Arquivo mensal para Junho, 2007

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Sopram ventos frios

[Público 06 junho 2007]

A ideia era substituir a Guerra Fria por outra Guerra Fria, porque só nesse ambiente aquelas mentes visionárias se sentiam bem. Os resultados têm sido menos reconfortantes.

O homem que foi ontem condenado a 30 meses de prisão já foi um alto funcionário da Administração Bush. Era o antigo chefe de gabinete de Dick Cheney, vice-presidente dos EUA, e foi considerado culpado de quatro crimes: obstrução à justiça, falso testemunho e dois perjúrios, ou seja, mentiras perante o tribunal. O preço que pagou pelas suas falsidades e omissões parece caro, mas foi o próprio que o preferiu ao preço do crime que ajudou a encobrir – revelar a identidade de uma agente secreta americana, um crime grave nos EUA, por se considerar que tal acto coloca em risco a vida da própria, dos seus próximos e dos seus contactos. Mesquinhas parecem ser as razões que levaram a que esses riscos fossem corridos: difamar um embaixador americano, marido dessa agente secreta, que refutara em público um dos pretextos que Bush alegara para invadir o Iraque.

O homem que foi ontem condenado é mais conhecido pela alcunha: Scooter Libby, em vez de I. Lewis Libby. Aliás, poucos sabem que significa a inicial do seu primeiro nome. Irving? Irv?

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O brilharete

[Público 04 junho 2007]

O embaraço da missão está num momento em que os líderes europeus se deixaram extravasar pelas emoções e, como é hábito nessas ocasiões, disseram um monte de coisas de que viriam a arrepender-se depois.

Uma das melhores maneiras de conseguir que se leve a cabo uma tarefa ingrata, ou mesmo indecorosa, é convencer alguém de que ao cumpri-la fará um “brilharete”. Esta técnica funcionará melhor com um sujeito que passe por insignificante mas não deixe de ter a sua vaidade. Como país, Portugal é um inabalável candidato ao óscar do brilharete.

É curioso que não raramente é o próprio que sai prejudicado, embora não o tenha previsto enquanto escutava a lisonja e o encorajamento dos maiores interessados. Nesse caso, chama-se-lhe um “trouxa” – mas discretamente, para não ferir os sentimentos de uma pessoa tão útil.

Aproxima-se agora uma nova ocasião para demonstrarmos os nossos dotes nesse papel, sob a forma da presidência da União Europeia.

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O Arquitecto

Tenho um novo livro cá fora, ainda sem data de lançamento marcada, mas que já está na Feira do Livro de Lisboa a partir de hoje. Eu estarei por lá às 21h30, na banca da tinta-da-china edições. A Feira é sempre uma ocasião agradável para ver amigos, conhecer gente nova, conversar. Aqui em baixo encontra-se o convite da editora (cliquem para aumentar). Da minha parte, considerem-se também convidados.

Ó vizinha, dá licença?

[Público 31 maio 2007]

Criar ruas pedonais e destinar a venda de património do Estado à habitação para todas as bolsas é apenas “proibir e fazer engenharia social” – separar lixos, então, imagino que nos leve ao Gulag.

Vamos recapitular. Na segunda-feira, Helena Matos descobriu a pólvora: que “o Estado Português exerce o seu poder de uma forma socialmente injusta”, defendendo com mais celeridade os interesses de uma empresa como a Lacoste do que a integridade física das suas cidadãs alvo de violência doméstica. Concordo sem reservas; acho até que os direitos das pessoas são mais importantes do que os direitos das empresas, nomeadamente a prerrogativa um pouco tola de ser a única companhia no mundo que pode coser um crocodilo numa camisa.

Partindo do princípio que os leitores não pagam o jornal para ver chover no molhado, usei a coluna para aquilo que, salvo erro, ela serve: apresentar ideias sobre temas da actualidade. Acontece que há eleições na maior cidade do país. Como propor coisas não é o monopólio dos políticos, eu tinha pedido aos leitores que enviassem as propostas que gostariam de ver discutidas, e discuti-as.

No dia seguinte, Helena Matos teve um chilique por escrito.

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