Arquivo mensal para October, 2007

Sociologia de bolso

[Público 31 outubro 2007]

Também nos livros de sociologia há uma coisa chamada “distinção”: antes era pôr os filhos em “bons liceus” públicos da pré-massificação, hoje é pagar por ela do seu bolso em colégios.

Lamento, mas agora não posso ver a posição em que ficou a minha escola nos célebres rankings. Não me deixam abrir a porta e, mesmo que a abrisse, lá fora só há uma queda de onze mil metros no meio do Atlântico.

A última vez que vi, porém, a Escola Secundária Luísa de Gusmão estava na segunda metade da tabela. Um destes anos estávamos ali por volta da 250º posição, mas dois lugares acima do famigerado Liceu Pedro Nunes. Ora toma!

Se tentar seguir a pista ao pessoal da Luísa de Gusmão, e não é um exercício que eu faça muitas vezes, encontro uma artista revelação do ano, um director de revista, uma pivot de telejornal, um doutorado em biologia, um actor do teatro nacional, duas escritoras premiadas, dois fotógrafos. Perdemos alguns de nós: um morreu de overdose e outro suicidou-se na primeira semana da tropa. E há certamente bancários avulsos, militares, funcionários da junta de freguesia, professores universitários, empresários, taxistas, e devo incluir um dirigente da universidade que diplomou o nosso primeiro-ministro. Não “tivemos sorte”, mas fomos talvez mais longe do que teríamos ido uma geração antes. Vínhamos do Alto de São João e da Mouraria, da Graça e da Curraleira, da Picheleira e do Alto do Pina. Quando nos encontrávamos para os trabalhos de grupo havia casas com poucos ou nenhuns livros. Mas a Biblioteca Municipal da Penha de França era ali ao lado e a Câmara Municipal (de Jorge Sampaio) dava-nos bilhetes para irmos ver matinés de cinema ao São Luiz. Devemos muito às escolas públicas, às bibliotecas públicas, aos teatros públicos.

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Para que serve esta sociologia de bolso? Unicamente para provar que a sociologia de bolso é um desporto acessível a qualquer um, para qualquer discussão, sustentando qualquer tipo tese. Já ouvi Maria Filomena Mónica dizer-me que o final dos anos oitenta foi de “terra queimada” na educação, e que não havia clássico da literatura portuguesa que entrasse nas salas. Eu estava lá e permito-me discordar: estudámos as cantigas medievais e Bernardim Ribeiro, as Folhas Caídas e Alexandre Herculano, Os Maias e Camilo Castelo Branco. E não fomos uma excepção: somos do meio do ranking. Helena Matos decreta o falhanço do ensino público em Portugal, e eu tenho impressão que um falhanço não é uma coisa que se postula mas que se diagnostica com dados, principalmente quando se é adepto do rigor. Onde estávamos nas tabelas internacionais há uma ou duas gerações, tanto em termos relativos como de cobertura da população? A Suécia estava toda alfabetizada no século XVIII. Querem comparar?

Estou disposto a reconhecer que o ensino público português tem um monte de problemas. Mas para isso devo dizer que os artistas, jornalistas e políticos que estudaram em escolas públicas e hoje inscrevem os filhos em escolas privadas valem tanto como os itinerários dos meus colegas. Também nos livros de sociologia há uma coisa chamada “distinção”: antes era pôr os filhos em “bons liceus” públicos da pré-massificação, hoje é pagar por ela do seu bolso em colégios. Não me parece mal. Não podem é concluir que o ensino público se tornou um inferno desde que os seus filhos saíram de lá.

Nem nada disso justifica pretender que o dinheiro público financie, através de vouchers, o ensino privado. Nem fantasiar que os problemas do ensino público se resolvem não gastando dinheiro com ele. Bons resultados no ensino público custam dinheiro, ainda mais quando se começa tarde. E neste país de estádios de futebol e empréstimos a administradores do Banco de Portugal, não há dinheiro mais bem gasto do que esse.

