[Público 26 setembro 2007]
As pessoas que se julgam importantes falam com mais à-vontade de guerras e mortos do que de corpos e sexo.
1. Uma única vez na vida conheci uma pessoa oriunda da Birmânia. Antes de ter fugido do seu país, tinha sido uma professora de inglês numa faculdade de engenharia de Rangun, a antiga capital. Após a repressão às manifestações pró-democráticas de 1988, em que a sua faculdade participou na linha da frente, regressara à sala de aula para a encontrar vazia. Os alunos que não tinham sido assassinados estavam quase todos presos ou desaparecidos.
Pouco se conhece da Birmânia actual. Os militares que governam o país mudaram-lhe o nome oficial para Myanmar, segundo a minha interlocutora por razões de superstição. Isto não é impossível: também recentemente a junta militar mudou a capital de lugar numa data considerada astrologicamente auspiciosa. Mas politicamente é também conveniente, como agora, estar longe dos grandes centros populacionais e da possibilidade de uma revolta.
Os birmaneses revoltaram-se nos últimos dias. As manifestações podem ser de dez mil pessoas, mas há quem fale em cem mil ou até três vezes mais do que isso. Os birmaneses estão sozinhos. Não aparecem na televisão nem pesam nas estratégias internacionais. Correm todos os riscos. Podem conquistar a democracia ou ser massacrados. A nós cabe-nos, pelo menos, não os esquecer. E aos nossos líderes cabe dar tudo por tudo, nestes dias, para que 1988 não se repita.
2. O Sr. Ahmadinejad foi a Nova Iorque e a possibilidade de que aceitasse o convite para falar na Universidade de Columbia causou escândalo entre políticos e opinadores. Na FoxNews, canal populista de direita, vi-os apoplécticos. Uma comentadora defendia que ele não deveria sequer poder ir à Assembleia Geral das Nações Unidas e, já que estamos nisto, as próprias Nações Unidas deveriam sair do território dos EUA. Uma visita do “homenzinho esquisito” ao lugar do atentado de 11 de Setembro, que acabou desmarcada, era nada menos que um insulto. E o convite da Universidade era a prova de que a esquerda em geral e os intelectuais em particular não passavam de traidores apostados em branquear o regime iraniano. No seu conjunto, estas reacções sugeriam uma desconfiança injustificada em relação ao discernimento do público.
Ontem foi o dia. Ao invés de branquear o regime, o reitor da Universidade criticou ferozmente a falta de liberdade no Irão e lembrou o nome de presos políticos. Ahmadinejad teve de responder a todas as perguntas directas sobre Israel, o Holocausto, as armas nucleares. Aguentou-se relativamente bem perante uma plateia difícil, até ao momento em que lhe perguntaram sobre a perseguição aos homossexuais. Empertigado, respondeu: “não há homossexuais no Irão, não temos esse problema, não sei quem lhe disse isso”. A plateia explodiu numa gargalhada e o homem viu-se ridicularizado.
Foi mais uma demonstração de algo que intrigava Montaigne, num dos seus ensaios: como as pessoas que se julgam importantes falam com mais à-vontade de guerras e mortos do que de corpos e sexo, que é coisa que toda a gente tem ou faz.
3. Um post-scriptum: numa crónica da semana passada quis citar o número de lisboetas tidos por judeus que, segundo Garcia de Resende, foram assassinados na Matança de 1506. Garcia de Resende – contemporâneo dos acontecimentos – refere-se a “mais de quatro mil” vítimas e não seis mil, como por lapso escrevi. Aos leitores, peço desculpas.





