Arquivo mensal para January, 2008

Pessoas abstractas e concretas

Há uma personagem no Guerra e Paz de Tolstoi que vive em permanente estado de falência, — se bem me lembro, o patriarca da família Rostov —, e que ao mesmo tempo só faz amizades com gente rica. Mas o pai Rostov não se dá só com ricos por ser interesseiro ou bajulador, não; o autor faz questão de explicar que, genuinamente, os ricos são o tipo de gente que o pai Rostov aprecia. Ele não se dá com ricos só por serem ricos, mas porque genuinamente é com eles que se sente bem, o que faz uma certa diferença. Em duas frases Tolstoi inverte os laços de causalidade com que costumamos explicar a natureza humana. Primeiro parece uma diferença pequena, depois vemos que nos revela novas maneiras de compreender os outros. A propósito, aqui reside uma das primeiras dez razões por que Tolstoi é um génio, mas deixemos as outras nove e concentremo-nos nesta.

 

Tony Blair é o político vivo mais parecido com o pai Rostov. Blair é o homem da sinceridade, da democracia, do humanismo internacional. Mas a sua acção redunda sempre na hipocrisia, nas decisões tomadas às escondidas e na fuga às responsabilidades. Só que nada disso acontece por Tony Blair ter más intenções, pelo contrário. Tony Blair tem muita fé em si próprio, fé nas suas convicções, e fé mesmo na própria fé. Por outro lado, para declarar a sua fé, não basta a Tony Blair a paróquia da esquina. Precisa de ir ao Papa, ao Vaticano, porque tal como o pai Rostov é só junto às pessoas importantes que Tony Blair se sente bem, e é a essas pessoas que ele sente necessidade de agradar. Essas são, para ele como para o pai Rostov, as únicas pessoas reais.

 

***

 

Uma vez Tony Blair sugeriu a George W. Bush que talvez pudesse ele viajar para o Médio Oriente para adiar um cessar-fogo no Líbano. A ideia era permitir que a aviação israelita continuasse a bombardear aquele país numa guerra de objectivos abstractos e vítimas concretas que ninguém até hoje entendeu e que não serviu para nada. Mas para Tony Blair os laços de causalidade são às avessas: abstractas eram as pessoas que apanhavam com as bombas; e George W. Bush um tipo concreto, um amigo concreto que precisava de um favor concreto. Tal como Ehud Olmert, amigo de um amigo, que também precisava de um favor: um pouco mais de tempo para ver se entedia o que estava a fazer.

 

Passado ano e meio, Tony Blair é o alegado homem da paz no Médio Oriente. Os habitantes de Gaza, sob um bloqueio de comida e combustível naquela prisão a céu aberto, rebentam com o muro que os cerca e fogem para o Egipto. Que disse Blair desta Fuga para o Egipto contemporânea? Nada de especial. Os habitantes de Gaza são puras abstracções e ele estava em Davos conversando com celebridades concretas.

 

Tony Blair é o político do nosso tempo televisivo, como um ex-concorrente de um reality show que passou para o mundo auto-sustentado das celebridades. É bem adequado aliás que Sarkozy, o representante mais recente do mesmo estilo, o queira propor para presidente da União Europeia. E que Tony Blair já tenha vindo dizer que será presidente da Europa, se os seus amigos lhe derem esse poder. Do outro lado do mar, os americanos escolhem o seu futuro líder num processo que pode ter muitos defeitos mas que é público e visível. Do lado de cá, a União Europeia prepara-se para escolher como futuro presidente este homem, e fá-lo da única maneira a que ele e os seus pares se habituaram a agir: nas costas dos cidadãos. Porque nós somos pessoas abstractas. E no mundo deles, só eles realmente existem.

Não deixa saudades

Aqui conhecêmo-lo principalmente pela invasão de Timor-Leste, que pode ter custado a vida a um terço da população daquela ex-colónia portuguesa. Mas em termos absolutos pode dizer-se  que a chegada de Suharto ao poder conseguiu superar até essa trágica marca. Pelo menos meio milhão de indonésios e talvez até um milhão foram assassinados nos anos de 1966 e 67 por serem comunistas ou da minoria chinesa.