Nota: A propósito das crónicas da semana passada recebi a informação de que a Fundação Gulbenkian não tem qualquer relação com o Professor Watson. Creio que a leitura das mesmas deixa claro que não o pretendi sugerir.

Passaporte para o disparate impune

[Público 18 outubro 2007]

Corremos o risco de destruir qualquer debate sobre o conteúdo para substitui-lo por um paso doble entre etiquetas

No meio de uma entrevista o escritor Martin Amis pensava em voz alta sobre como deter o terrorismo islâmico e disse as seguintes frases: “A comunidade muçulmana vai ter de sofrer até pôr a casa em ordem. Que tipo de sofrimento? Não os deixar viajar. Deportação — lá mais para o fim da estrada. Supressão de liberdades. Revistar pessoas que pareçam ser do Médio Oriente ou do Paquistão. Coisas discriminatórias, até magoar a comunidade inteira e eles começarem a ser duros com os filhos deles”.

Note-se que o programa de “sofrimento” prescrito por Martin Amis não se aplica aos terroristas, mas a toda a comunidade muçulmana e não só: estende-se a todos os que se “pareçam” com gente do Médio Oriente ou da Ásia Central. É uma defesa da punição colectiva, cuja crueldade e injustiça foi tantas vezes comprovada. Substitua-se “muçulmanos” por “judeus”, “ciganos” ou “arménios” e esta citação é uma viagem aos períodos mais vergonhosos da nossa história. E mais surpreendente ainda, é demasiado semelhante às justificações utilizadas pelos extremistas islâmicos para os ataques terroristas no Ocidente: “os EUA têm de sofrer como os nossos irmãos palestinianos até mudarem as suas políticas, etc.” Em ambos os casos, uma lógica perversa.

Se tivéssemos a desdita de seguir aquele tipo de conselhos, no Ocidente ou no Oriente, o resultado seria pior ainda do que o problema inicial. O próprio Martin Amis o escreveu mais recentemente numa carta aberta, justificando as suas declarações como fruto de uma “vontade retaliatória que se evaporou” e que já não defendia.

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A partir daqui, no entanto, a discussão encaixou nos termos que agora se usam e, na verdade, acabou. Os críticos de Martin Amis foram acusados de serem “politicamente correctos” por terem atacado as suas declarações. E muitos comentadores trataram Martin Amis como um mártir por ter tido a coragem de emitir opiniões “politicamente incorrectas”, independentemente da qualidade dessas opiniões.

Tal como no caso de James Watson, corremos o risco de destruir qualquer debate sobre o conteúdo para substitui-lo por um paso doble entre etiquetas. Parecer “politicamente correcto” é uma preocupação constante. Mas uma opinião “politicamente incorrecta”, por boçal ou cretina que seja, não deve satisfazer-se com a liberdade de expressão. Deve ainda ser aplaudida e classificada de corajosa. O primeiro a reclamar a bandeira do “politicamente incorrecto” ganha o direito a não ser criticado nem ter de defender o que disse. É o passaporte para o disparate com impunidade.

A “ditadura do politicamente correcto” não é, pois, um mundo onde Watson ou Amis (ou os seus adversários do outro lado da barricada) estão proibidos de defender o racismo, a desigualdade, a xenofobia. Perversamente, é um mundo onde não se deve chamar racistas aos racistas para não ser irritante.

Para o leitor fica a lição: se estiver prestes a arranjar um problema no emprego, diga qualquer coisa racista. Logo lhe aparecerá em apoio uma brigada de defensores do “politicamente incorrecto”.

Serão os prémios Nobel menos inteligentes do que os empregados de café?

[Público 22 outubro 2007]

Quando alguém sustenta opiniões com base em conversa de café, mesmo se ganhou o prémio Nobel, não está a fazer ciência: está a fazer conversa de café.

Quando a filosofia da ciência se exaspera de procurar definir o seu objecto há sempre alguém que sugere uma escapatória: “ciência é aquilo que os cientistas fazem” (o mesmo se passa, curiosamente, com a filosofia da arte).

