Arquivo mensal para July, 2007

O fim da quadratura do círculo (2)

[Público 23 julho 2007]

Os intelectuais conservadores continuam a vender-nos o discurso de que os portugueses são atávicos por destino e de que as causas progressistas não têm qualquer eco na sociedade. Ou seja, continuam a garantir-nos que é verdade o que as recentes eleições e referendos negaram enfaticamente.

Na última crónica, vimos como a política portuguesa deixou de ser aquele quadrado, com dois partidos à direita e dois à esquerda, que resultou do 25 de Abril.

À esquerda passou a haver três partidos e a questão agora é saber se vai haver quatro. Em 2009 chegam as legislativas e com elas um problema.

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O fim da quadratura do círculo (1)

[Público 23 julho 2007]

Na política, como em tudo na cultura humana, o aborrecimento desempenha um papel fundamental. E a coisa não ficará por aqui.

Durante anos, Portugal teve quatro partidos. Dois à esquerda, dois à direita. De cada dois, um era maior – o PS à esquerda, o PSD à direita – o outro menor – o PCP à esquerda, o CDS à direita. A simetria só não era completa porque o CDS de vez em quando chegava ao governo (o PCP nunca) e o PCP tinha muito poder nas autarquias, nos sindicatos e melhor implantação social (e o CDS muito menos de tudo). Este desenho era um ovo de Colombo: quadrado, mas com o dinamismo bastante para parecer que duraria para sempre.

O resto era enfeite, ou era transitório.

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Vitoriosos e inconsequentes

[Público 18 julho 2007]

Mas, por favor, poupem o eleitorado de esquerda a mais esta demonstração da inconsequência e sectarismo dos seus eleitos.

Suavizar uma derrota eleitoral é como tentar rebocar um monte de entulho. Pode sempre recorrer-se à argamassa cinzenta das justificações: que a abstenção, que os independentes, que a crise dos partidos, que as eleições locais, etc. Há comentadores que parecem ter acesso a um armazém inteiro disto. Mas não parece que sejam ouvidos pelos actores políticos no PSD e no CDS, que estão já entretidos no meio do monte de entulho, estraçalhando-o em pedaços de entulho cada vez menores.

A justificação de que eu mais gosto é: seja como for, a “esquerda” e a “direita” são irrelevantes nas Câmaras Municipais. Ah, sim? Olhemos então para a nova Câmara de Lisboa: a direita tem seis vereadores, a esquerda tem onze. Até digo mais: por muito tentador que seja bater na direita, deixemo-la respirar. Hoje há uma tarefa mais urgente e necessária: bater na esquerda.

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Derrotados e indecorosos

[Público 16 julho 2007]

O eleitorado foi claro: “ajudem” na oposição.

A direita é a derrotada das eleições em Lisboa. Foi uma derrota feita de mediocridade e ligeireza. Carmona Rodrigues é o símbolo desse descalabro, até na forma como finge que não é nada com ele e se oferece para governar.

Com um sexto dos votos, os comparsas de Carmona festejaram a sua vingança sobre o PSD com tal profissionalismo que, passado alguns minutos, os jornalistas lá na sede já perguntavam a Gabriela Seara o que achavam da “vitória” da candidatura e chamava a Carmona “o grande vencedor da noite”. Os apoiantes gritaram “vitória”. Mas qual vitória?

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O Arquitecto: reacções (2) e lançamento

Hoje, entre as 10h00 e as 11h00, estarei na SIC-notícias para comentar a imprensa do dia e falar um pouco sobre O Arquitecto. Às 18h00, no Pavilhão de Portugal [metro Oriente], será o lançamento do livro, honrado pela presença do encenador Jorge Silva Melo e dos arquitectos Raul Hestnes Ferreira, Manuel Vicente e Alberto Oliveira, que estagiaram no ateliê de Louis Kahn em Filadélfia nos anos a que se refere a minha peça. Aqui abaixo encontrarão a crítica de Rui Pina Coelho no Ípsilon [Público] de passada sexta-feira.

“As coisas em que não pensamos”, crítica de Rui Pina Coelho no Público de 06 julho 2007:

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À espera de Lisboa

[Público 10 julho 2007]

A qualidade de vida não é hoje apenas um direito; é também uma vantagem competitiva.

Pela primeira vez na história da espécie, este é o ano em que mais de metade da população humana viverá em cidades. Ter eleições em Lisboa neste ano, e com o destaque que elas têm tido, deveria ser mais do que uma coincidência interessante. Temos aqui uma ocasião para pensar em cidades no sentido mais geral, desde logo porque a maior parte dos nossos problemas políticos são problemas de cidades. Mas também por outra razão a que já me referi: com a diluição das fronteiras nacionais, as cidades são cada vez mais motor das economias nacionais.

