Arquivo diario para February 2nd, 2008

O efeito de Jonas

Fala-se muito, em política, economia e sociologia de uma coisa chamada “self-fulfilling prophecies”, ou seja, profecias que se cumprem a si mesmas. Em traços largos, seria assim: diz-se “vem aí uma recessão”, e o próprio medo da profecia lança-nos numa recessão. Poderíamos chamar a isso, para evitar o anglicismo, o “efeito de Cassandra”, da figura da mitologia grega cujas profecias se realizavam pelo mero facto de ela as ter feito (Popper chamava-lhe o “efeito de Édipo”, mas Cassandra é mais interessante porque ninguém acreditava nas profecias dela até elas se terem realizado).

 

Poucas vezes se nota que existe também uma coisa contrária, ou seja, as profecias que só se realizam se ninguém falar delas. Gosto de chamar a isto o “efeito de Jonas”, por causa do meu livro preferido da Bíblia, em que o profeta Jonas não quer ir a Ninive para profetizar a destruição da cidade porque teme que os ninivitas se arrependam, a cidade acabe por não ser destruída, e ele saia desacreditado do processo.

 

Caem nesta categoria muitas das coisas que se dizem sobre políticos e governantes. Se muita gente disser que Fulano não se aguenta à frente do partido, Fulano vai fazer das tripas coração para não dar razão aos seus adversários. Se muita gente disser que Beltrano vai ser nomeado governador do Banco de Portugal, é sabido que o nomeado terá de ser outro, para não parecer que estas coisas se decidem na praça pública. E, como é evidente, se muita gente disser que o primeiro-ministro vai demitir o ministro Sicrano, o primeiro-ministro tenta mantê-lo ao máximo para mostrar que não é pressionável “de fora”. O efeito de Jonas é quase insuportável para a natureza humana porque significa que, se quiséssemos que alguma destas coisas realmente acontecesse, teríamos de não as profetizar na praça pública: em condições normais, Fulano já teria caído, Beltrano já seria governador e Sicrano já não seria ministro.

 

***

 

Foi o efeito de Jonas que protegeu até ontem os ministros Correia de Campos e Isabel Pires de Lima, e que protege ainda de certa forma o ministro Mário Lino. Já há muito tempo que toda a gente dizia que estes ministros eram insustentáveis — no caso de Pires de Lima, praticamente desde que foi nomeada — e isso forçava o Primeiro-Ministro a segurá-los para não dar uma imagem de fraqueza. Tal como se dizia que seria impossível Mário Lino ficar no ministério depois de mudar a decisão sobre a localização do aeroporto e ele ficou — precisamente para provar que o impossível era possível.

 

Mas depois atinge-se um ponto de quebra. O clamor que pede a substituição dos ministros é já tão forte que o Primeiro-ministro não lhe pode resistir sob pena de parecer já não fraco mas obstinado. Quando fica demasiado claro que o Primeiro-ministro mantém os ministros não pelas suas qualidades mas simplesmente para não obedecer à agenda da oposição, — bem, aí chegou o momento de os substituir. A polaridade política inverteu-se. A profecia que não se realizava passou a parecer auto-realizada.

 

O problema é que não há momento ideal para fazer estas coisas. Em teoria, deveria fazer-se o mais cedo possível para não prejudicar a governação. Na prática, substituir cedo demais parece fraqueza e tarde demais parece irresponsabilidade. Por isso este jogo, desde que suficientemente prolongado até fazer caducar o efeito de Jonas, acaba sempre em derrota para o Primeiro-ministro e vitória para a oposição.