Que essa é uma definição profundamente insatisfatória viu-se agora demonstrado pela afirmação de James Watson, Nobel de 1962 e co-descobridor da estrutura e função genética do ADN, segundo a qual os negros são menos inteligentes do que os brancos, “como sabe qualquer pessoa que contacte com um empregado negro”. James Watson não citou provas científicas, experiências realizadas ou o trabalho de colegas seus. Dias depois declarou mesmo: “não consigo compreender como posso ter dito aquilo que foi citado em meu nome. Não era aquilo que eu queria dizer. Mais importante ainda, não há base científica para tais crenças”.

Creio que isto despacha o primeiro equívoco. Ciência não é qualquer coisa que um cientista diga. Quando alguém sustenta opiniões com base em conversa de café, mesmo se ganhou o prémio Nobel, não está a fazer ciência: está a fazer conversa de café. Se é conversa de café racista, não merece qualquer estatuto especial. Nobel ou não-Nobel, James Watson passou por mais idiota do que qualquer empregado ou patrão, branco ou negro, de café ou de escritório.

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Resta a questão da liberdade de expressão. Alega-se que estamos a assistir ao “silenciamento” da ciência porque James Watson foi desconvidado de proferir uma conferência no Museu da Ciência, em Londres, ou perdeu um cargo administrativo no seu laboratório. Este argumento revela uma má compreensão do que é a liberdade de expressão. A liberdade de expressão garante o direito de se defender o racismo; mas não garante o direito de se dar conferências no Museu da Ciência ou manter cargos administrativos. Pelo contrário. Forçar o Museu da Ciência a manter um convite contra a sua vontade seria, isso sim, uma violação dos direitos da instituição.

James Watson poderia iniciar uma linha de pesquisa sobre as diferenças de inteligência entre raças (presumindo que os conceitos de “inteligência” e “raça”, e as relações entre ambos, não lhe oferecessem os mesmos problemas que a todos os outros cientistas). Seria muito bem vindo o seu trabalho científico e se alguém o despedisse por isso ou lhe cortasse o financiamento estaríamos perante um caso objectivo de violação da liberdade de investigação científica. O que James Watson fez foi diferente: tentou fazer passar os seus preconceitos por evidência científica. O exemplo que deu foi ainda pior no plano científico do que no plano político.

Eis um exemplo com alguma pertinência nacional. Apesar do meu anti-racismo, eu não demitiria James Watson do Conselho Científico da Fundação Champalimaud pelas suas opiniões racistas. Mas consideraria seriamente fazê-lo por esta demonstração pública de que se tornou num mau cientista.

Mas isso não é “politicamente correcto”? Já conheço a objecção, e responderei na próxima crónica.

A caixa negra

[Público 18 outubro 2007]

Pessoas que se preocupam com os abusos de poder e a falta de transparência dos estados deram carta branca às empresas, nomeadamente às grandes.

Há um ano e meio soube-se que o BCP dedicava quase noventa por cento dos gastos com pessoal aos salários dos administradores. Esses executivos absorviam quase dez por cento dos lucros do banco, eram os mais bem pagos em Portugal e estavam acima da média europeia.

Como é habitual, houve quem respondesse que este era um assunto da vida interna da empresa e que se os salários dos executivos eram altos isso se devia às leis do mercado. Só no ano de 2004 os administradores do BCP dividiram entre si mais de 30 milhões de euros: mas isso sucedia porque eram bons gestores e os lucros do banco o justificavam.

Sabemos hoje que nesse mesmo ano de 2004 o BCP perdoou ao filho do seu fundador uma dívida de 12 milhões de euros em juros de empréstimos. E que, noutra ocasião, perdoou quinze milhões respeitantes a um empréstimo contraído por um seu accionista de referência para comprar acções do próprio banco.

E sabemo-lo porque a excelência dos seus administradores e grandes accionistas, apesar de bem remunerada, não os impediu de entrar em guerras intestinas que já minaram a credibilidade do maior banco privado português.

