[do Público de 28 de Novembro]
Entre o “fim do mês” individual e o “fim do ano” colectivo temos andado nos últimos anos (e há quem diga desde sempre) como mexilhões entre o mar e as rochas.
O mundo tem medo do fim do mundo. Portugal tem medo do fim do mês. Nos últimos dias, enquanto na ONU se discutia a reacção aos testes nucleares norte-coreanos, nós por aqui discutíamos a questão das SCUT em todos os seus cambiantes técnicos.
O caso das auto-estradas Sem Custos para o Utilizador, e se devem ou não deixar de sê-lo, tem peso no “fim do mês” de muitos portugueses, e logo tem uma importância que eu não quero menosprezar. Por outro lado, diz-se que os portugueses têm de fazer mais um esforço (na verdade, sucessivos novos esforços) no seu fim do mês para ajudar o Estado a lidar com o seu próprio “fim do ano” orçamental. Sendo este o equivalente colectivo ao “fim do mês” de cada um, também não nos podemos desresponsabilizar. Entre o “fim do mês” individual e o “fim do ano” colectivo temos andado nos últimos anos (e há quem diga desde sempre) como mexilhões entre o mar e as rochas. Daí a discussão, com contornos algo bizantinos, sobre que auto-estradas têm ou não alternativas e se o programa do governo tinha ou não margem retórica que permitisse a oneração destes trajectos.
O mal, como já foi dito, é que tudo isto obscurece uma questão política de base: os eleitores votaram na certeza de que as auto-estradas em questão não seriam pagas e agora sentem-se enganados. Isto, que já é sério, encobre algo ainda pior: os portugueses estão habituados a este ciclo de sacrifícios, promessas não cumpridas, fugas para a frente (e para Bruxelas), trocas de actores, novos sacrifícios e novas promessas não cumpridas. Escandalizam-se mas não vêem alternativas.
Portugal tem pelo menos três problemas: um problema financeiro (do Estado), um problema económico (do País) e um problema político. Qualquer deles é serio; nenhum deles é inultrapassável. A estratégia comum tem sido: devemos dar toda a prioridade ao problema das finanças (vulgo, “do deficit”) para depois intervir no problema da economia. Eu defenderei que o problema prioritário é o político.





