Arquivo mensal para May, 2007

De que precisa Lisboa (2)

[Público 29 maio 2007]

Os maiores partidos escolhem os candidatos por édito do chefe e/ou pressão dos aparelhos locais. Os independentes (na verdade, dissidentes dos partidos), depois de recolhidas as assinaturas, estão por conta própria. Os eleitores só têm influência no final do jogo.

Pensar agora nas eleições futuras – Se estas eleições intercalares são atípicas, em grande parte é porque reforçam os defeitos das nossas eleições locais. Mas são também uma ocasião para obrigar os principais actores a compromissos que aumentem a qualidade da democracia local, pensando já nas eleições de daqui a dois anos. Nessa ocasião, eu gostaria de ver…

…programas primeiro, personalidades depois – Os maiores partidos escolhem os candidatos por édito do chefe e/ou pressão dos aparelhos locais. Os independentes (na verdade, dissidentes dos partidos), depois de recolhidas as assinaturas, estão por conta própria. Os eleitores só têm influência no final do jogo. O processo deveria ser outro: abrir em cada área política um debate para constituição de programa, com a participação dos cidadãos que o desejarem. Depois, escolher o melhor intérprete desse programa, no quadro de…

…eleições primárias – A dispersão de votos pode voltar a beneficiar os medíocres já nas próximas eleições, perversamente por efeito do excesso de quantidade e qualidade à esquerda. Para o futuro, uma solução é abrir um período de candidaturas e debate em cada área política, aberto a não-militantes, seguido de uma eleição primária. Como em Itália, cada votante nas primárias paga uma quantia simbólica que contará como donativo para a campanha eleitoral. Caso contrário, teremos de pensar em…

…duas voltas nas eleições locais – A França tem, a Itália tem, o Brasil tem. Portugal deveria ter. O presidente da câmara tem poderes próprios e a relevância política do cargo não tem senão aumentado. Mas é frequente o presidente ser escolhido por cerca de trinta por cento dos eleitores. Não faz sentido. Os primeiros vereadores deveriam ser escolhidos na primeira volta. Os dois candidatos mais votados iriam à segunda volta para se escolher o presidente. Um cálculo misto determinaria a composição final da Câmara.

Um fórum permanente da cidade – Consultivo. Com participações individuais ou de associações locais, de olisipografia, de defesa do património e do ambiente. De preferência funcionaria na internet, com poucas reuniões e formalidades. Seria uma acta permanente das intenções e dos desejos dos munícipes. Dois funcionários bastam para o gerir, um dos quais para receber propostas deixadas em papel nos serviços da câmara, ou enviadas pelo correio, para a população sem acesso à web.

Proteger a Baixa dos carros – O leitor José Silva Jorge quer que a Baixa deixe de ser uma zona de atravessamento de trânsito. Para tal, propõe que se encerre ao transporte privado as ruas do Ouro, da Prata e dos Fanqueiros. As avenidas de acesso à Baixa passariam apenas isso, avenidas de acesso. Daria para se chegar aos parques de estacionamento ou para deixar passageiros mas os carros regressariam pelo mesmo caminho. Plenamente de acordo: uma Avenida da Liberdade com as cinco a sete faixas actuais alimenta a ilusão de que é possível continuar a entupir a baixa com carros. Com esta proposta e a redução de faixas que ela permitiria, a Avenida poderia recuperar parte do seu anterior carácter de Passeio Público.

Uma solução democrática para o património do estado – O leitor José Carlos Guinote vê a venda (ou aluguer, digo eu) do património do estado na cidade como uma oportunidade para repovoar a cidade. Tem é que ser feita com regras especiais, com obrigações num plano de habitação ou utilização para todas as bolsas, garantindo a diversidade social na ocupação desses espaços e edifícios. Vender para a pura especulação imobiliária é substituir um problema por outro, diz este leitor – e eu concordo.

Deixe mais sugestões aqui.

De que precisa Lisboa

[A partir da meia-noite estará aqui o meu texto de hoje no Público. Mas os leitores já podem ir deixando os seus comentários neste espaço.]

Mais um dia de trabalho para mim.

[Público 23 maio 2007]

Eu posso ter trabalhado para pagar impostos até à semana passada, mas não estive a trabalhar para a nação: estive sempre a trabalhar para mim.

