Arquivo diario para August 28th, 2007

A gosto

[Público 27 agosto 2007]

Uma ideia generosa do papel da imprensa e do seu gosto partilhado em não querer deixar nenhum autor por conhecer, nenhuma exposição por visitar, nenhuma polémica por argumentar, por mais que a empresa seja fútil.

Lá para meados dos anos 90, Portugal perdeu alguns dos seus maiores pensadores. Desapareceram (não por esta exacta ordem) António José Saraiva, Natália Correia, Miguel Torga, Agostinho da Silva e Vergílio Ferreira, por vezes com poucas semanas de intervalo. A cada triste notícia, as rádios telefonavam de manhã a quem pudesse dizer algumas palavras informadas, como é hábito, sobre “a vida e obra”. E calhava quase sempre a Eduardo Prado Coelho, que então já era o comentador de referência nestes assuntos, o ter de dizer algo na morte de autores que muitas vezes tinham sido amigos ou mestres.

Essa tarefa ingrata foi-se repetindo até lhe causar uma certa perplexidade. Escreveu então uma crónica no suplemento cultural deste jornal, que então se chamava “Leituras”, lamentando-se por lhe telefonarem sempre na morte de algum grande autor, mas nunca lhe terem pedido para comentar um nascimento. A estação de rádio ligaria logo no primeiro noticiário da manhã: Eduardo Prado Coelho, nasceu hoje o mais importante poeta do próximo século, quer comentar? E ele diria algo como: a sua obra vai ser complexa e transbordante, tocando diversos géneros mas interminável no seu detalhe, e é com felicidade que aguardamos que ele ou ela comece a escrevê-la. E com este pedaço de esplêndido absurdo Prado Coelho intuía que a melhor resposta à morte (na verdade, a única resposta possível) é mais outra vez a vida.

Guardei sempre esta imagem e gosto de a citar de memória, como faço agora. É um belo achado de crónica, um exemplo do melhor de Eduardo Prado Coelho, mas não só. Traz consigo uma ideia generosa do papel da imprensa, que imaginamos nos dará a conhecer todos esses poetas futuros, e do seu gosto partilhado em não querer deixar nenhum autor por conhecer, nenhuma exposição por visitar, nenhuma polémica por argumentar, por mais que a empresa seja fútil.

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Encontro ainda naquela imagem a ética de vida do agnóstico, embora já naquela fronteira em que estas coisas dependem mais do temperamento de cada um do que de doutrinas e filosofias. Porque o agnóstico não é só aquele que não sabe o que acontece depois da morte. É aquele que, uma vez que não sabe o que vem depois, vive como se esta vida fosse a única.

Não vá dar-se o caso de não haver mais nada depois, tomemos pelo menos esta por garantida. Viver na expectativa de uma nova vida pode justificar um certo gosto pelo sofrimento na vida presente, como se tudo isto fosse um jogo cósmico de compensações. Ainda mais se, como postulam tantas tradições religiosas, o sofrimento de agora der acesso à bem-aventurança depois. Para o agnóstico, contudo, sofrimento é desperdício. Este pode não ser o melhor de todos os mundo possíveis; mas é o que há. E sabê-lo parece-lhe uma libertação.

Não é assim para toda a gente. Para muitos, apenas isto já é uma visão da vida sem sentido e justificaria por si só a queda no desânimo. Para o agnóstico, desanimar seria perder tempo. E perder tempo nunca significa só perder tempo; é perder a vida. O sentido da vida é vivê-la.