Arquivo mensal para September, 2007

Da Birmânia ao Irão

[Público 26 setembro 2007]

As pessoas que se julgam importantes falam com mais à-vontade de guerras e mortos do que de corpos e sexo.

1. Uma única vez na vida conheci uma pessoa oriunda da Birmânia. Antes de ter fugido do seu país, tinha sido uma professora de inglês numa faculdade de engenharia de Rangun, a antiga capital. Após a repressão às manifestações pró-democráticas de 1988, em que a sua faculdade participou na linha da frente, regressara à sala de aula para a encontrar vazia. Os alunos que não tinham sido assassinados estavam quase todos presos ou desaparecidos.

Pouco se conhece da Birmânia actual. Os militares que governam o país mudaram-lhe o nome oficial para Myanmar, segundo a minha interlocutora por razões de superstição. Isto não é impossível: também recentemente a junta militar mudou a capital de lugar numa data considerada astrologicamente auspiciosa. Mas politicamente é também conveniente, como agora, estar longe dos grandes centros populacionais e da possibilidade de uma revolta.

Os birmaneses revoltaram-se nos últimos dias. As manifestações podem ser de dez mil pessoas, mas há quem fale em cem mil ou até três vezes mais do que isso. Os birmaneses estão sozinhos. Não aparecem na televisão nem pesam nas estratégias internacionais. Correm todos os riscos. Podem conquistar a democracia ou ser massacrados. A nós cabe-nos, pelo menos, não os esquecer. E aos nossos líderes cabe dar tudo por tudo, nestes dias, para que 1988 não se repita.

2. O Sr. Ahmadinejad foi a Nova Iorque e a possibilidade de que aceitasse o convite para falar na Universidade de Columbia causou escândalo entre políticos e opinadores. Na FoxNews, canal populista de direita, vi-os apoplécticos. Uma comentadora defendia que ele não deveria sequer poder ir à Assembleia Geral das Nações Unidas e, já que estamos nisto, as próprias Nações Unidas deveriam sair do território dos EUA. Uma visita do “homenzinho esquisito” ao lugar do atentado de 11 de Setembro, que acabou desmarcada, era nada menos que um insulto. E o convite da Universidade era a prova de que a esquerda em geral e os intelectuais em particular não passavam de traidores apostados em branquear o regime iraniano. No seu conjunto, estas reacções sugeriam uma desconfiança injustificada em relação ao discernimento do público.

Ontem foi o dia. Ao invés de branquear o regime, o reitor da Universidade criticou ferozmente a falta de liberdade no Irão e lembrou o nome de presos políticos. Ahmadinejad teve de responder a todas as perguntas directas sobre Israel, o Holocausto, as armas nucleares. Aguentou-se relativamente bem perante uma plateia difícil, até ao momento em que lhe perguntaram sobre a perseguição aos homossexuais. Empertigado, respondeu: “não há homossexuais no Irão, não temos esse problema, não sei quem lhe disse isso”. A plateia explodiu numa gargalhada e o homem viu-se ridicularizado.

Foi mais uma demonstração de algo que intrigava Montaigne, num dos seus ensaios: como as pessoas que se julgam importantes falam com mais à-vontade de guerras e mortos do que de corpos e sexo, que é coisa que toda a gente tem ou faz.

3. Um post-scriptum: numa crónica da semana passada quis citar o número de lisboetas tidos por judeus que, segundo Garcia de Resende, foram assassinados na Matança de 1506. Garcia de Resende – contemporâneo dos acontecimentos – refere-se a “mais de quatro mil” vítimas e não seis mil, como por lapso escrevi. Aos leitores, peço desculpas.

Europeus por mérito

[Público 24 setembro 2007]

Um imigrante que completasse uma licenciatura, mestrado ou doutoramento no país de acolhimento deveria ter direito à concessão de nacionalidade.

Metade dos imigrantes que chegam aos EUA e ao Canadá são licenciados. Entre os que chegam à Europa, apenas treze por cento o são. Alarmados com esta estatística, alguns eurocratas reuniram em Lisboa para anunciar que começariam a pensar numa alternativa europeia ao “cartão verde” de residência permanente nos EUA, que possivelmente explica parte do sucesso norte-americano.

