Arquivo mensal para Agosto, 2007

O “Novo Vietname” já era

[Público 29 agosto 2007]

O “novo Vietname” já era; qualquer aventura da super-potência correrá agora o risco de ser apelidada de “um novo Iraque”.

Em que ficamos? Ainda a guerra no Iraque não tinha começado e já os apoiantes de Bush negavam com estridência que ela se pudesse tornar num “novo Vietname”. Agora, afirma o próprio Bush que a guerra não pode terminar para que não se torne num “novo Vietname”. Mas, tipicamente, Bush chegou ao fantasma do “novo Vietname” num momento em que ele já não quer dizer nada: o desastre iraquiano está num campeonato à parte. Bush terá muita sorte se o Iraque não se tornar a bitola dos fracassos futuros.

O “novo Vietname” já era; qualquer aventura da super-potência correrá agora o risco de ser apelidada de “um novo Iraque”.

O novo Iraque é uma mistura de caos e falta de transparência única no mundo. Milhões de dólares iraquianos ou estrangeiros desaparecem, às vezes dos cofres dos próprios ministérios, às vezes em simultâneo com os próprios ministros. O exército e a polícia estão dominados pelas milícias xíitas. Para compensar, o exército americano começou a dar armas ( alegadamente “para conter a Al Qaeda” ) às tribos sunitas que antes eram inimigas e amanhã podem voltar a ser. Os sunitas aceitam-nas prevendo batalhas futuras contra os xíitas e os curdos. Ainda ontem o New York Times noticiava a descoberta de uma rede envolvendo militares que pode ter defraudado o contribuinte americano em milhares de milhões de dólares na compra de armas supostamente destinadas para as tropas iraquianas e americanas. Ninguém sabe quanto dinheiro e quantas armas andam à solta. Mesmo o número de três mil soldados americanos mortos esconde a face oculta dos mercenários contratados, tão invisíveis quanto essenciais: há generais no terreno cuja segurança é garantida por mercenários. Se um mercenário morre, não entra para as estatísticas.

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Com a situação nestes termos é que Bush veio agora lembrar-se do “novo Vietname”. Na Guerra do Vietname, na qual o jovem Bush se esquivou de combater, os EUA tentavam impedir um país de se reunificar. No Iraque, os EUA tentam segurar um país em cacos armando todas as partes.

Bush disse que quando os EUA abandonaram o Vietname milhões de pessoas sofreram. Mesmo esquecendo (como é hábito) os milhões de pessoas que sofreram enquanto os EUA não abandonaram o Vietname. É que, tal como hoje, não “podiam” abandonar: os apoiantes da guerra anunciavam que, caso os EUA retirassem, o comunismo tomaria conta do sudoeste asiático. Aí sim houve catástrofe humanitária, e uma das piores de sempre. Mas foi no país do lado, o Cambodja; quem a conseguiu deter foi o inimigo de então, o Vietcong.

Agora Bush anuncia que os EUA não podem retirar porque haverá uma catástrofe humanitária no Iraque. Mesmo esquecendo (como é hábito) a catástrofe humanitária que já temos: meio milhão de mortos desde a invasão, em estimativas por baixo. Mesmo esquecendo que essa era a razão para não ter começado a guerra. Mesmo esquecendo tudo isso, é verdade. A chantagem de Bush não é menos verdade por ser chantagem, nem menos chantagem por ser verdade. O Iraque pode cair num buraco sem fundo, certamente pior do que o Vietname quando ganhou a guerra.

Agora é que Bush viu o túnel ao fundo do túnel. Não é só um problema de compreensão lenta; é compreensão lenta e às avessas.

Amanhã continuamos.

Honorabilidade, responsabilidade e conversa fiada

[Público 28 agosto 2007]

Quando alguém clama pela sua “honorabilidade” não quer dizer que seja obrigatoriamente honrado; quer dizer que está convencido de que nós temos a obrigação de o tratar como se fosse.

Neste caso Somague / PSD, posso afirmar com certeza que há pelo menos um tipo de corrupção: a corrupção activa da língua portuguesa.