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Os crentes no sistema voltarão a dizer que o dinheiro é do banco, que um banco pode perdoar dívidas a quem quiser e que se trata de assuntos privados de um banco privado. O BCP dá lucro e tem folga para estas coisas.

Quando assim é, o discurso dos crentes aproxima-se da feitiçaria. Se os milhares de funcionários de um banco pedirem aumentos, dir-se-á que o banco perde competitividade. Se um cliente não pagar a prestação do empréstimo, o banco fica-lhe com a casa. Se o estado quiser aumentar os impostos sobre os lucros da banca, responde-se que os prejudicados serão os clientes com os gastos que o banco terá de ir buscar “a algum lado”. Mas para aumentar executivos e perdoar dívidas a familiares ou sócios, as premissas são as opostas. Os lucros dão margem e ninguém sai prejudicado: nem os accionistas, nem os clientes do banco, nem os clientes de todos os bancos onde as comadres não se zangaram mas que passam a estar sob as suspeitas que no BCP se confirmaram.

É magia. E por isso mesmo, não funciona.

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O discurso empresarialista criou a ideia de que a empresa deve ser uma caixa negra. A eficiência do sistema depende do estado não intervir. Pessoas que se preocupam com os abusos de poder e a falta de transparência dos estados (legitimamente) deram carta branca às empresas, nomeadamente às grandes. A única obrigação das empresas, diz-se, é dar lucros aos seus accionistas: para tudo o mais são irresponsáveis. Mas hoje as empresas já pesam mais na vida de cada um do que os estados: são elas que nos dizem quando podemos sair de casa dos pais, quando podemos ter filhos, quando já não precisam de nós. As empresas agora têm “direitos”; até mais do que os cidadãos.

Há duas gerações, a ideologia desenvolvimentista dominava com um discurso baseado na acção do estado e nas indústrias pesadas. Entretanto, o barco virou e a nova ideologia dominante garantiu-nos que não há instituição mais eficaz do que a empresa. Quantas vezes ouvimos políticos prometer que iriam gerir a cidade ou o país “como uma empresa”? A empresa foi modelo de tudo, solução para tudo. A fantasia ainda não acabou. Mas a ressaca vai ser dura.

Incertinho como a chuva

[Público 16 outubro 2007]

À medida que o clima se for tornando imprevisível, a única coisa previsível passará a ser apenas o modo como os prémios Nobel são recebidos.

Com a regularidade de qualquer fenómeno natural, a temporada dos prémios Nobel traz-nos sempre o mesmo espectáculo. O climax dá-se com o Nobel da Literatura e o da Paz e a coreografia é sempre a mesma. Uns dias antes a maioria da opinião conservadora, nos jornais ou na blogosfera, vai ficando inquieta com a possibilidade de ambos os prémios irem parar a alguém “politicamente correcto”. Caso o receio se confirme, declaram que o prémio não tem credibilidade nem importância, para no ano seguinte voltarem a passar pelo mesmo ciclo, dando importância a um prémio ao qual garantem não reconhecer credibilidade.

A ironia do Nobel da Paz deste ano é que, se as pessoas a quem ele foi entregue tiverem razão, a comparação que eu usei na primeira frase não está para durar. Daqui a umas décadas, a acreditar em Al Gore e no Comité Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC na sigla inglesa), será difícil entender o que significa “certinho como a chuva”, essa figura de estilo tão portuguesinha. À medida que o clima se for tornando imprevisível, a única coisa previsível passará a ser apenas o modo como os prémios Nobel são recebidos. Em particular, podemos não saber se as folhas vão continuar a cair no Outono, mas dá para avançar com elevado grau de probabilidade quem vai dizer o quê quando o Comité de Oslo fizer os seus anúncios.

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Deixem-me pôr as cartas na mesa: não sei nada sobre alterações climáticas. Isto não é invulgar: há quem diga que ninguém sabe nada e que Al Gore se limita a inventar. Eu nem isso sei. E também posso dizer, embora isto não tenha qualquer valor, que a minha tendência inicial era para desvalorizar o problema.

