Arquivo mensal para Outubro, 2006

O fim do mês como problema político

[do Público de 28 de Novembro]

Entre o “fim do mês” individual e o “fim do ano” colectivo temos andado nos últimos anos (e há quem diga desde sempre) como mexilhões entre o mar e as rochas.

O mundo tem medo do fim do mundo. Portugal tem medo do fim do mês. Nos últimos dias, enquanto na ONU se discutia a reacção aos testes nucleares norte-coreanos, nós por aqui discutíamos a questão das SCUT em todos os seus cambiantes técnicos.

O caso das auto-estradas Sem Custos para o Utilizador, e se devem ou não deixar de sê-lo, tem peso no “fim do mês” de muitos portugueses, e logo tem uma importância que eu não quero menosprezar. Por outro lado, diz-se que os portugueses têm de fazer mais um esforço (na verdade, sucessivos novos esforços) no seu fim do mês para ajudar o Estado a lidar com o seu próprio “fim do ano” orçamental. Sendo este o equivalente colectivo ao “fim do mês” de cada um, também não nos podemos desresponsabilizar. Entre o “fim do mês” individual e o “fim do ano” colectivo temos andado nos últimos anos (e há quem diga desde sempre) como mexilhões entre o mar e as rochas. Daí a discussão, com contornos algo bizantinos, sobre que auto-estradas têm ou não alternativas e se o programa do governo tinha ou não margem retórica que permitisse a oneração destes trajectos.

O mal, como já foi dito, é que tudo isto obscurece uma questão política de base: os eleitores votaram na certeza de que as auto-estradas em questão não seriam pagas e agora sentem-se enganados. Isto, que já é sério, encobre algo ainda pior: os portugueses estão habituados a este ciclo de sacrifícios, promessas não cumpridas, fugas para a frente (e para Bruxelas), trocas de actores, novos sacrifícios e novas promessas não cumpridas. Escandalizam-se mas não vêem alternativas.

Portugal tem pelo menos três problemas: um problema financeiro (do Estado), um problema económico (do País) e um problema político. Qualquer deles é serio; nenhum deles é inultrapassável. A estratégia comum tem sido: devemos dar toda a prioridade ao problema das finanças (vulgo, “do deficit”) para depois intervir no problema da economia. Eu defenderei que o problema prioritário é o político.

Continuar a ler ‘O fim do mês como problema político’

Choque patalógico

A quem possa interessar: estarei no Choque Ideológico de hoje, na RTPN [22h00], com Pedro Lomba. Se o número resultar, repetiremos todas as sextas.

Por esta ordem ou em simultâneo?

Num Público da semana passada: “‘portugueses a favor de sacerdócio feminino, prostituição legal e eutanásia’. “.

Você tem culpa

[do Público de 21 Setembro 2006]
Já sabemos que o governo de nada serve senão para abrir as portas às leis da economia, convertendo assim a política numa mistura da contabilidade com a propaganda.

Que pena o Secretário de Estado Adjunto da Indústria e Inovação, António Castro Guerra, ter retirado o que disse quando culpou os consumidores pelos aumentos de dezasseis por cento na tarifa da electricidade. O senhor Secretário de Estado Adjunto justificou-se dizendo que teve um mau momento, mas não é verdade: pelo contrário, as suas palavras foram o ponto alto, o auge da discreta carreira de um Secretário de Estado Adjunto. Melhor ainda: estas palavras foram toda a carreira do Secretário de Estado Adjunto, o princípio e o fim dela, condensados. O Secretário de Estado Adjunto saltou por cima das barreiras hierárquicas para nos dar aquilo que nem um Secretário de Estado dos verdadeiros (ou seja, não-adjunto), um ministro ou um primeiro-ministro nos podem dar: a verdade. Na prática, é um desastre, o equivalente político a deixar a bomba de nitroglicerina rebolar pelas escadas abaixo; por isso o governo se apressou a garantir que o dito aumento não fosse tão exagerado. Mas já que o mal estava feito, o senhor Secretário de Estado Adjunto deveria ter aproveitado para despejar a alma de todas as banalidades, num momento único de sinceridade e perfeição ideológica. Bastaria encarar a câmara com vigor, esticar o dedo indicador e denunciar: você tem a culpa.

Porque é verdade.