Infelizmente, o que saiu da Conferência de Alto Nível foi muito pouco, muito tarde e muito vago. O mediático “cartão azul” que foi pré-anunciado, e está longe de ser decidido, não é o “green card” dos norte-americanos. O próprio comissário europeu Franco Frattini disse apenas que sugeriria “a possibilidade de conceder liberdade de movimentos dentro da UE” aos imigrantes qualificados. E mesmo essa tímida “sugestão” de “possibilidade” seguiria um método rocambolesco: só depois de trabalhar dois anos num estado-membro o imigrante poderia mudar-se para outro estado-membro, e apenas um ano depois disso poderia mudar-se outra vez.

Comparar isto com o sistema norte-americano não é legítimo. Nem sequer sério, dada a diferença de escalas. Imaginemos que um engenheiro chega a Nova Iorque com o “green card”: se não encontrar um emprego, pode estar em Boston no dia seguinte, e passado duas semanas atravessar o país para trabalhar em Sillicon Valley. Tem um espaço de trezentos milhões de pessoas à sua espera. De acordo com as acanhadas sugestões de Frattini, que os líderes europeus provavelmente acharão demasiado ambiciosas, o mesmo engenheiro chegado a Londres não pode mudar-se para Helsínquia antes de dois anos; só um ano depois disso poderia ser contratado para trabalhar no Porto, e mesmo assim sem estar dispensado de passar os meses seguintes visitando as filas do SEF – cada país continuaria a conceder o seu título de residência à parte. Dada a compartimentação do espaço europeu, é assim que tencionamos competir com os norte-americanos?

***

A presidência portuguesa merece pontos por ter convencido alguns dirigentes europeus a tirarem um tempinho para defenderem a necessidade e a bondade da imigração, mesmo que poucos líderes nacionais tenham coragem para fazer o mesmo diante dos seus eleitorados. Mas eu temo que estejamos diante daquele pouco que não chega a ter condições para ser melhor do que nada.

Somemos a isto dois problemas reais. Em primeiro lugar, pensar exclusivamente nos imigrantes altamente qualificados é uma ilusão. Os imigrantes qualificados não existem no vácuo e preferem ir para onde os seus compatriotas estão bem integrados, como é o caso dos EUA e Canadá. Duvido que um gestor chinês achasse grande piada à conversa recente sobre impedir os chineses de deter lojas na Baixa lisboeta – “quer dizer que se eu trabalhar e tiver sucesso nunca serei igual aos outros investidores?”. Em segundo lugar, há o problema moral de se roubar a África os médicos que são necessários por lá – um problema que não detém os nossos concorrentes mas que não deixa de ser menos grave por isso.

O que fazer? Uma possibilidade é formá-los por cá. Um imigrante que completasse uma licenciatura, mestrado ou doutoramento no país de acolhimento deveria ter direito à concessão de nacionalidade. Claro que formar um estudante sai caro. Uma vez que o imigrante não participou antes no esforço fiscal que isso representa, é legítimo pedir-lhe que cubra uma aproximação do custo real de ensino – embora o possa pagar depois de obter o título. Todos terão a ganhar, mesmo o país de origem.

Se a UE tiver dúvidas, como certamente terá, que nos impede de começar por Portugal? O imigrante terá um estímulo adicional para se qualificar, e o país sentirá que o imigrante se esforçou para ser português.

Mendes & Menezes

[Público 20 setembro 2007]

Perfilham portanto dessa curiosa doutrina, muito em voga entre a direita europeia após a eleição de Sarkozy, segundo a qual a economia do país é um reflexo dos estados de alma dos “líderes”.

Antes que chegue o fim-de-semana com a habitual crónica de Vasco Pulido Valente declarando que nenhum dos candidatos a líder do PSD tem “uma ideia para o país”, vou antecipar-me: vi pela televisão o debate entre Marques Mendes e Luís Filipe Menezes e comentar aquilo é mais insípido do que narrar o relevo dos Países Baixos. Não há ali nada que se destaque, por muito que desejemos ver ao menos uma colina. E decerto ninguém se entristecerá mais com isso do que os simpatizantes do PSD, a quem estas breves reflexões vão dedicadas.

Não é que Marques Mendes e Luís Filipe Menezes sejam idênticos. Mendes é mais previsível e Menezes mais irrequieto. Ambos têm ínfimas possibilidades de ganhar eleições legislativas, e a Menezes soma-se o estigma de ser um novo Santana Lopes. Eles não são iguais. Contudo, na medida em que só podem esperar que o governo tropece, são igualmente irrelevantes.

