Há uma personagem no Guerra e Paz de Tolstoi que vive em permanente estado de falência, — se bem me lembro, o patriarca da família Rostov —, e que ao mesmo tempo só faz amizades com gente rica. Mas o pai Rostov não se dá só com ricos por ser interesseiro ou bajulador, não; o autor faz questão de explicar que, genuinamente, os ricos são o tipo de gente que o pai Rostov aprecia. Ele não se dá com ricos só por serem ricos, mas porque genuinamente é com eles que se sente bem, o que faz uma certa diferença. Em duas frases Tolstoi inverte os laços de causalidade com que costumamos explicar a natureza humana. Primeiro parece uma diferença pequena, depois vemos que nos revela novas maneiras de compreender os outros. A propósito, aqui reside uma das primeiras dez razões por que Tolstoi é um génio, mas deixemos as outras nove e concentremo-nos nesta.
Tony Blair é o político vivo mais parecido com o pai Rostov. Blair é o homem da sinceridade, da democracia, do humanismo internacional. Mas a sua acção redunda sempre na hipocrisia, nas decisões tomadas às escondidas e na fuga às responsabilidades. Só que nada disso acontece por Tony Blair ter más intenções, pelo contrário. Tony Blair tem muita fé em si próprio, fé nas suas convicções, e fé mesmo na própria fé. Por outro lado, para declarar a sua fé, não basta a Tony Blair a paróquia da esquina. Precisa de ir ao Papa, ao Vaticano, porque tal como o pai Rostov é só junto às pessoas importantes que Tony Blair se sente bem, e é a essas pessoas que ele sente necessidade de agradar. Essas são, para ele como para o pai Rostov, as únicas pessoas reais.
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Uma vez Tony Blair sugeriu a George W. Bush que talvez pudesse ele viajar para o Médio Oriente para adiar um cessar-fogo no Líbano. A ideia era permitir que a aviação israelita continuasse a bombardear aquele país numa guerra de objectivos abstractos e vítimas concretas que ninguém até hoje entendeu e que não serviu para nada. Mas para Tony Blair os laços de causalidade são às avessas: abstractas eram as pessoas que apanhavam com as bombas; e George W. Bush um tipo concreto, um amigo concreto que precisava de um favor concreto. Tal como Ehud Olmert, amigo de um amigo, que também precisava de um favor: um pouco mais de tempo para ver se entedia o que estava a fazer.
Passado ano e meio, Tony Blair é o alegado homem da paz no Médio Oriente. Os habitantes de Gaza, sob um bloqueio de comida e combustível naquela prisão a céu aberto, rebentam com o muro que os cerca e fogem para o Egipto. Que disse Blair desta Fuga para o Egipto contemporânea? Nada de especial. Os habitantes de Gaza são puras abstracções e ele estava em Davos conversando com celebridades concretas.
Tony Blair é o político do nosso tempo televisivo, como um ex-concorrente de um reality show que passou para o mundo auto-sustentado das celebridades. É bem adequado aliás que Sarkozy, o representante mais recente do mesmo estilo, o queira propor para presidente da União Europeia. E que Tony Blair já tenha vindo dizer que será presidente da Europa, se os seus amigos lhe derem esse poder. Do outro lado do mar, os americanos escolhem o seu futuro líder num processo que pode ter muitos defeitos mas que é público e visível. Do lado de cá, a União Europeia prepara-se para escolher como futuro presidente este homem, e fá-lo da única maneira a que ele e os seus pares se habituaram a agir: nas costas dos cidadãos. Porque nós somos pessoas abstractas. E no mundo deles, só eles realmente existem.