As minhas conclusões tenho de tirá-las a partir do debate público. E aí sou forçado a dizer que a posição dos cépticos é cada vez mais frágil e contraditória. Muitos deles começaram por dizer: “não há alterações climáticas”. Depois, passaram para: “há alterações, mas não são provocadas pelo Homem”. Bjørn Lomborg, grande rival público de Al Gore, admite agora* que as alterações climáticas são reais e provocadas pelos humanos mas que não vale a pena perder com elas dinheiro que seria mais bem gasto no combate à malária (alguém sugere que se vá roubar dinheiro à luta contra a malária ou será que não há dinheiro disponível, por exemplo, nos gastos militares?).

Também há quem diga que enquanto não houver certezas não vale a pena combater as alterações climáticas, como quem se recusasse a comprar um seguro contra incêndios enquanto não tiver garantias de que a casa vai pegar fogo. Há outros argumentos: que Al Gore é chato, que é pedante, que até lê livros e escreve livros. Ouvimos tudo isso em 2000, quando os seus adversários tentavam pressioná-lo a que reconhecesse a sua “derrota” nas presidenciais; hoje é tão absurdo que já não faz qualquer efeito. Em desespero de causa chegam a citar a sentença de um juiz britânico que identifica “nove erros” no documentário de Gore omitindo a parte onde diz que o filme está “substancialmente correcto”.

Apesar disso tudo, eu gostaria que tivessem razão. Seria preferível que noventa por cento dos cientistas não estivesse do lado de Gore. Seria melhor para o planeta. Seria melhor para nós. Simplesmente, não vejo os adversários de Al Gore ganhar este debate. Vejo-os enterrarem-se cada vez mais.

*corrigido em 25out2007

O tempo político

[Público 11 outubro 2007]

O governo está no topo dessa cadeia e se não demonstrar que está contra actos de retaliação e vigilância excessiva, estará implicitamente passando a mensagem de que eles lhe agradam.

1. José Rodrigues dos Santos, o pivô-jornalista da RTP, foi suspenso das suas funções por causa de uma entrevista que deu a este jornal na Pública de passado domingo. Dois polícias visitaram a sede de um sindicato para averiguar sobre os protestos a organizar numa próxima visita do primeiro-ministro.

Escrevo em cima da divulgação destas notícias, e nenhuma delas está inteiramente esclarecida. O que é claro é que há duas formas de lidar com notícias destas. A primeira é a estratégia da “autonomia do plano jurídico”: cada um destes casos tem a ver com o respeito por rotinas, por procedimentos e por uma disciplina interna, e qualquer discurso sobre eles pode ser considerado uma interferência.

Esta foi a estratégia que o governo seguiu quando, há uns meses, surgiram notícias semelhantes sobre o “autoritarismo” em estruturas do Ministério da Educação ou da Saúde. Foi uma estratégia errada então e será uma estratégia errada agora, se voltar a ser seguida.

Em primeiro lugar, estas notícias têm um carácter marcadamente público, e como tal têm um plano político. No plano político, revelam uma tendência de retaliação e vigilância excessiva. E é assim que serão lidas pelo público, e os valores políticos em causa justificam uma posição forte e clara do governo. Se o governo não tomar posição pública sobre elas, será entendido como conivente. Pode alegar que a sua intenção não é essa, mas a esfera pública não vive de intenções, vive de posições.

E há pelo menos um aspecto em que o governo, parecendo ser conivente, correrá mesmo o risco de ser conivente. Trata-se da pedagogia interna para os diversos elos da cadeia de decisão. O governo está no topo dessa cadeia e se não demonstrar que está contra actos de retaliação e vigilância excessiva, estará implicitamente passando a mensagem de que eles lhe agradam. E os escalões inferiores agirão nesse pressuposto, o que é grave e não pode ser aceitado.