O debate foi espelho disso. Nas curtas mas obrigatórias fantasias sobre o país, oscilaram entre o “não me resigno” e o “quero a economia a crescer a três por cento”. Perfilham portanto dessa curiosa doutrina segundo a qual a economia do país é um reflexo dos estados de alma dos “líderes”. Muito em voga entre a direita europeia após a eleição de Sarkozy, ela serve sobretudo para baralhar o esgotamento da doutrina ainda dominante, segundo a qual é necessário dar cada vez mais poder às empresas para que o bem estar económico se difunda, por capilaridade, à sociedade inteira.

Acusações de populismo são hoje em dia moeda corrente entre políticos, o que tem gradualmente vindo a retirar qualquer significado ao termo. O problema com esta doutrina, chamemos-lhe assim, “carismastico-empresarialista” não é apenas o seu lado demagógico: é a passagem do tempo. Nunca pinga nada para os pobres, e agora nem para a classe média. As pessoas cansaram-se de esperar; estão vencidas sem ser convencidas. Uma parte grande da população ressente-se mais do excesso de poder das empresas do que da acção do estado. A ideia de que as empresas são por definição mais eficientes também tem levado uma grande sova de realidade. A empresarialização das funções municipais cheira a corrupção, e por aí adiante.

Um dos problemas do PSD é ter de vender esta doutrina numa época em que ela é simultaneamente impopular e foi pragmaticamente tomada pelo actual governo do PS. Marques Mendes ainda pouco mais é do que um porta-voz das teses do “Compromisso Portugal”, mas é forçado a contradizer-se para poder fazer oposição dizendo que a sua doutrina não é para valer em certas áreas, ou que não é para aplicar no interior do país, implicitamente admitindo que ela é danosa. Menezes oscila entre promessas de ser mais “social” e ser mais “liberal”, sem ficar claro se a sua instabilidade é genuína ou somente oportunista. Mas os dois tentam uma síntese ideológica de que as pessoas desconfiam. E nenhum deles pensou ainda em nada de melhor para dizer, ou desconfia que tem de o fazer.

Para pensar em coisas novas para tempos novos é preciso, por desagradável que isto pareça, gente que esteja disposta a pensar. E mais do que populista, o PSD sempre teve uma forte tendência anti-intelectual. Os seus intelectuais de origem desinteressaram-se do partido. A outra parte é de ex-esquerdistas cujo contributo muito limitado ao anti-esquerdismo é bastante estéril. O que resta são pragmáticos de carreira do estilo “Compromisso Portugal”. Nenhuma destas estirpes parece ter vontade ou coragem para dizer ao PSD que enquanto não pensar no que tem para dizer, ninguém lhe dará ouvidos.

Salazarinha Nogueira Pinto

[Público 19 setembro 2007]

Maria José Nogueira Pinto tem boa imagem e boa imprensa, o que ajuda a disfarçar o facto de ser a salazarista mais assumida da política portuguesa.

Em primeiro lugar, vamos despachar uma falácia. Maria José Nogueira Pinto anunciou que enquanto comissária não-eleita para a Baixa-Chiado daria prioridade a expulsar as lojas chinesas da Baixa e concentrá-las numa Chinatown. Há gente que minimiza a questão dizendo que “os chineses não se importam”. Não sei em que dados se baseiam. Mas a pergunta aí passa a ser: o facto de uma comunidade se aceitar guetizar torna a guetização desejável? Imaginemos quais seriam as reacções se a comunidade em causa fosse, por exemplo, de muçulmanos. Que tal fazer uma IslamTown em Lisboa? Que diriam as mesmas pessoas que acusam os muçulmanos de não quererem “integrar-se”? Que os chineses podem mas os muçulmanos não?

A questão, acima de tudo, não é se as comunidades “querem” ou “não querem” viver em guetos. A questão é se os lisboetas querem guetos para a sua cidade. Ora, Lisboa já teve uma tradição de guetos. A Mouraria nasceu como gueto a partir de 1147: era o território fora das muralhas para onde os muçulmanos tinham de se dirigir após o pôr-do-Sol. Guetos de judeus foram dois: a “judiaria grande” e a “judiaria pequena”, que serviam para impedir que uma comunidade dinâmica e especializada comprasse boas casas (e boas lojas…) fora das fronteiras permitidas. A coisa acabou muito mal: foi por aquelas ruas que, em 1506, lisboetas cristãos massacraram quatro mil dos seus concidadãos.

***

A leviandade com que Maria José Nogueira Pinto fala destas coisas é só aparente. Levianos são os que tratam o assunto como meras “provocações” da “Zezinha”. Por detrás está uma estratégia política e não é por acaso que ela já voltou a subir a parada. Numa entrevista ao último Expresso, declarou enfaticamente o seu voto em Salazar no concurso dos Grandes Portugueses – “claro!” –, derretendo-se em elogios ao ditador que “sabia mandar”, cumpriu “os objectivos que tinha” e “preservou aquilo que queria preservar”, para rematar afirmando aos jornalistas a sua paixão pela trilogia da ditadura. “Pode pôr: Deus, Pátria, Família”.

