Arquivo mensal para Dezembro, 2006

Feliz Natal, ó excelências!

{do Público de 23 de dezembro 2006]

Qual é, então, a grande preocupação? É o cristianismo já não ser permitido, já não ser dominante ou já não ser obrigatório? É que a primeira hipótese, apesar de tanto esforço, é muito simplesmente absurda.

Quando o leitor do Público estiver perante estas linhas, pode ser que já se encontre na terra com a família, nesta antevéspera de Natal. Ou pode ser que ainda não tenha acabado de colocar os presentes no carro para sair da grande cidade em direcção à auto-estrada. Nesse caso, viaje com muito cuidado. Não tanto por causa dos engarrafamentos ou dos acidentes que todos os anos, por esta altura, são causa de ansiedade e sofrimento. Mas antes porque já devem andar por aí as brigadas do laicismo tentando impedi-lo de comemorar o Natal. Ao chegar, feche as janelas para ocultar as luzes compradas na loja dos chineses, e para que ninguém veja a avozinha enquanto ela frita os filhoses.

Por todo o país e em todo o mundo ocidental, não deve haver questão mais premente do que a dos cristãos perseguidos por comemorarem o Natal. Basta consultar este vosso jornal, na edição de ontem, e ver como lhe foram dedicadas as duas páginas do “destaque” da autoria de António Marujo (na sua segunda incursão pelo tema: a primeira chamava-se “quando o Natal é proibido”), o editorial de Nuno Pacheco, e os artigos de opinião de Esther Mucznik e Constança Cunha e Sá. E creio que não são os únicos nem serão os últimos, à medida que a data se aproxima.

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As cidades

[do Público de 16 dezembro 2006]

Se à escala macro as cidades são os nós que atam as redes globais, à escala micro é nelas que se dá a experiência quotidiana dos fracassos das políticas públicas.

Na Grécia antiga, os cidadãos que governavam o dia-a-dia das cidades democráticas como Atenas, onde tinham o nome de buleutas, eram escolhidos por sorteio. Não é um método que eu defenda. Mas é um método que dá que pensar: imaginem que alguém abria ao acaso uma lista telefónica da capital e punha o dedo em cima do nome da senhora Maria da Conceição Silva, de São Domingos de Benfica, ou do senhor Manuel Ferreira, de Marvila. Alguém acredita francamente que seriam piores presidentes da Câmara Municipal de Lisboa do que Carmona Rodrigues?

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Tortura para os amigos

[do Público de 9 dezembro 2006]

Os bons nunca torturam. O próprio vice-presidente dos EUA já no-lo disse, embora tenha acrescentado que para decidir se é permissível enfiar um terrorista debaixo de água “nem é preciso usar a cabeça”.

Convenção das Nações Unidas contra a tortura, artigo 3: 1) “Nenhum Estado signatário pode expulsar, devolver ou extraditar uma pessoa para outro Estado se existirem razões substanciais para acreditar que existe perigo de essa pessoa ser submetida a tortura.”

Sim, já entendemos todas as indirectas: não se deve remexer nesta história das “rendições extraordinárias” dos chamados “voos da CIA”. As cabeças simples dos europeus não devem ser baralhadas com todos os pormenores desta história mal explicada: nem os voos são exactamente da CIA, mas de uma série de proprietários-biombo, nem “rendições extraordinárias” dá uma ideia correcta daquilo que terá sido um programa de trânsito de presos ilegais, envolvendo por vezes sequestros, envio para prisões clandestinas e, com grande probabilidade, tortura por países terceiros. Até a proverbial incompetência portuguesa dá uma ajuda preciosa à confusão: as listas de passageiros fornecidas por diferentes serviços do Estado divergem entre si, isto para além dos voos que simplesmente (e estranhamente) não têm lista de passageiros. Para compor este ramalhete muitíssimo abreviado, a comissão do Parlamento Europeu que investiga estes voos-fantasma, de passagem por Lisboa, não teve acesso à Sala do Senado para uma reunião com os deputados portugueses. Sim, já entendemos as indirectas. É melhor não mexer neste assunto.

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Uma proposta salomónica

A TLEBS vai matar as nossas criancinhas. Não sabia? Vai penetrar naqueles encéfalos tenrinhos e secar-lhes os neurónios. Proteja os seus filhos. Caso contrário, ao fim de uma geração ninguém mais falará português em Portugal. Você foi avisado por Miguel Sousa Tavares, Eduardo Prado Coelho, Vasco Graça Moura, Helena Matos, Maria Alzira Seixo e muitos outros: uma conspiração de linguistas motivados pelo ódio à língua portuguesa e a raiva à literatura inventou os epicenos e os nomes contáveis, vírus de uma epidemia de TLEBS que pode vir a ser pior do que a gripe das aves ou a pneumonia asiática, juntas.

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A casa do vizinho

[do Público de 25 novembro 2006. Atrasado por causa dos problemas da plataforma weblog em Portugal que, aparentemente, têm sido também a causa dos bloqueios nos comentários.]

E a mensagem para os políticos é a seguinte: estamos tão zangados, mas tão zangados convosco, que até nos dá vontade de ser espanhóis.

Aqui há uns meses, houve um assomo de polémica quando se anunciaram sondagens segundo as quais uma porção importante dos portugueses gostaria de fazer parte de uma união com Espanha. Mas eu não compreendo o que desejam realmente os meus compatriotas. Nós já vivemos numa união com Espanha: chama-se União Europeia. Melhor, é uma união com a Espanha, a França, a Inglaterra, etc. — e a Estónia. Se os portugueses estão assim tão empenhados na diluição das fronteiras do seu país, têm então bom remédio: investir no aprofundamento da integração europeia. Como não lhes vejo grande entusiasmo nesse particular, dou-me ao luxo de achar que é por capricho e desfastio que alguns portugueses falam da união que não têm quando pouco querem saber daquela que têm.

Mas esse capricho tem motivações que pode ser interessante explorar. Há então duas hipóteses conhecidas: ou os portugueses estão zangados, ou os portugueses estão cansados.

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