinto, da TAP, por causa de um estudo que considera que a companhia que ele administra era uma das poucas que iriam sobreviver à crise, em meia centena de trasportadoras aéreas europeias.

O título não era “Brasileiro salva a TAP”. Seria absurdo. Fernando Pinto vem do estado do Rio Grande do Sul, mas não é por ser brasileiro que salva a TAP – se a salvar, evidentemtente – e, conversamente, não é qualquer brasileiro que consegue fazer o mesmo que ele faz.

Outros títulos possíveis: “brasileira traz café à mesa quatro!” – “paciente afirma que cárie foi tratada por brasileiro” – “brasileiro assenta tijolo em prédio novo”. Todos igualmente absurdos – verdadeiros enquanto facto, ridículos enquanto notícia. Talvez interessantes enquanto estória, mas absurdos enquanto explicação.
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Um Cáucaso bicudo

Se há uma semana alguém perguntasse qual seria a melhor estratégia internacional da Geórgia – como da Arménia, sua vizinha – a resposta seria: esperar. Ainda há poucos meses, George W. Bush tinha proposto a entrada do país na NATO. Os aliados europeus não aceitaram a ideia; se o tivessem feito, seriam agora forçados a entrar em guerra com a Rússia. Mas com tempo e persistência a Geórgia acabaria por se associar de alguma forma à NATO e à União Europeia. Teria então mais peso para uma solução que lhe fosse favorável na Ossétia do Sul, que declarara a sua independência sem reconhecimento internacional, na década de noventa.
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Um país quase imaculado

Nunca tive ilusões sobre isto: a discussão sobre quais são os povos mais ou menos racistas é no mínimo um equívoco, e nos casos extremos tão preconceituosa como o racismo.

Franceses e ingleses acusam-se mutuamente de racismo. No Brasil, crê-se que há muito racismo nos EUA, mas evita-se comparar a realidade dos negros em ambos os países. E Portugal, evidentemente, considera-se naturalmente não-racista: seremos talvez uma raça superior a quem falta o gene do preconceito?
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