Para quem ainda ache que isto é só um acaso, lembre-se que Nogueira Pinto deixou como vereadora da CML um regulamento de bairro municipal a que os imigrantes estavam impedidos de concorrer. Porquê? Porque, como disse então Nogueira Pinto, “isto não é uma fruteira onde se possam meter bananas, maçãs e laranjas e dizer que está tudo bem“.

Maria José Nogueira Pinto tem boa imagem e boa imprensa, o que ajuda a disfarçar o facto de ser a salazarista mais assumida da política portuguesa. O problema é querer levar a imitação do seu ídolo ao ponto de querer mandar sem ter levado as suas ideias a votos.

Não há ingenuidade nem inexperiência política nestas declarações, mas uma questão muito séria de poder. A este jogo chama-se “esticar a corda” e o resultado é saber, como diria Salazar, “quem manda”. Maria José Nogueira Pinto quer a Baixa-Chiado para ela e, para começar, marca já as suas fronteiras forçando os limites da indecisão de António Costa. Se ele voltar atrás na decisão de a nomear, Nogueira Pinto fará o papel de vítima a que está acostumada: só no último ano já o desempenhou por três vezes. Se for nomeada, tem António Costa na mão e já deixou claro que ninguém lhe põe limites. Se for nomeada e não apresentar resultados, o que também vem sendo hábito, pode voltar ao seu desempenho na última vereação: arranjar uma desculpa qualquer e saltar fora.

Já vimos isto antes. É coincidência? Não: é o seu modus operandi. Há método nesta loucura.

[correcção: o número de vítimas da matança de 1506 referido por Garcia de Resende – que sigo neste ponto – é de “mais de quatro mil” e não seis mil, como escrevi inicialmente neste texto]

Às três tabelas

[Público 12 setembro 2007]

Afrontar os chineses é pois muito difícil, se estivermos a falar do governo da República Popular da China. Mas se os chineses em causa forem imigrantes lutando pela vida em Portugal já qualquer político de segunda categoria serve.

1. A partir de 1624 chegaram os primeiros europeus ao Tibete. Só por curiosidade: os nomes deles eram António de Andrade, Francisco de Azevedo, Estevão Cacela e João Cabral e quando escreveram para Portugal contaram que era então vivo o quinto Dalai Lama.

Hoje chega a Portugal o décimo-quarto Dalai Lama, líder no exílio dos tibetanos, Prémio Nobel da Paz. Ao contrário do que acontece por todo o mundo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros já anunciou que o governo português não receberá o Dalai Lama “pelas razões que são conhecidas”. Uma vez que não especificou, presume-se que essas razões sejam o calculismo e a cobardia.

Num país que exigiu ao mundo coragem e respeito pela autodeterminação no caso de Timor Leste, isto é vergonhoso. No íntimo, todos os portugueses sabem disso. Bem vindo, Dalai Lama: mas perdoe-nos por estes ministros.

2. Afrontar os chineses é pois muito difícil, se estivermos a falar do governo da República Popular da China. Mas se os chineses em causa forem imigrantes lutando pela vida em Portugal já qualquer político de segunda categoria serve. Aqui há uns tempos foi Alberto João Jardim a insultar lojistas chineses e indianos. E agora é Maria José Nogueira Pinto, hipotética futura comissária da Câmara Municipal de Lisboa para a Baixa-Chiado, defendendo a expulsão das lojas chinesas da Baixa e a sua deslocação para uma Chinatown no Martim Moniz.

Serve este episódio como refutação para a opinião comum de que, ao nível local, não há diferenças políticas e basta saber “gerir” a cidade. Da última vez que a esquerda teve o poder em Lisboa, João Soares foi abordado para que se fizesse uma Chinatown na capital. A sua resposta foi que a cidade desejada pela esquerda não segregaria comerciantes pela sua nacionalidade e não os empurraria para ghettos.

A bola está agora em António Costa. A fronteira é clara: não foi a visão de Nogueira Pinto que ganhou as eleições há apenas dois meses. De que serve ser presidente em Lisboa para entregar a Baixa-Chiado, do Rossio ao Tejo, a uma czarina que não foi eleita, que está determinada a obedecer apenas a caprichos que não levou a votos, e que já desfez uma maioria na CML por uma discussão sobre nomeação de administradores?

