[Público 18 outubro 2007]
Corremos o risco de destruir qualquer debate sobre o conteúdo para substitui-lo por um paso doble entre etiquetas
No meio de uma entrevista o escritor Martin Amis pensava em voz alta sobre como deter o terrorismo islâmico e disse as seguintes frases: “A comunidade muçulmana vai ter de sofrer até pôr a casa em ordem. Que tipo de sofrimento? Não os deixar viajar. Deportação — lá mais para o fim da estrada. Supressão de liberdades. Revistar pessoas que pareçam ser do Médio Oriente ou do Paquistão. Coisas discriminatórias, até magoar a comunidade inteira e eles começarem a ser duros com os filhos deles”.
Note-se que o programa de “sofrimento” prescrito por Martin Amis não se aplica aos terroristas, mas a toda a comunidade muçulmana e não só: estende-se a todos os que se “pareçam” com gente do Médio Oriente ou da Ásia Central. É uma defesa da punição colectiva, cuja crueldade e injustiça foi tantas vezes comprovada. Substitua-se “muçulmanos” por “judeus”, “ciganos” ou “arménios” e esta citação é uma viagem aos períodos mais vergonhosos da nossa história. E mais surpreendente ainda, é demasiado semelhante às justificações utilizadas pelos extremistas islâmicos para os ataques terroristas no Ocidente: “os EUA têm de sofrer como os nossos irmãos palestinianos até mudarem as suas políticas, etc.” Em ambos os casos, uma lógica perversa.
Se tivéssemos a desdita de seguir aquele tipo de conselhos, no Ocidente ou no Oriente, o resultado seria pior ainda do que o problema inicial. O próprio Martin Amis o escreveu mais recentemente numa carta aberta, justificando as suas declarações como fruto de uma “vontade retaliatória que se evaporou” e que já não defendia.
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A partir daqui, no entanto, a discussão encaixou nos termos que agora se usam e, na verdade, acabou. Os críticos de Martin Amis foram acusados de serem “politicamente correctos” por terem atacado as suas declarações. E muitos comentadores trataram Martin Amis como um mártir por ter tido a coragem de emitir opiniões “politicamente incorrectas”, independentemente da qualidade dessas opiniões.
Tal como no caso de James Watson, corremos o risco de destruir qualquer debate sobre o conteúdo para substitui-lo por um paso doble entre etiquetas. Parecer “politicamente correcto” é uma preocupação constante. Mas uma opinião “politicamente incorrecta”, por boçal ou cretina que seja, não deve satisfazer-se com a liberdade de expressão. Deve ainda ser aplaudida e classificada de corajosa. O primeiro a reclamar a bandeira do “politicamente incorrecto” ganha o direito a não ser criticado nem ter de defender o que disse. É o passaporte para o disparate com impunidade.
A “ditadura do politicamente correcto” não é, pois, um mundo onde Watson ou Amis (ou os seus adversários do outro lado da barricada) estão proibidos de defender o racismo, a desigualdade, a xenofobia. Perversamente, é um mundo onde não se deve chamar racistas aos racistas para não ser irritante.
Para o leitor fica a lição: se estiver prestes a arranjar um problema no emprego, diga qualquer coisa racista. Logo lhe aparecerá em apoio uma brigada de defensores do “politicamente incorrecto”.