 

O pretexto para a matança foi um obscuro golpe que assassinou seis generais do exército. É difícil saber ao certo até que ponto beneficiaria dele o Partido Comunista Indonésio, numa fase em que ia a eleições e era o terceiro maior partido do país. Mas é bem claro como beneficiou Suharto: não só foram eliminados os seus competidores no exército como justificou a repressão que se seguiu, até empurrar o presidente Sukarno pela borda fora.

 

Depois de chegar à presidência, Suharto fez encarcerar entre cinquenta e cem mil presos políticos, muitos deles sem julgamento por mais de uma década. E foi responsável não por um, nem dois, mas três dos grandes massacres do século: a anexação da Papua Ocidental, que começara nos tempos de Sukarno sob o seu comando, foi levada na sua presidência até morrer um sexto da população total e praticamente ser dizimada a população selvagem. A essas proezas, Suharto junta-lhes o prodígio de os seus genocídios terem sido quase invisíveis. E ainda são: no seu obituário de ontem no New York Times, o povo de Timor Leste tem direito a uma linha em quatro páginas. O da Papua Ocidental nem uma menção merece. Os massacres de rotina em Aceh e na restante ilha de Sumatra é como se nunca tivessem existido.

 

***

 

É isso. Ao lembrar a morte de Suharto não podemos deixar de lembrar a cumplicidade com a sua trágica herança. O apoio norte-americano, desde o início, é um facto documentado. Ainda o sangue não secara e já eram desbloqueados os “programas de ajuda” que chegaram a ser de quatro mil milhões de dólares por ano. Kissinger apoiou a invasão de Timor Leste e Ronald Reagan visitou o país em 1986 para celebrar os seus “ventos de liberdade” ao mesmo tempo que Suharto expulsava jornalistas ocidentais.

 

Mas os EUA não estiveram sozinhos, longe disso. O cinismo australiano vem logo depois: os diplomatas desse país admitiam que seria sempre mais vantajoso negociar o petróleo timorense com os indonésios do que com os portugueses ou, imagine-se só, com os próprios timorenses.

 

Os ingleses, os holandeses, os franceses e até os suecos e canadianos não deixaram de negociar com Suharto. E ninguém duvida de que nós portugueses, não fosse a questão de Timor, também ganharíamos uns escudos com ele. Toda a gente o fazia. Em 1994, três anos depois do massacre de Santa Cruz em Díli, vários países ocidentais e o Japão deram mais de cinco mil milhões de dólares para a economia indonésia. Toda essa dinheirama sempre encontrou facilmente o caminho para as contas de Suharto nos bancos estrangeiros, de onde nunca foi devolvido. Estima o Banco Mundial que ele terá roubado cerca de trinta mil milhões de dólares só para si — e a sua mulher e seis filhos não lhe ficaram atrás.

 

Suharto morreu. Podemos dizer de consciência tranquila que não deixa saudades. Mas o mundo em que ele prosperou e ficou impune também não.

Leitura de uma onda

Diz-se das ondas tsunami que, se não houvesse continentes, dariam várias voltas ao mundo. Olhando para as bolsas mundiais ontem e anteontem, era essa a imagem. Uma onda que se prepara para dar duas voltas ao mundo. Vinha da noite da véspera, enquanto os telejornais divulgavam o dia catastrófico nas bolsas europeias. Na manhã seguinte as edições dos jornais na internet davam notícias do pânico que a onda causara na Ásia. E já vinha aí de novo varrendo o globo, acompanhando o Sol, reincidindo sobre as bolsas europeias, que temiam o pior. Ao fim da manhã de ontem o receio era a abertura da bolsa de Wall Street, em Nova Iorque.

 

Sucede que a véspera fora um feriado nos EUA. É surpreendente, mas neste mundo frio e digital ainda há coisas como feriados. Esse feriado permitira a Wall Street passar debaixo da onda. Todos esperavam agora para ver como ia ser aquele encontro adiado.