3. Referindo-se ao meu texto de segunda-feira, Helena Matos começa assim: “Mais um parágrafo e Rui Tavares quase teria acabado a concluir que não fosse a administração norte-americana e o pesadelo do terrorismo estaria mais ou menos terminado”.

Tenho uma grande ideia para Helena Matos: da próxima vez que comentar um texto meu porque não partir das coisas que eu efectivamente escrevi em vez de fantasiar sobre as que eu quase poderia eventualmente se calhar ter escrito?

E que, acrescento eu, nunca poderia ter escrito. Pelo contrário, foi Bush e os neoconservadores quem apresentou esta “Guerra Global” como se o objectivo de extinguir o terrorismo fosse realizável e sustentou que a invasão do Iraque era a peça essencial da estratégia para o conseguir. O resultado foi o aumento do terrorismo no mundo, como documentavam os estudos aos quais – isso sim – eu tinha dedicado a minha coluna.

Helena Matos alega agora que a Guerra do Iraque não teve como questão essencial as armas que Saddam (por assim dizer) quase poderia talvez ter tido, nem sequer o combate ao terrorismo, mas sim fazer do Iraque qualquer coisa como a Coreia – suponho que do Sul – ou o Japão. Seis anos de predomínio neoconservador deram nisto: um mundo mais perigoso, politicamente mais maniqueísta, moralmente mais desonesto e intelectualmente mais pobre. É um triste legado.

No pesadelo do Barba-Negra

[Público 10 setembro 2007]

Os talibã no Afeganistão, como o GIA na Argélia e os salafistas em geral fracassaram em toda a linha no campo político. A única coisa que têm para oferecer ao mundo muçulmano é o martírio.

Ao sexto aniversário do 11 de Setembro, Bin Laden gravou em vídeo uma mensagem para o povo americano. Em tradução para o inglês o seu discurso enche sete páginas, é fácil de encontrar na internet, e tem um pouco de tudo: desde opiniões sobre o sistema eleitoral americano, passagens sobre o aquecimento global e o poder das multinacionais, referências elogiosas ao cristianismo e o argumento – aparentemente decisivo – de que segundo a lei islâmica é proibido cobrar impostos. Ao lê-lo, fica-se com a impressão de que Bin Laden tem a esperteza típica dos fanáticos: usa de todos os argumentos, dos mais ponderosos aos mais absurdos, para nos tentar converter às suas fantasias.

Em resposta, o mundo encolheu os ombros e notou que ele tinha tingido a barba de negro. Bin Laden pensa que vive na sua juventude e continua a sonhar com os tempos em que foi lutar para o Afeganistão e os mujahidin derrotaram uma superpotência no Médio Oriente. Aparentemente, acredita que a receita que serviu para o colapso da URSS se poderá aplicar aos EUA. No entanto, a vitória dos taliban no Afeganistão conduziu a um estado inviável e miserável mesmo para os padrões do Médio Oriente. Bin Laden acha que a política é impura e a política responde-lhe com a realidade. Os talibã no Afeganistão, como o GIA na Argélia e os salafistas em geral fracassaram em toda a linha no campo político. A única coisa que têm para oferecer ao mundo muçulmano é o martírio.

Por outro lado, Bin Laden ameaçou escalar a violência no Iraque. Curiosamente, tanto Bin Laden como Bush exageram a influência da Al Qaeda naquele país. Segundo dados de diversas fontes citadas pela Washington Monthly (incluindo fontes do exército dos EUA) os ataques da Al Qaeda no Iraque não representam mais do que cinco por cento dos ataques totais em solo iraquiano. Mesmo os ataques reivindicados pela própria Al Qaeda não passam de dez por cento dos ataques a xíitas e seis por cento dos ataques a tropas americanas. Bin Laden reclama os louros mas é um dos actores com menos importância no Iraque; as milícias xíitas, as tribos sunitas, o exército curdo e os ex-partidários de Saddam ocupam o centro do palco.

No entanto, Bin Laden e a Al Qaeda ainda são perigosos. E são muito mais perigosos do que aquilo que alguma vez precisariam de ter sido. As guerras no Iraque e no Afeganistão foram a resposta às suas preces. Segundo um outro estudo, do Center for American Progress, os ataques terroristas no mundo diminuíram entre o 11 de Setembro e a Guerra do Iraque, quando a invasão do Afeganistão destruiu os campos da Al Qaeda. Mas após a Guerra do Iraque o mundo ficou mais perigoso. Mesmo excluindo atentados no próprio Iraque e no Afeganistão, os ataques terroristas ocorridos anualmente no resto do mundo tiveram um aumento de 35 por cento, nos quais se incluem os atentados de Londres e Madrid (se contarmos com Iraque e Afeganistão, o aumento é de uns aterradores seiscentos por cento).

