Arquivo mensal para November, 2007

O campo de distorção do real

[Público 28 novembro 2007]

Sem surpresas, os subúrbios continuam em crise. Sem surpresas, a crise dos subúrbios continua a ser vista como uma razão para apoiar Sarkozy.

Diz-se que os líderes carismáticos conseguem produzir uma coisa chamada “campo de distorção do real”. O líder entra na sala, faz um discurso, fala do futuro, e o pessoal não só acredita, como se sente já experimentando esse mesmo futuro. Depois o chefe vai embora, e a realidade continua. Às vezes muda, às vezes não; a maior parte das vezes muda pouco ou quase nada.

Isso não quer dizer que o “campo de distorção do real” seja puramente ilusório e, em consequência, inútil. Pelo contrário. É bom ouvir falar de como as coisas podem vir a ser. Por vezes, a partilha colectiva dessa esperança pode fazer a realidade pegar de empurrão. Na maior parte das vezes, porém, a realidade é uma coisa intratável. O líder vai abusando da sua capacidade de convencer o público e o seu campo de distorção vai perdendo força. A certa altura ninguém acredita nele; nem sequer o próprio líder.

Diga-se o que se disser, há uma coisa admirável no carisma de Nicolas Sarkozy: é conseguir apresentar-se sempre como o homem da mudança. O jovem Nicolas foi o protegido da família Chirac no início da carreira, depois afilhado de Charles Pasqua, e ainda um ministro poderoso nos governos do presidente Chirac. Foi Ministro do Orçamento e não deixou marca. Ministro do Interior e falhou. Foi Ministro das Finanças e deixou a situação pior do que estava. No entanto, durante a campanha presidencial, os seus adversários eram os candidatos da “continuidade” e ele o da “ruptura”. Para isso, meus amigos, é preciso talento.

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Há dois anos, os subúrbios franceses estavam em chamas. Não era uma situação nova, e Sarkozy contribuíra para não a resolver. Mas o líder falou, disse que ia limpar a ralé com uma mangueira de pressão e dar emprego aos jovens que quisessem trabalhar. E a coisa pareceu plausível.

Agora reparem: nestes dois anos, nada mudou nos subúrbios franceses. Nenhuma das políticas de inclusão prometidas foi posta em marcha. A única coisa que se sabe é que o Presidente favorece a utilização de aviões telecomandados (os “drones”) para filmar os motins, como favorece a vigilância da internet contra a “pirataria”. Sem surpresas, os subúrbios continuam em crise. Sem surpresas, a crise dos subúrbios continua a ser vista como uma razão para apoiar Sarkozy.

No mundo que lhe importa, o dos seus apoiantes e amigos, a primeira medida de Sarkozy foi acabar com o imposto sucessório para os ricos e devolver 583 milhões de euros em IRS aos mais ricos ainda. Era suposto a economia responder com um choque de dinamismo; a economia não obedeceu. Sarkozy não se preocupa. A França tem tamanho suficiente para se viver permanentemente isolado nos ghettos da élite, e tem tradição repressiva para ir segurando os subúrbios.

Ao contrário do que parece vista de fora, a França não é só greves e manifestações. Não há coisa mais francesa do que um soberano indiferente às convulsões da plebe, que acha que a economia obedece aos seus caprichos e que a moeda é um instrumento da sua glória. Só filtrado pelo seu próprio campo magnético Sarkozy é uma novidade. Uma novidade velha, mas novidade.

O evento dos fracos

[Público 27 novembro 2007]

Annapolis é simplesmente uma coisa que tem de se fazer porque se disse que se ia fazer. E para cúmulo, os três principais participantes são líderes fracos.

Há uma semana não se sabia sequer a data certa do que vai acontecer hoje em Annapolis, cidade costeira do estado norte-americano do Maryland. Já lhe tinham chamado “cimeira”, “reunião”, “encontro” e agora — quando não se sabe o que chamar a uma coisa — até se lhe chama “evento”. Esta não-sei-quê de Annapolis foi anunciada como decisiva. Depois foi despromovida para baixar as expectativas. E até já foi declarada um fracasso antecipado, o que é óptimo: a única esperança é precisamente que corra melhor do que esperado.

Annapolis é simplesmente uma coisa que tem de se fazer porque se disse que se ia fazer. E para cúmulo, os três principais participantes são líderes fracos.