A autonomia dos processos deve ser respeitada, mas a mensagem não pode ser apenas essa. Pelo contrário, terá de se acrescentar a ela um aspecto de responsabilização: terão de rolar cabeças se for confirmado que estamos perante um exercício abusivo da autoridade. E o momento para o dizer é agora. O tempo político não se compadece com o tempo jurídico.

2. Regresso ao assunto das capelanias. Escrevi que só havia duas leituras possíveis da disparidade entre o que está escrito no diploma sobre assistência religiosa nos hospitais e as declarações que sobre ele prestaram os responsáveis católicos: “ou os bispos não souberam ler o diploma, ou induziram o público em erro sobre o seu conteúdo”. Helena Matos levanta uma terceira hipótese, a de que “o diploma de que falavam não era este”. Mas essa hipótese já foi afastada pelo próprio coordenador das capelanias hospitalares, padre José Nuno Ferreira da Silva, em declarações ao Diário de Notícias no passado Sábado. O público foi efectivamente induzido em erro, pelos responsáveis católicos, sobre o conteúdo do diploma.

Quem poderá esclarecer este assunto é o próprio porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, padre Carlos Azevedo, que é um dos críticos mais severos do diploma e que em declarações à agência Ecclesia prometeu para breve um comunicado sobre o assunto. Será a ocasião para explicar as suas declarações de 11 de Setembro passado alegando que o diploma proibia a assistência religiosa fora da hora das visitas e insinuando que ela teria que ser feita pelo pároco da área da residência – duas informações equívocas, para dizer o mínimo.

Mas qual polémica?

[Público 08 outubro 2007]

No espaço de poucos dias, os bispos declararam a guerra, lançaram os morteiros e proclamaram vitória. Com um pormenor: ninguém sabia do que estavam eles a falar.

Há uma certa leviandade na forma como as coisas mais banais ganham a dignidade de polémica. Mas não é por acaso: em cada polémica fajuta, há sempre alguém que beneficia. Consideremos o episódio das capelanias hospitalares.

A Constituição, a Concordata e a Lei da Liberdade Religiosa concordam todas nos seguintes princípios:

– A assistência religiosa nos hospitais deve ser solicitada pelo paciente;
– O Estado não é obrigado a pagar a assistência religiosa;

Aparentemente, o Governo dispõe-se a respeitar o primeiro princípio e (como é hábito) esquecer que o segundo existe. E isto é uma polémica?

Para os bispos, dá jeito que seja: o primeiro a declarar uma “polémica” ocupa território. Alegremente vão atrás os jornalistas: nasce a “polémica das capelanias”. Se há polémica certificada, o público convence-se que no meio está a virtude. Logo, quanto mais agravada se mostra uma parte, mais puxa a bissectriz para o seu lado. E já agora por que não chamar-lhe antes uma guerra? Seguem-se manifestos como o de Graça Franco no Público de sexta-feira, acusando os “jacobinos” de perseguir a Igreja e contando as espingardas dos votos católicos: “Querem reintroduzir a questão religiosa em Portugal? Esperem por 2009!”. Se o Primeiro-ministro declara em frente a uma plateia de bispos que “o diálogo é positivo”, a Igreja clama vitória: o Governo recuou.

No espaço de poucos dias, os bispos declararam a guerra, lançaram os morteiros e proclamaram vitória. Com um pormenor: ninguém sabia do que estavam eles a falar.

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Recapitulemos esta história mal contada. Há um diploma do Ministério da Saúde sobre assistência religiosa nos hospitais. Até há quatro dias, a imprensa não o tinha visto. Só a Conferência Episcopal Portuguesa lhe tivera acesso há meses e (como é habito) em exclusivo. Anunciou o seu escândalo por estas razões principais: não haveria assistência fora do horário das visitas; o governo pretendia despedir os capelães que são funcionários públicos; os amigos e familiares não poderiam pedir assistência depois da entrada do doente. Só há um problema: estas medidas não estão no diploma. Nenhuma delas.

