Arquivo mensal para Março, 2007

Sr. Sócrates: quer entrar na história, baratinho?

[Público. 28 março 2007]

Os cidadãos têm o direito – e até o dever – de serem preciosistas com os seus governantes.

Claro que sim. Caso contrário, para quê ser político e primeiro-ministro? Pois bem: há uma decisão que certamente o fará entrar na história. Talvez não na História com maiúscula, não irei tão longe. Mas em contrapartida, vai custar-nos exactamente zero.

E dá pouco trabalho, porque eu já alinhavei o discurso:

“Caros portugueses.

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A casta administrativa

[Público, 26 março 2007. Título anterior: “A sociedade de castas”]

A casta administradora não está sujeita às mesmas regras dos comuns dos mortais: nem regras salariais, nem de aposentadoria, nem de responsabilização, nem de democracia.

Este fim-de-semana alguns jornais fizeram as primeiras páginas com os salários auferidos por autarcas portugueses nas empresas municipais onde detêm cargos, salários esses que vão do escandaloso ao ilegal e, na maior parte dos casos, ao puramente inútil. Se Carmona Rodrigues desempenha melhor o seu cargo por ganhar quatro mil euros suplementares numa empresa municipal, imaginem (se conseguirem) quão pior Presidente da Câmara ele poderia ainda ser.

Isto não é nada.

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Mantorrologia

[Público, 22 março]

Para resolver um problema nosso não precisamos de reciprocidade. O que nos compete é considerar os nossos interesses (económicos, sociais, de integração, de segurança rodoviária) e tomar decisões.

Depois de vários parágrafos que vão dos supermercados venezuelanos às enfermeiras búlgaras, Helena Matos chega a duas perguntas sobre o caso da cartas de condução angolanas.

A primeira é se “os portugueses residentes em Angola podem ser usados como meio de pressão sobre o Governo português”, e só pode ser entendida como uma pergunta retórica a que a realidade já respondeu: pelos vistos, não só podem como funciona. Foi isso que a última semana nos ensinou (se a pergunta não fosse “se pode”, mas “se deve” ou “se é democraticamente aceitável” a resposta seria outra).

A segunda, “se Mantorras guia porque a sua carta foi reconhecida ou simplesmente porque temos medo do Governo do seu país”, é mais interessante mas parte do pressuposto errado.

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Sim, deixem guiar o Mantorras

[do Público de ontem]

Pode dizer-se que ter esquecido os muitos portugueses que vivem e conduzem em Angola foi um tiro no pé. Na verdade, esse já foi o tiro no segundo pé.

Conclusão: tudo é tão mais fácil quando os outros não podem retaliar!

Na abertura do Telejornal de sexta-feira o pivot parecia alarmado. “De um dia para o outro”, senhores telespectadores, os angolanos começaram a confiscar cartas de condução a cidadãos portugueses, chegando mesmo a levá-los a tribunal. No Público do mesmo dia escrevia-se que havia um clima de “caça ao português” nas estradas de Luanda, “dada a frequência com que são mandados parar carros em que seguem brancos”. No seu texto de ontem, Helena Matos já acrescentava toda a história do colonialismo, das “bailarinas de mamas à mostra” até às “expropriações de terras ordenadas por Mugabe”.

Menos energia, minha gente. Só aqui entre nós: os angolanos não começaram “de uma dia para o outro” a confiscar cartas de condução portuguesas.

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Pingue-pongue para três

[do Público de ontem]

Em Portugal não tivemos nenhum ataque terrorista, mas já tivemos um primeiro-ministro chamado Pedro Santana Lopes, e eu teria ficado alarmadíssimo se ele tivesse proposto uma reforma destas.

Com excepção de quando escreve que “é naturalmente tentador identificar, como fez Rui Tavares, José Sócrates com o intendente Pina Manique” (pelo contrário: validei pelo meu lado “que José Sócrates não é Pina Manique, que 2007 não é 1797” e quero precisá-lo não por razões políticas mas históricas — uma referência histórica não constitui forçosamente uma comparação e menos ainda uma identificação), concordo em quase tudo com o texto de Helena Matos ontem, nomeadamente quando lembra o que teria sido a combinação de um caso como o “Casa Pia” com o tipo de sistema de segurança interna que o governo agora propõe.