Na minha última crónica especulei sobre a razão pela qual a agenda da descida de impostos granjeia tão pouco entusiasmo entre nós. A conclusão a que cheguei é que esta é uma causa minoritária. Como deixei claro, isto não quer dizer que uma descida de impostos seja de recusar ou que os aumentos de impostos sejam, por princípio, desejáveis. Quer apenas dizer que a prioridade da maior parte dos portugueses está na qualidade e abrangência dos serviços públicos, da qual faz depender pragmaticamente a política de impostos. Uma coisa, para nós, vem antes da outra. Em consequência, um partido que dê garantias reais de melhorar os serviços públicos levará sempre vantagem sobre outro que dê garantias reais de baixar os impostos (estes partidos a que me refiro são puramente imaginários; nem um nem outro parece encontrar-se na política portuguesa).

Tanto quanto vejo, Helena Matos não me responde com nenhum argumento decisivo em contrário. Ao apontar-me as deficiências da rede pré-escolar pública manda a lógica que se melhore esse serviço. Mesmo ao dizer-me que “todos sairíamos a ganhar se o Estado entregasse a verba que gasta com cada aluno à escola pública ou privada escolhida por cada família”, Helena Matos não defende que o Estado arrecade menos, apenas que distribua de outra forma. O argumento de que a máquina do estado abafa a capacidade de iniciativa funcionaria comigo se riscássemos a Europa do Norte do mapa: países com mais funcionários públicos do que Portugal, impostos mais altos e economias mais competitivas. Enquanto continuarem a existir há (pelo menos) uma maneira de o conseguir. O resto é só ideologia, não realidade.

Mesmo na sua estocada final, quando Helena Matos alega que “o jovem casal não deve dar mais dinheiro à nação mas sim interrogar-se sobre o que a nação anda a fazer com o seu dinheiro”, eu concordaria em alargar ainda mais o raciocínio. Por si só, o jovem casal não deve dar mais nem menos dinheiro à nação. A prioridade é gastar esse dinheiro de forma mais transparente, mais eficiente e mais abrangente — numa palavra: mais democrática.

Ora isso só é possível se reconhecermos que não andamos a trabalhar “para os impostos” ou “para a nação”. Eu posso ter trabalhado para pagar impostos até à semana passada, mas não estive a trabalhar para a nação: estive sempre a trabalhar para mim. E nem sequer estive a pagar adiantado. Pelas minhas contas, passei por mais de vinte anos de ensino público e diversas operações em hospitais públicos. Poderia ter sido melhor? Sem dúvida. Mas sem o serviço público eu não estaria aqui. Eu e muitos outros: se Portugal é um dos países que mais progrediu no combate à mortalidade infantil ou no acesso das mulheres à universidade, ao serviço público o deve.

Como diria um bom neoliberal, a maioria dos portugueses reconhece essa realidade através das suas escolhas no mercado eleitoral. Noutros países uma agenda de descida de impostos até pode ganhar eleições. Aqui não ganha nem uma dor de garganta num comício. Faça-se a prova. Que medidas têm levantado o país contra o governo? Encerramento de maternidades, de urgências, de esquadras. A prova está feita. Para a maioria dos portugueses, o problema não está em que o estado social exista. Está em pô-lo a funcionar.

Quem defende que o estado social não funciona em Portugal fica portanto com uma pergunta no colo: para a maioria dos portugueses, mais alguma coisa funcionou?

Uma causa minoritária

[Público 21 maio 2007]

É para quem pode pagar o acesso ao que de melhor o mercado permite que o dinheiro “para os impostos” parece inútil.

1. Os portugueses reclamam, com razão, de muita coisa. Todos os dias. Na rua, no café, no trabalho. No entanto, faça um exercício: quantas vezes ouve alguém reclamar por uma baixa de impostos? Pouquíssimas vezes, quase nenhumas. Isto é diferente de dizer que não a aceitariam, mas mesmo assim deve ser desesperador para quem pretenda liderar a opinião pública com uma agenda anti-impostos. O PSD tentou-o há pouco tempo, jogando forte o seu líder na proposta.

Para comparação, façamos a experiência: quantas pessoas ouvimos queixarem-se de serviços público insatisfatórios? A resposta é clara: não há ninguém que não se queixe de hospitais inadequados, escolas sem material, falta de apoio aos idosos, buracos na estrada, bombeiros sem equipamento, ruas mal iluminadas. Ainda na semana passada uma notícia nos garantia que até determinado dia tudo o que havíamos trabalhado ia “para os impostos”, uma revelação que em princípio é desagradável. Mas perguntemos a um jovem casal: preferem trabalhar menos dois dias “para os impostos” ou trabalhar mais dois dias em troca da expansão da rede pré-escolar pública a todo o país?

