Arquivo mensal para April, 2007

Em busca do dia perfeito

[Público 25 abril 2007]

Dias destes, meus queridos amigos, há muito poucos na história de um país, e a pouquíssimos é dada a oportunidade de vivê-los.

A pergunta com que se começa é sempre: como escolher as palavras? É a pergunta que eu me faço, que sou forçado a fazer-me, mas em cada texto ela é mais implícita do que explícita. Hoje essa pergunta tem uma forma e uma personagem concreta.

Há trinta e três anos, em plena confusão do Largo do Carmo, pediram a Francisco Sousa Tavares que escolhesse as palavras.

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Clichés-sur-France

[Público 23 abril 2007]

Ségolène navegou para o centro, pelo que deve ter coragem de assumir o que toda a gente já percebeu: que está mais próxima de Bayrou do que Bayrou está de Sarkozy.

Em Portugal cerca de metade dos eleitores não se dá ao trabalho votar para eleger o seu presidente da república. Nas eleições de ontem, em França, participaram 87% dos eleitores. Nos EUA, mesmo em eleições controversas e muito disputadas, a situação é idêntica à portuguesa e à de muitos países industrializados: um em cada dois eleitores não vota. Em França é apenas um em cada sete que não o faz.

Suspeito que pouca gente, em Portugal ou no resto do mundo, dê relevância a este facto.

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As armas e os blogues

[Público 19 abril 2007]

Foi através do uso das ferramentas que nos tornámos quem somos e, em certa medida, nós não as fizemos: elas é que nos fizeram. Por isso, uma ferramenta nunca é só uma ferramenta

Quando um atirador tresloucado massacra uma pequena multidão, a discussão recorrente é sobre o controle de armas. Se a mortandade ocorreu nos EUA, a discussão ganha rapidamente fronteiras irredutíveis, de natureza ideológica, que a impedem de ganhar qualquer valor construtivo. O que é, em parte, a intenção: dentro dos EUA, porque o lóbi das armas é poderoso e pretende bloquear a discussão o mais rapidamente possível; fora dos EUA, porque há quem ache que a única discussão que interessa é a entre pró-americanismo e anti-americanismo. Para uns e outros, interessa defender que a abundância e disponibilidade de armas nos EUA não tem nada a ver com os massacres, de forma que o ideal é encerrar a discussão num chavão e depois forçá-la a não sair dali. O chavão predilecto costuma ser: não são as armas que matam pessoas, as pessoas é que o fazem.

Este chavão tem uma lógica impecável: as armas são, na verdade, objectos inanimados.

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Regresso à escola

[Público, 13 abril 2007]

Ao apresentar o estudo como mero instrumento da profissão, a profissão como mero intrumento do sucesso, e o sucesso medido pela cultura de celebridade, acabamos a degradar tanto o conhecimento como o trabalho.

Até pode ser que o governo tenha uma imbatível estratégia de comunicação. Mas se assim for, fica por explicar como é que o próprio governo põe nas ruas uma campanha sobre a importância de acabar os estudos no auge de uma polémica sobre os estudos do Primeiro-Ministro. Pode ser que algum desses gestores de comunicação bem pagos possa explicar o fenómeno.

Além do escape cómico que proporciona, esta campanha tem outros pontos de interesse. Vou tentar resumi-la, fingindo que é para benefício dos estrangeiros e emigrantes que vivem fora de Portugal, e que verdadeiramente não fazem ideia do que perdem.

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O ideal universitário

{Público 11 abril 2007}

O resto pode ser importantíssimo. Mas quando se salta a etapa do ideal universitário tudo o resto, por importante que seja, corre mal.