No número mais recente da revista Monocle publica-se um ranking das vinte melhores cidades para viver no mundo (critérios: mobilidade, crime, ligações aéreas internacionais e outros mais subjectivos como beleza, vida cultural e tolerância). Munique ficou em primeiro lugar, seguida de Copenhaga e Zurique. Espanha colocou duas cidades na lista: Madrid em décimo lugar, Barcelona em décimo-oitavo (apesar do crime). E Lisboa? Nas palavras dos organizadores, “não chegou lá”: ficou fora da lista na companhia de Roma e Antuérpia, para dar dois exemplos, algures entre o lugar 20 e 30. De todas diz a revista que “oferecem boa qualidade de vida”. Dado o estado de abandono político de Lisboa, esta classificação é simpática, reflectindo o potencial “natural” da cidade. Mas poderia estar francamente melhor. Com melhorias sensíveis na rede de transportes públicos, nas áreas verdes ou na habitação, Lisboa pode tornar-se muito mais agradável para viver e entrar na primeira divisão de cidades globais.

***

A qualidade de vida não é hoje apenas um direito; é também uma vantagem competitiva. Não é por acaso que as megalópoles, excepto Tóquio que ficou em quarto, não aparecem na lista da Monocle. Os mesmos factores que diluem as fronteiras tornam a proximidade das megalópoles menos relevante. Cidades médias à escala global, como Amesterdão e Barcelona, tornaram-se pólos magnéticos de uma comunidade de profissionais que, graças à internet, pode trabalhar em qualquer ponto do mundo e escolhe o seu lugar não em função da proximidade de indústrias mas da qualidade de vida. São pequenas empresas de programadores informáticos, designers, jornalistas. São líderes de tendências e canais de divulgação das próprias cidades, o que quer dizer que (a médio prazo) trazem outros como eles. E o que querem eles numa cidade? Cultura, tolerância, conforto, pouco crime, bons espaços verdes, segurança rodoviária, mobilidade, ligações ao resto do mundo. Uma vez que se instalam e moram efectivamente na cidade, são um melhor grupo para avaliar da sua qualidade do que os turistas. Os turistas vêm por poucos dias, e depois só alguns regressam.

Lisboa, por seu lado, tem sofrido uma evolução inquietante: ao mesmo tempo que cresceu no plano turístico, tornou-se mais inabitável para quem nela vive. Pelo contrário, Lisboa deve em primeiro lugar tornar-se uma cidade agradável para viver, mais do que para visitar. Uma cidade que se faz pensando só nos turistas corre o risco de se tornar numa cidade passiva. Uma cidade que se faz pensando nos seus habitantes (actuais e futuros) tem de procurar soluções para se manter activa. E ao procurar soluções para uma Lisboa activa, talvez achemos soluções para Portugal.

O Arquitecto: reacções (1)

“As Consequências Involuntárias”, crítica de José Mário Silva no DN de 23 junho 2007:

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Texto completo n’A Invenção de Morel, aqui.

Santo Subito! Santo Subito!

[Público 4 julho 2007]

Eles são, na verdade, imaculados: mentem sem pecado, prestam falso testemunho sem pecado, inventam pretextos para a guerra sem pecado, justificam invasões sem pecado, prendem sem pecado, torturam sem pecado.

A despedida de Tony Blair foi programada de maneira a não ser menos longa nem menos previsível que uma telenovela. E uma telenovela cuidadosamente gerida para que uma pequena floresta de papel impresso se gastasse com avaliações do currículo do homem, da sua relevância, da sua herança. Quem a viu, fê-lo só para confirmar o final – foi das fraquinhas.

Entre as elegias e os panegíricos chamou-me a atenção uma análise de Teresa de Sousa aqui neste jornal.

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A União

[Público 2 julho 2007]

Não me forcem a escolher entre os meus instintos europeístas e os meus instintos democráticos.

Enquanto alguém vai para o trabalho de bicicleta em Amesterdão, um coro ensaia na Estónia e um barco pesca em Malta. Turistas esperam para entrar num museu de Florença. Turcos vendem kebab em Edimburgo. Estudantes de Frankfurt passam o seu erasmus em Istambul, esforçando-se por dominar dois ou mesmo três idiomas. Pode comprar-se leite de rena na Lapónia ou houmous em Creta usando sempre a mesma moeda; melhor ainda, pode ir-se de um lugar ao outro sem mostrar o passaporte.

Quem diria? Para muitos, este é o retrato de um continente em decadência. Na verdade, todas as cidades e regiões atrás citadas (à excepção de Istambul, que não está na UE mas cujo país já participa no programa Erasmus de troca de estudantes) fazem parte da mais interessante experiência política dos nossos tempos. São quase 500 milhões de humanos (só a China e a Índia têm mais população) numa extensão maior do que a de muitos impérios da história. Mas não é um império, é outra coisa, não se sabe bem o quê. Para muitos, deveria ser uma federação. Na verdade, pouco importa o que lhe chamemos.

Eu sou um europeísta não por qualquer ufanismo europeu (na verdade estou mais próximo de um cabo-verdiano do que de um letão, e isso agrada-me) mas porque olhando para a União vejo que ela tem sido uma força de paz, liberdade e até alguma solidariedade. Com os seus muitos defeitos, a União está na primeira linha do Tribunal Penal Internacional, do Protocolo de Quioto, da cooperação e desenvolvimento. Nada disto é perfeito, mas pelo menos tenta-se.

Mas também sou um europeísta porque a União tem um grande futuro.

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