Arquivo diario para Fevereiro 11th, 2008

Público mau, privado bom

Vamos todos cantar em coro: se não houver regulamentação, não há corrupção. Poderíamos também cantar, dentro de uma lógica semelhante: se não houvesse meteorologia, não haveria chuva.

 

Aqui há uns anos, quando se soube que um par de ministros do CDS tinha aproveitado os últimos dias de um governo cessante para permitir o abate de sobreiros no empreendimento turístico de um banco muito rico, ouviu-se distintamente o refrão deste coro. Houve quem nos dissesse que o problema não estava nos interesses privados, e que o problema também não estava nos governantes que tomaram a decisão. Nada disso. O problema, tal como nos foi solenemente explicado, estava no excesso de regulamentação: se os sobreiros não fossem uma espécie protegida, e se o seu abate não fosse controlado pelas entidades competentes, os empresários não precisariam dos políticos para nada. A lógica é imbatível: sem regulamentação não haveria necessidade de corrupção. É evidente que sim: mas também não haveria sobreiros.

 

Mais recentemente houve notícias de que o ex-ministro do Turismo, Telmo Correia, aproveitara as suas últimas horas no governo para, com a velocidade do relâmpago, assinar umas centenas de despachos — um dos quais parece favorecer com património público os donos do Casino de Lisboa. Entre os opinadores do status quo, porém, lá regressou esta extraordinária teoria de que o problema não está no poder de quem já tem muito dinheiro, nem o problema está em haver qualquer coisa de estranho nos políticos deste partido dos valores. O problema, certamente, é sempre um e apenas um: o peso asfixiante que o Estado tem sobre os actores da economia nacional. É um Ovo de Colombo: se os nossos governantes não tivessem de tomar decisões sobre nada de importante, não haveria tentações. Mas, pensando bem, também não precisaria de haver eleições.

 

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Passei pela Ginjinha do Rossio, já reaberta e em pleno funcionamento. A maior parte dos leitores certamente se lembrará de como o seu encerramento temporário, por razões de segurança alimentar, foi apresentado como prova cabal de que o tal Estado asfixiante desejava acabar com a alma nacional em favor de um totalitarismo higienista. Aliás, a maior parte dos leitores nem saberá que a Ginjinha voltou a abrir e, como é natural, as intoxicações alimentares que não se apanham nunca chegam a ser notícia.

 

Do outro lado da praça está o Grémio Lisbonense. É uma parte igualmente importante da história lisboeta, desde 1842 na sua varanda do Arco de Bandeira. Já ali estava até quando à sua frente foi inaugurada a estátua de Dom Pedro IV, esse monumento descrito por Eça de Queirós como uma “longa vela de estearina que tinha por pavio” o monarca que mostrava “um papel, — a Carta Constitucional —, ao Clube do Arco da Bandeira”. Agora que o Grémio vai sair — não temporaria nem condicionalmente — mas definitiva e inapelavelmente do Rossio onde esteve nos últimos 166 anos, de nada lhe vale aquela deferência do liberal Pai da Pátria. Já ninguém chora pela alma nacional nem pela história da cidade. Já não se fala de totalitarismo higiénico nem de qualquer outra espécie. E porquê? Porque é um privado que o vai fechar. Logo, não há nada a dizer.

 

Cantemos todos em coro, vá: público mau, privado bom!