O primeiro sinal é sempre o aparecimento da “honorabilidade”. Esta magnífica palavra, tão do gosto de políticos medíocres e dirigentes de clubes de futebol, ocorre sempre em ocasiões embaraçosas. Pois mal se soube que, nos idos de 2002, o PSD deixara que uma companhia de construção civil lhe pagasse dívidas de uma campanha autárquica, a “honorabilidade” do partido não tardou em aparecer. Em primeiro lugar, se não erro, pela boca de Luís Filipe Menezes; mas poderia ter sido outro qualquer. A honorabilidade tem pouco a ver com a honra, de que é uma prima afastada. A honorabilidade é antes uma espécie de verniz que reclama para si um tratamento respeitoso ou “honorável”. A honra é uma obrigação para o próprio; a honorabilidade é um penacho a ser respeitado pelos outros. Quando alguém clama pela sua “honorabilidade” não quer dizer que seja obrigatoriamente honrado; quer dizer que está convencido de que nós temos a obrigação de o tratar como se fosse.

Logo depois tivemos o esvaziamento, na forma tentada, da palavra “responsabilidade”. Foi perpetrado por José Luís Arnaut, que era secretário-geral do PSD no tempo em que a Somague pagava dívidas ao partido, e que veio dizer que “assumia a responsabilidade” pelo sucedido. Se José Luís Arnaut pensa que para assumir a responsabilidade por algo basta pronunciar uma fórmula e ficar por isso mesmo, significa que nesse contexto a palavra responsabilidade vale zero. Assumir responsabilidades significa, desde logo, dar explicações desagradáveis: porque diabo andou uma companhia de construção civil a pagar dívidas ao partido? Não é fácil, está claro; mas “assumir responsabilidades” não é para ser fácil.

Esperemos que quando Durão Barroso der as explicações que tem a dar sobre este assunto, elas venham num português claro e incorrupto.

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Mas neste caso corremos um risco imediato de obscurecimento. Passou poucos dias até que o Público encontrasse um indício de favorecimento da Somague por um governo PSD, num momento em que o ex-tesoureiro do partido que aceitou o financiamento ilegal chegara entretanto a secretário de estado. O problema é que, como em todas as decisões do estado, não será difícil justificar essa opção concreta, ao passo que será muito difícil, sem mais provas, ligá-la a um financiamento ilegal ocorrido meses antes. Sem nada de concreto a unir uma coisa e outra, surgirá naturalmente quem venha tentar a habilidade de, uma vez reabilitado o segundo facto, defender que o primeiro perdeu fundamento. Para bem da democracia portuguesa, não pode ser assim.

O financiamento da Somague pode ter tido como resultado aquela decisão favorável numa questão de auto-estradas, ou qualquer outra que desconhecemos, ou ambas, ou até nenhuma. Pode nem ter havido data, local ou ocasião para a cobrança do favor. Ela poderia vir a ser realizada no futuro, ou poderia apenas ser reservada. Mas é sempre bom ter desenrascado um partido que, na altura, acabara de ganhar as câmaras municipais das maiores cidades do país e estava muito perto de vir a ganhar o governo. Quem paga uma dívida de outrem pode nem pedir nada em troca, mas comprou o direito a uma retribuição. E isso basta.

A gosto

[Público 27 agosto 2007]

Uma ideia generosa do papel da imprensa e do seu gosto partilhado em não querer deixar nenhum autor por conhecer, nenhuma exposição por visitar, nenhuma polémica por argumentar, por mais que a empresa seja fútil.

Lá para meados dos anos 90, Portugal perdeu alguns dos seus maiores pensadores. Desapareceram (não por esta exacta ordem) António José Saraiva, Natália Correia, Miguel Torga, Agostinho da Silva e Vergílio Ferreira, por vezes com poucas semanas de intervalo. A cada triste notícia, as rádios telefonavam de manhã a quem pudesse dizer algumas palavras informadas, como é hábito, sobre “a vida e obra”. E calhava quase sempre a Eduardo Prado Coelho, que então já era o comentador de referência nestes assuntos, o ter de dizer algo na morte de autores que muitas vezes tinham sido amigos ou mestres.