Há qualquer coisa no ideal universitário que o torna difícil de explicar, apesar de ser tão simples. O ideal universitário é as ideias. Ideias sobre como são as coisas, sobre como funcionam, sobre como deveriam funcionar, ideias sobre ideias. Algumas dessas ideias são conhecimento, outra são comentário, outras criatividade, a maior parte delas um pouco disso tudo. Mas é difícil explicar aos alunos, ou até ao resto da sociedade, que dentro daquelas paredes (metafóricas: pode ser cá fora, na esplanada, no trabalho de campo, na visita de estudo) essas ideias devem ter precedência sobre tudo o resto. Se os alunos querem um diploma e os pais pagam por um bom emprego, não é fácil dizer-lhes que por agora a única coisa importante é o que escreveram alguns mortos de há mais de cem anos, ou como se comporta a partícula x, ou que interpretação dar à arte de y. Só depois de ganhar verdadeiro interesse ou paixão por tais coisas chega a altura de se poder começar a tratar de notas, de diplomas e de empregos.

Isto parece idealista, e é.

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Um país de ironias

[Público, 09 abril 2007]

Para pagar os favores que deve às empresas, a CML é relaxada. Para os cidadãos fazerem política ou cultura ou arte a CML é rigorosa.

Para os leitores que não vivem na capital, vamos contextualizar: na maior parte dos dias, não se dá pela existência da Câmara Municipal de Lisboa [CML]. Quando ela se faz notar, é invariavelmente pelas más razões.

Quando a CML desperta da sua hibernação, a suspeita é que vem aí disparate. E na sexta-feira passada (um feriado!) a CML decidiu fazer horas extraordinárias para confirmar essa suspeita. Por uma vez, nesta cidade onde um prédio pode cair antes de uma folha de papel transitar entre gabinetes, a CML foi célere.

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Inconcebível! Inaceitável!

[Público, 05 abril 2007]

E “perder a face”, como sabemos, é a pior coisa que pode acontecer a um político – perto disso morrer, matar e mutilar são problemas menores.

No momento em que escrevo, a imprensa internacional dá como certa a libertação dos marinheiros britânicos que desde 23 de Março estavam reféns das autoridades iranianas. Como já houve guerras que começaram por menos, a confirmação desta notícia trará um momento de alívio ao mundo.

Para os belicistas de um lado e do outro, porém, é uma notícia perturbante. Afinal, vinha aí uma guerra novinha em folha, agora que a do Iraque está velha e gasta. Durante duas semanas vivemos como nos tempos da guerra fria, num mundo de realidades incompatíveis. Tudo era inadmissível ou inaceitável. A única solução era falar grosso e ameaçar com a força. Para o Ocidente era inconcebível admitir que os marinheiros britânicos pudessem ter entrado em águas iranianas, para o Irão era inconcebível que eles não fossem julgados por espionagem a não ser que os britânicos pedissem desculpa. Para os britânicos um pedido de desculpas seria “perder a face”, para os iranianos a libertação dos marinheiros sem pedido de desculpas seria “perder a face”.

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Abram-me esses olhos

[do Público de 3 abril]

Com o PSD exangue e o CDS em cacos, a extrema-direita comporta-se como uma infecção oportunista num corpo debilitado. Sabe que tem de aproveitar, agora, a crise da direita enquanto esta lhe dá condições ideais para crescer.

Comentando a visibilidade crescente da extrema-direita na sua coluna de sábado neste jornal, Pacheco Pereira sugere que ela é concomitante do politicamente correcto e da atitude geral da esquerda. Previsível: o discurso da “hipocrisia da esquerda” é o tema único dos nossos neoconservadores, que lhe atribuem tudo e a morte do Manolete. Desde o cavaquismo que esta é a cantilena de Pacheco Pereira. Ainda não aprendeu uma nova.

Se olharmos para a esquerda, o que vemos? O PS está no governo, o PCP e o BE sobem sondagem após sondagem. A batalha histórica da despenalização do aborto foi ganha com quase 60% dos votos, alguns dos quais de uma direita desamparada pelas suas lideranças. Não é à esquerda que estão os votos e também não é ali que estão as causas. A extrema-direita tem visibilidade porque tem actividade, e o motivo precipitante da sua virulência está bem em frente do nariz de Pacheco Pereira.

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