 

Mas quando o Sol já ia alto na Europa, a Reserva Federal americana anunciou de surpresa que iria cortar 0,75% da sua taxa de juros. No que à onda diz respeito, isto era um dique. As acções recuperaram em Wall Street, e ainda foram a tempo de recuperar no fim de tarde europeu.

 

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Por incrível que pareça, não estamos assim tão globalizados. Pense no seu dia: noventa por cento das chamadas que faz são locais, noventa por cento das notícias que vê são locais, e mais de noventa por cento das suas transações são locais. Muitas das empresas que estão em cada uma daquelas bolsas tem pouco a ver com as outras. Mas temos uma coisa abundantemente globalizada: estados de alma. Os economistas, que têm uma linguagem metafórica poderosa, falam do dinheiro com termos como “bolhas de liquidez”. Pois bem, poucas coisas são tão fluídas como a desconfiança e o desânimo, poucas encontram de humano para humano tão poucas barreiras. A recessão, que antes podia parecer inverosímil, parece agora inverosímil que não venha. O receio é viscoso, o pânico é inflamável.

 

Haverá certamente muita coisa a aprender com isto tudo. Se algum banco for mais atingido pela crise, veremos ser gasto com ele o dinheiro dos nossos impostos que não havia para coisas como escolas e hospitais e jardins. Não teremos outra opção, embora nos perguntemos que incentivos terão os bancos para arriscar menos da próxima vez se souberem que estaremos sempre lá para os safar. Com a onda reflui também o debate: e entendemos que os bancos têm um papel demasiado central nas nossas economias para poderem ser deixados só aos banqueiros.

 

Mas isso é para depois. Agora ficamos pela leitura de uma onda. A propósito, o título foi roubado a um conto de Italo Calvino, no qual o protagonista começa por ver uma onda “crescer na distância, aproximar-se, mudar de forma e de cor, dobrar-se sobre si mesma, quebrar, sumir, e fluir de novo” para depois terminar “caminhando ao longo da praia, tenso e nervoso como quando chegou, e ainda mais incerto sobre tudo”. Dir-se-ia: parece alguém que observa a bolsa.

 

PS: Afinal o Index Librorum Prohibitorum foi abolido ou não foi abolido? Não quero induzir os leitores em erro, e o texto da minha última crónica era menos preciso do que eu gostaria. Em suma, o Vaticano considera o Index abolido, embora a nota sobre a sua abolição (de Junho de 1966) esclareça que o documento mantém a sua “autoridade moral” e deponha nos fiéis “o direito e o dever” de impedir a publicação de livros nocivos.

No Index

Bento XVI deve saber que é isso de “tom censório” porque, enquanto cardeal, o actual papa detinha precisamente o cargo de censor pontifício.

 

“Toda a gente tem direito à sua própria opinião, mas ninguém tem direito aos seus próprios factos”. A frase é de um falecido senador norte-americano. Por exemplo: “declinar um convite para evitar protestos desagradáveis” não é a mesma coisa que “ser impedido de ir” a um lugar. A imprensa internacional noticiou que, sob protesto, o papa declinara o convite para presidir à abertura de ano lectivo da Universidade “La Sapienza”, de Roma. Vasco Pulido Valente escreveu que o papa fora “impedido” de ir à Universidade, coisa que ninguém sugeriu, nem o próprio Vaticano. Lamento, mas os factos são os mesmos para mim, para Pulido Valente, e para toda a gente. 

 

É pois dos factos que devemos partir e nem eles são tão inimagináveis como foram qualificados em editorial por José Manuel Fernandes. La Sapienza é talvez a maior universidade da Europa. Protestos como neste caso, de algumas centenas dos seus cento e cinquenta mil alunos, não são invulgares. Também João Paulo II foi recebido com manifestações, tal como os políticos Gianfranco Fini (pós-fascista) e Fausto Bertinotti (comunista) — isto só para falar de anos recentes. Apesar de “protestos desagradáveis”, João Paulo II e Bertinotti não deixaram de ir à Universidade. Bento XVI não foi.

