Arquivo mensal para Junho, 2008

O referendo que poderia ter salvo Lisboa

[Público 25 junho 2008]


O destino de Londres jogava-se em Lisboa. Pior: o destino da UE jogava-se em Lisboa. Se nós fizéssemos o referendo, o tratado não passava e aí vinha o directório. Não fizemos o referendo.

 

Os leitores são livres de achar que todas as minhas crónicas são inúteis. Eu acho que a de hoje é ainda um pouco mais inútil. Não muda nada, não há nada a fazer, o que passou passou. A crónica de hoje é acerca do referendo que poderia ter salvo o Tratado de Lisboa. E esse referendo teria sido — nem mais nem menos — aquele que nós não fizemos aqui em Portugal.

 

Aqui há uns meses, toda a gente pensava que a aprovação do Tratado de Lisboa no referendo irlandês era, no máximo, um risco controlado. O problema, o verdadeiro problema estava no Reino Unido, onde Gordon Brown poderia não escapar a um referendo que certamente chumbaria o tratado, e onde mesmo uma ratificação parlamentar estava longe de estar garantida.

 

Segundo nos foi então dito, cada referendo a mais poderia colocar em risco a posição de Gordon Brown. E isto não foi apenas um dos argumentos alegados por José Sócrates para não ir a referendo. Foi “o” argumento: Angela Merkel e Nicolas Sarkozy foram bastante claros sobre como seria perigoso um referendo em Portugal. Os rumores davam conta de que Gordon Brown temia pela sobrevivência do seu governo e dizia-se que o embaixador britânico em Lisboa fazia horas extraordinárias para explicar isso mesmo a São Bento. O destino de Londres jogava-se em Lisboa. Pior: o destino da UE jogava-se em Lisboa. Se nós fizéssemos o referendo, o tratado não passava e aí vinha o directório. Não fizemos o referendo.

 

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Avancemos até Junho de 2008. Os irlandeses chumbaram o tratado. Logo depois, em Londres, a Câmara dos Pares concluiu a ratificação do Tratado de Lisboa no Reino Unido (há ainda um processo em Tribunal pedindo um referendo, mas do ponto de vista político a ratificação foi até onde poderia ir).

 

Sempre achei bastante esquisita (e disse-o) esta história de Gordon Brown estar preso pela decisão que tomassem aqui os portuguesinhos. E agora vê-se quão esquisita era: o governo de Gordon Brown não está mais seguro do que antes, mas no entanto consegue aprovar sem espinhas o Tratado de Lisboa dias depois do “não” irlandês.

 

Vamos então imaginar que, indiferentes à sorte de Gordon Brown, os portugueses tivessem mesmo podido referendar o Tratado de Lisboa. O primeiro-ministro teria cumprido com a sua promessa. Nós teríamos tido um debate — que nos faz muita falta — sobre Portugal, a Europa e a globalização. Esse debate não seria isento de sensacionalismos nem exageros de ambas as partes, mas ainda assim teria sido sempre melhor do que não o fazer. Finalmente, como ninguém sabe o que teria acontecido no dia da votação, limito-me a arriscar sem grande risco que o “sim” teria ganho esse referendo.

 

Agora vem o melhor: a União Europeia teria avançado sem a mancha de ter evitado todos os referendos possíveis (o irlandês era inevitável por ser um imperativo constitucional). E com um pouco de sorte, até seguiria para o referendo irlandês com uma vitória portuguesa na aljava, que poderia influenciar positivamente o debate naquele outro país pequeno e periférico da União.

 

Bem sei que esta crónica inútil não passa de um amontoado de “ses”. Mas como muitas crónicas inúteis, tem uma moral da história: abandonar o princípio do referendo por razões pragmáticas foi mau para os princípios e para o pragmatismo. Ter mantido o princípio teria sido bom para os princípios, é claro, mas poderia até ter sido bom em termos pragmáticos. Se todos os meus “ses” estivessem correctos — e nunca o saberemos —, o referendo português não teria posto em risco o Tratado de Lisboa. É bem possível que até o tivesse salvo.

Assobiar e comer amendoins

[Público 23 junho 2008]


Também já ouvi o mesmo a italianos, brasileiros, russos e estado-unidenses. O que não falta para aí são países onde se diz que “só neste país”.

