Arquivo mensal para Maio, 2008

Um mundo ou o outro

[Público, 26 maio 2008]

 

Uma feira é uma forma particular de mercado — sim, um mercado tão igualitário quanto possível.

 

Quando posso, gosto de ir ao primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa. Este ano não pude. Estive na Bienal do Livro de Minas Gerais, no Brasil, onde o escritor Moacyr Scliar perguntava: “qual feira do livro de Lisboa? cancelaram!” — a notícia do tumulto chegou mais longe do que eu pensava.

 

À distância, vejo que em Portugal o assunto da feira adquiriu rapidamente dignidades de interpretação ideológica. É preciso escolher uma abordagem — ser “a favor do mercado” ou “contra o mercado” — para depois optar por um mundo contra o outro, APEL contra UEP, barraquinhas coloridas contra “praça Leya”.

 

Esta dicotomia “mercadológica” já cansa. Uma feira é um mercado, os editores e os autores estão ali “no mercado”, se para lá foram sempre estiveram “no mercado” e isso é bom. Ao mesmo tempo, uma feira é uma forma particular de mercado — sim, um mercado tão igualitário quanto possível — que se organiza melhor em certos espaços físicos como praças e parques, onde se pode oferecer as mesmas condições a todos.

 

As formas têm a sua lógica própria. A feira é uma forma. O parque onde ela se realiza também “pede” uma certa forma. O que essas formas “pedem” — e não as teimosias ideológicas de cada um — é uma coisa como a que lá se tem feito. Aquele aspecto primaveril, provincial e, mais uma vez, igualitário, — mas será isso um problema assim tão grande quinze dias por ano? — tem servido muito bem. A prova é que tanta gente gosta tanto de lá ir.

 

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Mas o que me encazina mesmo nisto é que parece haver obrigação de escolher. É um mundo ou o outro. Isso poderia justificar-se se houvesse falta de público. Mas não há. O que impedirá os lisboetas, que vão alegremente à feira do livro em Maio, de voltar a outro evento com livros no Outono?

 

Em vez de ter uma feira ou outra coisa diferente, deveríamos ter a feira e mais outra coisa. Consagraríamos a prática — que já foi experimentada — de realizar um “salão do livro”, ou “festa do livro”, ou o que lhe quiserem chamar, num espaço fechado, na segunda metade do ano. Cada editor ou grupo de editoras — compradas ou não pelo mesmo dono — poderia aí ocupar os metros quadrados que desejasse pagar, com o pavilhão que quisesse imaginar, e o fogo de artifício que lhe aprouvesse, desde cafezinho de graça a música ao vivo. Nos espaços comuns, haveria uma programação de debates, leituras de livros e presenças de autores convidados por uma curadoria independente.

 

Mas esperem, há mais: os livreiros também têm umas ideias. Jaime Bulhosa, da livraria Pó dos Livros e (declaração de interesses) meu amigo, defendeu no seu blogue um terceiro modelo, o de uma semana do livro com descontos e eventos nas livrarias de toda a cidade.

 

Qual é o problema? É mais arriscado inovar em eventos novos do que ter sucesso em cima de um modelo que já funciona bem? Mas é para isso mesmo que servem os empresários com visão e a vitalidade do mercado (bem, dizem-nos que servem para a primeira coisa, mas aparentemente têm mais jeito para a segunda).

 

Pelo que vi a semana passada em Minas Gerais, onde vigora o segundo modelo, a coisa resulta, e com muito público. Em Amesterdão vigora com muito sucesso o terceiro, o da semana dos livreiros. E sabem que mais? Faz sentido. No fundo, toda a gente que lê livros gosta de ter um mundo e o outro, e mais outro ainda.

Dogmas em fim de carreira

[Público, 21 maio 2008]

Ninguém pode acreditar que as “políticas sociais”, principalmente estas meramente paliativas, resolvem tudo. Mas a intenção delas não é resolver tudo.

Aqui há uns tempos Pacheco Pereira escreveu uma crónica sobre o desemprego em Portugal, e como ele afectava especialmente as mulheres, percorrendo uma lista dos efeitos secundários do desemprego sobre a auto-estima, a autonomia pessoal, o futuro dos filhos, — entre outros muitos exemplos desses efeitos sobre a vida de pessoas, famílias e comunidades inteiras.

 

Foi uma das suas melhores crónicas de sempre. No fim, porém, revelava um certo fatalismo: o de saber que muitas das empresas onde antes trabalhavam estas mulheres não eram viáveis e teriam mesmo de fechar. Ainda assim, reconhecendo a centralidade que o emprego tem ainda na vida de toda a gente, Pacheco aconselhava o PSD a dar atenção às fábricas e às empresas. Dar atenção não é o mesmo que dar solução, mas é sempre melhor do que nem ligar ao assunto.

 

No início da campanha eleitoral do PSD, aquele comentário era também uma forma de se demarcar do discurso do principal adversário ideológico do momento, Pedro Passos Coelho, modernizante na doutrina “liberal” mas sem atenção às pessoas concretas. Manuela Ferreira Leite, que Pacheco apoia, tem perfil conservador mas preocupa-se. Não há nada a fazer, mas ao menos preocupa-se. A escolha seria assim entre alguém que nem sequer se preocupa e alguém que não pode fazer nada.

 

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Falta reconhecer que não havendo talvez solução — não havendo A Solução no singular — para aquelas fábricas e empresas, há soluções — no plural — para aquelas mulheres e para aquelas pessoas, que afinal são quem importa. Se os efeitos do desemprego são tão terríveis e contagiosos como eram descritos naquela crónica — e são mesmo — se eles se reflectem na vida daquelas mulheres, na da filha que já não vai para a faculdade, da própria cidade de onde desaparecem pequenos negócios e lojas — bem, se isto é assim mesmo, talvez seja melhor intervir com políticas sociais que suavizem os efeitos do desemprego.