Continuar a ler ‘Você tem culpa’

Problemas com comentários

Afinal parece que isto das caixas de comentários vazias, que eu atribuía – nos dias maus – ao desinteresse pelos meus textos e – nos dias bons – à total concordância dos leitores, se deve a um erro de funcionamento. Agradeço a quem me alertou, por email, para este problema que estou a tentar resolver. Depois poderei finalmente saber o que pensam vocês acerca daquilo que eu escrevo. Inté.

Falemos então de irresponsabilidade

[do Público de 14 de Outubro de 2006]

Não há nada mais irresponsável do que um demagogo armado em durão. Na maior parte dos casos, inventa um problema onde não havia. Nos outros, o problema que prometeu resolver piora. Nos restantes, a solução é pior do que o problema.

1. Pode estranhar-se o facto de se dedicar qualquer artigo a Paulo Portas cujo título não seja “Já Era”. E no entanto, ainda mal Paulo Portas deu início aos seus planos de entrar em criogenia política durante a oposição e já os seus órfãos sentem necessidade de o descongelar. António Pires de Lima lançou o primeiro sinal. Luís Nobre Guedes o segundo. E agora passámos à categoria de missa de corpo presente, com o próprio Paulo Portas a rodar as concelhias do partido não tanto para dispensar novas ideias mas antes para lhes relembrar quais eram as velhas. Na passada terça-feira dirigiu-se a Odivelas para falar de imigração e segurança (haverá outro tema?), descrevendo os passos para uma legalização menos dificultosa de imigrantes como uma “irresponsabilidade”.

Falemos então de irresponsabilidade.

Continuar a ler ‘Falemos então de irresponsabilidade’

Não façam só alguma coisa, fiquem parados

[do Público de 7 de Outubro 2006]

As reformas verdadeiras fazem-se com as pessoas reais. Uma reforma séria precisa tanto de identificar o que está bem como corrigir o que está mal.

Portugal está a caminho do abismo. Tudo funciona mal. É preciso recomeçar do zero. Certo?

Errado. Errado e perigoso.

O consenso nacional, de há uns anos para cá, consiste em fazer o discurso mais catastrófico possível para afirmar a necessidade de reforma. Diz-se que de outra maneira os portugueses não acordariam. Pelo contrário: esta é a nossa canção de embalar preferida. Como os portugueses sempre adoraram gente austera e o nosso catolicismo inato nos empurra para o sentimento de culpa, dizer-nos que tudo está mal tem rendido votos e louvores. Quanta carreira pública se tem feito em concorrência pelo posto de maior pessimista do reino, o mais sisudo e recriminador, o que apresente os piores cenários e as soluções mais dolorosas. Se o mal for incurável e o remédio for amputar os quatro membros, diz-nos a nossa tendência colectiva, é porque deve ser verdade.

Nenhum exemplo descreve melhor este traço da cultura nacional do que o da educação.

Continuar a ler ‘Não façam só alguma coisa, fiquem parados’

Cuidado, aí atrás!

[do Público de 30 setembro 2006]

Antes de saber se as civilizações podem chocar ou devem dialogar, é preciso ver bem se esta história de dividir as pessoas por civilizações faz sentido.

A semana passada, ao escrever sobre o discurso de Ratzinger em Ratisbona, lembrei aquela banalidade segundo a qual não é necessário concordar com o conteúdo de um texto para se defender o seu direito à liberdade de expressão. No entanto, há muito quem exija uma carta branca para Ratzinger só pelo simples facto de ele ter sido atacado. Não se deve discordar de Ratzinger, dizem, porque devemos estar todos unidos escrevendo corajosos panfletos contra os malvados dos fanáticos religiosos… muçulmanos. Isto quando Ratzinger, no seu discurso, passava mais tempo a atacar as liberdades modernas do que a defendê-las. Penso então que deveria antes ter lembrado o seguinte corolário: um texto não passa a ser consensual, nem muito menos uma brilhante defesa da liberdade, pelo simples facto de ter sido atacado “pelo outro lado”.

Isto faz lembrar aquele momento dos filmes em que o herói luta contra os mauzões que estão à sua frente, sem reparar que nas suas costas surge um tipo empunhando uma garrafa de whisky já destinada a escaqueirar-se-lhe na moleira. É aí que a mocinha, que estava desmaiada cinco segundos antes, grita: cuidado, aí atrás!

Guardem esta imagem.

Continuar a ler ‘Cuidado, aí atrás!’