Escrevi pela primeira vez que Olmert era um líder fraco quando Israel invadiu o Líbano e os supostos “amigos de Israel” proclamavam que a vitória era certa. Hoje é fácil reconhecer que Olmert é um líder fraco. Mas até a fraqueza tem a sua utilidade. Para os seus “aliados” no governo, que vão desde os trabalhistas até à extrema-direita de Avigdor Lieberman, interessa um primeiro-ministro sem poder real que lhes permita ir reforçando as suas agendas políticas.

Do lado palestiniano, Mahmoud Abbas é ainda mais fraco. Não só não tem um governo como nem sequer tem um país: perdeu a faixa de Gaza e não se sabe por quanto tempo controlará a Cisjordânia. A democracia palestiniana acabou quando os eleitores votaram nos tipos errados — o Hamas — que sintomaticamente não vão estar em Annapolis. Mas a fraqueza de Abbas também tem a sua utilidade precisamente porque o impede de cumprir com a sua parte dos acordos. Isto invalida todo o processo, o que interessa ao Hamas e a Israel.

George W. Bush passou sete anos sem levar a sério a criação do estado palestiniano. Agora, no fim do seu mandato e com a popularidade mais baixa do que nunca, deseja abrir um processo de conversações que vai durar um ano (segundo os israelitas, vai demorar mais) e que deixará todos os assuntos espinhosos nas mãos do seu sucessor.

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Os líderes fracos precisam uns dos outros. Com sorte, conseguirão espremer de Annapolis uma qualquer boa notícia para mostrar ao mundo, desde que em casa ela não seja entendida como uma cedência demasiado grave.

Abbas gostaria de mostrar que conseguiu arrancar qualquer coisa aos israelitas e investimentos na Cisjordânia à comunidade internacional, para convencer Gaza de que escolheu o caminho errado. Olmert gostaria de apertar a mão a um príncipe saudita, para mostrar que “normalizou” as relações com o mundo árabe. E Bush gostaria de fingir que deseja resolver o problema palestiniano para facilitar a vida aos seus aliados árabes, cujos líderes já amansou previamente com negócios de armas (para os sauditas foram vinte “biliões” de dólares, pouco tempo depois de terem ido trinta “biliões” para Israel).

Os sauditas, por sua vez, fazem-se caros. Sabem que são muito desejados, e porquê? Por causa da peça que falta em Annapolis: o Irão.

As consequências das acções americanas no Iraque e no Afeganistão deram ao Irão margem de manobra e liberdade de acção. Hoje o Irão é uma potência regional, com duas características fundamentais: não serem sunitas nem árabes. Como os iranianos são persas, Israel chegou a vê-los como aliados potenciais numa frente anti-árabe no Médio Oriente. Hoje os EUA e Israel correm atrás de uma aliança de sunitas árabes “moderados” (na verdade, ditadores como os outros) para os apoiar no confronto com o Irão xíita.

E para isso, Annapolis pode vir a dar jeito. Para os principais interessados — palestinianos ou israelitas comuns — é mais uma cimeira. Ou reunião. Ou coisa.

Os dois lados

[Público 19 novembro 2007]

No que diz respeito ao Novo Aeroporto de Lisboa há dois obstáculos a uma posição: a intrínseca complexidade do assunto e a brevidade da vida humana.

Protágoras de Abdera. Viveu pouco após o ano 500 a.C. e era um dos sofistas que tanto exasperava Sócrates. “Um pronto-a-confundir”, diz-se num diálogo socrático, “conhece todos os truques dos debates”. Ficou conhecido principalmente por ter dito que “o homem é a medida de todas as coisas”. Se pensarmos bem, é uma frase incompleta. Deveria ser: “para o homem, o homem é a medida de todas as coisas”.

É uma coisa extraordinária a mania de encontrar sempre um primeiro para tudo. Pois então vejam esta. Segundo a tradição, Protágoras de Abdera foi o primeiro a declarar que há sempre dois lados em cada questão. Devemos-lhe algo ao repetir diariamente essa frase.

Dois exemplos. Quando disse que “o homem é a medida de todas as coisas”, Protágoras acrescentou: “tanto das coisas que são o que são, como das coisas que não são o que não são”. Um dia esticou-se mais do que deveria e levou o raciocínio até à existência dos deuses: “no que diz respeito aos deuses, não estou em posição de saber se existem, ou se não existem; pois são muitos os obstáculos à obtenção de tal conhecimento, em particular a complexidade intrínseca do tema e a brevidade da vida humana”. Os atenienses não gostaram desta posição (e também, naturalmente, não-posição). Expulsaram Protágoras da cidade e queimaram todos os seus livros na Ágora.