Seis anos depois do 11 de Setembro, os recentes sucessos das polícias europeias no desmantelamento de células terroristas deixam-nos pensar como poderíamos estar mais seguros se a resposta ao terrorismo fosse essencialmente policial, como foi tantas vezes defendido em todo o mundo. Graças à irresponsabilidade de Bush e dos seus apoiantes na Guerra do Iraque estamos ainda presos neste pesadelo.

Como obter ideias

[da coluna “Svengali”, na Blitz de Agosto 2007]

Tal como nas bebidas alcoólicas, há duas maneiras de obter ideias: por fermentação ou por destilação. As ideias obtêm-se por fermentação quando se acumulam histórias antigas e novas, recortes de jornal, memórias agradáveis ou desagradáveis, afectos em decomposição, livros, coisas meio esquecidas, coisas meio lembradas. Junta-se tudo e aguarda-se que se levante uma espuma roxa a que se chama mosto. É adocicada e agradável mas ainda não ganhou grau, o que quando acontecer nos dará vinho. Em termos muito genéricos, a fermentação é o resultado de juntar a abundância das coisas com o passar do tempo.

O processo de destilação é inteiramente distinto. Tem como objectivo separar e purificar os elementos que constituem as coisas. A matéria prima é colocada no alambique; por debaixo dela acende-se o fogo; uma parte evapora-se e sobe para uma câmara vazia, de onde por sua vez desce através de uma retorta ou serpentina arrefecida, condensando-se pelo caminho. O resultado é muito puro e concentrado. Também se obtêm perfumes através de destilação; mas não se podem beber. Uma gota apenas basta para preencher um ambiente.

As ideias que se obtiveram por fermentação ou destilação são diferentes na sua essência. As bebidas destiladas chamam-se muitas vezes espirituosas, porque é como se elas fossem a alma da substância. Ao contrário, as ideias fermentadas não são puras, mas compostos, ou misturas, de diversas coisas. Ambas são inebriantes, como é da natureza das ideias.

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Para o pensamento em fermentação, tudo serve para obter ideias: os disparates podem transformar-se em arte, o mau gosto interessante, um concurso televisivo repugnante numa janela para a alma humana. O estrume é fertilizante. O pensamento em destilação, pelo contrário, precisa de concentração e silêncio; não escreve com a música ligada, não quer papéis em cima da mesa, exige limpeza e procura linhas rectas. O pensamento em fermentação aumenta. O pensamento em destilação reduz. Um inventa regras; o outro encontra leis. Para um, a confusão é criativa; para o outro, a confusão é o problema.

Não existe ninguém que pense só por fermentação ou só por destilação. A maior parte das pessoas, ou culturas, ou organizações, oscilam regularmente entre os dois modos. Este texto é produto de destilação; todos os textos que começam por “há duas maneiras de fazer algo” o são. Mas é precedido de fermentação, notória na sua metáfora de base; todas as metáforas são fermentação.

Grupos de pessoas juntam-se para ter ideias. Uma banda pop, um conselho de ministros. Fazem “tempestades cerebrais”, que são fermentação. Ou dedicam-se à “resolução de problemas”, que é essencialmente destilação. É uma dança pendular; às vezes destilámos tudo o que havia para destilar. Viramos as pedras da vinhas ou metemos as mãos entre as almofadas do sofá à procura de uma ideia que tenha ficado esquecida. Não resta nada; secámos os miolos até ao bagaço. Está na hora de deixar o terreno em pousio, ou voltar a atirar um monte de coisas lá para dentro.

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Há épocas que foram mais de fermentação ou destilação. O politeísmo é fermentação. Muitos deuses para todas as coisas, e mais deuses para serem os pais desses deuses, e semi-deuses para se colocarem entre os deuses e os homens, e mais ninfas e musas e sátiros para distribuir pela paisagem. O monoteísmo é destilação; apenas um Deus para tudo o que existe. O instrumento da destilação, al-ambiq, vem do mundo do Islão antigo, talvez a religião mais abstracta do seu tempo.