 

Os factos que temos são lamentáveis, mas não vindicam a tese de que a Igreja tem de se preparar para viver na clandestinidade — antes a ideia mais prosaica de que a Igreja vive no mundo real, onde há protestos e gente que não gosta de nós.

 

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Há algumas ironias neste caso.

 

No seu último discurso antes de ser eleito papa, Ratzinger condenou o marxismo, o liberalismo e o relativismo. Claro, todos sabemos que não faltam católicos liberais, como não faltam católicos marxistas. Mas a ironia é que já em 1990, para comentar o caso Galileu, Ratzinger tivera de socorrer das palavras de Paul Feyerabend, talvez um dos filósofos do século XX que mais foi acusado de relativismo. E foram as palavras do relativista Feyerabend, que o anti-relativista Ratzinger citava aprovadoramente quando pareciam desculpar a Inquisição no processo de Galileu, que agora voltaram para assombrar o anti-relativista Ratzinger diante de físicos que se consideram ainda mais anti-relativistas do que ele, naquilo que a Rádio Vaticano descreveu como “um tom censório”.

 

E aqui está uma nova ironia: Bento XVI deve saber que é isso de “tom censório” porque, enquanto cardeal, o actual papa detinha precisamente o cargo de censor pontifício. Sabemos que silenciou teólogos, como Leonardo Boff e outros, mas deixemos essas questões disciplinares “internas”. Mais interessante é que, enquanto prefeito da antiga Inquisição (hoje Congregação para a Doutrina da Fé) Ratzinger tinha a seu cargo o Index Librorum Prohibitorum. O “Index” é a célebre lista de livros proibidos entre os quais se contam autores como Hobbes, Kant ou Sartre, e que deixara de ser publicado em 1966 sem ter sido abolido. Ao contrário do que muitos esperavam, o prefeito Ratzinger não defendeu a abolição do Index junto de João Paulo II, e manteve a “obrigação moral” de todo o católico não ler nem divulgar os livros que a lista contém.

 

Como cientistas que se julgam donos exclusivos da Universidade, os autores do protesto de La Sapienza conseguiram aparecer mais tacanhos do que o seu adversário, o que não é coisa pouca. Por outro lado, para que Ratzinger seja realmente um herói da liberdade de expressão, há uma coisa muito simples que ele — aliás, só ele e mais ninguém no mundo — pode fazer: abolir finalmente o Index Librorum Prohibitorum.

Não pergunte

[Público 16 janeiro 2008]

A conclusão é que os gestores portugueses têm de ser bem pagos porque sim.

Consideremos como uma menção de Cavaco Silva aos salários dos executivos de empresas foi recebida em Portugal. Os adjectivos mais usados: “populista” e “demagógico”. Encontramos também “infeliz” e “insólito”. Na Quadratura do Círculo da SIC o panorama foi tão variado como o electrocardiograma de um cadáver: Pacheco Pereira optou pelo “populista e demagógico”, Lobo Xavier pelo “infeliz e insólito” e Jorge Coelho achou que “não fazia sentido” falar do assunto. O presidente foi até acusado de, crime dos crimes, “ter piscado o olho à esquerda”.

A reacção generalizada foi resumida pelo Jornal de Negócios assim: “Falar em desproporção salarial é «ceder à demagogia»”. Reparem bem, não é fazer algo. Não é pensar em fazer. É simplesmente falar do assunto. Ou, como fez o presidente, “interrogar-se” sobre se seria “justificada” a diferença entre os salários dos administradores e os dos colaboradores.

Temos às vezes a impressão errada de que a maioria da opinião publicada em Portugal é conservadora. Infelizmente, é pior do que isso: limita-se a ser uma reacção instintiva de protecção do status quo.

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Curiosamente, é preciso ir à imprensa económica para encontrar uma cantiga diferente: um editorial do Jornal de Negócios considerou que a referência de Cavaco Silva “faz todo o sentido”. E onde lemos, já há bastante tempo, que os administradores do BCP estavam a “ir ao bolso” dos seus accionistas com os altos salários de que usufruíam? No Wall Street Journal, nem mais nem menos. Em Portugal seria impossível escrever com uma clareza destas.

