Arquivo mensal para Fevereiro, 2007

Desesperadamente procurando atenção

[do Público de ontem]

Esta semana Paulo Portas fará uma tentativa desesperada para que lhe dêem importância, e comentadores e analistas políticos dissertarão sobre que importância Paulo Portas tem. Até esta crónica, caro leitor, é o meu modesto contributo para a magna questão: trará Paulo Portas algo de novo?

Tal como todos os portugueses, por estes dias o leitor certamente espera com incontido frémito que Paulo Portas se decida sobre o seu futuro. A tensão se adensa, a dúvida nos dilacera, a incerteza é insuportável, já ninguém aguenta mais. Espere, mas não desespere: segundo o Expresso, Paulo Portas tem deixado passar as últimas três semanas à espera do momento certo para fazer “o” anúncio, mas há um pré-anúncio de que “o” anúncio será feito no fim desta semana, e um pré-pré-anúncio de que “o” anúncio consistirá no regresso de Paulo Portas à liderança do CDS/PP, logo que se proporcionar. O que deixa a questão de saber para que é preciso anunciar algo que toda a gente já sabe.

Os últimos dois anos foram duros para Paulo Portas.

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A política da intimidação

[do Público]

Na verdade, já acabou o tempo em que o estilo de Alberto João Jardim beneficiava a Madeira; hoje em dia Alberto João é um peso-morto que perdeu a batalha das finanças regionais, não tem amigos nem aliados, não consegue sair de cena por cima.

E eis que em pleno Carnaval, — apropriadamente — Alberto João Jardim se demitiu de chefe do governo regional da Madeira para logo se voltar a candidatar ao mesmo cargo. Implicitamente, admitiu que a realidade política em que ele se movia mudou de forma radical. Explicitamente, a mensagem que quer fazer passar é a de que só admite jogar segundo as suas próprias regras. Vejamos cada um dos aspectos.

Alberto João Jardim não é um brutamontes agressivo que diz tudo o que lhe passa pela cabeça. Alberto João Jardim apenas parece um brutamontes agressivo que diz tudo o que lhe passa pela cabeça. Essa imagem é crucial para os seus intentos. Nos intervalos, Alberto João Jardim pode ser manobrista, sedutor, surpreendente, um encanto de pessoa. Esta versatilidade permitiu-lhe sempre navegar na política nacional, com algum risco é certo, mas dividendos incomparáveis. Entalou os políticos nacionais e comprou o consenso dos madeirenses. Governou uma região como quis, com os recursos que quis, durante o tempo que quis. Nenhum outro político português se pode gabar do mesmo.

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Sonsão de Carvalho

[do Público de 20 de fevereiro 2007]

E, pensando bem, que independência há numa Câmara que nada mais parece fazer senão ocupar-se dessa casta bramânica que paira sobre nós: nomear administradores, premiar administradores, despremiar administradores e zangar-se por causa de administradores?

Durante anos não soubemos que havia na Câmara Municipal de Lisboa um vereador das finanças chamado Fontão de Carvalho. Sem nos darmos conta, Fontão de Carvalho foi passando de mandato em mandato e de partido em partido como um animal de plumagem cinzenta numa floresta cinzenta, até chegar ao ponto em que conseguiu ocultar durante meses a sua condição de arguido num processo relativo à sua conduta como vereador. Fê-lo tão perfeitamente que conseguiu não abrir a boca mesmo quando se sentou ao lado de uma outra vereadora no momento em que esta suspendia o mandato por ser arguida num outro processo. Fontão deixou-se estar como se não fosse nada com ele e assim foi até à já célebre ocasião em que, quando acusado, Fontão de Carvalho revelou que nada dissera porque ninguém lho perguntara. Há um elemento de genialidade no descaramento deste vereador: depois de tantos anos na Câmara sem darmos por ele, não se foi embora sem nos deixar algo de memorável.

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Convite

17 de Fevereiro de 2007, aniversário da execução de Giordano Bruno à pena de morte pela fogueira, sessão de lançamento do seu Tratado da Magia na FNAC Chiado, sábado às 14h30, com a presença de Gonçalo M. Tavares, Nuno Nabais, Olga Pombo e o tradutor, Rui Tavares.

Esperteza parva

[do Público de 14 fevereiro]

Que numa campanha se desrespeite o adversário surpreendente pouco. Agora mais indigno é que numa campanha alguém se desrespeite a si mesmo. É o que sucede quando se chega à conclusão de que só se ganha uma contenda fazendo com que ninguém perceba nada do que se está a passar, e que para tal há que fazer-se passar por pouco inteligente. Fatalmente, este método é mais nocivo aos próprios do que aos adversários.

Recentemente vimo-lo levado à glória pela táctica linguistico-juridico-escaganifobética do PSD no referendo da despenalização:

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Para Badajoz, caramelos

[do Público de 12 de fevereiro 2007]

Durante anos, Badajoz foi para os portugueses a cidade onde se ia comprar caramelos e abortar em condições de higiene e segurança. Às 20h00 continentais do dia 11 de Fevereiro de 2007, no momento em que escrevo este texto, tudo indica que Badajoz vai ter de se limitar à primeira destas linhas de negócio.

Mas Badajoz não merece a nossa ingratidão.

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Escolher e decidir

[do Público de 10 de Fevereiro]

Para resumir, digamos que numa eleição se escolhe, e muitas vezes se escolhe o mal menor. Num referendo decide-se o melhor que se pode.

Dizia Fernando Pessoa, no meio de um poema sobre um momento de grande desânimo, que estava escrevendo o poema “no dia seguinte” — quando presumivelmente já se sentia bem melhor, pelo menos o suficiente que é preciso para que alguém se sente à mesa e escreva triunfalmente sobre a sua depressão do dia anterior. Mas logo depois, notando que o leitor se poderia sentir defraudado por aquela falta de autenticidade do poeta, Fernado Pessoa contra-ataca abrindo o jogo: no dia seguinte sim, é sempre no dia seguinte, no dia seguinte é que se escrevem os poemas sobre a depressão do dia anterior, a paixão do dia anterior, etc.

O cronista que publica em dia de reflexão tem o problema contrário: escreve no dia antes.

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Uma pergunta directa para uma resposta honesta

[do Público de 3 de Fevereiro]

Dizer que é “despenalização da IVG” significa que não é despenalização de qualquer outra coisa, dizer que é “por opção da mulher” significa que não é por opção de qualquer outra pessoa, dizer que é até “às dez semanas” significa que não é sem qualquer limite, dizer que é “em estabelecimento de saúde” significa que não é no meio da rua.

A pergunta a que vamos responder no referendo do próximo dia 11 é compreensível para qualquer pessoa que saiba ler e isso é algo que nenhum contorcionismo político ou gramatical poderá mudar.

“Concorda com a despenalização…”. A despenalização é, evidentemente, a palavra-chave desta pergunta. É talvez surpreendente, mas o referendo de próximo dia 11 não é acerca de quem gosta mais de bébés

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