 

As formas mais conhecidas dessas políticas são: subsídios, gabinetes de apoio, assistência social, formação, animação cultural, investigação sociológica para acompanhar isto tudo e — já sei, já sei: o leitor de direita está prestes a lançar um grito. Acha que tudo isto é desperdício de dinheiro e conversa fiada que não traz os empregos de volta. Nem mais. O problema está aí: aquilo que se pode fazer para debelar os sintomas que Pacheco Pereira reconhece já ele próprio (e o leitor) excluiu ideologicamente à partida.

 

Ninguém pode acreditar que as “políticas sociais”, principalmente estas meramente paliativas, resolvem tudo. Mas a intenção delas não é resolver tudo. No início é mera contenção de danos: não se trata de trazer os empregos de volta, mas de não deixar alastrar os efeitos do desemprego. No meio é não deixar enfraquecer a comunidade e prepará-la melhor para poder recuperar. E no fim, nos melhores casos, a possibilidade seria substituir empregos intensivos, às vezes poluentes e pouco produtivos, por empregos novos e de tipo novo: mais diversificados, mais autónomos, com mais valor acrescentado.

 

A maior parte das “medidas sociais” poderá até não resultar para lá da emergência, o que já é importante. Mas as que se prolongam e resultam têm sempre impactos muito positivos para as comunidades e a economia como um todo. Isto se não forem mortas à partida pelo preconceito cego contra os subsídios e os assistentes sociais e o dogma de que o governo não pode fazer nada para ajudar.

 

Abandonar esse dogmas implica que o PSD tem de virar à esquerda? Se quiser fazer mais do que preocupar-se, sim.

Falta Fazer

[Público, 19 maio 2008]

O resto é connosco e não com o Estado: o resto é a vida lá fora e isto que estamos fazendo.

Ainda aí estão todos? O país intacto? Não se abriu no Atlântico um buraco em forma rectangular, mais umas ilhas às avessas? Nada disso? É que da última vez que falámos a nova ortografia ainda não tinha passado no parlamento, e só Endovélico — deus dos lusitanos — sabe o que pode ter acontecido entretanto.

 

Garantiram-me que a nossa identidade multissecular estava em risco se os deputados aprovassem a coisa, o “segundo protocolo modificativo ao acordo ortográfico do língua portuguesa”, ufa, só escrever o nome já cansa. Foi prometido; espero para ver como será a “perspectiva do desastre” que nos profetiza Vasco Graça Moura num livro cuja capa escolheu ilustrar, — qual Padre Malagrida das consoantes mudas —, com uma imagem do Grande Terramoto de Lisboa.

 

Boa parte dos meus amigos jura nunca deixar de escrever como lhes foi ensinado. E eu gostaria que assim fosse, juro também, por eles e por mim. Em memória do tempo em que também eu — pois é — era contra o acordo.

 

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É para vocês, meus amigos, que agora falo. Isto não foi nada: nem um desastre, nem um milagre. Nem o português vai morrer; nem por isto apenas se vai guindar à glória.Enfim, vocês admitirão que nós não amamos menos a nossa língua e nossa pátria, vá lá façam um esforço. E é justo reconhecer que do vosso jeito possessivo, com a vossa retórica tremendista, com o vosso nacionalismo que — ponham a mão na consciência — às vezes passa o limite do desagradável, vós tendes um raio de uma admirável paixão assolapada por ela. Saravá por isso!

 

O importante vem agora. E falta fazer tanto, mesmo naquela pequena parte em que, como comunidades politicamente organizadas, temos deveres particulares perante o idioma.

 

Para dar um exemplo: os ossos. Os nomes dos ossos mudaram aqui há tempos, felizmente em Portugal e no Brasil ao mesmo tempo e da mesma forma. Caso contrário, imaginem as consequências para a edição médica, para a comunidade científica, ou (por exemplo) para os médicos africanos formados num país ou noutro. Em suma: despachem-se lá com o vocabulário técnico-científico comum que está prometido há mais de quinze anos, e com que até Vasco Graça Moura concorda.

 

Falta criar uma Academia Lusófona ou, pelo menos, dar meios decentes ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa para que promova estudos e documentos de trabalho (por exemplo) que sirvam de referência para palavras do quimbundo, transliteração do russo, nomes próprios geográficos. Só referência, sem força de lei: os tradutores e revisores agradecem.

 

E aproveitem agora, que os brasileiros julgam ter sido tão céleres a aprovar o acordo, para os convencer a dar mais dinheiro para a causa. Faça-se um plano de acção para as universidades estrangeiras. Agora já não há desculpas (diga-se) para não ensinar a terceira língua mais falada do Ocidente, e muito menos para nos encafuarem nos departamentos de espanhol. Com ortografia comum, e duzentos e tal milhões de falantes, e uma ajuda dos interessados, vamos lá a multiplicar os departamentos de língua portuguesa no mundo.

 

Isto é apenas o que nos compete enquanto comunidades politicamente organizadas. É uma parte ínfima da língua, felizmente. O resto é connosco e não com o Estado: o resto é a vida lá fora e isto que estamos fazendo. Falar, escrever e gemer, protestar por tudo e por nada, polemizar interminavelmente, resmungar uns com os outros. E para tais coisas, meus amigos — deixai-me pecar também —, não há lingua melhor do que a nossa.