Qual é a explicação para este enigma? Em parte, terá de ser porque Portugal é um país de gente pobre e remediada. Os neoliberais diriam que, precisamente por isso, os portugueses deveriam desejar ficar com mais dinheiro no bolso. Efectivamente essa é uma proposta que, em si, ninguém recusa. Sem embargo, essa gente pobre e remediada está mais preocupada com os serviços públicos porque sabe que é deles que depende quase em exclusivo. É para quem pode pagar o acesso ao que de melhor o mercado permite que o dinheiro “para os impostos” parece inútil. Se os impostos descessem, sempre sobraria mais algum dinheiro para os gastos. A maioria dos jovens casais portugueses ganharia mais, na prática, com os filhos na creche pública.

Como é evidente, nem todos os impostos vão para coisas úteis. Uma boa parte é desperdiçada. Mais aí faça-se de novo a pergunta a qualquer português na rua: se conseguirmos reduzir o desperdício no estado prefere a) que lhe devolvamos o seu dinheiro ou b) que melhoremos os serviços públicos? Estou convencido que descobriremos o mesmo que o PSD ficou a saber depois de expor o seu líder à indiferença geral. Em Portugal, a descida dos impostos tem menos apelo público do que qualquer causa minoritária porque não passa disso mesmo: uma causa minoritária.

2. Na impossibilidade de haver uma “grande coligação” à esquerda para a Câmara Municipal de Lisboa, apelei aqui na semana passada ao entendimento entre Sá Fernandes e Helena Roseta para uma candidatura independente, comum e aberta. Devo um esclarecimento às muitas pessoas que gostaram da ideia, confirmando que o eleitorado e o programa de ambos os independentes é compatível. Mesmo nas candidaturas, a ideia foi mais longe do que ao início julgaria possível, mas acabou por ser abandonada por Helena Roseta mesmo depois de o BE ter aceitado prescindir de se apresentar às eleições, libertando Sá Fernandes para conversações directas. Entretanto, uma sondagem confirmou a minha intuição: os votos de ambos os candidatos seriam superiores aos votos no PSD. O debate sobre a cidade teria lugar entre a candidatura do PS e a dos dois independentes, em vez de termos uma campanha entre António Costa e os “outros”. Felizmente, ninguém casa obrigado. Mas nesse é caso é melhor não falarem em casamento.

De que precisa Lisboa

[Público 17 maio 2007]

Durante anos, os partidos têm-nos maravilhado com as desculpas que inventam para que nada disto aconteça. Serão os independentes mais criativos?

Um debate nacional – Só há uma forma de todos os portugueses aturarem tanta conversa sobre Lisboa. É fazer, a propósito de Lisboa, um debate sobre cidades, qualidade de vida e democracia que interessa ao resto do país.

Pensar local – Modelos há muitos, de Barcelona a São Francisco e de Curitiba a Edimburgo. Mas Lisboa deve abandonar o vício da imitação e pensar, desde logo, na sua relação com Almada, Cascais, Sintra.

Agir global – No raio de 600 quilómetros fala-se três línguas (português, castelhano, árabe) que juntas perfazem mais de 800 milhões de falantes. Com o inglês global e algum francês que resta, é tudo o que precisamos para lidar com três continentes. Junte-se a imigração, a emigração, a história e a geografia. Faça-se tudo o que isto permite.

Uma esquerda consequente – Ana Sara Brito, braço-direito de António Costa no PS, disse ontem defender “o diálogo à esquerda”. O PCP já disse estar aberto a coligações e já disse que propô-las é “demagógico”. Sá Fernandes disponibilizou-se para a “convergência de esforços”. Helena Roseta foi a primeira a pedir união na esquerda. Durante anos, os partidos têm-nos maravilhado com as desculpas que inventam para que nada disto aconteça. Serão os independentes mais criativos?

Menos quartéis – Há por todo o lado quartéis inúteis e quase vazios. Alguns são monumentos nacionais, como o da Graça, uma velha bandeira de Sá Fernandes. Em geral têm uma parada e edifícios amplos. Na parada faz-se um parque de estacionamento num mês, ou melhor ainda, um parque de estacionamento subterrâneo e um jardim público num ano. Os edifícios servem para colmeia de empresas tecnológicas, centros de dia, ateliers, espaço para colectividades.