Arriscar-nos-íamos até a ter aqui um monocórdico jogo de pongue-pongue se o próprio Secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna, José Magalhães, não viesse em meu socorro com um indispensável pingue para a controvérsia, respondendo à minha última crónica no novo blogue do MAI. José Magalhães defende que a criação de um Secretário-Geral para a Segurança Interna vai contra a “concentração de todos os poderes policiais num só homem” e foge à “triste tradição autoritária, reencarnada em sucessivos Maniques, monárquicos e republicanos” que reconhece e deplora no nosso país. A sua resposta é inteligente e cordial, e assim tentarei treplicar no espaço que me resta.

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O Intendente-Geral

[do Público de ontem]

Não há vantagens em ter um Primeiro-Ministro que é uma espécie de comandante-em-chefe das forças de segurança, que não pode falhar e não pode ser colocado em causa.

Diogo Inácio de Pina Manique era um leal pombalista, e com Pombal subiu desde o tempo em que foi nomeado Juiz do Crime do Bairro do Castelo, e se distinguiu combatendo os desacatos na primeira colina da capital do reino. Para o fim, o Marquês confiava tanto nele que o encarregou de reprimir um punhado de desertores que se tinha refugiado na Trafaria. Pina Manique não encontrou melhor método senão o de simplesmente pegar fogo à povoação de pescadores. Essa arbitrariedade estava ainda na memória de toda a gente quando Dom José I morreu poucas semanas depois e Dona Maria I lhe sucedeu, exonerando Pombal de imediato.

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Retratos do trabalho em Portugal

Encontro de bloguéres em Furnas de São Miguel, Açores.

Erros de atribuição

[do Público de ontem]

Ao contrário do pensamento religioso, que via no fim deste mundo o advento de um mundo melhor, o discurso ecologista parte do princípio contrário: se este mundo acabar não haverá qualquer hipótese de “melhorar as nossas condições de vida”.

Os psicólogos sociais chamam “erro de atribuição” à tendência humana para desacreditar um argumento apenas por causa das características que atribuímos ao seu autor. Queremos que a opinião de fulano esteja errada porque partimos do princípio que fulano é mal-intencionado; logo, tudo o que fulano diz só pode ser mal-intencionado. Ele é o fulano “errado” e por isso tem de estar errado. Para um pró-soviético, todas as opiniões críticas da União Soviética só podiam ser atribuíveis ao anti-comunismo primário de quem as emitia. A direita actual, por seu lado, está viciada em atribuições de anti-americanismo ou anti-semitismo aos seus adversários: antes isso do que admitir que eles possam ter razão. E o erro de atribuição pode ter consequências graves: muitos apoiantes da guerra recusaram-se a ver a fragilidade dos argumentos de Bush e ainda hoje continuam a alegar que o desastre da guerra não era previsível apenas porque ele foi previsto pela gente “errada”.

O erro de atribuição parte de uma amálgama.

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O pecado, ida e volta

[do Público de ontem]

Qualquer cientista aprendiz sabe que não se deve personificar um planeta. Se caem na candura de perguntar “porquê?”, costuma responder-se-lhes: “porque o planeta não gosta”.

Haverá alguma correspondência, como sugeriu ontem Helena Matos, entre os profetas religiosos que declaravam que as catástrofes naturais eram provocadas pelo pecado e aqueles que hoje identificam causas humanas nas alterações climáticas? Poderá considerar-se que a crença numa e na outra coisa é “uma atitude igualmente superticiosa”? Será legítimo concluir que “onde uns colocavam a vontade de Deus coloca-se agora o equilíbrio da Terra”? Tomemos os exemplos do Padre Gabriel Malagrida, aqui lembrado pela minha parceira de pingue-pongue, e Al Gore, o mais conhecido dos activistas das alterações climáticas.

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Questões de liberdade

[do Público de ontem]

Franklin Delano Roosevelt definiu a sociedade justa como fundada em quatro liberdades: liberdade de expressão e liberdade de religião; libertação da necessidade e libertação do medo.

Ao contrário do que pretende um discurso recorrente, os portugueses não vivem anestesiados pelo Estado-providência, que chegou tarde, a más horas, em pouca quantidade e com breve duração a Portugal. Os portugueses sabem que cada vez mais, quando adoecerem, quando forem despedidos, quando deixarem de poder trabalhar, ficarão entregues a si mesmos.

Helena Matos diz que “é a maca e não a liberdade que os portugueses associam ao desenvolvimento”. O único erro é que “a maca”, que aqui creio servir como metonímia do Serviço Nacional de Saúde, não é contradição nem alternativa para “a liberdade”. Pelo contrário, parece que os portugueses a consideram como uma condição da liberdade. Eu estou de acordo. O (segundo) presidente Roosevelt também estaria.

Foi em 1941 que Franklin Delano Roosevelt definiu a sociedade justa como fundada em quatro liberdades:

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