[Público 28 novembro 2007]
Sem surpresas, os subúrbios continuam em crise. Sem surpresas, a crise dos subúrbios continua a ser vista como uma razão para apoiar Sarkozy.
Diz-se que os líderes carismáticos conseguem produzir uma coisa chamada “campo de distorção do real”. O líder entra na sala, faz um discurso, fala do futuro, e o pessoal não só acredita, como se sente já experimentando esse mesmo futuro. Depois o chefe vai embora, e a realidade continua. Às vezes muda, às vezes não; a maior parte das vezes muda pouco ou quase nada.
Isso não quer dizer que o “campo de distorção do real” seja puramente ilusório e, em consequência, inútil. Pelo contrário. É bom ouvir falar de como as coisas podem vir a ser. Por vezes, a partilha colectiva dessa esperança pode fazer a realidade pegar de empurrão. Na maior parte das vezes, porém, a realidade é uma coisa intratável. O líder vai abusando da sua capacidade de convencer o público e o seu campo de distorção vai perdendo força. A certa altura ninguém acredita nele; nem sequer o próprio líder.
Diga-se o que se disser, há uma coisa admirável no carisma de Nicolas Sarkozy: é conseguir apresentar-se sempre como o homem da mudança. O jovem Nicolas foi o protegido da família Chirac no início da carreira, depois afilhado de Charles Pasqua, e ainda um ministro poderoso nos governos do presidente Chirac. Foi Ministro do Orçamento e não deixou marca. Ministro do Interior e falhou. Foi Ministro das Finanças e deixou a situação pior do que estava. No entanto, durante a campanha presidencial, os seus adversários eram os candidatos da “continuidade” e ele o da “ruptura”. Para isso, meus amigos, é preciso talento.
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Há dois anos, os subúrbios franceses estavam em chamas. Não era uma situação nova, e Sarkozy contribuíra para não a resolver. Mas o líder falou, disse que ia limpar a ralé com uma mangueira de pressão e dar emprego aos jovens que quisessem trabalhar. E a coisa pareceu plausível.
Agora reparem: nestes dois anos, nada mudou nos subúrbios franceses. Nenhuma das políticas de inclusão prometidas foi posta em marcha. A única coisa que se sabe é que o Presidente favorece a utilização de aviões telecomandados (os “drones”) para filmar os motins, como favorece a vigilância da internet contra a “pirataria”. Sem surpresas, os subúrbios continuam em crise. Sem surpresas, a crise dos subúrbios continua a ser vista como uma razão para apoiar Sarkozy.
No mundo que lhe importa, o dos seus apoiantes e amigos, a primeira medida de Sarkozy foi acabar com o imposto sucessório para os ricos e devolver 583 milhões de euros em IRS aos mais ricos ainda. Era suposto a economia responder com um choque de dinamismo; a economia não obedeceu. Sarkozy não se preocupa. A França tem tamanho suficiente para se viver permanentemente isolado nos ghettos da élite, e tem tradição repressiva para ir segurando os subúrbios.
Ao contrário do que parece vista de fora, a França não é só greves e manifestações. Não há coisa mais francesa do que um soberano indiferente às convulsões da plebe, que acha que a economia obedece aos seus caprichos e que a moeda é um instrumento da sua glória. Só filtrado pelo seu próprio campo magnético Sarkozy é uma novidade. Uma novidade velha, mas novidade.






