Arquivo diario para October 23rd, 2007

Passaporte para o disparate impune

[Público 18 outubro 2007]

Corremos o risco de destruir qualquer debate sobre o conteúdo para substitui-lo por um paso doble entre etiquetas

No meio de uma entrevista o escritor Martin Amis pensava em voz alta sobre como deter o terrorismo islâmico e disse as seguintes frases: “A comunidade muçulmana vai ter de sofrer até pôr a casa em ordem. Que tipo de sofrimento? Não os deixar viajar. Deportação — lá mais para o fim da estrada. Supressão de liberdades. Revistar pessoas que pareçam ser do Médio Oriente ou do Paquistão. Coisas discriminatórias, até magoar a comunidade inteira e eles começarem a ser duros com os filhos deles”.

Note-se que o programa de “sofrimento” prescrito por Martin Amis não se aplica aos terroristas, mas a toda a comunidade muçulmana e não só: estende-se a todos os que se “pareçam” com gente do Médio Oriente ou da Ásia Central. É uma defesa da punição colectiva, cuja crueldade e injustiça foi tantas vezes comprovada. Substitua-se “muçulmanos” por “judeus”, “ciganos” ou “arménios” e esta citação é uma viagem aos períodos mais vergonhosos da nossa história. E mais surpreendente ainda, é demasiado semelhante às justificações utilizadas pelos extremistas islâmicos para os ataques terroristas no Ocidente: “os EUA têm de sofrer como os nossos irmãos palestinianos até mudarem as suas políticas, etc.” Em ambos os casos, uma lógica perversa.

Se tivéssemos a desdita de seguir aquele tipo de conselhos, no Ocidente ou no Oriente, o resultado seria pior ainda do que o problema inicial. O próprio Martin Amis o escreveu mais recentemente numa carta aberta, justificando as suas declarações como fruto de uma “vontade retaliatória que se evaporou” e que já não defendia.

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A partir daqui, no entanto, a discussão encaixou nos termos que agora se usam e, na verdade, acabou. Os críticos de Martin Amis foram acusados de serem “politicamente correctos” por terem atacado as suas declarações. E muitos comentadores trataram Martin Amis como um mártir por ter tido a coragem de emitir opiniões “politicamente incorrectas”, independentemente da qualidade dessas opiniões.

Tal como no caso de James Watson, corremos o risco de destruir qualquer debate sobre o conteúdo para substitui-lo por um paso doble entre etiquetas. Parecer “politicamente correcto” é uma preocupação constante. Mas uma opinião “politicamente incorrecta”, por boçal ou cretina que seja, não deve satisfazer-se com a liberdade de expressão. Deve ainda ser aplaudida e classificada de corajosa. O primeiro a reclamar a bandeira do “politicamente incorrecto” ganha o direito a não ser criticado nem ter de defender o que disse. É o passaporte para o disparate com impunidade.

A “ditadura do politicamente correcto” não é, pois, um mundo onde Watson ou Amis (ou os seus adversários do outro lado da barricada) estão proibidos de defender o racismo, a desigualdade, a xenofobia. Perversamente, é um mundo onde não se deve chamar racistas aos racistas para não ser irritante.

Para o leitor fica a lição: se estiver prestes a arranjar um problema no emprego, diga qualquer coisa racista. Logo lhe aparecerá em apoio uma brigada de defensores do “politicamente incorrecto”.

Serão os prémios Nobel menos inteligentes do que os empregados de café?

[Público 22 outubro 2007]

Quando alguém sustenta opiniões com base em conversa de café, mesmo se ganhou o prémio Nobel, não está a fazer ciência: está a fazer conversa de café.

Quando a filosofia da ciência se exaspera de procurar definir o seu objecto há sempre alguém que sugere uma escapatória: “ciência é aquilo que os cientistas fazem” (o mesmo se passa, curiosamente, com a filosofia da arte).

Que essa é uma definição profundamente insatisfatória viu-se agora demonstrado pela afirmação de James Watson, Nobel de 1962 e co-descobridor da estrutura e função genética do ADN, segundo a qual os negros são menos inteligentes do que os brancos, “como sabe qualquer pessoa que contacte com um empregado negro”. James Watson não citou provas científicas, experiências realizadas ou o trabalho de colegas seus. Dias depois declarou mesmo: “não consigo compreender como posso ter dito aquilo que foi citado em meu nome. Não era aquilo que eu queria dizer. Mais importante ainda, não há base científica para tais crenças”.

Creio que isto despacha o primeiro equívoco. Ciência não é qualquer coisa que um cientista diga. Quando alguém sustenta opiniões com base em conversa de café, mesmo se ganhou o prémio Nobel, não está a fazer ciência: está a fazer conversa de café. Se é conversa de café racista, não merece qualquer estatuto especial. Nobel ou não-Nobel, James Watson passou por mais idiota do que qualquer empregado ou patrão, branco ou negro, de café ou de escritório.

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Resta a questão da liberdade de expressão. Alega-se que estamos a assistir ao “silenciamento” da ciência porque James Watson foi desconvidado de proferir uma conferência no Museu da Ciência, em Londres, ou perdeu um cargo administrativo no seu laboratório. Este argumento revela uma má compreensão do que é a liberdade de expressão. A liberdade de expressão garante o direito de se defender o racismo; mas não garante o direito de se dar conferências no Museu da Ciência ou manter cargos administrativos. Pelo contrário. Forçar o Museu da Ciência a manter um convite contra a sua vontade seria, isso sim, uma violação dos direitos da instituição.

James Watson poderia iniciar uma linha de pesquisa sobre as diferenças de inteligência entre raças (presumindo que os conceitos de “inteligência” e “raça”, e as relações entre ambos, não lhe oferecessem os mesmos problemas que a todos os outros cientistas). Seria muito bem vindo o seu trabalho científico e se alguém o despedisse por isso ou lhe cortasse o financiamento estaríamos perante um caso objectivo de violação da liberdade de investigação científica. O que James Watson fez foi diferente: tentou fazer passar os seus preconceitos por evidência científica. O exemplo que deu foi ainda pior no plano científico do que no plano político.

Eis um exemplo com alguma pertinência nacional. Apesar do meu anti-racismo, eu não demitiria James Watson do Conselho Científico da Fundação Champalimaud pelas suas opiniões racistas. Mas consideraria seriamente fazê-lo por esta demonstração pública de que se tornou num mau cientista.

Mas isso não é “politicamente correcto”? Já conheço a objecção, e responderei na próxima crónica.