 

É uma expressão que os mexicanos costumam utilizar quando colocados perante uma falsa escolha: “olha lá, não podes assobiar e comer amendoins?” A resposta certa é, ao mesmo tempo não se consegue, mas ninguém fica impedido de assobiar por comer amendoins e vice-versa.

 

Outra coisa que os mexicanos costumam dizer muito: “só neste país!” Só no México, senhores, é que acontece isto ou aquilo. Há até mexicanos que dizem que “só no México” é que se diz “só neste país”. Também já ouvi o mesmo a italianos, brasileiros, russos e estado-unidenses. O que não falta para aí são países onde se diz que “só neste país”.

 

Sei muito bem, pois, que não é só neste país que se tem esta conversa sobre se a atenção ao futebol nos impede de prestar atenção às “coisas importantes” e se as pessoas das “coisas importantes” no fundo detestam o futebol. Quando a Inglaterra falhou a qualificação para o Euro houve um suspiro de alívio de alguns jornalistas que não aguentavam mais ter de cobrir os delicados tendões dos companheiros de David Beckham, as compras das suas esposas, e o delírio dos seus adeptos. E garantiram-me em 2002 vários brasileiros, de esquerda e de direita, que se o Brasil ganhasse a “copa” nunca Lula da Silva chegaria à presidência.

 

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Se bem entendo, há uma discussão entre Daniel Oliveira e Vasco Pulido Valente sobre estas coisas. Digo se bem entendo porque o primeiro escreveu um artigo em que deplorava a forma pouco profissional como os jornalistas se comportam durante o Euro. E o segundo não respondeu ao primeiro, coisa que é incapaz de fazer, mas chegou à conclusão de que “a esquerda” lançou “uma campanha contra o futebol” e que há uma “fúria da esquerda contra o futebol”. Qual fúria da quê? Qual quê da esquerda? Ou (presumo eu) Daniel Oliveira agora se transformou na esquerda inteira, ou Vasco Pulido Valente viu na derrota contra a Alemanha um sinal de que a esquerda “não percebe” nem “lhe ocorre” um monte de coisas, o que é sintomático nele. Imagino VPV vendo o jogo: “a esquerda ainda não percebeu que o árbitro não assinalou o empurrão de Michael Ballack”, “a esquerda recusa-se a entender que a defesa homem-a-homem tem problemas nas bolas paradas”, “a esquerda ainda não viu que Ricardo não sabe sair aos cruzamentos”.

 

Esta é uma discussão na qual se garante, de um lado e de outro, que quem assobiar não pode comer amendoins e vice-versa. Um tipo que pendura a bandeira à janela não pode ser cosmopolita. Uma feminista de esquerda não pode entregar-se a noventa minutos de futebol, o que deixa no limbo as amigas com quem vi os jogos. E finalmente, para VPV, há uma escolha a fazer entre a “egregia hipocrisia” de Scolari (qual?) e a “fúria da esquerda contra o futebol” (qual?).

 

Mas agora que fomos eliminados do Euro far-se-á a prova dos nove. Podemos finalmente falar dos assuntos sérios, em que Julho e Agosto costumam ser férteis. Um amigo de direita garante-me que Sócrates está acabado. A televisão continuará a ser o último lugar onde buscar informação.

 

E eu vejo a impossibilidade de ser pessimista, marxista ou de outra superstição religiosa. O sofrimento presente não me serve de consolo pelo futuro melhor. Continuando o mundo na mesma, a única diferença está em vir a morrer sem ter visto Portugal ganhar a taça.

Um incómodo chamado pessoas

[Público 18 junho 2008]


Para insuflar o oportunismo eleitoral de Sarkozy e Berlusconi, dificultamos hoje a legalização dos imigrantes para depois os podermos perseguir. 

 

Todos os anos celebramos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (parece que é assim que se chama) e lembramos os milhões de portugueses que saíram do país, muitos deles “a salto” e sem documentos. Foram em busca de melhor vida, contribuíram para o progresso dos países onde se fixaram e ajudaram o nosso através das suas remessas. Na Europa de hoje estariam a caminho de se tornarem “criminosos”.

 

De acordo com a “Directiva do Retorno” que hoje é votada no Parlamento Europeu, esses imigrantes, suas famílias e até menores sozinhos poderiam ser detidos até 18 meses sem julgamento. Como convém nestas coisas, a linguagem utilizada é orwelliana. Os “centros de acolhimento” são, na verdade, centros de expulsão colectiva. E a directiva nem sequer é “do Retorno”, pois não garante a repatriação dos imigrantes e prevê que eles possam ser entregues a países terceiros sem avaliar os respectivos riscos. A Europa de hoje, com os líderes que tem, não está preocupada sequer em obedecer aos padrões mínimos dos Direitos do Homem.