Essa tarefa ingrata foi-se repetindo até lhe causar uma certa perplexidade. Escreveu então uma crónica no suplemento cultural deste jornal, que então se chamava “Leituras”, lamentando-se por lhe telefonarem sempre na morte de algum grande autor, mas nunca lhe terem pedido para comentar um nascimento. A estação de rádio ligaria logo no primeiro noticiário da manhã: Eduardo Prado Coelho, nasceu hoje o mais importante poeta do próximo século, quer comentar? E ele diria algo como: a sua obra vai ser complexa e transbordante, tocando diversos géneros mas interminável no seu detalhe, e é com felicidade que aguardamos que ele ou ela comece a escrevê-la. E com este pedaço de esplêndido absurdo Prado Coelho intuía que a melhor resposta à morte (na verdade, a única resposta possível) é mais outra vez a vida.

Guardei sempre esta imagem e gosto de a citar de memória, como faço agora. É um belo achado de crónica, um exemplo do melhor de Eduardo Prado Coelho, mas não só. Traz consigo uma ideia generosa do papel da imprensa, que imaginamos nos dará a conhecer todos esses poetas futuros, e do seu gosto partilhado em não querer deixar nenhum autor por conhecer, nenhuma exposição por visitar, nenhuma polémica por argumentar, por mais que a empresa seja fútil.

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Encontro ainda naquela imagem a ética de vida do agnóstico, embora já naquela fronteira em que estas coisas dependem mais do temperamento de cada um do que de doutrinas e filosofias. Porque o agnóstico não é só aquele que não sabe o que acontece depois da morte. É aquele que, uma vez que não sabe o que vem depois, vive como se esta vida fosse a única.

Não vá dar-se o caso de não haver mais nada depois, tomemos pelo menos esta por garantida. Viver na expectativa de uma nova vida pode justificar um certo gosto pelo sofrimento na vida presente, como se tudo isto fosse um jogo cósmico de compensações. Ainda mais se, como postulam tantas tradições religiosas, o sofrimento de agora der acesso à bem-aventurança depois. Para o agnóstico, contudo, sofrimento é desperdício. Este pode não ser o melhor de todos os mundo possíveis; mas é o que há. E sabê-lo parece-lhe uma libertação.

Não é assim para toda a gente. Para muitos, apenas isto já é uma visão da vida sem sentido e justificaria por si só a queda no desânimo. Para o agnóstico, desanimar seria perder tempo. E perder tempo nunca significa só perder tempo; é perder a vida. O sentido da vida é vivê-la.

Destino à cidade feliz

[da coluna “Svengali”, na Blitz de Junho 2007]

Está para acontecer. Na verdade, talvez já tenha acontecido. Pela primeira vez na história da humanidade, este é o primeiro ano em que mais humanos viverão em cidades do que no campo.

Não estamos no fim nem no princípio; estamos no meio de uma revolução. Mas é uma revolução lenta. Talvez tenha começado há quatro mil anos atrás, quando as cidades da Mesopotâmia e do Egipto juntaram escrita e poder, embora as escavações de Çatalhüyük na Turquia tenham encontrado uma cidade com mais de dez mil anos. Um momento decisivo foi quando as cidades gregas se dotaram de constituições e auto-governo e inventaram a política. Quero mesmo dizer que inventaram a política. Antes havia poder, mas não política, que é (por assim dizer) outra disciplina. Resultado: sempre que falamos de política, estamos a repetir a palavra grega para cidade-estado, polis. Mesmo que falemos da política de uma vastidão como a Rússia ou a China ou o mundo inteiro, na verdade ainda é o nome das pequenas cidades-estado gregas que vamos buscar.

Claro que isto de chamar-lhes pequenas é uma maneira de falar. Ainda na Antiguidade houve uma cidade-estado chamada Roma que tanto cresceu que passou de um milhão de habitantes. Um milhão! Só no século XIX é que voltou a haver outra cidade com mais de um milhão: Londres. Claro que cada uma dessas cidades, com dois mil anos de intervalo, dominava um império que se estendia pelo mundo conhecido das épocas respectivas. E nesses impérios, como é evidente, a maior parte era campo – ou melhor – a maioria dos habitantes vivia no campo, que é uma maneira inteiramente diferente de viver.