Porém, como revelou um estudo especializado da Mercer, Portugal é o país da UE em que a diferença salarial é maior: os administradores ganham trinta e duas vezes mais do que os funcionários, contra quinze vezes em Espanha, quatorze vezes no Reino Unido e dez na Alemanha. E isso não é só porque os funcionários ganham pouco: os altos gestores portugueses ganham os segundos melhores salários da UE, em termos absolutos, só atrás dos ingleses.

E o que nos dizem a isto os defensores do status quo? Que os gestores, para serem de qualidade, têm de ser bem pagos. E que os gestores portugueses têm de ser bem pagos porque a qualidade não abunda. Sim, é contraditório. Sim, é circular. A conclusão é que os gestores portugueses têm de ser bem pagos porque sim.

Em 2006 os administradores do BCP receberam 3 milhões de euros de vencimento, cada um. Entretanto, esses génios da finança destruíram a credibilidade do banco, perdoaram empréstimos a familiares e amigos e, só nos últimos seis meses, o banco perdeu um terço do seu valor. Pior ainda, corre uma investigação por suspeitas de terem enganado a bolsa criando empresas off-shore para comprar as suas próprias acções.

Pergunto-me se não deveríamos antes contratar gestores alemães, que ganham menos e não consta que sejam piores nem mais vigaristas. Mas não quero ser populista nem demagógico. Eu sei que nos EUA toda a gente faz este debate. Na Alemanha, o governo conservador de Angela Merkel fala em intervir para tabelar os salários dos gestores. Mas em Portugal é melhor nem nos interrogarmos: é insólito.

Agora a sério

[Público 14 janeiro 2008]

Não há melhor país para um cronista senão Portugal. Numa semana, está prestes a ser implantado um regime fascista. Na outra, já toda a gente se esqueceu disso, mas em seu lugar está em curso um ataque concertado à liberdade de opinião.

A primeira palavra da crónica vai para Helena Matos, com quem joguei pingue-pongue nestas páginas durante o último ano. Aqui foi franca, generosa e combativa. Em privado, foi sempre de uma simpatia e correcção sem falhas. Tal como eu, imagino que um dia se recordará de 2007 como o ano em que nos pagaram para discordarmos — algo que faríamos até de graça. Quero aproveitar para lhe agradecer e desejar as maiores felicidades.

Bem, acabou o pingue-pongue, mas não me queixo. Não há melhor país para um cronista senão Portugal. Numa semana, está prestes a ser implantado um regime fascista. Na outra, já toda a gente se esqueceu disso, mas em seu lugar está em curso um ataque concertado à liberdade de opinião. A sério.

O tema do fascismo fora proclamado por Pacheco Pereira e Pulido Valente, o mesmo que em tempos escarnecera do PCP por “não haver nada a que não tenha chamado fascista”. Há efectivamente uma diferença crucial. Para os dois historiadores nem tudo é fascista. Só enxergam sinais de fascismo que lhes cheguem da esquerda. A lei do tabaco e a acção da ASAE são dois desses sinais. Já a invasão de países sob falsos pretextos, as leis de espionagem interna do Patriot Act, a conversa sobre civilizações “superiores” e “inferiores”, e extraordinariamente até o racismo ostensivo dos skinheads portugueses — tudo isto lhes tem passado tranquilamente sob uma certa indiferença, branqueamento, e por vezes até aplauso.

Por isso, onde e quando a direita estiver no poder, lá esperaremos pelas novas lições de boa-educação e rigor conceptual dos mesmos autores.

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Uma vez que o tema do “fascismo higiénico” não foi recebido com a devida reverência, note-se então como foi discretamente abandonado, embora não pareça.

Pulido Valente respondeu a Pedro Magalhães com a má-vontade habitual, mas sem verdadeiramente defender o que dissera antes ou contrariar o que lhe haviam dito. Até ao último parágrafo: depois de ter sugerido que o seu oponente é adepto da “ordem e muito respeitinho” remata avisando que “ou muito me engano ou já ouvi isto”. Isto o quê? Ouviu onde? Não nos é dito, só insinuado.