 

Que digo? A Europa de hoje, com os líderes que tem, não está sequer interessada em regular a imigração. Podemos defender mais ou menos imigração, mas todos deveríamos defender que os imigrantes sejam encaminhados pela via legal, que a resposta lhes seja dada num prazo curto, que tenham direito de recurso, que os utilizadores de mão-de-obra ilegal sejam punidos e que seres humanos devam ser tratados, no mínimo dos mínimos, de acordo com os direitos humanos. Mas a Europa de hoje pretende harmonizar a expulsão antes de harmonizar as condições de legalização.

 

No século XVII, o Padre António Vieira disse que inquisição era uma “fábrica de judeus” que servia apenas para alimentar o poder dos inquisidores, debilitando o próprio país. Para insuflar o oportunismo eleitoral de Sarkozy e Berlusconi, dificultamos hoje a legalização dos imigrantes para depois os podermos perseguir. Esta directiva fará da União Europeia uma fábrica de ilegais.

 

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No seu artigo de ontem, Vital Moreira argumenta contra duas alternativas de saída para o impasse europeu, defendidas respectivamente por mim e por Miguel Gaspar nesta última página do jornal.

 

Entendo as objecções contra o referendo pan-europeu, uma proposta com que simpatizo em teoria, e que também já vi defendida pelo Movimento Liberal Social. Mas a União é, na prática, um conjunto de estados. Não pode entrar em vigor um tratado que foi aprovado pelos eleitores da Alemanha mas rejeitado pelos de Malta, ainda que os primeiros sejam muitos mais que os segundos. O máximo que podemos ter é uma série de referendos nacionais realizados no mesmo dia mas que contam separadamente.

 

Vital Moreira não tem razão, contudo, quando se opõe à proposta de mandatar o Parlamento Europeu para escrever o primeiro esboço de um novo texto. Por que razão não poderia o PE fazê-lo a pedido dos governos europeus, quando o projecto de Constituição foi redigido pela Convenção de Giscard d’Estaing ou se nomeia um “grupo de sábios” para decidir as futuras fronteiras da União? Que tem a menos o Parlamento Europeu? Ser eleito pelos cidadãos?

 

Se o texto final é da Conferência Inter-Governamental (depois de começado pelo Parlamento Europeu e emendado pelos parlamentos nacionais) não vejo qual é a diferença material entre a redacção do Tratado Constitucional, do Tratado de Lisboa e a deste novo texto. Com uma grande vantagem política: os cidadãos estariam implicados no início do processo, escolhendo entre diversas propostas, e não apenas no fim do prato cozinhado.

Foleiro, pá

[Público, 16 junho 2008]

 

O debate é agora entre seduzir os irlandeses ou empurrá-los até um canto e puni-los por terem feito a escolha errada.

 

Nos próximos tempos vamos ouvir dezenas de explicações sobre o voto irlandês contra o tratado de Lisboa. A minha teoria é a seguinte: as pessoas reagem mal a uma pergunta desonesta, uma pergunta para a qual lhes fazem sentir que só é admissível uma resposta. Nestes casos, corre-se o risco de ouvir a resposta inadmissível.

 

Eu teria votado “sim”; mas não lamento o que sucedeu aos líderes europeus, que merecem plenamente este sonoro “vão-se lixar” em gaélico. Pela milésima vez: num processo constituinte não há nada mais importante do que a maneira como se fazem as coisas. E eles tentaram tudo para não as fazer da maneira certa: desde a convenção constituinte nomeada e não eleita, ao esboço no qual Giscard D’Estaing interveio como lhe deu na real gana, ao “diálogo” que nos foi prometido após os “não” francês e holandês e ninguém viu, à promessa de um mini-tratado, tratado simplificado, tratado reformador, para acabar num tratado propositadamente ilegível para fugir aos referendos — este foi um caminho de hipocrisia e chantagem trilhado à vista de todos.

 

E é assim mesmo que vai continuar até à plena satisfação das altas esferas. O debate é agora entre seduzir os irlandeses para um novo referendo com um pacote mais bonito ou, em alternativa, o método Nicholas Sarkozy: empurrá-los até um canto e puni-los por terem feito a escolha errada.