Há teorias alternativas para a origem das ideias. Os profetas diziam obtê-las por “revelação”. Para Moisés, os Dez Mandamentos apareceram-lhe não por qualquer processo mental seu, mas porque lhe foram dados. Naturalmente isto é uma espécie de destilação forçada: “eu sou o Senhor teu Deus” e “não terás outros deuses além de Mim”. Resolve-se a abundância do universo e as complicações da vida em sociedade em duas penadas.

Os poetas românticos pretendiam obter as suas ideias por “inspiração”, que na origem é semelhante à revelação (“in” significa para dentro e “spiritus” o sopro divino) mas na prática é uma coisa diferente. O poeta vai para o campo ou para o meio das ruinas, observa uma guerra ou uma tempestade e as ideias “nascem”. À medida que viajamos no tempo, e da religião para a arte, a inspiração aproxima-se cada vez mais da fermentação.

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Entre uma coisa e outra, o século XVIII terá sido a época ideal para o pensamento em destilação. Foi nesse século, aliás, que se insistiu que o progresso das artes e das ciências consiste em purificar as ideias através do uso da razão. E, mesmo mais tarde, foi nas ciências naturais que as ideias destiladas resultaram melhor: a evolução é uma ideia simples da qual nascem permanentemente coisas. Mas a evolução também nos ensina a valorizar a fermentação, aquele caldo de genes de onde sai a vida.

Encontramos fermentação e destilação na filosofia, na política, e também nas artes. O dadaísmo é fermentação, o surrealismo também; o minimalismo é destilação (“menos é mais!”).

O marxismo era destilação: “toda a história é a história da luta de classes”. O neo-liberalismo, seu grande rival, também: “as leis do mercado isto, as leis do mercado aquilo, as leis do mercado aqueloutro”. Ambos demonstraram já a sua incompetência com as pessoas reais. Quando isso acontece, exasperam-se com a realidade, por ser tão intratável. Outros reagem através da religião. Outros pelo moralismo. Outros pelo saudosismo. Há uma geração, a televisão destilava quotidianamente a realidade; hoje, a internet é um enorme caldeirão em fermentação permanente.

Mas a exasperação, na verdade, é fútil. Reconheçamos que de cada vez que tentamos fazer sentido da nossa época, somos forçados a acrescentar mais umas camadas de palavras às camadas anteriores. E criamos um pouco mais de confusão.

A nossa época é de fermentação. Aproveitem enquanto dura.

Por falar em Durão Barroso…

[Público 07 setembro 2007]

Liderar significa, em última análise, passar a batata quente para o fulano que teve um AVC.

…era o Verão de 2001 e o PSD preparava a sua rentrée. A preocupação central de Durão Barroso era não se sair muito mal nas autárquicas que teriam lugar no fim desse ano para conseguir segurar a liderança do partido. Não lhe passaria pela cabeça que no Verão seguinte já seria ele o primeiro-ministro. Muito menos que chegaria a Presidente da Comissão Europeia dois Verões depois desse.

Para ir fazendo política, Durão Barroso tinha para apresentar um novo slogan e um logotipo. O slogan rezava “PSD 100% Consigo” e o logotipo era uma espécie de laranja estilizada. Mas estas coisas não saem baratas. Segundo o último Expresso foi por este slogan e este logotipo que uma empresa chamada Novodesign, de Lisboa, cobrou ao PSD um pouco mais de 233 mil euros. Escrevo 233 mil euros e não 46 mil contos porque, embora o novo slogan e logotipo tenham sido apresentados no tempo em que ainda usávamos notas e moedas de escudos, a factura só foi paga em Março de 2002, após a introdução das notas e moedas de euro. Entre uma coisa e outra, a política nacional tinha mudado: o PSD ganhara as câmaras municipais mais importantes do país, o governo PS caíra, novas eleições legislativas estavam à porta. Ora, poucos dias antes destas eleições, as sondagens já davam como certo que Durão Barroso seria o primeiro-ministro seguinte. E foi nesse momento que a Somague, uma empresa de construção, se convenceu de que seria boa ideia pagar à Novodesign uma conta de 233, 415 €.

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Como sabemos que a conta que a Somague pagou era, na verdade, do PSD? Graças à mão de alguém da Novodesign que escreveu “por serviços prestados ao PPD/PSD” nas facturas correspondentes, na ignorância de que tal pagamento fosse ilegal. Quando se cobra uma fortuna para pensar em slogans manhosos é inevitável, suponho eu, que nos tornemos um pouco desleixados. Mas se não tivesse havido essa imprevidência, hoje os portugueses não saberiam que aquele “100% Consigo” foi pago a cem por cento por uma empresa.