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No que diz respeito ao Novo Aeroporto de Lisboa há também dois obstáculos a uma posição. Por sinal são os mesmos: a intrínseca complexidade do assunto e a brevidade da vida humana. Tenho evitado pronunciar-me, uma vez que não sou especialista em aeroportos. No entanto, olho em torno, e o que vejo? Sou tão especialista em aeroportos como qualquer outro (e por vezes sinto-me tentado a dar o meu voto a Badajoz: desde que o aborto foi despenalizado que esta cidade espanhola perdeu o seu papel como quebra-gralho dos quebra-cabeças nacionais).

Aqui há uns tempos chegou o célebre estudo da Confederação da Indústria Portuguesa que defendia que o novo aeroporto deveria localizar-se em Alcochete. Para os adversários da Ota, este estudo é o novíssimo testamento onde todos os defeitos da Ota são lionizados e todos os defeitos de Alcochete são irrelevantes. E o mesmo vale para os defeitos dos próprios estudos. Não tem qualquer importância que o mesmo estudo que defende que toda a minha gente de Cascais, de Sintra, de Lisboa e da margem direita do Tejo atravesse o rio para chegar ao aeroporto tenha como um dos financiadores a empresa que detém o monopólio das pontes sobre esse rio. Mas é considerado muito preocupante que o governo tenha encomendado um outro estudo a uma entidade pública porque as entidades públicas estão sob, enfim, a tutela do governo.

Noticiou-se agora que um pássaro chamado Maçarico-de-Bico-Direito migra pelo estuário do Tejo em grandes bandos. Muitos viram esse facto como uma terrível manobra, quiçá dos ecologistas, para deter o progresso. Parece porém que a preocupação não é tanto com a extinção dessa espécie, mas com a segurança dos aviões. Esperemos pelo desenlace. A questão é decisiva, sobretudo como resposta a Protágoras: saber se o Homem é mais medida de todas as coisas do que, por exemplo, o Maçarico-de-Bico-Direito.

A medida de todas as coisas

[Público 19 novembro 2007]

A opinião dos parceiros — em geral mais ricos, poderosos e brancos — é mais importante do que o destino de gente que é menos qualquer dessas três coisas.

Foi preciso chegar ao fim de uma entrevista congratulatória (ontem, ao DN e à TSF) para que Durão Barroso fosse questionado sobre a Guerra do Iraque e confessasse: “houve informações que me foram dadas, a mim e a outros, que não corresponderam à verdade”.

Ouvir estas as declarações, bem como as dos restantes protagonistas da Cimeira dos Açores, é como ouvir as contraditórias desculpas de um grupo de rapazolas sobre uma noitada que correu mal. Cada um se justifica com os outros. Durão diz agora que só organizou o encontro porque os espanhóis lho pediram. É curioso: na altura toda a gente viu as piruetas que deu para poder aparecer na fotografia.

É embaraçoso para Durão, e mesmo escusado. Nós sabemos hoje muito mais do que as suas justificações insinuam. O memorando de Downing Street, publicado pelo Times em 2005, demonstra que quase um ano antes da guerra George W. Bush já tinha decidido invadir o Iraque. As informações e os factos iriam ser “amanhados” (fixed around no original) para justificar a decisão. Os seus aliados britânicos sabiam. As actas da reunião de Crawford entre Bush e Aznar, que o El País publicou recentemente, demonstram que um mês antes da guerra Bush recusara a ideia de Saddam abdicar e exilar-se no Egipto. Aznar sabia.

Sabemos hoje que Saddam poderia ter sido contido de muitas formas, já desde os anos 80, e que esta guerra deveria ter sido evitada. Perante isto, Durão diz que “agora é fácil”. Pelo contrário, Sr. Durão: não foi fácil então ser contra a guerra e não é fácil ainda hoje — desde “fascistas” a “apoiantes de Saddam” e a “pró-terroristas” já fomos chamados de tudo — mas foi demasiado fácil, isso sim, ir na onda e cuidar da carreira.

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Se falo em carreira é porque Durão diz na mesma entrevista que não gosta da expressão “carreira política”. Declarações portentosas vindas de quem, sobre a Guerra do Iraque, diz ainda o seguinte:

“Não temos que estar de forma nenhuma arrependidos da posição que tomámos. Portugal não perdeu nada, também na Europa, com isso. Repare, depois das decisões que tomei, fui convidado a ser Presidente da Comissão Europeia e tive o consenso de todos os países europeus. O que demonstra que o facto de Portugal ter tomado naquela altura aquela posição não prejudicou em nada, em nada, a imagem de Portugal junto dos seus parceiros europeus.”

