[Público 28 junho 2007]
Os argumentos de Helena Matos levar-nos-iam ao ponto em que um eleitor basco não poderia repudiar o terrorismo a não ser que fosse espanholista, votasse no PP, e considerasse que qualquer reconhecimento das ambições nacionais é uma traição à Espanha e às vítimas do terrorismo.
A trajectória dos argumentos de Helena Matos sobre o País Basco é uma bela lição sobre como as amálgamas dão péssimos resultados na política em geral e na luta contra o terrorismo em particular. Resumidamente, Helena Matos começou por não considerar a existência do Partido Nacionalista Vasco (que simplesmente domina as eleições, a política e o governo local) e terminou justificando que tal não era necessário porque “a ETA não é um corpo estranho ao nacionalismo legal”. Isto não faz sentido e deixa muita coisa por explicar. Se fosse verdade que a sociedade basca se deixou dominar pela ETA, incluindo empresas, igrejas e o próprio governo, os partidos que apoiam a ETA seriam beneficiados pelo voto secreto e não seriam minoritários nas eleições.
Mais: se na política basca é tudo a mesma coisa (ETA, PNV, até PSOE), os argumentos de Helena Matos levar-nos-iam ao ponto em que um eleitor basco não poderia repudiar o terrorismo a não ser que fosse espanholista, votasse no PP, e considerasse que qualquer reconhecimento das ambições nacionais é uma traição à Espanha e às vítimas do terrorismo. Ora eu posso não ter simpatia por um partido nacionalista e conservador, mas o PNV é um partido legítimo (ao contrário da ETA e dos seus satélites, enquanto recorrerem à violência política num estado democrático) e ainda por cima representando a maioria dos eleitores. Não é por acaso que os tribunais espanhóis ilegalizaram o Batasuna mas reconhecem naturalmente o PNV. O contrário redundaria numa visão maniqueísta da democracia, raiando a paranóia. Seria também um erro estratégico.
O caso irlandês é um bom exemplo. O governo inglês percebeu, pelo menos a partir do massacre do Domingo Sangrento, que não podia dividir a sociedade norte-irlandesa entre os que estão “connosco” e os que estão “contra nós”. A partir daí foi extremamente cuidadoso para não confundir o IRA com todos os irlandeses, e nem sequer com todos os católicos norte-irlandeses (apesar da implantação social do Sinn Féin ser tão grande ou maior do que a da ETA no País Basco). E tentou, sempre que possível, negociar o fim da violência entre terroristas católicos e protestantes – até que uma vez conseguiu. Ninguém diz que é fácil. Mas é melhor do que ficar num beco-sem-saída de dedo em riste.
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Escrevendo ontem sobre a desnecessidade do referendo Europeu, Rui Ramos parece conformado: o mini-tratado actual não é assim tão mau e as consequências de um “não” português seriam tão terríveis que ninguém de bom senso desejaria correr tal risco.
Eu diria que é um erro falar como se já houvesse tratado: não há. O que saiu de Bruxelas foi o mandato para que uma Conferência Inter-Governamental redigisse um tratado dentro de certos limites, o que é outra coisa. Se começamos desde já a dizer que não precisamos de referendar o resultado, o resultado pode vir a ser bem diferente do que aquele que imaginamos; mas aí já será tarde. E isso nem é o mais importante. O que eu não entendo mesmo é o princípio de que como as consequências de um “não” seriam catastróficas é melhor nem nos perguntarem nada. Eu prefiro que os portugueses votem mesmo que saibam que só o “sim” lhes serve, porque o “não” constituiria uma auto-exclusão da Europa. Todas as decisões têm consequências. Mas há uma diferença enorme entre um noivo que decide casar porque não quer encarar as consequências de dizer “não” e um noivo a quem casam sem sequer o deixarem dizer “sim”.