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Mas o próprio império era, em desde logo, uma rede de cidades. E conforme se foi estendendo chegou à cidade que aqui me interessa. Era do lado ocidental da Hispânia, na foz do Tejo, e como era muito seu costume, os romanos baptizaram-na com mais de um nome. Na verdade, três nomes: Felicitas, Iulia, Olisippo. O último nome era o que a cidade já trazia não se sabe bem de quando e que hoje se diz Lisboa. O do meio era a consagração da cidade ao imperador. E o primeiro era o qualificativo. Lisboa era Felicitas, felicidade, como Évora era Liberalitas, generosidade. Lisboa era, em suma, a terra da felicidade.

Acho uma bela coincidência (para não dizer uma coincidência feliz…) que Lisboa vá ter eleições daqui a poucas semanas, no mesmo ano em que a maior parte da humanidade vai passar a viver em cidades. O mesmo aconteceu a Portugal ainda não há muito tempo, e agora somos – para o bem e para o mal – uma linha contínua de cidades que vai de Braga até Setúbal, e depois mais outra que acompanha a costa algarvia. Isto quer dizer que grande parte dos problemas do país passaram a ser problemas urbanos. E tal como a vida no tempo do campo era completamente diferente, a vida no tempo das cidades vai ser muito diferente. E uma vez que é assim talvez não fosse má ideia irmos pedir aos romanos, que sabiam da poda, se têm alguma grande sugestão para as eleições em Lisboa.

Por uma enorme sorte, a sugestão está no nome da cidade. Lisboa é suposto ser a terra da felicidade. Mas agora o que é que isso quer dizer?

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Que têm eleições a ver com felicidade e outras coisas agradáveis? Podemos dizer que sempre tiveram: aquela história do “bem comum” tem tudo a ver com evitar ao máximo as coisas desagradáveis (nunca haverá como evitar de todo) e maximizar as agradáveis. Num mundo em que a maioria vive nas cidades, tem tudo a ver com uma coisa: qualidade de vida.

Parece simples, mas não é. Tem sido muito discutido se há um direito à qualidade de vida ou não. Mesmo quando se concede que esse direito à qualidade de vida existe, pode considerar-se que ele não deve prevalecer sobre outros direitos. Deve o direito à qualidade de vida prevalecer sobre a liberdade de movimentos? Discutível. Mas na prática, quererá isso dizer que a liberdade de movimentos justifica entupir a cidade de carros? Ou pelo contrário significa que criar ruas pedonais é uma intolerável tirania do poder político? Devemos então recusar o princípio de fechar bairros ao trânsito? Se assim for, não estaremos a alimentar outra tirania que é a do carro sobre as pessoas?

Se há direito à qualidade de vida, será legítimo criar um bilhete único para todos os transportes públicos? Então e o direito à concorrência? Em suma: por detrás de cada uma destas questões prosaicas está política, a mesma política que vem dos gregos: o justo, a liberdade, o bem comum, a democracia. Essa política que nasceu nas cidades e que, agora que vivemos principalmente nas cidades, vai passar a ser cada vez mais sobre as cidades.

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Mas voltemos atrás. Mesmo que a qualidade de vida não seja um direito (já que ninguém me pergunta, evidentemente que é), a qualidade de vida é outra coisa: uma vantagem. Com a diluição das fronteiras e o regresso gradual das cidades-estado – Londres, mais uma vez, é aqui pioneira – as cidades concorrem globalmente. Umas concorrem com indústria, outras com infraestruturas, outras com cultura. Outras, com uma mistura de algumas destas coisas, que é a qualidade de vida. As cidades que a têm terão um futuro melhor, se a conseguirem manter. As que a conseguirem criar ou recuperar ganharão de duas formas: porque isso será bom para quem já vive nelas, e porque isso será manterá a cidade activa, procurada, desejada.

Lisboa tem aqui muito a ganhar, não porque os romanos a chamaram de “Felicitas”, mas porque ainda tem algumas das condições que talvez tenham inspirado os romanos a dar-lhe esse nome. Neste momento, contudo, é uma cidade cada vez mais asfixiada, mais desumana, mais passiva. É ainda belíssima, o que é óptimo para os turistas. Mas uma cidade que não é boa em primeiro lugar para os seus habitantes não é boa para mais ninguém. Lisboa tem que ser, em primeiro lugar, amada por quem nela vive.