Durão Barroso pode não gostar da expressão, mas faz da sua carreira política a medida de todas as coisas. Aquelas frases sugerem bem como funciona a sua cabeça e a de tantos políticos como ele. Portugal não tem que estar arrependido do apoio à invasão do Iraque. Porquê? Porque “não perdeu nada com isso”. Não perdeu o quê: honestidade, credibilidade, autoridade moral? Nada de tais coisas; foi a nossa “imagem” não sofreu. E como sabemos que a nossa “imagem” não sofreu? Porque a carreira de Durão o “demonstra”.

Esta é a mais pura inversão moral. A carreira de um indivíduo é a medida da imagem de um país. A imagem de um país é mais importante do que o seu comportamento. E a opinião dos parceiros — em geral mais ricos, poderosos e brancos — é mais importante do que o destino de gente que é menos qualquer dessas três coisas.

Muitos anos, muitos jornais e muitas crónicas depois, pergunto-me se será demasiado ter uma palavra sobre os quinhentos mil mortos e quatro milhões de refugiados desta guerra. Mas afinal, os portugueses não devem preocupar-se com isso, porque Durão Barroso veio depois a ser nomeado para um cargo importante. Mais alguma coisa interessa?

Are you or have you ever been…

…o pessoal do blogue da Atlântico exigiu saber pormenores sobre o meu passado ideológico. Eu não pude, por razões de tempo, dar mais do que uma ajudinha. Mas para os interessados, a discussão está aqui.

Os autoritários

[Público 15 novembro 2007]

Mas foi talvez outra coisa que fez dele, naquele momento, um campeão da democracia: ter exigido respeito pelas palavras, que são os alicerces do debate honesto.

No início do seu livro “O Que Resta da Esquerda”, o autor Nick Cohen conta como em criança não comia laranjas portuguesas por causa de Salazar nem espanholas por causa de Franco. No fim do livro, descreve as centenas de milhares de pessoas que se manifestaram contra a Guerra do Iraque como “apoiantes do fascismo”. É um percurso ideológico longo mas que o leva, entre laranjas e pessoas, da amálgama à amálgama.

Este livro foi editado em Portugal por Zita Seabra. Devem ser incontáveis no nosso país as pessoas a quem Zita Seabra azucrinou o juízo por não obedecerem à linha do partido. No fim do seu percurso, Zita Seabra azucrina-lhes o juízo por lhe terem obedecido a ela e à linha do partido.

No seu editorial de anteontem, José Manuel Fernandes defendia o rei de Espanha e o Papa. Mas para o fazer, teve necessidade de partir da velha dicotomia marxista que divide o mundo entre reformistas e revolucionários. O meu problema não é ela ser velha nem marxista, mas obliterar completamente uma personagem mais importante: a do democrata.

E na tréplica de ontem ao meu texto, Helena Matos transformou a defesa que eu fizera da pedagogia democrática de Zapatero numa fantasiosa apologia de Chávez, que seria meu “ditador de estimação”. Eu poderia ficar ofendido, mas a falsidade é tão evidente a quem tiver lido os dois textos, que vou delegar no discernimento dos leitores e poupar espaço. Talvez eu esteja a ficar inoculado. Fico apenas contente por ter servido para alguma coisa o meu texto: para a Helena Matos de segunda-feira a intervenção de Zapatero não existia; para a Helena Matos de quarta ela é “belíssima”.

São, enfim, quatro exemplos de que é fácil as pessoas saírem do marxismo mas é mesmo muito difícil a retórica marxista sair das pessoas. Ela continua a reciclar os seus velhos vícios — as amálgamas, a rigidez, o maniqueísmo, a culpa por associação e até a pura fabricação — para o debate público.

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Chávez chama “fascista” a Aznar mais ou menos como Helena Matos chama “ditador” a Chávez — de forma repetitiva e sem a mínima consideração pelo significado das palavras. Reagindo a isso, Zapatero pediu respeito pelo seu antecessor e pelo povo que o elegeu. Mas foi talvez outra coisa que fez dele, naquele momento, um campeão da democracia: ter exigido respeito pelas palavras, que são os alicerces do debate honesto. Aznar não é um “fascista”. Nem a um adversário se devem distorcer as palavras. “Fascista” não significa dirigente eleito de que Chávez não goste, tal como “ditador” não significa dirigente eleito de que Helena Matos não gosta. Leio a resposta de Zapatero assim: sobretudo a um adversário não se devem distorcer as palavras.

