Arquivo diario para August 6th, 2007

Paris, Lisboa

[da coluna “Svengali”, na Blitz de Maio 2007]

Além das gratas memórias, Paris Hilton e eu temos outra coisa em comum: passámos o último mês sem poder conduzir um carro. A Paris, que foi sempre mais impaciente do que eu, não resistiu a quebrar a regra e agora encontra-se nas garras da justiça americana, sujeita a uma pena de prisão. Eu fui bom cidadão. Não toquei no volante nem para salvar o pai da forca. Foi o melhor mês da minha vida.

Já passei seis anos sem televisão em casa. Foi esplêndido. Já me cortaram o telemóvel, o que aconselho a toda a gente. E também já vivi sem carro durante quatro anos, numa cidade que não era Lisboa. Mas não foi tão bom. Explico: é que foi numa cidade que não era Lisboa. Um mês sem carro em Lisboa equivale a mais uma década de esperança de vida e é tão bom como vários anos sem carro em qualquer outra cidade. Por razões negativas e positivas. Pelas negativas: porque andar de carro em Lisboa é uma tortura maior do que seria sensato. Pelas positivas: porque andar a pé em Lisboa é mais variado, mais belo e mais surpreendente do que seria sensato.

Ambas as razões partem do mesmo pressuposto: Lisboa não foi feita para o carro. É por isso que é uma tortura conduzir neste relevo e nestes arruamentos, e uma tortura maior ainda estacionar. E o pior ainda é que, principalmente quando estacionamos, começamos a torturar os outros: os velhos, as crianças, as grávidas, os deficientes. Em muitos bairros quase não há estacionamento legal. Eu, transeunte, sou obrigado a contornar um carro em cima do passeio, protestando, afogueando, furibundo. Quando olho, aquele carro é o meu, ou poderia ser. Eu torturo-me a mim mesmo. O meu carro está em cima do meu passeio. É insano.

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Por outro lado, Lisboa é uma cidade especial precisamente porque não foi feita para o carro. Este relevo e estes arruamentos são uma benção para a consciência estética. Só é pena que, não tendo sido feita a cidade para o carro, o carro seja tão prático em Lisboa. Sem carro, eu demoro meia hora a pé da Baixa para a Graça. Meia hora de subida, necessariamente pausada, com paragens para apreciar os detalhes e, pelo menos, três vistas grandiosas. De carro, eu demoro cinco minutos. A solução intermédia é o eléctrico: quinze minutos, tão belos como uma caminhada, tão práticos quanto necessário. O problema é que está um carro estacionado em cima da linha e o eléctrico não avança.

A lógica diz-nos que, se há infestação, é porque há boas razões para o infestante se dar bem naquele lugar. E há excelentes razões para o carro ter infestado as nossas cidades. O carro é um cavalo-de-tróia. Não há nenhum meio de transporte que seja em simultâneo tão rápido, tão flexível, tão privado. Com o carro não há linhas pré-definidas. Posso mudar o meu percurso. Posso tratar de cinco assuntos em cinco lugares diferentes durante uma única tarde. O carro é liberdade. E eu estou viciado nele. Sou um viciado. Às vezes porque preciso, às vezes porque quero. Mas como todos os viciados, tenho uma vaga sensação de que estou a fazer mal a mim e aos outros.

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Como resolver este dilema?

Em primeiro lugar, menos quartéis militares no centro da cidade. Há quartéis em bairros tão infestados pelo carro como a Ajuda, a Penha de França, Benfica, a Graça, Alfama. Já não são necessários e estão quase vazios. Um quartel é normalmente composto por uma parada e edifícios adjacentes. Demora duas semanas a transformar essa parada em espaço de estacionamento; demora um ano e mais dinheiro para a solução ideal: escavar a parada para um estacionamento subterrâneo e um jardim à superfície. Os edifícios em torno podem ser transformados em ninhos de novas empresas, ateliers, centros culturais, creches, lares, residências. Os militares estão dispostos a sair do centro da cidade para edifícios mais modernos, mas está toda a gente à espera que seja possível vender os antigos quartéis para empreendimentos imobiliários, que dão mais dinheiro e agravam o problema.

Em segundo lugar, mais transporte público. De preferência, mais eléctrico e mais metro. E, pergunta-se, quem vai pagar? Eu. Eu poluo, eu engarrafo, eu incomodo os outros. Estou disposto a pagar por isso, a pagar caro, a pagar de uma vez só, todos os anos, por ter um carro no centro de Lisboa. Com uma condição: o dinheiro tem de ser usado para combater o meu vício, para diminuir a minha necessidade.