A única boa notícia é que, como estamos no fundo, há muito caminho para recuperar. Começamos agora?

Paris, Lisboa

[da coluna “Svengali”, na Blitz de Maio 2007]

Além das gratas memórias, Paris Hilton e eu temos outra coisa em comum: passámos o último mês sem poder conduzir um carro. A Paris, que foi sempre mais impaciente do que eu, não resistiu a quebrar a regra e agora encontra-se nas garras da justiça americana, sujeita a uma pena de prisão. Eu fui bom cidadão. Não toquei no volante nem para salvar o pai da forca. Foi o melhor mês da minha vida.

Já passei seis anos sem televisão em casa. Foi esplêndido. Já me cortaram o telemóvel, o que aconselho a toda a gente. E também já vivi sem carro durante quatro anos, numa cidade que não era Lisboa. Mas não foi tão bom. Explico: é que foi numa cidade que não era Lisboa. Um mês sem carro em Lisboa equivale a mais uma década de esperança de vida e é tão bom como vários anos sem carro em qualquer outra cidade. Por razões negativas e positivas. Pelas negativas: porque andar de carro em Lisboa é uma tortura maior do que seria sensato. Pelas positivas: porque andar a pé em Lisboa é mais variado, mais belo e mais surpreendente do que seria sensato.

Ambas as razões partem do mesmo pressuposto: Lisboa não foi feita para o carro. É por isso que é uma tortura conduzir neste relevo e nestes arruamentos, e uma tortura maior ainda estacionar. E o pior ainda é que, principalmente quando estacionamos, começamos a torturar os outros: os velhos, as crianças, as grávidas, os deficientes. Em muitos bairros quase não há estacionamento legal. Eu, transeunte, sou obrigado a contornar um carro em cima do passeio, protestando, afogueando, furibundo. Quando olho, aquele carro é o meu, ou poderia ser. Eu torturo-me a mim mesmo. O meu carro está em cima do meu passeio. É insano.

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Por outro lado, Lisboa é uma cidade especial precisamente porque não foi feita para o carro. Este relevo e estes arruamentos são uma benção para a consciência estética. Só é pena que, não tendo sido feita a cidade para o carro, o carro seja tão prático em Lisboa. Sem carro, eu demoro meia hora a pé da Baixa para a Graça. Meia hora de subida, necessariamente pausada, com paragens para apreciar os detalhes e, pelo menos, três vistas grandiosas. De carro, eu demoro cinco minutos. A solução intermédia é o eléctrico: quinze minutos, tão belos como uma caminhada, tão práticos quanto necessário. O problema é que está um carro estacionado em cima da linha e o eléctrico não avança.

A lógica diz-nos que, se há infestação, é porque há boas razões para o infestante se dar bem naquele lugar. E há excelentes razões para o carro ter infestado as nossas cidades. O carro é um cavalo-de-tróia. Não há nenhum meio de transporte que seja em simultâneo tão rápido, tão flexível, tão privado. Com o carro não há linhas pré-definidas. Posso mudar o meu percurso. Posso tratar de cinco assuntos em cinco lugares diferentes durante uma única tarde. O carro é liberdade. E eu estou viciado nele. Sou um viciado. Às vezes porque preciso, às vezes porque quero. Mas como todos os viciados, tenho uma vaga sensação de que estou a fazer mal a mim e aos outros.

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Como resolver este dilema?

Em primeiro lugar, menos quartéis militares no centro da cidade. Há quartéis em bairros tão infestados pelo carro como a Ajuda, a Penha de França, Benfica, a Graça, Alfama. Já não são necessários e estão quase vazios. Um quartel é normalmente composto por uma parada e edifícios adjacentes. Demora duas semanas a transformar essa parada em espaço de estacionamento; demora um ano e mais dinheiro para a solução ideal: escavar a parada para um estacionamento subterrâneo e um jardim à superfície. Os edifícios em torno podem ser transformados em ninhos de novas empresas, ateliers, centros culturais, creches, lares, residências. Os militares estão dispostos a sair do centro da cidade para edifícios mais modernos, mas está toda a gente à espera que seja possível vender os antigos quartéis para empreendimentos imobiliários, que dão mais dinheiro e agravam o problema.