A resposta de Pacheco Pereira é ainda mais bizarra. Começa por denunciar que está em curso um “ataque à independência da opinião” (viram?) cujos alvos são “[ele] próprio, Vasco Pulido Valente e António Barreto”. E depois segue-se uma longa lista de pessoas que Pacheco Pereira acha que não gostam de Pacheco Pereira. Lista de pessoas, não. Como opinador independente e corajoso que é, Pacheco não consegue citar um nome, responder a uma opinião, refutar um argumento. O seu confronto faz-se fantasmagoricamente, contra categorias vagas de gente — os “modernizadores”, os “pensadores-engraçadistas”, os “inocentes úteis” — em estilo críptico de treinador de futebol.

E é assim que numa semana a conversa deixou de ser sobre o “fascismo higiénico”: passou a ser sobre eles. Deixou de ser sobre as posições que defendem: passou a ser sobre as posições que detêm. Para dizer a verdade, nem reconhecem poder existir qualquer debate, a não ser sobre a pura ilegitimidade de alguém lhes interpelar as opiniões. E é uma pena, porque estes novos temas têm pouquíssimo interesse.

O preço a pagar

[Público 10 janeiro 2008]

Para nos justificar por que razão não convoca o referendo sobre o Tratado de Lisboa, José Sócrates tem muitas razões. Mas não tem razão.

Para se fazer perdoar em certa ocasião pela namorada Ophelia, escreveu assim Fernando Pessoa: eu sei que não tenho desculpa; mas tenho desculpas. Para nos justificar por que razão não convoca o referendo sobre o Tratado de Lisboa, José Sócrates está numa posição semelhante. Tem muitas razões. Mas não tem razão.

Há pois muitas razões: de importância, de responsabilidade, de sentido do dever. Todas juntas, são razões que vencem sem nos convencer. Pior ainda, é de justificações assim que nascem as mentiras piedosas e as promessas por cumprir. Todos já quebrámos promessas e contámos mentiras, sabemos como é.

Sócrates pode dizer: mas Sarkozy, mas Merkel, mas Gordon Brown. Mas nada. O compromisso que ele tinha não era com Sarkozy, nem com Merkel, nem com Gordon Brown. Nem sequer com Cavaco Silva. Esse compromisso era conosco.

Sócrates pode dizer: tomaria algum de vocês uma decisão diferente, colocando em risco a União Europeia? E a resposta é: talvez não. Mas se assim é, teria feito melhor em dizer-nos desde o início que o referendo era impossível de se fazer.

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José Sócrates sabe que terá um preço a pagar por isto, o “preço político”, como se costuma dizer. O problema, quando se quebra uma promessa e se está disposto a pagar um preço por isso, é o seguinte: o preço que os lesados exigem é sempre por definição mais alto do que aquele para que estamos preparados, porque é aos lesados que cabe definir o preço.

Além disso, há um efeito de repetição que aumenta esse preço.

José Sócrates invoca a ética da responsabilidade para justificar a sua escolha. Mas já é a segunda vez que um primeiro-ministro português coloca a responsabilidade perante os colegas europeus sobre a responsabilidade perante os eleitores portugueses, primeiro com Durão Barroso e agora com José Sócrates. O segundo não tem culpa do primeiro, mas não se admirem se estiverem a fazer dos portugueses anti-europeístas contra todas as tendências.

E também é a segunda vez que José Sócrates quebra uma promessa importante. A primeira foi a de não aumentar os impostos, a segunda foi a do referendo. Se ele tivesse corrido os riscos consideráveis de convocar o referendo, o cumprimento de uma promessa teria compensado a quebra da outra, precisamente por sabermos que os riscos eram consideráveis e que ele estava disposto a corrê-los para evitar quebrar mais uma promessa. Assim, em vez de José Sócrates ser um homem que só quebra uma promessa quando não pode mesmo ser de outra forma, os seus adversários podem descrevê-lo como um homem que não perde uma oportunidade para quebrar uma promessa. Parece injusto? O preço a pagar parece muitas vezes injusto.