Estacionamento disciplinado – O estacionamento deve ser disciplinado em zonas onde há parques e estão vazios. Mas há bairros que não têm alternativas realistas de estacionamento legal. Para esses deve haver um investimento razoável em parques e silos. Quem paga? Eu, que ando de carro.

Domar o transporte privado – Eu poluo, eu engarrafo, eu incomodo os outros. Estou disposto a pagar caro, de uma vez só, todos os anos, por ter um carro no centro de Lisboa. E para onde deve ir esse dinheiro?

Mais eléctricos – É absurdo: Lisboa não manda nos seus transportes públicos. Há cem anos, era uma cidade inventiva: só elevadores e funiculares fizeram-se pelo menos cinco em poucos anos (sobram três). Os eléctricos sobrevivem, e não é por acaso. O eléctrico é de novo o transporte do futuro; cidades como Nantes reinventaram-se em torno dele. Com a topografia de Lisboa, chega mais barato onde o metro ainda não chegou.

Mercados na rua – Megalópoles como São Paulo ou Nova Iorque têm mercados semanais ao ar livre – são práticos, agradáveis e higiénicos. Lisboa não tem. São um elemento de ligação com o campo e um pólo de vida comunitária. Acima de tudo, dão jeito ( ideia de Fernanda Câncio em http://5dias.net/ ).

Uma universidade municipal – Modesta. Onde se estuda transportes, habitação, migrações – aplicados à cidade. À qual se pede que resolva problemas, faça concursos de ideias, conduza estudos. Onde há um curso de olisipografia, isto é, a disciplina dedicada ao estudo de Lisboa. Onde há cursos de língua, arte e divulgação científica, a preços módicos, para a população em geral.

Uma solução para a Praça do Comércio – que fica reservada para um texto maior.

Mais ideias? Comente aqui.

Em triplicado: não há tempo a perder

[Público 15 maio 2007]

Disseram-nos que a cidade de Lisboa é mais importante do que qualquer projecto de poder pessoal. Agora chegou a altura de provarem que é verdade.

1. Uma vez que Helena Matos precisou de arrastar o pingue-pongue sobre Sarkozy e a França para esta semana, aproveito para lhe responder a esta bola puxada mais em força do que em jeito. Escreve Helena Matos: “Deve ser muito tranquilizante ver o mundo assim a preto e branco, como o vê Rui Tavares: dum lado a direita má e do outro a esquerda boa. Dum lado os inteligentes e do outro os estúpidos”.

A única resposta possível é dizer-lhe que deve ser reconfortante viver num mundo em que o principal argumento contra a esquerda é apenas um, é sempre o mesmo, e ainda por cima está errado. Desde há meses que, no Público e na RTP-N, prevejo a vitória de Sarkozy e digo que ele a merece. A seguir à primeira volta escrevi aqui que “Sarkozy é sem dúvida o mais brilhante dos dois candidatos que passam à segunda volta, e dificilmente será derrotado”.

Como se vê, e ao contrário do que alega Helena Matos, eu tenho todo o prazer em reconhecer inteligência à direita. Só ponho uma condição: que a direita seja de facto inteligente. Caso contrário, a choraminguice não me comove. Muito menos, ironicamente para quem se queixa de estereótipos, a reciclagem até à náusea das banalidades sobre os “intelectuais de esquerda”. Os complexos de inferioridade não dão direito a pontos extra.

2. Antes de ser eleito, um estudante brasileiro disse-lhe que deveria aprender português para quando fizesse a primeira visita oficial ao Brasil. Ele respondeu: “ah, no Brasil falam português?”. No seu discurso de despedida, ouvi-o chamar aos EUA os “nossos mais velhos aliados”, como se não houvesse Tratado de Westminster assinado entre Inglaterra e Portugal em 1373. Para nós, Tony Blair sai como entrou: superficial.

3. Não há tempo a perder. As eleições para Lisboa são a 1 de Julho e o prazo para apresentação de coligações já terminou.

A esquerda apostou forte. Até demais. Todos os nomes que se anunciam (Helena Roseta, Sá Fernandes, Ruben de Carvalho e, segundo parece, António Costa) dariam bons presidentes da Câmara de Lisboa. O problema é o de sempre. A dispersão de votos à esquerda vai acabar por premiar quem deveria ser punido pelo que fez a Lisboa. Será premiado o PSD, que apresenta uma escolha de segunda linha complementada pelo aparelho local, e o CDS, que não encontra ninguém à altura do desafio.