Pelo contrário, o diploma permite a assistência fora das horas das visitas e pedida a qualquer momento por amigos, familiares ou pelo próprio. Os empregos na função pública estão garantidos até à reforma. O estado vai continuar a pagar a assistência religiosa. Quem não tem religião não tem direitos (em contrapartida, exigirei um professor de filosofia ou um lanche reforçado pelos meus impostos). E agora que nós mortais começamos a ter acesso a toda esta timidez em forma de texto, só há duas explicações para a “polémica”: ou os bispos não souberam ler o diploma, ou induziram o público em erro sobre o seu conteúdo.

Por isso, ao invés de ameaçar com a retaliação do voto católico, mais vale fazerem um esforço para evitar as distorções sensacionalistas, guerras anunciadas e vitórias precoces. A “polémica” teve o efeito involuntário de chamar a atenção para isto: mais de cem capelães são pagos nos hospitais com o dinheiro de todos os contribuintes e com acesso irrestrito a todos os doentes, católicos ou não. Para mais, escandalizam-se ao descobrir que a Constituição não lhes dá o privilégio de tratar todo o cidadão como católico à partida.

Agora que já fizeram a festa e lançaram os foguetes, eu teria algum cuidado: as canas ainda não caíram todas.

Um assunto triste

[Público 04 outubro 2007]

Os jornalistas que têm investigado os neonazis portugueses são claros: as suas acções parecem estender-se ao tráfico de armas e drogas e crimes de extorsão, além de espancamentos e ataques racistas.

Na semana passada dois neonazis entraram no cemitério judaico de Lisboa, que vandalizaram. Foram apanhados em flagrante, um deles enquanto defecava num túmulo, quando chegou a polícia alertada por um transeunte que ouvira barulho no cemitério.

Um dos neonazis era mais velho e faz parte do chamado processo dos skinheads. Segundo o Correio da Manhã, guardava no telemóvel fotografias de membros da comunidade judaica em Portugal. O mais jovem, de 16 anos de idade, estava ali para passar num ritual de iniciação.

O eco deste caso repugnante foi reduzido. Mas os jornalistas que têm investigado os neonazis portugueses são claros: as suas acções parecem estender-se ao tráfico de armas e drogas e crimes de extorsão, além de espancamentos e ataques racistas. Alguns destes jornalistas foram ameaçados, viram as suas fotos distribuídas nos fóruns neonazis na internet, ou intimidados por skinheads à porta de casa. O colunista Daniel Oliveira, do Expresso, foi ameaçado de morte em plena rua. O humorista Ricardo Araújo Pereira viu publicitada a morada do colégio da sua filha. E segundo a imprensa, no processo constam diversas agressões – inclusive com arma de fogo – consumadas principalmente contra negros, mas também indianos, imigrantes e estrangeiros.

Como é sabido, vários dos acusados pertencem ao Partido Nacional Renovador.

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Já escrevi aqui sobre como seria importante que a direita portuguesa tivesse um discurso contra o racismo. À altura, só Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de falar do assunto e fazê-lo “enquanto homem de direita”. É uma questão moral e também uma questão de eficácia: há todo um auditório a que o discurso da esquerda não chega ou não convence. Por outro lado, é à direita que os racistas pretendem ir buscar votos. Paulo Portas, que n’O Independente minimizara a importância do racismo organizado, veio admitir após as recentes eleições a Lisboa que perdeu votos para o PNR.

No outro extremo, Pacheco Pereira continua a ofuscar a gravidade do assunto. Quando Mário Machado – um dos assassinos do português e mulato Alcino Monteiro – veio mostrar as suas armas para a TV, Pacheco Pereira escreveu na Sábado um texto em que o “nazismo nacional” era um mero “espantalho” para a esquerda e chamou a Mário Machado “o preso político que a democracia é suposta não ter”. E agora, quando se sabe que este racista é acusado também de extorsão, sequestro e posse de armas ilegais, voltou a escrever no seu blogue que a prisão de Mário Machado “aponta para razões puramente políticas” e qualificou-a de “inadmissível” por considerar que “incitar ao ódio racial” em países “genuinamente liberais não é crime nem sequer delito de opinião”. Pacheco Pereira não se referiu à vandalização do cemitério, o que contrasta fortemente com as dezenas de textos e exigências de condenação após a estúpida acção de alguns ecologistas num milheiral algarvio, este Verão – que também motivou a Pacheco Pereira comparações com as acções dos racistas e dos terroristas, demonstrando que por razões de combate político está disposto a confundir ataques à propriedade com ataques a pessoas, numa inversão moral a vários títulos chocante.

