[Público 18 outubro 2007]
Pessoas que se preocupam com os abusos de poder e a falta de transparência dos estados deram carta branca às empresas, nomeadamente às grandes.
Há um ano e meio soube-se que o BCP dedicava quase noventa por cento dos gastos com pessoal aos salários dos administradores. Esses executivos absorviam quase dez por cento dos lucros do banco, eram os mais bem pagos em Portugal e estavam acima da média europeia.
Como é habitual, houve quem respondesse que este era um assunto da vida interna da empresa e que se os salários dos executivos eram altos isso se devia às leis do mercado. Só no ano de 2004 os administradores do BCP dividiram entre si mais de 30 milhões de euros: mas isso sucedia porque eram bons gestores e os lucros do banco o justificavam.
Sabemos hoje que nesse mesmo ano de 2004 o BCP perdoou ao filho do seu fundador uma dívida de 12 milhões de euros em juros de empréstimos. E que, noutra ocasião, perdoou quinze milhões respeitantes a um empréstimo contraído por um seu accionista de referência para comprar acções do próprio banco.
E sabemo-lo porque a excelência dos seus administradores e grandes accionistas, apesar de bem remunerada, não os impediu de entrar em guerras intestinas que já minaram a credibilidade do maior banco privado português.
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Os crentes no sistema voltarão a dizer que o dinheiro é do banco, que um banco pode perdoar dívidas a quem quiser e que se trata de assuntos privados de um banco privado. O BCP dá lucro e tem folga para estas coisas.
Quando assim é, o discurso dos crentes aproxima-se da feitiçaria. Se os milhares de funcionários de um banco pedirem aumentos, dir-se-á que o banco perde competitividade. Se um cliente não pagar a prestação do empréstimo, o banco fica-lhe com a casa. Se o estado quiser aumentar os impostos sobre os lucros da banca, responde-se que os prejudicados serão os clientes com os gastos que o banco terá de ir buscar “a algum lado”. Mas para aumentar executivos e perdoar dívidas a familiares ou sócios, as premissas são as opostas. Os lucros dão margem e ninguém sai prejudicado: nem os accionistas, nem os clientes do banco, nem os clientes de todos os bancos onde as comadres não se zangaram mas que passam a estar sob as suspeitas que no BCP se confirmaram.
É magia. E por isso mesmo, não funciona.
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O discurso empresarialista criou a ideia de que a empresa deve ser uma caixa negra. A eficiência do sistema depende do estado não intervir. Pessoas que se preocupam com os abusos de poder e a falta de transparência dos estados (legitimamente) deram carta branca às empresas, nomeadamente às grandes. A única obrigação das empresas, diz-se, é dar lucros aos seus accionistas: para tudo o mais são irresponsáveis. Mas hoje as empresas já pesam mais na vida de cada um do que os estados: são elas que nos dizem quando podemos sair de casa dos pais, quando podemos ter filhos, quando já não precisam de nós. As empresas agora têm “direitos”; até mais do que os cidadãos.
Há duas gerações, a ideologia desenvolvimentista dominava com um discurso baseado na acção do estado e nas indústrias pesadas. Entretanto, o barco virou e a nova ideologia dominante garantiu-nos que não há instituição mais eficaz do que a empresa. Quantas vezes ouvimos políticos prometer que iriam gerir a cidade ou o país “como uma empresa”? A empresa foi modelo de tudo, solução para tudo. A fantasia ainda não acabou. Mas a ressaca vai ser dura.