Juan Carlos não discursou defendendo a democracia ou as liberdades. Limitou-se a mandar calar. Eu, que antes de ser de esquerda sou anti-autoritário, sinto-me distante de quem manda calar e não entro em êxtase quando vejo alguém mandar calar. Nem que toda a gente à minha volta aplauda. Sobretudo quando toda a gente à minha volta aplaude.

Às vezes digo-me até que a grande diferença, antes de ser entre esquerda e direita, é entre quem gosta de deixar falar e quem gosta de mandar calar. Há gente de esquerda que gosta de mandar calar — Chávez é um bom exemplo — e também gente que gosta de ver mandar calar, por interposta pessoa, enquanto é de esquerda ou quando passou a ser de direita. Não estava com eles antes, não estou com eles agora.

Para ser completamente sincero, eu entendo a satisfação de obedecer a um impulso muito humano. Mandar calar é coisa que alivia. E depois? Como visão política, é curto. A realidade não obedece às nossas birras. O populista Chávez ficou justamente diminuído quando Zapatero o acusou de não saber respeitar o povo. Mas lamento dar esta notícia: Chávez não desapareceu por Juan Carlos lhe ter mandado que se calasse.

Escolha o seu herói

[Público 12 novembro 2007]

A chave está no povo, na democracia, e no respeito pelo povo que a democracia implica. Respeitar Aznar, segundo esta leitura, é respeitar o povo espanhol, que o elegeu.

O caldo entornou na cimeira ibero-americana. O venezuelano Chávez chamou “fascista” ao ex-primeiro ministro espanhol Aznar, na ausência deste. Zapatero, actual primeiro-ministro de Espanha, exigiu respeito para o seu rival e antecessor lembrando que esse era o respeito devido ao povo espanhol que elegera Aznar e o elegera a ele mesmo. Chávez interrompeu Zapatero para reincidir nos qualificativos a Aznar, que considera ter apoiado o golpe de estado que o afastou momentaneamente do poder, há alguns anos. O rei de Espanha mandou calar o presidente da Venezuela.

Há três heróis possíveis.

A direita espanhola (e a portuguesa) escolhe o rei de Espanha. Deveria ser um pouco mais surpreendente, mas as nossas direitas continuam a não resistir à sedução de um “porque não te calas?”. Exigir silêncio é uma coisa que lhes atinge directamente os centros de prazer. Mariano Rajoy, actual líder do PP, já veio até virar a história do avesso sugerindo que o rei saiu em defesa de Aznar, — na verdade, foi Zapatero que veio em defesa de Aznar e o rei mandou calar Chávez para que Zapatero pudesse continuar — apenas porque se quer reivindicar da intempestiva frase do rei, como se desejasse fazer dela um lema.

Em pleno êxtase, esquecem-se os admiradores do “porque não te calas?” que esta frase acabou por ser um favor feito a Chávez. O mestizo venezuelano foi tratado com aspereza pelo rei da Espanha de los conquistadores e isso fará dele um herói entre muitos latino-americanos. Para quem gosta de se apresentar como herdeiro do libertador Bolívar, esta humilhação foi um pequeno momento de glória que lhe garantirá a solidariedade de muito compatriotas. Quem não entende porquê, que se pergunte: qual seria a nossa reacção se Juan Carlos tivesse mandado calar um primeiro-ministro ou presidente português, mesmo que se tratasse do mais impertinente e cabotino dos espécimes? Qual seria a reacção dos brasileiros se Cavaco mandasse calar Lula?

Além disso, haverá munições suficientes para a guerra que se segue entre chavistas e juancarlistas. Chávez fez os possíveis por encerrar um canal de televisão venezuelano que lhe era desfavorável. Mas Juan Carlos não está isento de telhados de vidro: ainda há poucos meses foi suspensa a edição de uma revista que publicara uma caricatura desfavorável à Casa Real espanhola, e seguiu-se logo depois a polémica dos jovens levados a tribunal por terem queimado fotografias do rei.