 

O excelente resultado está à vista. Mas haveria outra forma?

 

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Declaração de interesses: Miguel Portas foi director do primeiro jornal no qual trabalhei e considero-me seu amigo. É também eurodeputado pelo Bloco de Esquerda (ao contrário de mim, defende o “não” ao Tratado de Lisboa). E, por último, é a pessoa a quem já ouvi a proposta mais razoável sobre como sair deste impasse. Tendo em conta tudo isto, aqui vai:

 

Os governos da União deveriam admitir que o processo nasceu torto e nunca se endireitou. Tomariam então uma decisão simples: dar ao próximo Parlamento Europeu poderes de natureza constituinte para um esboço de novo texto. Em Junho de 2009 os europeus vão às urnas para as eleições europeias, nas quais os partidos se candidatariam com as suas ideias: nenhuma constituição, uma constituição, mais social, mais liberal, um tratado simplificado ou consolidado, o que seja.

 

Após as eleições, o Parlamento Europeu prepararia um primeiro esboço do novo texto. Este seria enviado aos parlamentos nacionais, para ser emendado. Depois subiria ao Conselho Europeu, onde estão todos os governos, e que funcionaria como um senado onde cada país vale o mesmo (para compensar a composição “demográfica” do Parlamento Europeu). Finalmente, este novo texto seria ratificado pelos parlamentos e/ou votado em referendos nacionais, mas realizados nos vários países europeus ao mesmo tempo.

 

Pode falhar? Pode sim. Mas, para variar, seria um caminho honesto.

 

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Em território espanhol, o Presidente da República comentou o fim do bloqueio dos camionistas. Subitamente, ao perguntarem-lhe por que razão tinha chamado ao 10 de Junho o “dia da raça”, escusou-se alegando que “aqui não faço comentários sobre política interna”. Isto não é apenas uma contradição em poucos segundos, chega a ser gozar com as pessoas. Cavaco Silva deveria ter mais cuidado: os presidente usufruem de um respeito generalizado na medida em que tratam com respeito os cidadãos, e assim se dão ao respeito.

Da politicagem à política

[Público, 11 junho 2008]

 

A rivalidade entre lideranças da esquerda portuguesa tem, costuma dizer-se, raízes históricas. Talvez seja, mas a verdade é que a manutenção da rivalidade tem sido do interesse dessas lideranças.

 

Em tudo aquilo que um político faz há sempre uma parte de “politicagem” — prático brasileirismo que designa as manobras de curto prazo contra rivais, adversários e às vezes companheiros de partido. O ritmo do ciclo noticioso dá mais atenção à politicagem do que à política, e mais atenção a alguns efeitos da politicagem do que a outros. Foi assim que na semana passada, quando Manuel Alegre participou num comício do Bloco de Esquerda, o efeito imediato foi pensar na irritação que isso provocaria a José Sócrates — o que foi favorecido pelas reacções de dois políticos que devem pouco à subtileza, Vitalino Canas e José Lello.

 

Menosprezou-se o efeito sobre os outros partidos da oposição. O PSD acabara de eleger o seu líder, pela primeira vez uma mulher, Manuela Ferreira Leite. Três dias depois, de que se falava? A agenda jornalística oscilou completamente para a esquerda do PS, esvaziando o fôlego que o PSD trazia do seu debate interno. E atenção: nas próximas eleições vai haver um eleitorado flutuante que o PSD vai ter de disputar com a oposição à esquerda do PS — e neste momento, as sondagens dão ao PSD pouca distância sobre o conjunto PCP+BE.

 

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Mas há um aspecto de política (por oposto a politicagem) que dá relevância de longo prazo àquele evento. Agora que passou algum tempo, demos-lhe a devida importância.

 

A rivalidade entre lideranças da esquerda portuguesa tem, costuma dizer-se, raízes históricas. Talvez seja, mas a verdade é que a manutenção da rivalidade tem sido do interesse dessas lideranças, que para segurar votos apresentam as respectivas diferenças como inultrapassáveis. À esquerda do PS, por exemplo, faz-se sempre um grande alarido à volta dos “desvios de direita” do governo. Não é que eles não existam: mas o alarido serve para disfarçar as mudanças por que passaram os próprios desde os tempos em que defendiam a colectivização revolucionária.