Durão Barroso, que era o presidente do partido, diz que o assunto é cem por cento nada com ele: quem tratava das coisas era o secretário-geral. José Luís Arnaut, que era o secretário-geral, contradiz Durão Barroso: quem tratava das coisas era o secretário-geral adjunto, que está impossibilitado de falar por ter sofrido um acidente vascular cerebral.

Nós acreditamos nisto porque Durão Barroso é um líder. Ora, como sabemos, liderar significa exibir novos logotipos e slogans sem querer saber de onde vem o dinheiro que paga essas coisas. Liderar significa achar normal que o partido pudesse receber presentes de duzentos mil euros sem que o seu presidente fosse informado de tal caridade. Liderar significa, em última análise, passar a batata quente para o fulano que teve um AVC. Não há duvida: são grandes homens.

Não, o inglês não basta

[Público 05 setembro 2007]

Todo aquele que quiser atender um telefone vai ter que saber inglês. Mas o director do escritório da empresa em Xangai vai ter que saber mandarim.

O Público de ontem trazia um artigo sobre como menos de um por cento dos alunos do segundo ciclo escolhe o francês como língua estrangeira de aprendizagem. Mas o que me preocupa aqui não é tanto a questão do francês, que aliás continua a dominar no terceiro ciclo.

Preocupa-me a mentalidade instalada entre alunos, pais, professores e governantes de que “o inglês basta”. E como não? O planeta inteiro está a aprender inglês. Como tal, daqui a uma geração precisaremos de apenas duas línguas: a nossa e o inglês, para comunicar com os estrangeiros.

Esta é uma ideia de que nos arrependeremos. Como é evidente, o inglês é essencial: é primeira língua de muita gente, vai ser a segunda língua de quase todos, e é a língua da internet. Sou muitíssimo a favor de que o inglês seja ensinado na escola o mais cedo possível.

Mas a generalização do inglês esconde um efeito previsível. Daqui a uma geração, saber inglês vai ser o domínio do trabalhador não especializado. Todo aquele que quiser atender um telefone vai ter que saber inglês. Mas o director do escritório da empresa em Xangai vai ter que saber mandarim.

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Quem já se apercebeu disso, curiosamente, são os ingleses. Dadas as suas ligações financeiras globais, as aulas de mandarim são a crista da voga em Londres. Mas mesmo o mandarim é capaz de não chegar. O Sul da China, uma das regiões mais dinâmicas do mundo, fala cantonês. São setenta milhões de pessoas e Portugal teve melhor do que uma embaixada ou uma universidade nesta zona, durante quinhentos anos: chama-se Macau. Quantos portugueses aprenderam cantonês? Poucos, certamente. E porque não estão a dar aulas aos outros?

Para muitas línguas asiáticas faladas por milhões de indivíduos, desde o vietnamita ao persa, os primeiros dicionários ocidentais foram em português. Hoje não aproveitamos nada dessa tradição. Como não aproveitamos o facto de recentemente muitos russófonos terem imigrado para Portugal. Como não aproveitamos o facto de Marrocos estar aqui ao lado. Como não aproveitamos o facto de, com um ano de aulas de espanhol, a maioria dos portugueses atingir uma competência superior à dos muitos estrangeiros hispanistas.

No estrangeiro, os portugueses eram quase únicos entre os europeus ocidentais, na medida em que arranhavam espanhol com os espanhóis e hispano-americanos, francês com os francófonos, diziam duas palavritas em italiano para amenizar o ambiente, falavam com brasileiros na sua própria língua e em inglês com os restantes. Mas os nossos talentos poliglotas já então empalideciam quando comparados com os de alguns colegas eslavos. E hoje receio que estejam a perder-se.

O estudo das línguas, incluindo as mortas e as artificiais, não é só uma questão comercial: traz vantagens para a memorização, a interpretação e o raciocínio, o pensamento criativo, a capacidade de expressão e as relações interculturais. É tempo de juntarmos a preocupação com as áreas de ensino em que somos fracos (como a matemática) à das áreas em que tradicionalmente éramos fortes ou para que temos vantagens culturais. O estado pode ajudar dando liberdade às escolas para contratarem professores fora das línguas habituais. E o governo deve antecipar o currículo para que os alunos possam estudar a segunda língua estrangeira no segundo ciclo, a terceira no terceiro, e no secundário escolher línguas suplementares como disciplinas opcionais.

Perguntem a Durão Barroso. Se soubesse apenas inglês nunca teria chegado a Presidente da Comissão Europeia. Ora, por falar em Durão Barroso…