No meio disto, há um terceiro herói possível, que é Zapatero. Não mandou calar ninguém, o que o desqualifica perante autoritários de todos os matizes, mas foi ele que apresentou a melhor grelha de leitura para o sucedido. A chave está no povo, na democracia, e no respeito pelo povo que a democracia implica. Respeitar Aznar, segundo esta leitura, é respeitar o povo espanhol, que o elegeu. Chávez merece o respeito que merece o povo venezuelano, que o elegeu. Para lá disto, o respeito que merecem os indivíduos que transitoriamente desempenham os seus cargos depende do respeito que eles fizerem por merecer. Ao demonstrar contenção e paciência, ficando até ao fim da reunião, Zapatero colocou o seu povo à frente dos impulsos da sua vontade. Nos tempos que correm, é todo o heroísmo que pedimos àqueles que elegemos.

Parem as máquinas


Morreu Norman Mailer.

Coxo e catatónico

Aviso por causa das crónicas: a última não está publicada neste blogue por causa de um computador que pifou. Era um velho companheiro, que cumpriu bravamente até ao último estalido da placa lógica. Até conseguir recuperar os seus conteúdos, este blogue — que já é um bocadinho catatónico — andará coxo.

Entre esperto e espertalhão

[Público 5 novembro 2007]

Se é só para decidirmos coisas sem risco de surpresas ou consequências de maior, mais vale referendar o regresso da monarquia ou as cores da bandeira.

Já ouvi Sócrates dizer vezes suficientes que não decidiu se convocará o referendo ao Tratado de Lisboa para dar a essa hipótese uma probabilidade mais alta do que o habitual. E também acho que é uma boa ideia.

Os contras, na perspectiva dos líderes europeus, toda a gente os conhece: se os políticos nacionais começam a brincar à democracia correm o risco de a ver funcionar. Cada referendo convocado, e neste momento só o da Irlanda é certo, é um convite a que se façam mais dois ou três. Que dirão os colegas de Sócrates se, depois de tantas mostras de pragmatismo, ele acabar por metê-los em apuros perante os seus eleitorados?

Internamente, porém, a coisa é pouco menos do que irresistível. Sócrates tem agora euro-crédito suficiente para arriscar um bocadinho. Lá mais para o fim do mandato cumpre-se uma promessa, revertendo o que se fez no começo ao aumentar os impostos. O “não” dificilmente ganharia. E para os adversários é uma chatice. O PSD não quer referendo e vai ter de remeter-se a desculpas mal amanhadas para não ter posição ou evitar fazer campanha atrás do PS. O CDS também não quer referendo porque acha uma maçada ter posição sobre o assunto. A direita anti-Tratado fica completamente abandonada, com efeitos previsíveis na oposição interna dos respectivos partidos.

À esquerda, a situação também não é assim tão melhor. É claro que se o BE exigir muito o referendo pode proclamar uma vitória importante se ele vier a ser convocado, mas a sua posição simultaneamente anti-Tratado e pró-Europa não vai ser fácil de explicar. Só o PCP, como sempre, se safa com uma relativa e fortuita tranquilidade: não e não.

Pode dizer-se que estas são as piores razões para se convocar um referendo. Pode dizer-se que é irresponsável colocar Cavaco perante o incómodo de assumir que não quer referendo nenhum. Simplesmente, cada qual sabe de si e os políticos também se fizeram para ser espertos.

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A nós, em geral, ser-nos-ia feita a elementar justiça de termos informação, opinião e voto na matéria. Mas atenção: há duas maneiras de fazer o referendo. Uma é esperta; a outra é – como dizer? – espertalhona. Com muita pena minha, é como vejo a proposta de duas pessoas que admiro francamente. Vital Moreira e Ana Gomes têm vindo a sugerir que, perante um Tratado de Lisboa demasiado ocultista para se conseguir referendar, a solução alternativa seria votarem os portugueses sobre se querem ou não continuar na União Europeia. Sempre se perguntava qualquer coisita mais simples aos eleitores, infelizmente tão demasiado evidente que não deve haver muita gente interessada em ir votar. Se é só para decidirmos coisas sem risco de surpresas ou consequências de maior, mais vale referendar o regresso da monarquia ou as cores da bandeira.

Para mais, essa estratégia acabaria por prejudicar o principal interessado. Um referendo ao Tratado (que então era Constitucional e agora é Reformador) foi aquilo que Sócrates nos prometeu. Um referendo sobre se queremos abandonar a União Europeia não seria tanto uma quebra de promessa como uma chantagem emocional. Além da compreensível abstenção, a pior das consequências seria o eleitorado sentir que estavam a querer dar-lhe a volta na véspera das eleições. A linha entre esperto e espertalhão é daquelas que convém não franquear.