Podem dizer-me que na esquerda há diferenças, que há estratégias dos partidos e dos indivíduos, que há factos consumados. Eu direi: pensar assim não é pensar em Lisboa. E comigo estarão certamente muitos eleitores. A frustração será grande se não aproveitarmos esta oportunidade. É preciso uma equipa que saiba complementar duas visões. Em primeiro lugar, defender a cidade: arrumar a casa, exigir transparência, combater a corrupção. Em segundo lugar, projectar a cidade: fazê-la mais humana, mais inovadora, mais solidária.

Isto não é tarefa para uma só pessoa ou um só partido. As candidaturas de José Sá Fernandes e Helena Roseta são quem melhor representa estas duas visões. Ambos nos disseram que a cidade é mais importante do que qualquer projecto de poder pessoal. Agora chegou a altura de provarem que é verdade. Chegou o momento de criarem uma candidatura independente, comum e aberta às ideias dos lisboetas, porque ninguém sabe tudo. Se forem capazes de o fazer, já estarão dando um exemplo de como são capazes de se sacrificar pela cidade e, ao mesmo tempo, mudar a política local. Nestas eleições, estou convencido que os eleitores serão generosos com quem souber ser generoso.

A estética da “escumalha”

[Público 9 maio 2007]

Muitos patrões franceses preferem deixar uma vaga por preencher do que contratar árabes ou negros. Depois de não os contratar, é só pedir a Sarkozy que venha metê-los na ordem.

Vejo que, no Público de ontem, Helena Matos atribui a vitória de Sarkozy ao momento em que este chamou “escumalha” (racaille) aos jovens negros e árabes dos subúrbios parisienses. Vejo também que Helena Matos acha que só as “cabecinhas bem-pensantes” se escandalizaram. O que nos leva à questão: é esta a mesma Helena Matos que esteve na primeira linha do escândalo quando o ministro Augusto Santos Silva disse que se fazia “jornalismo de sarjeta” em Portugal?

Bem vejo, há uma diferença! Sarkozy apenas chamou “escumalha” a “quem se porta como tal”. Mas Augusto Santos Silva também se referia apenas aos maus jornalistas e não aos bons. Talvez Helena Matos tenha então achado que a distinção era irrelevante, porque estes insultos dirigidos ostensivamente às ovelhas negras se destinam em geral a coagir todo o rebanho, a estigmatizá-lo e retirar-lhe liberdade. Eu concordo que assim é. E também me reservo o direito de achar escandaloso.

O preconceito é assimétrico. Para a maioria nunca é um tema assim tão importante.

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As palavras que merecemos

[Público 7 maio 2007]

O “respeito” de Sarkozy vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral. Não há mal intrínseco nisso. É apenas diferente do respeito inerente pelas pessoas e pela sua liberdade.

1. Dizem os brasileiros que cada país usa como lema não aquilo que mais tem, mas aquilo de que mais precisa. No Brasil é “Ordem e Progresso”. Na França é “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

Uma palavra sozinha pode querer dizer tudo, o que faz com que o seu conteúdo seja nulo, o que faz com que toda a gente concorde. É no meio dos gestos e das outras palavras que ela ganha sentido. Quando Sarkozy disse, no seu primeiro discurso após a vitória de ontem, que seria o presidente “do trabalho, da autoridade, da moral e do respeito” pouca gente poderá discordar da presença do “respeito” naquela lista. Mas não é por acaso que se a palavra “respeito” viesse em primeiro lugar ela quereria dizer uma coisa completamente diferente. O “respeito” de Sarkozy, pelo contrário, vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral. Não há mal intrínseco nisso. É apenas diferente do respeito inerente pelas pessoas e pela sua liberdade (que não estava na lista). Entre o respeito que o estado deve aos cidadãos e o respeito que o estado exige que os cidadãos lhe devam, Sarkozy opta pelo segundo. E não o esconde.

Mitterrand dizia, ao contrário da opinião geral, que a França não é um país de esquerda. A França é um país conservador, cuja administração é arrogante e onde o temperamento fundamental é pouco conciliador. São os bloqueios do sistema que, ciclicamente, abalam este edifício autoritário – e estes abalos, vistos do exterior, parecem maiores do que o edifício. E assim Sarkozy é visto de fora como uma ruptura e não como a continuação do culto presidencial que já vem de Chirac, de Gaulle e mais atrás ainda. Na cabeça de Sarkozy, como na de Napoleão ou de Luís XIV, o estado é ele, a França é o estado, e a Europa começa e acaba onde a França disser.