Para terminar com uma nota positiva, registo que o CDS/PP tomou posição pública em relação à vandalização do cemitério, escrevendo uma mensagem de solidariedade à Comunidade Israellita de Lisboa. É uma atitude digna, bem-vinda, e esperemos que tenha seguidores.

Chorai, elites

[Público 02 outubro 2007]

Estes legítimos representantes da respeitabilidade cavaquista continuam a achar que o PSD tem de ter lugar cativo na sociedade portuguesa, apenas porque sim.

Em geral, as elites portuguesas não se distinguem por nada que tenham feito. Não têm o hábito de se elevar e, em consequência, resta-lhes empurrar o povo para baixo quando ele se chega muito perto.

Vejamos, a título de exemplo, as célebres elites do PSD.

Joaquim Ferreira do Amaral é elite do PSD. Antigo Ministro das Obras Públicas, candidato a Presidente da Câmara de Lisboa, candidato à Presidência da República. Foi ele que negociou com a Lusoponte um ruinoso acordo para as travessias do Tejo que teve de ser defendido, nos anos finais do cavaquismo, à força de cargas policiais. Hoje Ferreira do Amaral é o presidente da Lusoponte.

Rui Rio é elite do PSD. O corajoso Rui Rio, o implacável Rui Rio, desejava chegar a líder do PSD. Sabia que teria o partido na mão, se avançasse. Mas decidiu reservar-se para uma ocasião mais propícia e em que desse menos trabalho chegar a Primeiro-ministro. Azar para ele.

Durão Barroso é elite do PSD. Enquanto líder da oposição não tinha disponibilidade para saber se uma empresa como a Somague pagava dividas de milhares de contos ao seu partido. Como primeiro-ministro, pediu sacrifícios aos portugueses e deixou o país nas mãos de Pedro Santana Lopes.

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Existe a tentação de comentar a relevância da vitória de Luís Filipe Menezes. Mas qual? A relevância ainda não está lá. Há quem diga que Menezes não chega às eleições, há quem diga que ele não as ganha e há quem diga que ainda bem. Para já o que há a comentar não é a relevância da sua vitória mas a relevância da derrota dos seus adversários. Uma implica a outra, mas não são a mesma coisa.

Diz-se que as elites do PSD perderam por falta de comparência ou por acharem que tinham o partido na mão. Ambas as explicações significam isto: as elites do PSD, no fundo, não são tão elites quanto isso. Na tradição nacional, sempre esperaram que o seu lugar lhes fosse guardado e cedido: no conselho de administração como no conselho de ministros. Nos intervalos do poder, escolhiam um caseiro para tomar conta do partido.

Da mesma forma, estes legítimos representantes da respeitabilidade cavaquista continuam a achar que o PSD tem de ter lugar cativo na sociedade portuguesa, apenas porque sim. Sempre desprezaram a ideologia a favor de um suposto monopólio do “saber governar”. Fizeram o elogio dos self-made men para depois os acusar de populismo. Fugiram das causas sociais e avisaram o seu povo para se manter afastado do “politicamente correcto”. Repetiram durante anos que a iniciativa pública é incompetente e a iniciativa privada virtuosa. Lembraram que se fizermos tudo para beneficiar os investidores e os empresários, o dinamismo do mercado se encarregará de todos. Riram das graçolas de Alberto João Jardim e apresentaram-no como bom exemplo. Aliaram-se a Paulo Portas para governar o país. Chegaram a eleger Santana Lopes, não em directas, mas num Conselho Nacional. E agora choram: mas este foi o partido que eles fizeram.