Arquivo diario para November 13th, 2007

Escolha o seu herói

[Público 12 novembro 2007]

A chave está no povo, na democracia, e no respeito pelo povo que a democracia implica. Respeitar Aznar, segundo esta leitura, é respeitar o povo espanhol, que o elegeu.

O caldo entornou na cimeira ibero-americana. O venezuelano Chávez chamou “fascista” ao ex-primeiro ministro espanhol Aznar, na ausência deste. Zapatero, actual primeiro-ministro de Espanha, exigiu respeito para o seu rival e antecessor lembrando que esse era o respeito devido ao povo espanhol que elegera Aznar e o elegera a ele mesmo. Chávez interrompeu Zapatero para reincidir nos qualificativos a Aznar, que considera ter apoiado o golpe de estado que o afastou momentaneamente do poder, há alguns anos. O rei de Espanha mandou calar o presidente da Venezuela.

Há três heróis possíveis.

A direita espanhola (e a portuguesa) escolhe o rei de Espanha. Deveria ser um pouco mais surpreendente, mas as nossas direitas continuam a não resistir à sedução de um “porque não te calas?”. Exigir silêncio é uma coisa que lhes atinge directamente os centros de prazer. Mariano Rajoy, actual líder do PP, já veio até virar a história do avesso sugerindo que o rei saiu em defesa de Aznar, — na verdade, foi Zapatero que veio em defesa de Aznar e o rei mandou calar Chávez para que Zapatero pudesse continuar — apenas porque se quer reivindicar da intempestiva frase do rei, como se desejasse fazer dela um lema.

Em pleno êxtase, esquecem-se os admiradores do “porque não te calas?” que esta frase acabou por ser um favor feito a Chávez. O mestizo venezuelano foi tratado com aspereza pelo rei da Espanha de los conquistadores e isso fará dele um herói entre muitos latino-americanos. Para quem gosta de se apresentar como herdeiro do libertador Bolívar, esta humilhação foi um pequeno momento de glória que lhe garantirá a solidariedade de muito compatriotas. Quem não entende porquê, que se pergunte: qual seria a nossa reacção se Juan Carlos tivesse mandado calar um primeiro-ministro ou presidente português, mesmo que se tratasse do mais impertinente e cabotino dos espécimes? Qual seria a reacção dos brasileiros se Cavaco mandasse calar Lula?

Além disso, haverá munições suficientes para a guerra que se segue entre chavistas e juancarlistas. Chávez fez os possíveis por encerrar um canal de televisão venezuelano que lhe era desfavorável. Mas Juan Carlos não está isento de telhados de vidro: ainda há poucos meses foi suspensa a edição de uma revista que publicara uma caricatura desfavorável à Casa Real espanhola, e seguiu-se logo depois a polémica dos jovens levados a tribunal por terem queimado fotografias do rei.

No meio disto, há um terceiro herói possível, que é Zapatero. Não mandou calar ninguém, o que o desqualifica perante autoritários de todos os matizes, mas foi ele que apresentou a melhor grelha de leitura para o sucedido. A chave está no povo, na democracia, e no respeito pelo povo que a democracia implica. Respeitar Aznar, segundo esta leitura, é respeitar o povo espanhol, que o elegeu. Chávez merece o respeito que merece o povo venezuelano, que o elegeu. Para lá disto, o respeito que merecem os indivíduos que transitoriamente desempenham os seus cargos depende do respeito que eles fizerem por merecer. Ao demonstrar contenção e paciência, ficando até ao fim da reunião, Zapatero colocou o seu povo à frente dos impulsos da sua vontade. Nos tempos que correm, é todo o heroísmo que pedimos àqueles que elegemos.