Claro, para cada um destes argumentos há certamente muitas desculpas. E muitas delas são de peso. E muitas delas são compreensíveis. O problema, como lembraria friamente Fernando Pessoa, é que há desculpas — mas não há desculpa.

Todos os sonsos

[Público 08 janeiro 2008]

Pois é. Acabei o ano de 2007 convencido de que eles sabiam do que estavam a falar. E depois chegou 2008.

Num site de literatura científica chamado Edge pergunta-se a umas dezenas de pensadores e autores sobre o que mudaram de ideias recentemente. Uns trocaram de teorias, outros abandonaram opiniões sobre a forma do universo, outros sobre as possibilidades de vida fora da Terra ou os limites da inteligência artificial.

Mais modestamente, eu acabei o ano de 2007 convencido de que dois historiadores portugueses com obra publicada sobre o século XX— — José Pacheco Pereira e Vasco Pulido Valente —— sabiam alguma coisa sobre o fascismo. No caso de Vasco Pulido Valente, essa certeza era reforçada pelo facto de o próprio ter reiteradamente polemizado daquela forma que só ele sabe polemizar — chamando ignorantes e analfabetos a todos os outros — sobre o que se pode ou não chamar de fascismo.

Mais precisamente, Vasco Pulido Valente ameaçava aniquilar com o verbo quem se permitisse chamar “fascismo” à ditadura de Salazar — uma ditadura que censurava, prendia e torturava os seus opositores. Pacheco Pereira indignou-se por ter havido quem chamasse “fascista” a George W. Bush, — isto por causa de Guantánamo, do Patriot Act e da Guerra do Iraque. E eu levei-os a sério.

E agora descubro que estes mesmos historiadores não tiveram dúvidas em classificar como “fascista” a nova lei do tabaco. Não lhe chamaram exagerada, mal concebida ou uma série de coisas que, concebivelmente, se poderiam dizer acerca de uma lei que transforma espaços que eram por regra de fumadores em espaços de não-fumadores. Não: fascista é que é. E podemos ir mais longe. Helena Matos ou António Ribeiro Ferreira acham que “fascista” não chega: a nova lei é “totalitária”. Totalitária! Como os regimes de Hitler, Staline e Pol Pot. Viva a exactidão.

Pois é. Acabei o ano de 2007 convencido de que eles sabiam do que estavam a falar. E depois chegou 2008.

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Mas não é só o fascismo. É também a perseguição aos católicos. Segundo Vasco Pulido Valente, a igreja é capaz de ter de viver novos tempos de clandestinidade, isto porque em Espanha o primeiro-ministro Zapatero acabou com a obrigatoriedade da disciplina de Religião e Moral (em Portugal já é opcional há décadas), permitiu o casamento homossexual ou facilitou o divórcio. Pelo escândalo, dá para perceber que Pulido Valente acha (justamente) legítimo que a igreja organize uma manifestação contra o governo. Mas se um porta-voz do governo lhe responder isso já prenuncia uma vontade de silenciar a igreja católica espanhola, no seu próprio país. Ora, toda a gente perdoa a Vasco Pulido Valente desconhecer o Portugal actual. Mas podia ao menos conhecer a Espanha.

Já agora: também por aqui, no nosso Portugal, a Igreja pode ter de se preparar para regressar às catacumbas. Segundo o Correio da Manhã, o governo até vai tirar os nomes dos santos às escolas. Verdade?! Não: Correio da Manhã. Para as escolas que ainda não têm nome, o governo propõe às suas assembleias que escolham nomes de “uma personalidade de reconhecido valor, que se tenha distinguido no âmbito da cultura, da ciência ou educação”. Não se percebe para que é preciso tanta sugestão. Mas faltava de facto uma linha dizendo que “nomes de santos católicos também valem!”, isto para toda a gente perceber que Santo António de Lisboa, São Tomás de Aquino ou São Bartolomé de las Casas cabem nas propostas. Bem como São Remígio e Santa Radegunda, que protegem contra as febres altas.