 

A verdadinha é que toda a gente é hoje mais ou menos reformista e social-democrata. Na mente do povo de esquerda, que é uma porção considerável do eleitorado, está acima de tudo: equidade e justiça, qualidade dos serviços públicos, protecção social na saúde e na velhice, aposta na educação. Este povo de esquerda português (ao qual — já agora — me orgulho de pertencer) quer ver estes temas no centro do debate político. As linhas de fractura partidária e as rivalidades entre lideranças dizem-nos pouco, às vezes nada. A imagem do país que gostaríamos de ter, e do papel activo que toda a esquerda deve ter nele, dizem-nos muito mais.

 

Não há, ainda, um discurso articulado de combate às desigualdades. Manuel Alegre e o Bloco estiveram longe de o apresentar. Mas refutaram ao menos o preconceito de que não podiam falar em conjunto. Serão premiados por isso — o que dará às outras lideranças a lição de que a abertura compensa. O problema é que, a seguir, deixam de ter pretextos para continuar a não falar. Até porque, esquecendo as lideranças, há outras iniciativas na calha: o povo de esquerda quer mais.

 

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O Presidente da República tem a obrigação de ser rigoroso quando fala e de pedir desculpas quando falha. Mais vergonhoso do que enganar-se no nome de um feriado é não admitir comentar e corrigir o erro. Ontem não foi dia de lembrar a “raça”, como disse Cavaco Silva com encantadora ignorância. Ontem comemorou-se o Dia de Portugal, no aniversário da morte de Luís de Camões, sozinho e abandonado por todos, menos por um estrangeiro da ilha de Java, que era o seu mais fiel amigo. Onde estava então a “raça” portuguesa?

Uma estratégia simples

[Público, 9 junho 2008]

 

A inferioridade com que nos fustigamos em relação aos países ricos tem de ser compensada por alguma coisa, e a sobranceria em relação aos países que imaginamos estarem abaixo na escala do desenvolvimento serve esse propósito.

 

Há poucos anos contava-me um colega que tinha chegado lá ao departamento universitário um diploma brasileiro com um pedido de equivalência. Na reunião em que se falou do assunto alguém olhou para o processo e reagiu: “Universidade de Campinas?! Os brasileiros inventam com cada uma — eheheh — não sei que universidade é esta”. Suponho que hoje fosse mais fácil explicar aos colegas de que universidade se tratava, talvez com a simples frase: “é uma que está centenas de lugares acima de nós no ranking”. Efectivamente, essa universidade também conhecida UniCamp foi das que mais subiu no ranking mundial do Times Higher Education Supplement, passando da 448ª posição para a 177ª, imediatamente atrás da melhor universidade de língua portuguesa — que é, como seria de imaginar, a Universidade de São Paulo [USP]. Nenhuma universidade portuguesa aparece nos duzentos lugares deste ranking.

 

No ranking elaborado anualmente pela Universidade de Xangai, as Universidade de Lisboa (“Clássica”) e a do Porto conseguiram entrar na tabela de 500 lugares, atrás de cinco universidades brasileiras: as já referidas UniCamp e USP, mais a Federal do Rio de Janeiro, a Estadual Paulista e a Federal de Minas Gerais. Mas a atitude depreciativa que relatei acima subsiste sem dúvida, porque todos a reconhecemos bem em Portugal. É que a inferioridade com que nos fustigamos em relação aos países ricos tem de ser compensada por alguma coisa, e a sobranceria em relação aos países que imaginamos estarem abaixo na escala do desenvolvimento serve esse propósito, fornecendo apenas a pura satisfação psicológica da demissão: nem compara, nem compete, nem coopera. É talvez a mesma absurda razão por que, como lembra o blogger Ivan Nunes, os brasileiros estudam Eça de Queirós na escola mas nós não estudamos Machado de Assis.

 

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Vasco Graça Moura, em novo texto contra o acordo ortográfico de novo aprovado pelo parlamento português, alerta para o risco de estarmos perante “uma Ota linguística”. É uma comparação absurda mas curiosa: a referência à localização abortada para um novo aeroporto na região de Lisboa vai direitinha para o Presidente da República, que teve um papel crucial nesse processo, e em quem os opositores do acordo ortográfico depositam agora as últimas esperanças.

 

Se a ideia é dar a entender que o acordo ortográfico seria um erro estratégico como presumivelmente a má localização de um aeroporto, haveria então algo a ganhar em que o Presidente Aníbal Cavaco Silva vetasse agora um acordo ortográfico (que foi em primeiro lugar assinado por um primeiro-ministro cujo nome era: Aníbal Cavaco Silva).

