Arquivo diario para July 11th, 2007

O Arquitecto: reacções (2) e lançamento

Hoje, entre as 10h00 e as 11h00, estarei na SIC-notícias para comentar a imprensa do dia e falar um pouco sobre O Arquitecto. Às 18h00, no Pavilhão de Portugal [metro Oriente], será o lançamento do livro, honrado pela presença do encenador Jorge Silva Melo e dos arquitectos Raul Hestnes Ferreira, Manuel Vicente e Alberto Oliveira, que estagiaram no ateliê de Louis Kahn em Filadélfia nos anos a que se refere a minha peça. Aqui abaixo encontrarão a crítica de Rui Pina Coelho no Ípsilon [Público] de passada sexta-feira.

“As coisas em que não pensamos”, crítica de Rui Pina Coelho no Público de 06 julho 2007:

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À espera de Lisboa

[Público 10 julho 2007]

A qualidade de vida não é hoje apenas um direito; é também uma vantagem competitiva.

Pela primeira vez na história da espécie, este é o ano em que mais de metade da população humana viverá em cidades. Ter eleições em Lisboa neste ano, e com o destaque que elas têm tido, deveria ser mais do que uma coincidência interessante. Temos aqui uma ocasião para pensar em cidades no sentido mais geral, desde logo porque a maior parte dos nossos problemas políticos são problemas de cidades. Mas também por outra razão a que já me referi: com a diluição das fronteiras nacionais, as cidades são cada vez mais motor das economias nacionais.

No número mais recente da revista Monocle publica-se um ranking das vinte melhores cidades para viver no mundo (critérios: mobilidade, crime, ligações aéreas internacionais e outros mais subjectivos como beleza, vida cultural e tolerância). Munique ficou em primeiro lugar, seguida de Copenhaga e Zurique. Espanha colocou duas cidades na lista: Madrid em décimo lugar, Barcelona em décimo-oitavo (apesar do crime). E Lisboa? Nas palavras dos organizadores, “não chegou lá”: ficou fora da lista na companhia de Roma e Antuérpia, para dar dois exemplos, algures entre o lugar 20 e 30. De todas diz a revista que “oferecem boa qualidade de vida”. Dado o estado de abandono político de Lisboa, esta classificação é simpática, reflectindo o potencial “natural” da cidade. Mas poderia estar francamente melhor. Com melhorias sensíveis na rede de transportes públicos, nas áreas verdes ou na habitação, Lisboa pode tornar-se muito mais agradável para viver e entrar na primeira divisão de cidades globais.

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A qualidade de vida não é hoje apenas um direito; é também uma vantagem competitiva. Não é por acaso que as megalópoles, excepto Tóquio que ficou em quarto, não aparecem na lista da Monocle. Os mesmos factores que diluem as fronteiras tornam a proximidade das megalópoles menos relevante. Cidades médias à escala global, como Amesterdão e Barcelona, tornaram-se pólos magnéticos de uma comunidade de profissionais que, graças à internet, pode trabalhar em qualquer ponto do mundo e escolhe o seu lugar não em função da proximidade de indústrias mas da qualidade de vida. São pequenas empresas de programadores informáticos, designers, jornalistas. São líderes de tendências e canais de divulgação das próprias cidades, o que quer dizer que (a médio prazo) trazem outros como eles. E o que querem eles numa cidade? Cultura, tolerância, conforto, pouco crime, bons espaços verdes, segurança rodoviária, mobilidade, ligações ao resto do mundo. Uma vez que se instalam e moram efectivamente na cidade, são um melhor grupo para avaliar da sua qualidade do que os turistas. Os turistas vêm por poucos dias, e depois só alguns regressam.

Lisboa, por seu lado, tem sofrido uma evolução inquietante: ao mesmo tempo que cresceu no plano turístico, tornou-se mais inabitável para quem nela vive. Pelo contrário, Lisboa deve em primeiro lugar tornar-se uma cidade agradável para viver, mais do que para visitar. Uma cidade que se faz pensando só nos turistas corre o risco de se tornar numa cidade passiva. Uma cidade que se faz pensando nos seus habitantes (actuais e futuros) tem de procurar soluções para se manter activa. E ao procurar soluções para uma Lisboa activa, talvez achemos soluções para Portugal.