Em segundo lugar, mais transporte público. De preferência, mais eléctrico e mais metro. E, pergunta-se, quem vai pagar? Eu. Eu poluo, eu engarrafo, eu incomodo os outros. Estou disposto a pagar por isso, a pagar caro, a pagar de uma vez só, todos os anos, por ter um carro no centro de Lisboa. Com uma condição: o dinheiro tem de ser usado para combater o meu vício, para diminuir a minha necessidade.

O Grande Português

[da coluna “Svengali”, na Blitz]

Confesso: sou cavaquista.

Não, não é bem assim. Sou cavaquinhista.

O maior português de sempre mede entre trinta e quarenta centimetros e não pesa quinhentas gramas sequer. Tem quatro cordas, um orifício apenas, e é conhecido por vários nomes: machete, maxim, braguinha, rajão, cavaco, cavaquinho. Ah, e ukulele. Pode ser tocado com palheta, ou rasgado com os cinco dedos da mão. Pode ter dezassete ou doze trastos. Braço alçado ou plano. Pode fazer acompanhamento. Pode fazer solo. Pode até fazer as duas coisas ao mesmo tempo. O cavaquinho às vezes parece menos do que um instrumento musical, mas é muito mais. O cavaquinho é uma filosofia, e uma filosofia que me agrada. Uma filosofia leve, uma filosofia portátil, uma filosofia prática. Uma filosofia que se pode levar na mochila.

Em que consiste a filosofia do cavaquinho? As suas principais linhas de força são a adaptabilidade, a doçura, a ironia, a discrição, a inquietude. O cavaquinho é uma mistura de hedonismo — ou a ideia de que o prazer é o principal imperativo da vida — com epicureanismo — a valorização da tranquilidade e do retiro —, mas compensa o lado egoísta destas escolas com a sua enorme capacidade de sociabilizar. Esta é um mistério: o cavaquinho é expansivo sem ser impositivo, como prova a sua presença global.

Algures num canto esquecido de um barco, lá estava um cavaquinho. Alguém pegou nele e brincou por um momento. Depois numa casa de uma ilha longínqua alguém encontrou um cavaquinho cheio de pó, ficou intrigado e aprendeu a usá-lo. deve ter sido mais ou menos assim. Conquistou o mundo sem ter tido o peso de qualquer autoridade nem a compulsão dos instrumentos oficiais e eruditos.

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Se tivesse de escolher um manifesto para a filosofia do cavaquinho teria de ser “Caminhando”, um chorinho de menos de dois minutos que é sucessivamente ligeiro, agradável e pensativo.

“Caminhando” sugere um passeio de fim de tarde pelas ruas de uma cidade (no caso, o Rio de Janeiro, mas poderia ser qualquer outra) no fim de um dia de verão, quando o calor abranda e as brisas frescas sobem do mar. As pessoas regressam a casa e um indivíduo despreocupado segue pela calçada de mãos nos bolsos, assobiando por distracção, com a cabeça desocupada de qualquer pensamento mas cheio de uma intuição imediata de compreensão pelo mundo em torno. Às vezes desvia-se para deixar passar alguém, perde tempo apreciando os rostos em torno, senta-se num banco para atar os cordéis dos sapatos. Está em estado de graça.

O autor desta jóia musical não poderia apenas ser um exímio tocador de cavaquinho, mas alguém que tivesse o instrumento colado ao temperamento ou que tivesse crescido com ele. Assim é, e de tal forma que ninguém conhece Nelson António da Silva, autor de “Caminhando”. Só se sabe quem foi Nelson Cavaquinho, conhecido pelo nome do instrumento favorito desde a sua grande infância, numa identificação quase completa.

Nelson Cavaquinho era um poeta, compositor e boémio nascido no ano de 1910 no Rio de Janeiro. Viveu quase sempre no bairro suburbano de Mangueira mas era na Praça Tiradentes, no centro da então capital brasileira, que gostava de vir beber, tocar e cantar com os amigos. Talvez nas caminhadas entre um lado e outro tenha imaginado a doçura da sua música, não só em “Caminhando” mas também em “Folhas Secas”, o seu samba mais conhecido, que descreve os seus pensamentos tristes ao regressar a casa, subindo o morro.