 

Ao contrário da inconstância e amadorismo que daria aos opositores do acordo esta alegria de última hora, há uma razão para que a estratégia portuguesa em relação ao Brasil tenha sido sempre a mesma. Porque é a estratégia correcta, e tão simples que se resume numa frase: consiste em envolver o Brasil num esforço colectivo de promoção da língua, em que cada país lusófono conta institucionalmente o mesmo.

 

E tem ainda isto a seu favor: é realmente uma estratégia. Como tal, não se detém no acordo ortográfico. O exemplo das universidades com que comecei demonstra que há muito a fazer. Desde logo, abrir as nossas universidades (reconhecendo por exemplo os graus secundários brasileiros) e usando o prestígio que algumas lá têm, como Coimbra, e os diplomas europeus que elas podem conferir. Vem aí a presidência portuguesa da CPLP, e é preciso pensar o futuro pós-acordo.

Abertura

[Público, 4 junho 2008]

 

Se há crise na Europa ela está nesta ideia crucial: abertura. E há dois campos onde a crise de abertura é ainda mais alarmante do que no alargamento: democracia e imigração.

 

No outro dia chamaram-me para discutir a “crise na Europa”, por causa do petróleo, e eu lá fui pensando que há sempre uma crise na Europa, real ou imaginária. E no entanto, a crise do petróleo não tem origem na Europa, que até fez algum trabalho de casa no consumo dos seus automóveis e no uso do transporte público (Portugal atrasado no segundo ponto, infelizmente). E no entanto, se pegarmos em alguns livros recentes, vemos que os norte-americanos mais informados, de Fareed Zakaria a Parag Khanna (não por acaso imigrantes) nutrem uma franca admiração pelo que a Europa tem conseguido, nomeadamente pela sua forma de resolver conflitos através do alargamento.

 

Se há crise na Europa ela está nesta ideia crucial: abertura. E há dois campos onde a crise de abertura é ainda mais alarmante do que no alargamento: democracia e imigração.

 

O primeiro está à vista de todos. A forma como os líderes europeus trataram do processo constitucional e estão a tratar da nomeação do Presidente do Conselho Europeu, com Sarkozy sempre à cabeça das manobras, é pouco menos do que humilhante para a opinião pública europeia. O que nos resta é seguir com inveja a energia das eleições primárias nos EUA — ou, vá lá, esperar pelas eleições para o Parlamento Europeu, as únicas em que temos voz directa.

 

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O verdadeiro título de crise na Europa é este: Sarkozy quer endurecer o combate à imigração “ilegal” através de uma política comum.  É assim: primeiro dificultamos a legalização, depois combatemos os “ilegais”, a quem alguns propõem encerrar em centros de deportação até dezoito meses sem terem cometido crime algum, e aos quais o novo governo italiano propõe criminalizar e prender até quatro anos (bela ideia: em vez dos imigrantes trabalharem para pagar os nossos impostos, vamos nós trabalhar para pagar os custos de encerrar mão-de-obra na prisão).

 

Sarkozy, que exigiu fugir ao eleitorado no tratado de Lisboa, tem a sua popularidade em baixa. Solução: vender aos franceses a ideia de que vai combater a imigração na Europa. Como é hábito, sempre que se vê em dificuldades, Sarkozy está a falar em código para o seu eleitorado envelhecido e xenófobo. O resultado seria fazer os seus parceiros europeus pagar pelas falhas na integração da comunidade árabe em França — obrigando-nos por exemplo em Portugal a prescindir de imigrantes com os quais partilhamos em geral a língua, os hábitos, e que podemos integrar com relativa facilidade. E de caminho, fazer os imigrantes pagar pelo aumento dos combustíveis e pela descida na popularidade dos políticos.

 

Mas nós precisamos de políticos com coragem para dizer que precisamos de imigrantes: não só para trabalhar, não só para pagar a nossa segurança social e impostos, não só para rejuvenescer o país, mas porque ninguém conseguirá preparar-se para o mundo do futuro se não tiver um pouco de globalização à porta de casa. Voltando aos livros de Fareed Zakaria e Parag Khanna: felizmente para os EUA, dizem eles, a Europa não é competitiva na imigração — apesar do dólar baixo ser menos atractivo para os imigrantes. Alívio: afinal, vinte e cinco por cento das patentes americanas são assinadas por imigrantes indianos ou chineses (sem contar com os cérebros europeus que para lá continuam a fugir).