Valha-nos que para provar que vivemos numa era anti-cristã o governo aproveitou o Natal para anunciar a localização do novo hospital de Lisboa. Que se vai chamar: de Todos-os-Santos. Verdade? Verdade.

A eleição do ano

[Público 02 janeiro 2008]

Acho que Edwards seria o melhor candidato. Mas sintomaticamente para mim ou para os aparelhos partidários, parece que é o que tem menos hipóteses de ser escolhido.

Amanhã os eleitores democráticos do estado norte-americano do Iowa (menos de um por cento da população do país) vão encontrar-se em locais públicos para escolher o candidato do seu partido às presidenciais. Não vão exactamente votar, mas somente juntar-se ao grupo de apoiantes que preferirem num canto da sala, e meia hora depois repetir o processo para redistribuir o apoio dos candidatos “inviáveis” pelos “viáveis”. Uma semana depois, os eleitores democráticos do New Hampshire (menos de meio por cento da população) votam em eleições primárias. Se tudo correr com normalidade o candidato democrático fica praticamente escolhido. Os republicanos passam por um processo semelhante.

Há gente que não perde uma oportunidade de descrever isto como prova de que os EUA são a “mais antiga”, “maior” ou “melhor” democracia do mundo. Não é nenhuma dessas três coisas, não só pelo sistema usado nas primárias, mas também nas presidenciais e sobretudo nas eleições para o Congresso. Mas ao menos é pitoresco e, em certos anos, emocionante. Este ano será um desses.

Os anos de Bush foram um fracasso de que nenhum candidato republicano “viável” consegue distanciar-se (será interessante ver como se sai Ron Paul, o único candidato anti-Guerra do Iraque e anti-imperialista do Partido Republicano, e logo declarado “folclórico”). É aos Democráticos que cabe não perder a eleição do próximo presidente. Como habitual, é duvidoso que o consigam fazer.

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Em princípio, o Partido Democrático escolhe entre uma tripla de luxo: Hillary Clinton (a única mulher), Barack Obama (o único não-branco) e John Edwards (o único sulista: desde que o Partido Democrático perdeu o Sul por causa do racismo só os sulistas Carter e Clinton ganharam as presidenciais pelo partido).

Hillary Clinton tem mais traços decisivos: é detestada por quase metade do país, é mulher de um ex-presidente (depois da dinastia Bush viria a dinastia Clinton), é a mais centrista e é quem menos se distancia da Guerra do Iraque. Logo, é a escolha do “aparelho partidário”, o que demonstra que o dito aparelho sabe mesmo como perder eleições.

Ao contrário dela, Obama e Edwards apresentam-se como vagamente anti-sistema e favoráveis a uma renovação política com referências implícitas a Kennedy (em Obama) e FD Roosevelt (em Edwards). Mas as estratégias são opostas: Obama diz aquilo que as pessoas gostariam que fosse verdade: que a mudança nasce com um discurso positivo e esperançoso. O que Edwards diz, por outro lado, é simplesmente a verdade: que a mudança é difícil, que encontrará muitas resistências e que só poderá acontecer através de uma atitude combativa.

Acho que Edwards seria o melhor candidato. Mas sintomaticamente para mim ou para os aparelhos partidários, parece que é o que tem menos hipóteses de ser escolhido.

Gosto de Obama, como quase toda a gente. Mas não gosto de apenas “gostar” de um político, menos ainda de um discurso feito das emoções e dos “instintos”, mesmo que os instintos de Obama sejam próximos dos meus. Simplesmente, não me parece boa política ou, se quiserem, boa pedagogia democrática: para decidir com o “instinto” já bastou Bush.

Enfim, qualquer dos dois pode ganhar as eleições a um republicano, o que é bom e igualmente indiferente na perspectiva pragmática de quem deseja ver o bushismo enterrado. Apenas desejo que entre o início e o fim das suas reuniões no Iowa, os apoiantes de Edwards e Obama se coloquem do mesmo lado da sala e superem os apoiantes de Hillary Clinton.

Ficou revolto

Uma crítica às traduções de Os Maias no London Review of Books.