A certa altura da sua carreira, Nelson Cavaquinho mudou do cavaquinho para o violão, mas os seus sambas continuaram a ter uma mistura surpreendente de um máximo de melancolia envolta em ligeireza, para enganar os incautos.

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O cavaquinho percorre toda a gama sentimental, precisamente porque é enganoso. À primeira vista é curioso, alegre e irrequieto, mas os seus agudos têm uma certa tendência para um tipo de queixume lânguido que não é perceptível no imediato.

No ano de 1879 entrou na barra do porto de Honolulu, capital do então reino independente do Hawai, o navio Ravenscrag. A seu bordo vinham passageiros madeirenses que emigravam para trabalhar no corte de cana do açúcar. Sabemos o nome de alguns deles: João Fernandes, Manuel Nunes, José do Espírito Santo, Augusto Dias. Sabemos que traziam cavaquinhos, mas que provavelmente não os chamavam por esse nome, mas pelos termos madeirenses de machete ou rajão.

Nas décadas seguintes, os havaianos ficariam encantados com aquele instrumentos, a que deram o nome de “pulga saltitante” — na língua local, ukulele. O nome era uma referência directa às tonalidades alegres do cavaquinho, mas rapidamente os havaianos perceberam que o instrumento também se adaptaria aos acordes lentos da sua música tradicional, de tal forma que o adoptaram como instrumento nacional.

Em 1915, quando o Hawai já pertencia aos Estados Unidos da América, uma exposição em São Francisco revelou o ukulele à população californiana e foi adoptado pelos jovens afluentes. Umas centenas de quilómetros mais a Norte, Hollywood começava a regurgitar de estúdios de cinema. O cavaquinho também chegou lá e entrou nos hábitos das gerações despreocupadas dos anos 20 e 30. Nesses tempos, o ukulele era um adereço típico dos quartos das residências universitárias de Princeton ou Yale. Os estudantes aprendiam a tocá-lo quando caloiros, e esqueciam dele pouco depois de acabarem os cursos. O cavaquinho não se queixava. Não era o seu estilo.

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Um jovem havaiano chamado Lyle Ritz era contrabaixista. Talvez por um sentido de humor intrínseco decidiu juntar ao maior instrumento da família das cordas o domínio do ukulele oriundo das suas ilhas. Tinha piada, tocar alternadamente contrabaixo e cavaquinho. A pouco e pouco, foi recuperando a tradição que ligava o cavaquinho ao charleston, ao ragtime e ao jazz dos anos 30, à medida que ia trabalhando em bandas sonoras para os filmes de Hollywod, aí já depois da IIª Guerra Mundial. O cavaquinho, ou melhor o ukulele, era então presença esporádica na música pseudo-exótica das bandas sonoras cinematográficas, principalmente para evocar ilhas paradisíacas e distantes.

Um dia Lyle Ritz, que acompanhava Ray Charles na sua banda, ficou só com o contrabaixo. O cavaquinho não se queixou. Anos mais tarde, Lyle Ritz aposentou-se, e de repente lá estava o cavaquinho à espera. Voltou a dedilhá-lo, a brincar com ele, a encantar-se com as possibilidades do instrumento. Foi à rua, comprou um computador e começou a gravar um disco de cavaquinho e contrabaixo com ele.

Este disco chama-se “No Frills”, mas se me permitem, deixem-me aconselhar-vos antes “A Night of Ukulele Jazz” que regista uma sessão ao vivo de Lyle Ritz e de outro virtuoso do ukulele, Herb Ohta, num clube de Santa Monica, Califórnia. O cavaquinho sobe e desce toda a paleta dos seus estilos, da música havaiana e do jazz até à bossa-nova.

Mas poderia haver mais: no Minho, o cavaquinho acompanha chulas e viras; na Madeira, bailinhos; em Cabo Verde, mornas e coladeras; no Brasil, choros e sambas. No Havai, aquece as noites sensuais dos luaus.

É por isso que o cavaquinho é uma filosofia. Na boa.