 

Mas não se iludam: não dá para atrair o engenheiro indiano e expulsar o pedreiro indiano ou o comerciante indiano — os imigrantes, principalmente os “qualificados”, vão para onde sentem abertura. E se o medo da democracia e o medo da imigração nos provam alguma coisa, é esta: a Europa vive numa crise de abertura.

Investir na crise

[Público, 2 junho 2008]

 

Diz-se que a subida do petróleo afecta todas as actividades da mesma forma. Não é verdade: as indústrias do conhecimento, da criatividade, da cultura e — em menor escala —do meio ambiente, do lazer ou do turismo escapam parcialmente ao garrote do combustível. 

 

Salvo encontrar petróleo em abundância nas Berlengas, o que faria de Portugal um país próspero? Mudar o país de lugar, ou melhor, tê-lo mudado aqui há uns séculos. Só com muito talento se conseguiria permanecer pobre no vale do Reno, rodeado de países ricos por todo o lado.

 

Aqui onde estamos, qualquer produto nosso tem de atravessar a Espanha para chegar aos consumidores do centro europeu, e a um preço mais baixo, conseguido à custa dos nossos salários. A crise do petróleo não nos diz nada de novo. Apenas agrava o que já sabíamos.

 

Se a economia espanhola estava em cima aqui há uns tempos, e isso era visto como um mau sinal para nós, esperem para ver quando a economia espanhola estiver em baixo. A crise espanhola é que é um mau sinal, mas eles têm uma vantagem: dinheiro em caixa, que vão usar para investir na crise, durante a crise, e para sair dela por cima. É o mais inteligente a fazer, e para nós também.

 

A primeira coisa a fazer é agir como se o aumento do petróleo fosse permanente — provavelmente até é — e agir com conformidade. Nesta crónica e nos próximos tempos vamos chutar umas ideias avulsas, pensadas e picadas de coisas lidas por aí, e algumas que até já estão a ser feitas. Nem são particularmente novas. Mas como dizia um escritor de ficção científica, o futuro já está aí — está é mal distribuído.

 

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Diz-se que a subida do petróleo afecta todas as actividades da mesma forma. Não é verdade: as indústrias do conhecimento, da criatividade, da cultura e — em menor escala —do meio ambiente, do lazer ou do turismo escapam parcialmente ao garrote do combustível. O combustível serve para deslocar coisas e pessoas; nestas outras indústrias o que se vende é, em larga medida, imaterial.

 

Além de continuar a investir na energias alternativas, tudo o que seja imaterial e possa ter valor de troca nos interessa (na verdade, já deveria interessar-nos há muito tempo, dada a nossa posição periférica). Eu sei, esta conversa está na moda. Pois bem, é uma moda que para nós faz sentido.

 

Há hoje muitas actividades que são independentes do lugar. O criativo que trabalha para as indústrias do vale do Reno não tem obrigatoriamente de viver lá. Mas pode viver aqui, onde o clima, a segurança e a comida ajudam. Para seduzir esta gente, Portugal terá de aumentar a qualidade de vida nos centros urbanos, onde as pessoas vivem mais perto umas das outras, querem ter vida cultural e usam mais os transportes públicos. Ganhamos todos com isso, e de várias formas.

 

Somos fracos em matemática, e vamos demorar para ficar mais fortes, mas há coisas em que já somos bons ou podemos vir a sê-lo rapidamente. Uma delas: línguas. Portugal deve ser um pólo de aprendizagem de línguas, para nós e para os estrangeiros, aproveitando a proximidade com a lusofonia, o mundo espanhol e até o mundo árabe. O inglês é só o primeiro degrau da globalização: os mais competitivos serão poliglotas. Além disso, os espanhóis não competem bem neste campo e as indústrias imateriais precisam de línguas.

 

Nestas indústrias a matéria-prima é: educação, educação, educação. Sim, a velha paixão, de Passos Manuel a António Guterres, sempre escarnecida pelos cépticos! Que se lixem os cépticos. Os cépticos gostam de alegar que já gastámos muito em educação (como se fosse uma opção desistir a meio do caminho) e que a Inglaterra fez a revolução industrial com um exército de analfabetos. Pois é: mas os tempos que aí vêm são muito diferentes da revolução industrial. Mesmo nesse tempo, Passos Manuel já tinha razão. Hoje teria mais ainda.