2. Parece que quando Sarkozy conheceu Sócrates ficou impressionado. Se a história é verdadeira, não foi certamente com os seus dotes de comandante eleitoral do PS. Aparte a sua maioria absoluta, Sócrates já conseguiu fazer o PS passar por três humilhações: nas autárquicas, nas presidenciais e agora nas regionais madeirenses, onde o PS local deixou de existir. Sócrates tem jeito para ganhar eleições sozinho e para abandonar os seus soldados à má fortuna; num dia mau estes fantasmas voltarão para atormentar o general.

Alberto João Jardim ganhou uma batalha retumbante. Mas agora resta-lhe uma guerrilha constante com o governo central, feita com todas as manhas que se lhe conhece, mas que esbarrarão na impassividade de Sócrates e Cavaco Silva. Os madeirenses e os restantes portugueses desistiram de tentar entender-se e infelizmente não podemos contar com a oposição no arquipélago para fazer a síntese. Por uma razão simples: não há oposição no arquipélago. Os próximos anos serão de ressentimento, mesquinhez e, na melhor das hipóteses, indiferença. Nada a que não estejamos habituados.

Nós só usamos como lema as palavras “República Portuguesa”, e faz sentido. Mais uma vez, não é o que temos mas aquilo de que mais precisamos.

Leal e nobre

[Público 3 maio 2007]

A política, como se costuma dizer, começou nas cidades. E agora está a voltar a elas.

1. O lema da cidade de Lisboa é “Mui nobre e sempre leal”. Carmona Rodrigues deve deixar a presidência da cidade porque demonstrou não entender o sentido desta frase. Não porque é arguido. Mas porque, passado uma semana sobre as primeiras notícias de que o era, ainda não se dignou a informar disso os seus concidadãos. Não porque foi visitar uma exposição de motos em vez de falar aos lisboetas, mas porque nem sequer o seu gabinete sabia se tinha saído do país em representação da cidade. Não porque não tenha legitimidade eleitoral, mas porque acha que a confiança política apenas funciona dos eleitores para os eleitos, e não dos eleitos para os eleitores. Não porque até o presidente do partido que o elegeu defende novas eleições, mas porque segundo algumas notícias Carmona ainda cogita a hipótese de se enquistar numa Câmara que não domina, não controla e não governa. Se acha que pode fazer alguma coisa por Lisboa, Carmona Rodrigues deve parar de fugir e, por uma vez, obedecer ao lema da cidade.

2. As próximas eleições vão ser intercalares, para um mandato de apenas dois anos. Tanto melhor. A próxima câmara municipal terá de começar pelas mais modestas e essenciais das coisas. Para já, vai ser preciso arrumar a casa, dominar o caos financeiro, motivar os funcionários e os colaboradores da Câmara. Mas há mais: ninguém voltará a confiar numa oposição que, em boa medida, partilhou os vícios da presidência. A irresponsabilidade, a mesquinhez e a política de vistas curtas têm de acabar. O drama é que os aparelhos locais dos partidos estão infectados e ninguém espera que se curem sozinhos.

3. A política, como se costuma dizer, começou nas cidades. E agora está a voltar a elas. Desde logo porque a globalização e a integração regional têm diluído as fronteiras nacionais. Mas também porque é nas cidades que estão os grandes motores desse processo. Quando invejamos a vitalidade económica da Catalunha, da Inglaterra ou da Califórnia, sabemos que parte da resposta está em Barcelona, Londres ou São Francisco. Uma Lisboa do futuro não deve imitar estes exemplos porque a imitação nunca chega: vejamos até onde nos trouxe a necessidade provinciana de imitar Bilbao com um edifício de Frank Gehry. Mas Lisboa terá certamente de se reinventar segundo as novas regras. Têm todas as condições para isso, mas falta-lhe o que estas cidades têm: ambição e participação política dos seus cidadãos. Está na hora de os lisboetas começarem a dizer o que querem da Lisboa do futuro. Portugal precisa dela.

Sinal aberto

[Público 1 maio 2007]

O PSD dá por adquirido que se deveria privatizar a RTP; pois resta-lhe agora defender a nacionalização da TVI.

Teoricamente, todos gostaríamos que o mundo fosse justo. Na prática, ninguém protesta se ele for injusto a nosso favor. Eis o meu resumo do caso Pina Moura em duas frases.

Sobra bastante espaço para comentar os dados adquiridos deste debate.

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